"A cidade onde envelheço" vence Festival de Brasília

"Martírio" atualiza lutas históricas dos Guaranis-Caiwoáas

Neusa Barbosa, de Brasília

 Martírio, de Vincent Carelli, e A destruição de Bernardet, de Cláudia Priscilla e Pedro Marques, colocaram na ordem do dia a construção da narrativa e a invisibilidade/visibilidade social – dois temas que hoje movem o País, em todas as áreas, em todos os sentidos.
Evidentemente, o filme de Carelli, veterano idealizador do magnífico projeto Vídeo nas Aldeias, que documenta com impressionante potência e quantidade de dados, a saga dos índios Guarani-Caiowáa do Mato Grosso do Sul, e o documentário/ficção em torno da reinvenção do intelectual belga como ator são muito diferentes – a forma como dialogam, ao serem apresentados no mesmo dia, é um dos acertos da curadoria do festival.
 
 Martírio é o segundo filme de uma trilogia de Carelli, iniciada em Corumbiara (2014) – sobre um massacre indígena em 1985, no sul de Rondônia –, que se completa com um filme a ser lançado, Adeus capitão, iniciado em 1986, em torno das indenizações a tribos em função da instalação de grandes projetos, em Marabá, sul do Pará.
Os temas dos três filmes são distintos, mas têm em comum o espírito guerreiro de resgatar a história indígena, insistentemente varrida, adulterada, vilipendiada em séculos da suposta civilização. Nada mais eloquente desse processo do que Martírio, em suas 2h40 de duração enumerando diversos episódios da saga de resistência dos Guaranis-Caiwoáa.
 
 Raízes históricas
Recorrendo a material filmado por ele mesmo desde 25 anos atrás e também a preciosos materiais de arquivo, Carelli – com a colaboração de Ernesto de Carvalho e Tita – situa muito bem a expropriação das terras desse povo, mencionando a Guerra do Paraguai, o ciclo do plantio do mate, as intervenções do Marechal Rondon e de Getúlio Vargas, chegando até o momento atual. Um momento de impasse, em que os índios, cansados da eterna indefinição da demarcação, empenham-se de maneira não raro heroica por retomadas pontuais de seu território, independentemente da violência e das mortes sofridas.
Por isso, Carelli afirma: “Não conheci povos indígenas com tal grau de resistência cultural. Uma família guarani reconstitui um universo. Em 500 anos, guardaram língua, religião e costumes no embate com a classe mais reacionária do País”.
Um dos aspectos mais contundentes de Martírio está justamente nas imagens de políticos – como uma comissão do Senado que tratou da discussão sobre a PEC 215, que traria para o Congresso a palavra final sobre demarcações de terras indígenas -, que demonstram à perfeição em que mãos estão entregues o Congresso e o País. Ou seja, latifundiários da chamada “bancada do boi” avessos a qualquer concessão aos indígenas e no mínimo coniventes com a violência que leva ao seu extermínio.
 
 Velhice renovada
Apresentado fora de competição, em sessão especial, A destruição de Bernardet condensa muito o trabalho de autoficção em que o renomado professor, pesquisador e teórico do cinema brasileiro empenhou-se em tempos mais recentes, em que investiu num projeto de ser ator, em filmes como O homem das multidões, Fome, Filme-fobia e Periscópio, para citar alguns.
 
 Como sempre acontece, Bernardet fez algumas exigências – que não se realizasse um documentário clássico de perguntas/respostas e que não fosse Kiko Goifman, que o dirigiu em Filme-fobia e Periscópio, o diretor deste novo projeto.
Bernardet revelou, no debate de hoje, um desejo de que o filme se “afastasse dele”, evidenciando toda a sua discussão sobre envelhecimento, morte e renovação. Sem dúvida, não se trata de uma visão piedosa nem edificante sobre nenhum destes temas, fazendo justiça a um ser humano singular e atentando para uma pesquisa de linguagem que tem tudo a ver com o personagem e novas tendências no cinema brasileiro.

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