"A cidade onde envelheço" vence Festival de Brasília

Brasília inicia competição discutindo posse da terra, a cidade e as mulheres

Neusa Barbosa, de Brasília

 O domínio da terra, a resistência, a urbanização, o processo de amadurecimento, o machismo e o assédio sexual – estes foram os temas dos filmes apresentados no primeiro dia da mostra competitiva e sessões especiais do Festival de Brasília, cuja seleção está demonstrando o enorme vigor da cultura para resistir ao nó político e às ameaças de retrocesso. Mais uma vez, gritos de “Fora Temer”, além do uso de camisetas com dizeres como “Viver sem Temer”, “Respeito ao voto” e “Cinema contra o golpe” foram nota comum entre as equipes de realizadores ao apresentarem seus filmes.
Único longa da competição na noite, o drama gaúcho Rifle, de Davi Pretto (Castanha), coloca o tema da luta pela terra e da expulsão dos pequenos proprietários no cenário do interior do Rio Grande de Sul. Com um estilo poderosamente visual, lacônico e elíptico, inspirado tanto no cinema iraniano (Abbas Kiarostami é objeto de um agradecimento explícito nos créditos finais) quanto nos faroestes clássicos, tem como protagonistas não-atores, pessoas de uma mesma família escolhida in loco num processo de seleção que exigiu um corpo a corpo da produção, indo de porta em porta e superando a desconfiança inicial dos moradores.
 
 O protagonista é Dione (Dione Ávila de Oliveira), que interpreta um jovem que resiste à ideia de sair do sítio onde mora, alvo da cobiça de compradores de fora. Com uma expressão sisuda, ele representa aquele tipo do herói solitário dos faroestes, ainda mais depois que retoma a posse de um rifle abandonado e se empenha numa jornada pessoal de enfrentamento contra aqueles que simbolizam a destruição do seu lugar – os forasteiros sem rosto que chegam em automóveis numa estrada cada vez mais movimentada, rompendo o antigo isolamento local.
 
Som ao redor
Um aspecto particular na feitura de Rifle é a feitura do som (excelente trabalho de Marcos Lopes e Tiago Bello), uma refinada sobreposição de ruídos ao longo do filme que tem sua apoteose na impactante cena final.
Mais de uma pessoa no debate de hoje (22) pela manhã apontou o diálogo do filme com Aquarius, de Kleber Mendonça Filho – igualmente centrado numa personagem solitária que resiste à invasão do seu lugar -, ainda que os filmes estejam distanciados no tempo e no espaço e sejam de estilos bem diferentes. O que mostra que há uma consonância de pensamento entre os novos realizadores brasileiros, voltados às problemáticas mais críticas do País.
A “urbanização gourmetizada”, como a definiu o curta-metragista baiano Marcus Curvelo, igualmente foi um dos temas de seu curta, Ótimo Amarelo, da competição do formato. Ambientado em Rio Vermelho, bairro do diretor que foi objeto de uma “requalificação urbana” recente pela prefeitura de Salvador, o filme retrata com muitas nuances um ritual de amadurecimento do protagonista (vivido também por Marcus) quando ele volta para o local de sua infância.
O título refere-se a um peculiar sistema de avaliação da escola cursada pelo personagem quando garoto, que o colocava em desvantagem diante de colegas mais bem avaliados. E serve de modelo para o enredo, que enfatiza os sentimentos de inferioridade e inadequação que movem sua vontade de sair dali em busca da superação. Este processo é metaforizado por uma bem-construída referência à breve volta do jogador Bebeto ao time do Vitória, em 1997, que simboliza muito do que o diretor está querendo dizer.  A aparição final do prefeito de Salvador, ACM Neto, na inauguração da obra, por sua vez, evoca a espetacularização da política e essa promessa de uma urbanização que diluiria todos os problemas sociais – só que não passa de aparência.
 
 Animação e questões femininas
O outro belo curta da competição foi a produção paulista Quando os dias eram eternos, de Marcus Vinicius Vasconcelos, uma animação em P&B que evoca a vida de uma pessoa, sua passagem da infância à vida adulta, entremeando sua trajetória de mãe, sua doença e a morte. Trata-se de uma história com toque autobiográfico, devido à morte da mãe do diretor, e que também se une a uma referência ao trabalho do mestre do butô japonês, Kazuo Ohno.
Ohno, aliás, aparece especificamente retratado ao longo da animação, o que foi autorizado pelo Instituto Kazuo Ohno do Japão após ter acesso ao filme. Com um traço bastante original, a animação também se inspira visualmente no trabalho do animador japonês Koji Yamamura e na pintura expressionista em geral, segundo o diretor.
 
 Duas sessões especiais retrataram questões afetando as mulheres, ambas documentários que procuraram sair do modelo formal. O primeiro, a produção pernambucana Câmara de Espelhos, de Déa Ferraz, cria mecanismos bem específicos – o cenário de uma sala fechada, em que são reunidos alternadamente dois grupos de homens, previamente selecionados.
Uma vez ali dentro, os homens, de idades diferentes, são expostos a vídeos e programas de TV, que permitem provocar suas reações diante de temas diversos em torno da imagem e do comportamento feminino: diferenças entre os sexos, feminismo, aborto, adultério, assassinato depois de uma traição, etc.
 
 A produção paulista Precisamos Falar do Assédio, de Paula Sachetta, contrapõe relatos femininos de situações de violência, sem mostrar seus rostos. De várias maneiras, os dois documentários dialogaram, o pernambucano explorando a persistência de preconceitos mas também as transformações de mentalidade masculina; o paulista, lembrando o quanto a violência pode contaminar a convivência entre os sexos, sendo sua exposição, não raro, condenada ao silêncio. A diretora Paula Sacchetta tem razão: é preciso sim falar muito disso.

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