"A cidade onde envelheço" vence Festival de Brasília

Em ano de crise política, Brasília dá largada no festival com foco em arte e resistência

Neusa Barbosa, de Brasília

 Nesta terça (20), o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro chega à 49º edição, estendendo a programação até dia 27. Entre as mudanças do ano, contará com nove filmes de longa-metragem na Mostra Competitiva – e não os tradicionais seis títulos – além dos 12 curtas ou médias. Na noite de abertura (20), a partir das 20h30, serão exibidos dois filmes que falam profundamente da própria arte do cinema, o curta Improvável Encontro, de Lauro Escorel, e o longa Cinema Novo (fotos acima e abaixo),, de Eryk Rocha.
Cinema Novo, documentário de Eryk Rocha premiado com o Olho de Ouro no mais recente Festival de Cannes – um novo prêmio especial para os documentários daquele festival -, terminou criando uma inesperada ponte entre o atual momento de ruptura democrática no Brasil e uma outra quebra semelhante, em 1964 – ano que coincidiu com o início da ditadura militar e a participação de três filmes brasileiros em Cannes, dois na competição (Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos) e Ganga Zumba, de Cacá Diegues, na Semana da Crítica.
 
 Se é verdade, como disse Eryk na sessão do filme em Cannes, que “as elites trabalham com o massacre da memória e da história”, então Cinema Novo é um ótimo instrumento de combate. Afinal, o documentário, cujo projeto começou a ser idealizado há 10 anos, vem preencher justamente uma lacuna nestes dois campos. Se existem muitos livros a respeito do movimento, não existia um filme sobre ele. Cinema Novo se constrói em torno de 130 filmes, de diretores como o próprio Glauber, Nelson e Cacá, mas também Ruy Guerra, Joaquim Pedro de Andrade, Paulo César Saraceni, Leon Hirszman e até os paulistas Luiz Sérgio Person e Walter Hugo Khoury (mostrando que o pensamento do filme sobre as fronteiras da renovação do cinema brasileiro naquele momento obedece a critérios bem mais amplos do que o costumeiro).
Além das fronteiras geográficas, Cinema Novo também explora as fronteiras temporais, filiando o movimento a pais mais distantes do cinema nacional, como Humberto Mauro (de quem Glauber fala dentro do filme), Mário Peixoto e Alberto Cavalcanti. Aí está um dos sinais da extrema inteligência e sensibilidade do documentário, construído por uma extensa pesquisa – há várias imagens de arquivos brasileiros e internacionais, como o INA francês e a TV alemã (de onde proveio um material só exibido anteriormente uma vez, produzido pelo crítico Peter Schumann) – e por uma montagem ao mesmo tempo densa e enxuta, assinada por Renato Vallone.
Essa montagem, afinal define o caráter não só do documentário, como do próprio movimento. Afinal, como lembrou Eryk, “a grande força do Cinema Novo é a integração entre os filmes, a forma como dialogavam e interagiam dentro da diversidade. Ou seja, um diálogo generoso”. A própria realização do documentário repetiu essa fraternidade, visto que foi coproduzido pelas famílias de diversos cinemanovistas, várias delas cedendo gratuitamente ou por preços mínimos as imagens que o povoam.
Já o curta Improvável Encontro reconstitui a trajetória e as inter-relações entre José Medeiros e Thomaz Farkas a partir das fotografias destes dois mestres do ramo, explorando seu encontro, amizade e influências recíprocas.
 
Homenagem a Bernardet
Neste ano em que o grande intelectual responsável pela criação do Festival, em 1965, Paulo Emílio Salles Gomes, estaria completando 100 anos de idade, está sendo concedida pela primeira vez uma medalha com seu nome. A primeira medalha será entregue a Jean-Claude Bernardet, considerado o mais importante crítico de cinema vivo do Brasil, e que completa, em 2016, 80 anos de idade.
Dentre os curtas, médias e longas-metragens selecionados estão produções dos estados de Minas Gerais (com cinco títulos), São Paulo e Rio de Janeiro (quatro filmes), Pernambuco (dois), Amazonas, Ceará, Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Maranhão e Bahia (com uma produção cada um). Dentre os longas, coproduções internacionais, com Portugal e Costa Rica.
O corpo de jurados dos longas será formado pela atriz brasiliense Camila Márdila (premiada como melhor atriz no Sundance Film Festival 2015), pela produtora brasileira-moçambicana Diana Almeida, o professor João Luiz Vieira, a diretora de fotografia Kátia Coelho, o crítico Luiz Carlos Merten, a atriz e escritora Mayana Neiva e o cineasta e roteirista Paulo Caldas.
Já para os curtas e médias-metragens o júri será integrado pelo cineasta e curador Andy Malafaia, a jornalista e exibidora Anna Karina de Carvalho, o cineasta e professor Fernando Severo, o cineasta José Araripe Jr., e a realizadora e montadora Nathalia Tereza (que recebeu no ano passado o prêmio de melhor diretora na competição de curtas do Festival).
 
