Comédia uruguaia "Clever" vence Cine Ceará

O mexicano "Epitáfio" expõe violência do processo colonial nas Américas

Neusa Barbosa, de Fortaleza
 Fortaleza – A segunda noite do Cine Ceará abriu espaço para a reflexão de temas espinhosos, caso da colonização sangrenta das Américas, objeto do drama de época mexicano Epitáfio, dos diretores Yulene Olaizola e Rubén Imaz (foto), que já têm experiência anterior mas assinam aqui sua primeira direção em conjunto.
Com uma fotografia dessaturada (assinada por Emiliano Fernández), o filme se desenrola a partir da epopeia de três exploradores espanhóis da tropa de Hernán Cortez, o comandante Diego de Ordáz (Xabier Coronado), Gonzalo (Martín Román) e Pedrito (Carlos Triviño). O ano é 1519 e preparam-se batalhas decisivas para a conquista do império asteca. Para isso, os espanhóis procuram enxofre, matéria-prima essencial para a pólvora que alimenta seus canhões para liquidar os intrépidos nativos.
Centrada nestes três homens que escalam montanhas cobertas de gelo, rumo ao vulcão Popocatepetl – numa trilha íngreme desaconselhada pelos indígenas -, estes brancos europeus se deparam com a fúria hostil da natureza, que só encontra paralelo na obsessão do comandante Ordáz, que não cessa de levar seus homens adiante, contra toda lógica e prudência, amparado na ideologia da difusão do cristianismo e na expansão do império da monarquia espanhola.  
Dialogando de várias maneiras com o argentino Jauja, de Lisandro Alonso, o filme mexicano, que praticamente não mostra os indígenas – exceto bem no início – expõe claramente como a violência contra os nativos encontrou justificativa na mentalidade europeia da época e como funcionavam estes soldados miúdos, dos quais estes três personagens são símbolos eloquentes, com seus medos, hesitações e fanatismos.
 
 Rastos de realidade
Dos personagens, um deles é real: Ordáz realmente existiu, tornando-se depois descobridor do rio Orinoco, na Venezuela, e dando nome a uma cidade ali, Porto Ordáz. Segundo os diretores, o ponto de partida de seu roteiro foram meros dois parágrafos que informam sobre o explorador, num grande tratado sobre a conquista da América, escrito por Bernal Diaz de Castillo. Ordáz também deixou extensa correspondência, assim como o conquistador Hernán Cortez, e isso forneceu outras pistas, como a linguagem falada no filme.
O elenco é formado por três espanhóis radicados no México – o que era desejado pelos diretores, para manterem uma fidelidade ao sotaque -, nenhum deles ator profissional. Xabier Coronado (Ordáz) é um pesquisador e jornalista de Astúrias, “meio hippie”, segundo os diretores, que mora nas montanhas da região de Guerrero e já havia morado antes em Honduras e na Costa Rica. Martin Román (Gonzalo) é um roteirista de Valência. E Carlos Triviño (Pedrito) é um mecânico de Mallorca. Os personagens Gonzalo e Pedrito são ficcionais, amparados também em diversos aspectos das pesquisas para o roteiro. Gonzalo, por exemplo, tem alguma semelhança com Gonzalo Guerrero, espanhol que era membro da tripulação de um barco que naufragou e que foi capturado pelos maias, integrando-se depois a eles, casando com uma nativa e não voltando mais à Espanha, mesmo tendo chance para isso.
As filmagens, que ocorreram em locações bastante inóspitas – 80% no pico Orizaba, o resto no vulcão Popocatepetl, que está fechado por sua atividade sísmica – beneficiaram-se do fato de que o diretor de fotografia, Emiliano Fernández, ser alpinista e treinar a equipe para as duras condições que enfrentariam. Nas quatro semanas de filmagem, eles acamparam entre 4.300 e 5.000 metros de altitude, com bastante frio, embora a neve, naquele ano, tenha sido inferior ao desejado pelos diretores, que pretendiam que os atores repetissem a façanha dos conquistadores. Nessas condições, o conceito da fotografia foi aproveitar ao máximo a luz natural, aproximando o despojamento da cor quase de um preto-e-branco, o que foi acentuado na pós-produção – quando, segundo o diretor Imaz, foram utilizados filtros ouro e prata, aproximando-se também dos principais metais procurados pelos europeus.
Segundo Imaz, a intenção geral do filme, aliás, foi “colocar-se na pele dos conquistadores”. O diretor explica que tentaram entender seus motivos, saindo do que ele chama de um “registro de ressentimento dos vencidos, em que tudo parece muito preto e branco”. Essa busca das nuances do outro lado da conquista valeu-lhes muitas críticas: “Muitos nos acusaram de não termos batido duro o bastante nos invasores europeus”. Isso não significa que Epitáfio nunca tente atenuar a implícita violência da ocupação do continente americano, como demonstra a leitura do “requerimento”, que era uma espécie de declaração de tomada de posse da terra, lida em espanhol para os indígenas que não entendiam o idioma, em que se proclamava, como aparece textualmente no filme, que os nativos seriam “os culpados” por toda a violência que viessem a sofrer, já que a conquista acontecia em nome de Deus.
O filme tem estreia mexicana marcada para agosto próximo.
 
Curtas
A programação exibiu quatro curtas, igualmente percorrendo estilos e temáticas bem distintas. Houve espaço para a ficção científica no concorrente mineiro Quando é lá fora, dos estreantes André Pádua e Leonardo Branco, que se apoia num sugestivo trabalho de som para criar um clima inquietante.
O teto sobre nós, do gaúcho Bruno Carboni, ficcionaliza a situação instável dos moradores de ocupação de alguns prédios de Porto Alegre, encenando particularmente suas sensações de medo e ansiedade diante das constantes ameaças de despejo violento.
Dois documentários se expressaram em vertentes distintas. O cearense Monstro, de Breno Baptista, materializa de maneira intimista e com viés literário nas falas as diversas fases de uma paixão entre o diretor e um outro rapaz. Já o paulista USP 7%, de Daniel Mello e Bruno Bocchini, expõe com clareza e contundência a chaga social do racismo a partir do título, que denuncia a escassa porcentagem de negros entre os alunos da maior universidade pública do país.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança