Bellocchio e versão restaurada de "Lavoura Arcaica" fecham repescagem

Mostra chega à 40ª edição com reflexão sobre o momento atual

Alysson Oliveira

 “A Mostra é elástica. Ela se adapta ao orçamento que tivermos”. Foi assim que a diretora da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Renata de Almeida, respondeu, durante a apresentação do evento, quando perguntada sobre a crise financeira. O mais importante, ressaltou ela, é que “a seleção parece conversar com o momento politizado do país. Está sendo um ano turbulento no Brasil e no mundo. Acredito que chegamos à 40a edição e devemos refletir sobre tudo isso”. A politização aparece especialmente nas duas principais retrospectivas, a do italiano Marco Bellocchio, e a do cinema polonês, com destaque para a obra de Andrezj Wadja, morto no último dia 9.
 
 Com uma seleção de mais de 300 filmes – cerca de 60 deles brasileiros –, em exibição entre 20 de outubro e 2 de novembro, o festival pretende travar um diálogo com seu próprio passado. Para isso, programou filmes de alguns diretores exibidos em outras edições do evento e seus trabalhos mais recentes, como é o caso de Jim Jarmusch (serão exibidos Daunbailó, Estranhos no Paraíso e o novo Paterson [foto]), Paolo Sorrentino (com Um homem a mais e os dois primeiros episódios da série The Young Pope) e Paul Verhoeven (O Quarto Homem e Elle, que impactou o mais recente Festival de Cannes).
 
 As homenagens do ano incluem, além de Bellocchio – de quem a Mostra exibirá um curta e 11 longas, entre eles o novo drama Belos Sonhos (foto), que abrirá o festival, e é também o autor da arte do cartaz e da vinheta deste ano –, Abbas Kiarostami (com o documentário 76 minutos e 15 segundos com Abbas Kiarostami, de Seifollah Samadian, e o curta do diretor, Me Leva pra Casa) e Hector Babenco (Lúcio Flavio, Passageiro da Agonia), ambos mortos em julho passado, Antonio Pitanga (com o documentário Pitanga, dirigido por Beto Brant e Camila Pitanga, filha do ator).
 
 Como é tradição, a Mostra traz alguns dos filmes das seleções dos principais festivais internacionais, como Cannes (The handmaiden, de Park Chan-Wook [foto]; A garota desconhecida, de Jean-Pierre e Luc Dardenne; Depois da Tempestade, de Hirokazu Kore-eda; Ma’Rosa, de Brillante Mendoza; O dia mais feliz da vida de Olli Maki, de Juho Kuosmanen, grande vencedor da seção Un Certain Regard, entre outros), Berlim (Canção para um doloroso mistério, de Lav Diaz; Hedi, Mohamed Ben Attia; Zero Days, de Alex Gibney; Más notícias para o Sr. Mars, de Domink Moll, e Cartas de Guerra, de Ivo Pereira), Veneza (Animais Noturnos, de Tom Ford; Através do Muro, de Rama Burshtein; e São Jorge, de Marco Martins) e Sundance (O Nascimento de uma Nação, de Nate Parker; Mercado de capitais, de Meera Menon; e Desconhecida, de Joshua Marston).
 
Além de filmes, a Mostra segue com o projeto de documentar a relação de convidados com o cinema na série de debates O Cinema dos Meus olhos, em que os participantes falam de suas memórias cinematográficas. Neste ano, participarão os cineastas Bellocchio, Jefferson De, Guilherme Weber, Flávio Tambellini, Eliane Caffé, além da montadora Cristina Amaral e do crítico carioca Carlos Helí de Almeida.
 
O cineasta e diretor de fotografia Aloysio Raulino (1947-2013) também será homenageado com a exibição de sua produção completa como diretor nos anos de 1970, como O Porto de Santos e Arrasta a Bandeira Colorida. Outro homenageado é o crítico de cinema José Carlos Avellar, com exibição de curtas (Improvável encontro, de Lauro Escorel, e O clique único de Assis Horta, de Jorge Bodanzky); e o lançamento do livro Pai País, Mãe Pátria, do próprio Avellar, morto em março passado. O evento acontece dia 24, às 20h, também na Cinemateca.
 
Os cerca de 60 longas nacionais exibidos na Mostra estão divididos em três seções: Apresentação especial, Competição Novos diretores e Perspectiva Internacional. Fazem parte da seleção filmes como Martírio, de Vincent Carelli; Beduíno, de Julio Bressane; A Luta do século, de Sérgio Machado; A Glória e a Graça, de Flávio Ramos Tambellini; Deserto, de Guilherme Weber; Cinema Novo, de Eryk Rocha; Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé, e Redemoinho, de José Luiz Villamarin.
 
Veja a programação completa:

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