Mostra paralelas
Duas mostras paralelas ampliam a programação. A primeira, A política no mundo e o mundo da política,inclui documentários e ficções que registram bastidores do mundo da política ou personagens que precisam lidar com os efeitos de decisões pessoais em que se veem confrontados pelas instituições. A segunda, Cinema Agora!, apresenta obras feitas de forma independente, promovendo interessantes experiências estéticas.
Estão programadas também cinco Sessões Especiais, de caráter hors concours, além da exibição dos dois títulos no dia da abertura (já citados) e do encerramento, quando será projetado Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, no ano em que se celebra 20 anos de lançamento do filme.  
Exibidos pela primeira vez no Brasil, A destruição de Bernardet,de Claudia Priscilla e Pedro Marques, e Beduíno, de Julio Bressane, tiveram estreia mundial recentemente, no prestigioso Festival de Locarno. O primeiro propõe uma biografia pouco convencional de Jean-Claude Bernardet, com passagens ficcionais e depoimentos sobre o grande intelectual que decidiu, aos 70 anos de idade, largar tudo para se tornar ator. E em Beduíno Júlio Bressane desafia as fronteiras entre o sonho, o real e o imaginário, exibindo o desejo de mapeamento das sensações humanas através da música, da imagem, da letra e de outras manifestações artísticas.
Ainda como Sessão Especial, dois documentários que se aproximam dos discursos e experiências em torno das relações entre homens e mulheres: o pernambucano Câmara de Espelhos, de Dea Ferraz, que lança um olhar sobre o chamado “male gaze” (o olhar masculino que constrói uma identidade para as mulheres), e a produção paulista Precisamos falar do assédio, de Paula Sacchetta, que dá voz às mulheres para que falem de episódios experimentados de relacionamentos abusivos. E, por fim, Estive em Lisboa e lembrei de você, uma coprodução Brasil-Portugal, assinada por José Barahona, que aborda o drama das centenas de imigrantes brasileiros que vão para Portugal tentar a sorte.
A grade se completa com dois títulos selecionados para o Festivalzinho: As aventuras do pequeno Colombo, animação de Rodrigo Gava, brinca com a possibilidade de um encontro entre o navegador Cristóvão Colombo e o artista-inventor Leonardo da Vinci, no século XV. Já O que queremos para o mundo?é uma ficção do mineiro Igor Amin, sobre a inventividade e a capacidade de transformar o dever escolar numa grande aventura. A tela do Cine Brasília recebe ainda os 12 títulos da Mostra Brasília, realizada pela Câmara Legislativa do Distrito Federal.
Seminários, palestras, debates e curso prometem aprofundar a discussão de questões ligadas à produção e distribuição de filmes, à representação de gêneros no cinema brasileiro, ao mercado, à linguagem, ao formato, à preparação de atores e muito mais.  
 
LONGAS-METRAGENS SELECIONADOS
 
1.      A cidade onde envelheço, de Marilia Rocha, 99min, 2016, MG/Portugal
2.      Antes o tempo não acabava, de Sérgio Andrade e Fábio Baldo, 85min, 2016, AM
3.      Deserto, de Guilherme Weber, 100min, 2016, RJ
4.      Elon não acredita na morte, de Ricardo Alves Jr., 75min, 2016, MG
5.      Malícia, de Jimi Figueiredo, 87min, 2016, DF
6.      Martírio, de Vincent Carelli, em colaboração com Ernesto de Carvalho e Tita, 160min, 2016, PE
7.      O último trago, de Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti, 90min, 2016, CE
8.      Rifle, de Davi Pretto, 85min, 2016, RS
9.      Vinte anos, de Alice de Andrade, 80min, 2016, RJ/Costa Rica
 
CURTAS E MÉDIAS SELECIONADOS
 
1.      Abigail, de Isabel Penoni e Valentina Homem, 17min, 2016, RJ/PE
2.      Bodas de papel, de Keyci Martins e Breno Nina, 12min20, 2016, MA
3.      Confidente, de Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes, 12min, 2016, RJ
4.      Constelações, de Maurilio Martins, 25min, 2016, MG
5.      Demônia - melodrama em 3 atos, de Cainan Baladez e Fernanda Chicolet, 17min, 2016, SP
6.      Estado itinerante, de Ana Carolina Soares, 25min, 2016, MG
7.      O delírio é a redenção dos aflitos, de Fellipe Fernandes, 21min, 2016, PE
8.      Os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos, deGustavo Vinagre, 22min, 2016, SP
9.      Ótimo amarelo, de Marcus Curvelo, 20min, 2016, BA
10. Procura-se Irenice, de Marco Escrivão e Thiago B. Mendonça, 25min, 2016, SP
11. Quando os dias eram eternos, de Marcus Vinicius Vasconcelos, 12min, 2016, SP
12. Solon, de Clarissa Campolina, 16min, 2016, MG

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança