"A cidade onde envelheço" vence Festival de Brasília

Brasília encerra-se sob o signo da poesia e do teatro

Neusa Barbosa, de Brasília
 A última noite competitiva do Festival de Brasília, nesta segunda (26), terminou numa chave de ousadia e experimentação, ao mostrar o mais recente trabalho de Julio Bressane, Beduíno (foto abaixo) – em sessão especial -, e o longa de estreia do ator Guilherme Weber, o longa Deserto (RJ), uma obra mergulhada em referências teatrais. O único curta da noite, Os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos, de Gustavo Vinagre (SP), se ajustou perfeitamente ao clima inovador da programação da noite.
 
A edição 49 do festival mais antigo do Brasil, fundado pelo paulistano Paulo Emílio Salles Gomes em 1965, ficará lembrada por uma boa e variada seleção, com poucas notas dissonantes – a mais marcante sendo a produção brasiliense Malícia, de Jimi Figueiredo – e uma notória ausência de longas paulistas. E, mais do que tudo, foi o ano do coro “Fora Temer”, entoado noite após noite no palco do histórico Cine Brasília, por equipes não raro uniformizadas com camisetas ostentando “Cinema contra o golpe”, lema que adornou também a tela antes da exibição de cada filme.
 
 Se não faltou posicionamente político no festival, como seria de se esperar até pela tradição de um evento que resistiu à ditadura de 1964, importante é que nunca se perdeu de vista o engajamento artístico. O que seu viu na tela do Cine Brasília e outros espaços da cidade foi parte expressiva do melhor da produção brasileira dos últimos tempos. Nessa força e qualidade é que se ancora um núcleo importante de resistência a eventuais tentativas de esvaziar políticas de financiamento e fomento cultural.
 
Por tudo isso, espera-se uma noite de premiação agitada hoje (27), a partir das 19h, fechando com uma exibição de Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas (PE), que 20 anos atrás iniciou justamente aqui sua trajetória luminosa como um dos faróis do novo cinema brasileiro.
 
Fim do mundo
Deserto, o alentado longa de Guilherme Weber, cria um cenário de fim do mundo para abrigar uma trupe de artistas desgarrados de tempo e lugar, interpretados por Lima Duarte, Everaldo Pontes, Cida Moreira, Márcio Rosário, Fernando Teixeira, Magali Bif, Claudinho Castro e Pietra Pan. Miseráveis andarilhos, de aldeia em aldeia à procura de público, eles desembarcam numa cidadezinha abandonada e resolvem ficar. Depois da morte do líder, contrário ao abandono da vida nômade, eles decidem seus novos papeis num sorteio, ao qual foram lançados papeizinhos onde cada um escreveu o que achava essencial ao funcionamento de uma cidade. Assim, ao sabor deste acaso, a cada um cabe uma função: Cozinheira, Médica, Caçadora, Militar, Negro e Puta.
 
Inconformados com a opressão que os atinge na nova condição, a Puta e o Negro se rebelam, mas o Militar assume também seu lado repressor. E assim o filme torna-se uma alentada fábula sombria em torno da organização social, assumindo uma reflexão política que nunca se desvincula do poético, ainda mais porque cita organicamente Shakespeare e alguns outros trechos da melhor dramaturgia, sem tornar-se hermético demais pelas referências. O filme respira e se comunica mesmo com quem não decifra todas elas, por conta do esplêndido cenário natural, da direção de arte e especialmente da afinação deste espetacular conjunto de atores.
 
Da mesma forma, o curta Os cuidados que se tem com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos, de Gustavo Vinagre, viajou ao sabor da dinâmica de um grupo de personagens jovens, confinados a um apartamento, vividos por Caetano Gotardo, Nash Laila, Julia Katharine e Luiz Felipe Lucas. Conversando sobre a necessidade de chorar de um, os cuidados com a mãe distante do outro, enquanto se ocupam de cuidar das plantas e de cozinhar e comer juntos, este quarteto quase cassavetiano evoca a metáfora de uma juventude bloqueada num impasse existencial, compartilhando desejos de liberdade que são contrapostos, em seu mesmo diálogo, pelas referências a uma difusa repressão do lado de fora deste huis clos que funciona como umútero e, assim, remete à gestação de algo novo em tempos sombrios. Foi um curta que, em seus 22 minutos, conseguiu colocar com densidade uma problemática humanista que muitos longas não dão conta.
 
Fora da competição, Beduíno encheu a tela das divagações literário-pictórico-poéticas do veterano Julio Bressane, com os atores Alessandra Negrini e Fernando Eiras, seus habituês, encenando esquetes lembrando um estrangulador de louras, a obsessão de uma mulher por um sonho que se repete, interações de um casal e outros temas que se sucedem na tela, embalando a imaginação e o intelecto naquela mistura tão cara ao diretor. Não é filme “pra entender”, é filme “pra viver”. E faz um bem danado à sensibilidade e à inteligência.

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