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Petrus Cariry imprime a força de "Clarisse ou alguma coisa sobre nós dois"

Neusa Barbosa, de Fortaleza
 FortalezaClarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, de Petrus Cariry, passou pela tela do Cinema Luiz como um foguete, uma explosão de som, imagem, dramaturgia, expressão. O cinema de Petrus, 39 anos, em seu terceiro longa, é o da intensidade, da forma, do apego aos recursos da encenação, da simbologia, do ritualístico, do ancestral, da persistência do primitivo no presente.
Tudo isso e algo mais, como a cinefilia do diretor, impressa num DNA artístico que passa de Andrei Tarkovski a Stanley Kubrick, de Apichatpong Weerasethakul a John Carpenter, e muito mais está em Clarisse... um poderoso exemplar do sistema de crenças deste jovem e talentoso diretor cearense, que fecha neste longa o que ele mesmo define como “trilogia da morte”, iniciada por O Grão (2007) e Mãe e Filha (2011).
É, realmente, seu filme mais tenso e cheio de sangue – literal e metaforicamente, já que todas as obsessões da protagonista Clarisse (uma impecável Sabrina Greve) passam pela linhagem, pela hereditariedade, pelas ligações com seu pai (Everaldo Pontes).
 
 Redenção de sangue
Há todo um tempo de gerações que paira sobre essa casa familiar – locação em Maranguape, onde se desenvolveram cinco semanas de filmagem. Dentro de suas paredes reverberam os fantasmas que impregnam Clarisse e o pai, a mãe e o irmão mortos, deixando atrás de si uma carga obscura de culpa.
Nada mais se diga sobre a trama, que se desenvolve em imagens poderosas, igualmente impregnadas do amor à pintura do diretor, que faz aqui a fotografia (como em Mãe e Filha), e sons inquietantes (som direto de Danilo Carvalho). Muito coerentemente, a ideia inicial da história nasceu de um sonho, em que Petrus visualizou uma mulher numa cama encharcada de sangue. A partir daí, ele escreveu o argumento, do qual nasceu o roteiro final, assinado por ele, o pai, Rosemberg Cariry, e Firmino Holanda.
Para Petrus, apesar da intensa carga dramática, seu filme é “de redenção, de libertação”, já que sua protagonista "rompe as amarras do patriarcado, exacerbando sua dor”. Ele conta que passou um mês na preparação da atriz Sabrina Greve, a cuja entrega ele atribui uma de suas maiores satisfações no filme, já que dependia dela uma enorme exposição, afinal concretizada.
Ainda realizando um périplo do filme por festivais, inclusive internacionais, Petrus informa que já concluiu um novo trabalho, O Barco – em que ele adianta um novo tom, como ele mesmo define, “mais solar, aberto, menos claustrofóbico”. Este novíssimo deve estrear apenas em 2017.
 
 Tempos de chumbo
Os dois curtas da noite, ambos produções cariocas, abordaram temas ligados à repressão política durante a ditadura de 1964.
O primeiro, o documental Uma família ilustre (foto ao lado), de Beth Formaggini, retrata um depoimento do ex-delegado e agente da repressão Cláudio Guerra ao psicólogo Eduardo Passos, ligado a um coletivo de profissionais dedicados ao atendimento de vítimas de repressão do Estado. No depoimento, Guerra admite ter participado da execução de presos políticos, como Nestor Vera, e do incineramento dos corpos de outros, torturados e mortos por outros agentes, no curso da chamada Operação Radar, que liquidou 19 membros da cúpula do Partido Comunista Brasileiro em 1974.
A diretora contou que não queria fazer um filme panfletário, e sim captar as oscilações de Guerra, que “ora manifesta orgulho pelo que fez, ora diz ter cumprido ordens, ora admite ter gostado do sentimento de poder”. Ela antecipa que tem mais material sobre o personagem e que será utilizada num futuro longa, que tem o nome provisório de Radar.
Numa linguagem ficcional muito diferente, o outro curta, Noite Escura de São Nunca, do estreante Samuel Lobo, evoca a figura da ex-presa política Inês Etienne Romeu (1942-2015) – única sobrevivente da chamada “Casa da Morte”, como foi chamado um centro de torturas em Petrópolis onde foram executados vários prisioneiros e ela foi torturada e estuprada nos anos 1970. O jovem diretor contou no debate que a ideia para seu filme surgiu quando ele tomou conhecimento, nos jornais, em 2003, de uma agressão que Inês sofreu em sua casa, por um homem que se fez passar por marceneiro. “Quando eu soube daquilo, pensei: ‘Puxa vida, depois de tudo o que ela sofreu... Essa coisa não acaba nunca!’”.
 
 Vidas no limite
Dirigido pela polonesa Aleksandra Maciuszeki, o documentário mexicano Casa Blanca retrata com inquietante proximidade a vida de uma mulher idosa e seu filho, Vladimir, de 37 anos, que sofre de síndrome de Down. Num ambiente pobre, numa vila de pescadores, os dois desafiam os limites da sobrevivência e da tolerância a condições precárias de vida – como o fato de que a mulher, com saúde comprometida por um provável AVC, tem que subir e descer escadas para ir à rua e o filho não tem nenhuma educação formal ou profissão.
O filme os mostra integrados nesse ambiente despojado, dependendo da caridade de vizinhos, que lhes dão alimentação mas que também praticam bullying contra Vladimir, que tem a psicologia de uma criança. Ao mesmo tempo, a relação de profundo afeto entre mãe e filho mostra-se tão comovente quanto preocupante, já que é nítido que a vida de Vladimir sofrerá um choque brutal com a possível morte próxima desta mãe.

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