"A cidade onde envelheço" vence Festival de Brasília

Questão indígena volta a ser discutida em "Antes o tempo não acabava"

Neusa Barbosa, de Brasília

Loucura, delírio, questão urbana, feminismo, questões indígenas foram os temas que percorreram curtas e longas da quarta noite competitiva do Festival – que, noite após noite, assiste o palco do Cine Brasília ser ocupado por equipes de filmagem vestidas com camisetas portando o lema “Cinema contra o golpe”, que se repete sempre também na tela, antes de cada filme exibido. Além dos gritos de “Fora Temer”, cuja tradução gestual para deficientes auditivos – sempre realizada no palco – foi incorporada ontem por uma das equipes.
Num festival criado há cinco décadas por Paulo Emílio Salles Gomes, no início da ditadura militar, em 1965, e sobrevivendo bravamente ao longo dela, não poderia ser diferente. Ele nasceu sob o signo da resistência e a está reinventando em novos tempos sombrios.
 
 Jornada no surto
Longa de estreia do mineiro Ricardo Alves Jr. , Elon não acredita na morte é um denso mergulho no inferno pessoal de seu protagonista, Elon (Rômulo Braga), em busca da mulher desaparecida, Madalena (Clara Choveaux).
Assumindo o ponto de vista de seu atormentado protagonista, constrói-se meticulosamente uma dramaturgia amparada no corpo de seu empenhado ator e também em sua ocupação de espaços, num prédio abandonado (onde ele é um fantasmagórico vigia noturno), longos corredores, escadarias que só levam para baixo, janelas com grades, tudo isso propositalmente imerso numa luz escura ou quase inexistente (belo trabalho do fotógrafo Matheus Rocha).
 
 A inspiração do roteiro vem de um paciente de um centro de saúde mental de BH que o diretor conheceu e que se autodenominou Elon Rabin – que aparece num curta de Ricardo Alves Jr., Tremor (2013), exibido no Festival de Brasília e vencedor do prêmio de melhor direção.
A jornada obsessiva deste homem em busca da mulher no longa dialogou com o ótimo curta que o antecedeu, o também mineiro Estado itinerante, em que a diretora Ana Carolina Soares acompanha a jornada de uma cobradora de ônibus, Viviane (Lira Ribas), vítima de violência doméstica.
Com uma sutileza impregnada de contundência contida, a diretora mostra o cotidiano dessa jovem mulher, que esconde seus braços sempre em mangas compridas, e que nunca quer voltar para casa – onde está um homem violento e cujo rosto nunca vemos. A ausência deste opressor dá força ao filme, que não precisa do recurso fácil de mostrá-lo para dar seu recado. E ainda extrai uma outra força ao incorporar em cena cobradoras reais interagindo com a atriz – evocando a naturalidade frenética de John Cassavetes, admiração assumida pela diretora, e também o frescor da feminilidade proletária dos filmes de Carlão Reichenbach, como Garotas do ABC ou Anjos do Arrabalde.
Uma outra pequena mulher em crise com seu ambiente está no centro do outro curta da noite, O delírio é a redenção dos aflitos, do estreante pernambucano Fellipe Fernandes, que teve estreia mundial na Semana da Crítica do Festival de Cannes. Nash Laila interpreta com muita garra uma jovem mãe de família, moradora de um conjunto habitacional condenado na periferia de Recife, e que entra em parafuso por não conseguir dormir, nem sair do prédio. O cenário desolado, como no longa mineiro, é um personagem fundamental num curta muito forte e estruturado.
 
Indígenas em crise
No segundo segmento da noite, a questão indígena, que já frequentou filmes exibidos aqui, como Martírio, de Vincent Carelli, O último trago, do coletivo Alumbramento, e também Taego-Awa, de Henrique e Marcela Borela, voltou tanto no curta, Abigail, de Valentina Homem e Isabel Penoni (RJ), quanto no polêmico longa de ficção Antes o tempo não acabava, de Sergio Andrade e Fábio Baldo, um raríssimo representante do cinema amazonense.
Exibido na Quinzena dos Realizadores de Cannes, Abigail traz de volta vestígios da figura de Abigail Lopes, mulher que morou por oito anos entre os Xavantes e foi companheira do sertanista Francisco Meireles. Por não ser antropóloga e sim uma mestiça ribeirinha, que inclusive conhecia um pouco das línguas indígenas, ela “permaneceu invisível”, segundo a diretora Isabel. Depois, veio para o Rio de Janeiro com seus três filhos (um deles, Apoena Meireles, também sertanista), para que estudassem. Ficando doente, entrou em contato com o candomblé, que se tornou o centro de suas atividades e, no final da vida, dizia que tinha se “arrependido de ter pacificado os índios”.
Já o longa Antes o tempo não acabava envereda pela ficção para traçar a trajetória de Anderson (Anderson Tikuna), jovem índio que vive com a irmã e a filha doente desta na periferia de Manaus. Ele se sente dividido entre a cultura ancestral, com a qual perdeu contato, e a vida urbana, em que ele não consegue uma inserção satisfatória, inclusive por ser índio.
As polêmicas da história, levantadas no debate desta tarde de domingo, surgiram por conta de um aparente infanticídio e da segunda realização de um ritual chamado “de tucandeira” – que originalmente marca a passagem à vida adulta dos meninos da etnia saterê-mauê, mas, no contexto do filme, sugerem uma tentativa de “cura gay” de Anderson, aplicada por dois membros mais velhos de sua aldeia.
Questionados inclusive por uma antropóloga sobre se não seria negativa, e mesmo atrasada, a imagem da cultura indígena projetada no filme, até passível de ser apropriada por membros das bancadas ruralistas e evangélicas do Congresso, os diretores se defenderam. “Colocamos um índio como protagonista e em nenhum momento nos colocamos contra eles. Inclusive os indígenas do elenco debateram o andamento da história”, afirmou Baldo.
Sérgio Andrade, por sua vez, afirmou que procuraram “tirar o índio de uma imagem mitificada, estereotipada. Nossa ideia era humanizá-lo, mostrar como índio vive essa dicotomia entre os preceitos de sua cultura e a do branco”. Nunca houve, segundo eles, a ideia de mostrar o ritual como “cura gay”.
Atriz no filme, Rita Carelli – filha do cineasta Vincent Carelli -, por sua vez, observou que “índios urbanos são mais invisíveis do que os outros. Por isso, acho importante colocar este tema como um indício, uma provocação”.
Já o próprio protagonista, Anderson Tikuna, manifestou sua alegria de atuar no filme, informando que a homossexualidade hoje existe nas aldeias. “Antes, não existia”, afirmou.

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