"A cidade onde envelheço" vence Festival de Brasília

Documentários em Brasília unem passado e presente do cinema e da política

Neusa Barbosa, de Brasília

 Com a apresentação, fora de competição, do curta Improvável Encontro (foto), de Lauro Escorel, e do longa Cinema Novo, de Eryk Rocha, a 49ª edição do Festival de Brasília iniciou-se sob o signo de um diálogo de gerações e um olhar profundo sobre o passado do cinema e da inquietação política – bem de acordo com os novos e turbulentos tempos vividos hoje no Brasil. Como era de se esperar, a sessão inaugural começou com um coro de "Fora Temer", lançado do palco do Cine Brasília pelo cineasta Eryk Rocha, aplaudido efusivamente pela plateia.
Falando de cinema, fotografia, cultura, renovação, procura de novos caminhos, os dois documentários dialogaram intensamente entre si. O curta de Escorel apresentando os muitos pontos de contato entre vida e obra de dois fotógrafos que se encaminharam para o cinema: o piauiense José Medeiros e o húngaro radicado no Brasil Thomaz Farkas. E o longa de Eryk – que teve estreia mundial e prêmio Olho de Ouro de melhor documentário no último Festival de Cannes – lançando o olhar de uma nova geração sobre o trabalho inovador da turma do Cinema Novo, que inclui seu pai, Glauber Rocha.
 
Pais e filhos
O tema da paternidade, literal e figurado, percorre, aliás, a belíssima profusão de imagens do filme, valorizadas pela montagem qualificada de Renato Vallone. Vallone e Eryk destacaram, aliás, na coletiva desta quarta (21-9), como buscaram um sentido na organização de 500 horas de material, incluindo os filmes dessa geração iluminada de cineastas e materiais de arquivo diversos, nacionais e internacionais, alguns deles inéditos, como alguns pertencentes ao INA francês. Foram consumidos 9 meses na montagem e outros três na edição de som, num projeto iniciado 9 anos atrás.
 
 A noção de pertencimento norteia boa parte da montagem de Cinema Novo (foto ao lado) – que tem estreia comercial marcada para 3 de novembro. Assim, Eryk não se esquiva de incluir nessa turma de renovadores um ramo paulista, Walter Hugo Khoury (que é visto em algumas imagens do filme) e Luiz Sergio Person (lembrado pela inclusão de trechos de São Paulo S.A.).
A opção de inserir Person – que teve várias brigas com alguns cinemanovistas, como Glauber – é justificada por Eryk: “Todos aqueles cineastas faziam parte do mesmo caldeirão, do mesmo desejo de renovação. Olhando para trás a partir de 2016, aquelas brigas entre eles ficam menores. O filme não tem um viés historicista e sim inclusivo. Houve um desejo de nossa parte de trazer essa energia. E depois quem pode dizer o que era e o que não era Cinema Novo?”.
Essa ruptura com o historicismo é traduzida também na opção do realizador de incluir filmes como São Bernardo (71), Iracema (74) e Eles não usam black-tie (81), que cronologicamente ficariam, a rigor, de fora do espectro temporal do Cinema Novo, mas certamente guardavam integralmente seu espírito.
 
Diálogo e projetos coletivos
Fora isso, houve uma preocupação em privilegiar materiais que dialogassem com a contemporaneidade, que “ainda estivessem em movimento, não meramente como um olhar sobre o passado”, explica Eryk. Dispensando o recurso a imagens recentes (como diversas entrevistas feitas entre 2007 e 2015 com cineastas, inclusive Paulo César Saraceni, morto em 2012), o diretor diz que procurou “criar no filme um espaço para que o espectador fizesse perguntas sobre temas como afetos e projetos coletivos”.
Eryk admitiu que sua geração (ele tem 38 anos) sempre se sentiu mais próxima do “cinema de invenção”, representado por Julio Bressane, Rogério Sganzerla, Andrea Tonacci e outros – que, na visão pessoal dele, seriam uma “segunda dentição” do Cinema Novo. Mas a própria crise política recente do Brasil o foi aproximando da crise vivida pelo Cinema Novo, especialmente a partir do AI-5, em 1968, que dispersou o grupo.
Para Eryk, o que une aquele momento ao de hoje é “a ausência de um projeto coletivo, substituído por diversos projetos individuais. E também a inevitabilidade da questão política. Existe o país em transe, o que de algum modo nos conecta ao espírito do Cinema Novo. Como o cinema hoje vai falar de tudo isso?”.
 
Frutos
Tanto no caso de Cinema Novo quanto do belo curta Improvável Encontro haverá subprodutos de seu conteúdo. No caso de Cinema Novo, foi produzida também uma série de 6 episódios de meia hora cada um para o Canal Brasil sobre o mesmo tema, que provavelmente irá ao ar até o final do ano.
No caso do curta, ele deverá dar origem a um longa ou mesmo a uma série sobre os fotógrafos da mesma geração de Medeiros e Farkas que, como bem observou Lauro Escorel “lançaram a base desse pensamento de filmar o País” que esteve no cerne do Cinema Novo.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança