"A cidade onde envelheço" vence Festival de Brasília

Brasília destaca filmes com desafios de linguagem e sobre Jean Wyllys

Neusa Barbosa, de Brasília

 Sexta (23) no Festival de Brasília foi um dia dedicado a filmes empenhados em narrativas correndo por fora da linguagem tradicional. Foi o caso dos curtas da competição, ambos mineiros, Solon, de Clarissa Campolina  e Constelações, de Maurílio Martins, e também dos longas O último trago, de Luiz Pretti, Ricardo Pretti e Pedro Diógenes (CE), e A cidade onde envelheço, de Marília Rocha (MG).
Atração da mostra paralela “A política no mundo e o mundo da política”, o documentário Entre os Homens de Bem, de Caio Cavecchini e Carlos Juliano Barros (SP), por sua vez, focalizou um personagem exemplar dentro da política brasileira, o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), símbolo pelas lutas pelos direitos LGBT e outras causas progressistas. Ele esteve presente à sessão e participou de um concorrido debate depois de ser parado, abraçado e fotografado por inúmeros presentes.
 
 Entre fantasia e piratas
Resultado do trabalho do coletivo cearense Alumbramento, que está completando dez anos, O último trago traduz muito das propostas do grupo. Ou seja, aposta mais na imagem, na fotografia (de Ivo Lopes Araújo) e direção de arte, do que numa narrativa dramatúrgica, entrelaçando três histórias. Como mencionaram os diretores no debate, há influências do surrealismo (o argumento foi produzido por escrita automática), do Luis Buñuel da fase mexicana e filmes de piratas.
Um fio une as aparições de uma personagem indígena, a guerreira Valéria, que vai e volta no tempo, e cuja trajetória se entrelaça com a de um dono de bar, seu empregado  e várias mulheres que aparecem nos três segmentos, como a cantora Marlene (a ótima estreante Elisa Porto), e piratas como Augustina (Mariana Nunes). A missão da índia é de vingança pela morte de outras mulheres, conduzindo no filme um chamado à rebelião.
 
 Mulheres em trânsito
Já o longa mineiro A cidade onde envelheço, primeira ficção da documentarista Marília Rocha (Aboio, A falta que me faz), tece o relacionamento entre duas jovens portuguesas, Francisca Manuel e Elizabeth Francisca, em Belo Horizonte. A primeira mora ali há alguns anos e recebe a amiga de infância, vindo agora de Portugal.
Marília nunca se desprende de sua raiz documental, contando com duas atrizes sem experiência anterior e alimentando seu roteiro (assinado também por Thais Fujinaga e João Dumans) de uma fluidez intencional, imbuído da verdade das próprias personagens (Francisca, aliás, morou mesmo alguns anos em BH). Elas tiveram acesso ao roteiro mas ele nunca ficou em sua mão como uma diretriz rígida. A direção preferiu sempre que elas compreendessem as cenas e improvisassem, criando a condução à medida que o filme ocorria. Por conta disso, nasceram momentos de humor, como uma cena em que as duas, à procura de um novo apartamento, discutem defeitos no azulejamento.
Como destacou a roteirista Thais no debate, a mola-mestra da história é mesmo o contraste entre as duas vontades: Francisca quer voltar a Portugal, enquanto Elizabete está chegando com entusiasmo e fome do novo país. Isto cria atritos, compartilhamento de sensações, melancolia. E disto o filme tira sua delicadeza, seu existir.
 
Curtas
Da mesma forma, Constelações parte de memórias vividas pelo diretor Maurílio Martins, que no momento em que escreveu o roteiro vivia uma separação de sua mulher dinamarquesa e temia pela separação do filho do casal. Esse medo, além do temor infantil que ele sente diante da chuva, estão no centro das falas dos dois personagens em cena, em viagem dentro de um carro, Stine Krog-Pedersen (a mulher real do diretor) e Renato Novais Oliveira.
Solon, de Clarissa Campolina, também é outro manifesto pela arte visual, situando num cenário que parece futurista, de um mundo destruído, um ser estranho, meio humano, meio alienígena (Tana Guimarães), que também rega de água o solo, de onde parece que surgirá um novo mundo. A diretora comentou no debate que, apesar da aparência do cenário, ela não tem referências de ficção científica. “Minha preocupação foi mais com formas orgânicas do que com hi-tech”, definiu.
 
 Wyllys
Já o documentário sobre o popular deputado baiano, Entre os homens de bem,  dirigido por Caio Cavecchini e Carlos Juliano Barros (mesma dupla por trás de Carne, Osso e Jaci - sete pecados de uma obra amazônica), traça a peculiar trajetória de Wyllys, famoso depois de sua vitória num BBB-Brasil, até tornar-se um dos deputados mais articulados e atuantes em defesa das causas de direitos humanos, especialmente da comunidade LGBT.
Por três anos, os cineastas acompanharam Wyllys, ouvindo alguns de seus mais ferrenhos adversários (como Jair Bolsonaro e Marcos Feliciano), e acompanhando seu cotidiano na Câmara até sua campanha pela reeleição. De todo modo, o filme é mais uma ferramenta muito eficaz para repensar a ideia de representatividade e decência dos políticos, num Congresso dominado por bancadas fundamentalistas e conservadoras, diante dos quais a militância às vezes solitária de Wyllys, não raro ameaçado de morte e massacrado por reacionários trogloditas nas redes sociais, resplandece. Além de manter a nossa esperança em dias melhores. 

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