"A cidade onde envelheço" vence Festival de Brasília

Imagens de arquivo e erotismo marcam noite de domingo em Brasília

Neusa Barbosa, de Brasília

 O uso de materiais de arquivo e várias chaves do erotismo deram o tom da extensa programação da noite de domingo (25) no Festival de Brasília – que, este ano, aumentou de seis para nove os longas concorrentes na competição principal, esticando o horário das sessões no final de semana.
Na primeira parte, dois curtas e um longa se reapropriaram de formas diferentes de imagens de arquivos. Confidente, de Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes (RJ), investe numa linguagem experimental, em torno da repetição de algumas cenas, usando a montagem e o som como suas ferramentas essenciais. Procura-se Irenice, de Marco Escrivão e Thiago B. Mendonça (SP), por sua vez, resgata a figura de Irenice Maria Rodrigues, uma atleta negra, recordista e que foi punida por sua rebeldia e apagada da maior parte dos registros, durante a ditadura militar – apesar de ter competido por times grandes do Rio, como Fluminense e Vasco.
O curta paulista lida muito bem com a assumida ausência de materiais sobre a atleta, que foi recordista da prova dos 800m – em sua época, desaconselhada às mulheres – e que chegou a integrar a equipe olímpica brasileira no México, em 1968. Por um desentendimento com uma colega, ela foi cortada da equipe e, a partir daí, perseguida pela ditadura, até ser banida do esporte em 1971. Depois disso, ela ainda foi sistematicamente bloqueada em tentativas de seguir adiante com sua vida, como cursar a universidade. Morreu num acidente de moto, em 1981, mas os diretores contaram na coletiva de hoje que não encontraram evidências de crime político neste acidente.
 
 Memórias de Cuba
O primeiro longa da noite, o documentário Vinte Anos, de Alice de Andrade – uma coprodução entre o Brasil e a Costa Rica -, promoveu outro resgate, este de experiências cinematográficas antigas da cineasta, que estudou cinema em Cuba. Ela reencontra casais que fizeram parte de um filme antigo seu (Luna de miel, 1993) para revelar sinais da transformação em processo hoje em Cuba, depois de muito tempo abrindo-se a transformações econômicas e sociais com a retomada das relações com os EUA.
 Os personagens são extremamente cativantes e emblemáticos dessa mudança. Um desses casais vive no mesmo endereço de 20 anos atrás, num pequeno espaço que foi acomodando filhos, netos e outros parentes – e nem por isso revelam desejo de partir. Ao contrário, este casal garante que nunca deixaria Cuba. Uma mudança sensível é, porém, a religião – de umbandistas passaram a evangélicos (que também chegaram à ilha de Fidel).
Outro casal foi para Miami, o que dividiu a família, já que a filha ficou para trás, com a neta (o pai da criança não permitiu sua saída de Cuba). Este segmento é particularmente eloquente da diáspora cubana em Miami, mostrando o casal, que não fala bem inglês, se esfalfando em vários empregos diários para manter-se e o filho, estudando e já integrado no ambiente norte-americano.
O terceiro casal, que se divorciou nestes vinte anos, tem duas filhas gêmeas, Camila e Karla, que se formam em música. Uma delas emigra para a Costa Rica e integra uma orquestra local, tornando-se também um sinal desta dispersão de cubanos bastante bem-educados e preparados, como ela, por outros países de língua hispânica.
 
Erotismo
Na segunda parte da noite, os dois curtas versaram em torno de erotismo em chaves distintas. A produção maranhense Bodas de Papel, da estreante Keyci Martins e Breno Nina retratou um casal (Breno Nina e Áurea Maranhão) vivendo uma agressiva fantasia sexual num apartamento. O paulista Demônia – Melodrama em 3 Atos, de Cainan Baladez e Fernanda Chicolet, por sua vez, explora numa vertente debochada, nada politicamente correta, um escândalo familiar envolvendo uma família evangélica – com direito a um clipe musical desvairado, trabalho de Thiago Ricarte, que assina também a trilha sonora, ao lado de Filipe Junqueira Machado.
O último longa da noite, a produção brasiliense Malícia, de Jimi Figueiredo, por sua vez, foi uma nota dissonante na seleção deste ano. Apesar da produção bem-cuidada, o filme empacou numa artificialidade extrema. Segundo o diretor, trata-se de um thriller. Mas este clima nunca se realiza, já que o roteiro inconsistente não cria realmente tensão e perigo na história de um homem (Sérgio Sartório) que implanta um mecanismo de espionagem no computador da ex-mulher (Vivianne) e atua para destruir os negócios do novo namorado dela (João Baldasserini). 

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