CANNES 2016

Eryk Rocha, Cinema Novo e um Jim Jarmusch iluminado em "Paterson"

Neusa Barbosa
 Cannes – Primeiro filme brasileiro exibido nesta 69ª. edição de Cannes, Cinema Novo, documentário de Eryk Rocha que integra a seção Cannes Classics, terminou criando uma inesperada ponte entre o atual momento de ruptura democrática no Brasil e uma outra quebra semelhante, em 1964 – ano que coincidiu com o início da ditadura militar e a participação de três filmes brasileiros em Cannes, dois na competição (Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos) e Ganga Zumba, de Cacá Diegues, na Semana da Crítica.
Para Eryk, diretor politizado, filho dos cineastas Glauber Rocha e Paula Gaitán (que o acompanha em Cannes), as duas interrupções democráticas no Brasil são uma trágica surpresa. “Para mim, era impensável, nunca imaginei viver isso”, desabafa o cineasta de 38 anos. De todo modo, para alguém, que como ele, acredita no cinema como “uma forma de traduzir essa angústia, essa impotência mesmo, uma forma de canalizar esse grito, juntar esses fios soltos da História”, o filme está chegando em bom momento. “É um momento muito triste, muito trágico. Mas a história é feita de lutas e a gente vai lutar, cada um à sua maneira, para resistir a este momento”, declarou, na abertura da sessão do filme, nesta tarde de segunda (16), na sala Buñuel.
Se é verdade, como diz Eryk, que “as elites trabalham com o massacre da memória e da história”, então Cinema Novo é um ótimo instrumento de combate. Afinal, o documentário, cujo projeto começou a ser idealizado há 10 anos, vem preencher justamente uma lacuna nestes dois campos. Se existem muitos livros a respeito do movimento, não existia um filme sobre ele. Cinema Novo se constrói em torno de 130 filmes, de diretores como o próprio Glauber, Nelson e Cacá, mas também Ruy Guerra, Joaquim Pedro de Andrade, Paulo César Saraceni, Leon Hirszman e até os paulistas Luiz Sérgio Person e Walter Hugo Khoury (mostrando que o pensamento do filme sobre as fronteiras da renovação do cinema brasileiro naquele momento obedece a critérios bem mais amplos do que o costumeiro).
 
Além das fronteiras geográficas, Cinema Novo também explora as fronteiras temporais, filiando o movimento a pais mais distantes do cinema nacional, como Humberto Mauro (de quem Glauber fala dentro do filme), Mário Peixoto e Alberto Cavalcanti. Aí está um dos sinais da extrema inteligência e sensibilidade do documentário, construído por uma extensa pesquisa – há várias imagens de arquivos brasileiros e internacionais, como o INA francês e a TV alemã (de onde proveio um material só exibido anteriormente uma vez, produzido pelo crítico Peter Schumann) – e por uma montagem ao mesmo tempo densa e enxuta, assinada por Renato Vallone.
Essa montagem, afinal define o caráter não só do documentário, como do próprio movimento. Afinal, como lembra Eryk, “a grande força do Cinema Novo é a integração entre os filmes, a forma como dialogavam e interagiam dentro da diversidade. Ou seja, um diálogo generoso”. A própria realização do documentário repetiu essa fraternidade, visto que foi coproduzido pelas famílias de diversos cinemanovistas, várias delas cedendo gratuitamente ou por preços mínimos as imagens que o povoam.
Agora, o filme deve viajar pelos festivais (há vários convites) e depois ser lançado no Brasil, pela Vitrine.
 
 Poeta de ônibus
Paterson, novo filme do norte-americano Jim Jarmusch, pousou em Cannes com uma uma nota densa de sutileza e literal poesia – já que é esse o tema que impregna tudo em torno de Paterson, o protagonista interpretado com calor intimista por Adam Driver.
Motorista de ônibus que compartilha o nome da cidade em que nasceu e onde vive, Paterson é um fino observador do mundo à sua volta – só que, ao contrário dos anjos de Wim Wenders em Asas do Desejo, não é invisível (embora ninguém à sua volta pareça notá-lo). Ele escreve poemas num caderno, onde anota pensamentos e especula em torno das mínimas coisas de seu cotidiano. Uma simples caixa de fósforos, por exemplo.
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 Seu mundo parece estreito: as ruas da pequena Paterson, uma casinha modesta e rosada, que compartilha com a mulher Laura (Goshifteh Farahani) e o cachorro, Marvin (que é um personagem com função na história e, sem ironia, ótimo intérprete, candidatíssimo à curiosa Palm Dog, premiação extraoficial em Cannes).
O filme é conduzido com rigor, retratando um cotidiano que se repete, aparentemente sem mudanças. Todo dia Paterson faz tudo igual, Laura nem tanto – mas as variações dela guardam uma certa afinidade interna, já que ela é obcecada por atividades artísticas e culinárias em torno de padrões em preto-e-branco.
A repetição permite aos poucos enxergar as brechas onde se insinua a grandeza da vida, por mais simples que pareça. A própria história da cidade de Paterson, afinal, não é tão insignificante, já que ali nasceram ou viveram poetas e atores, como William Carlos Williams, Allen Ginsberg e Lou Costello (da dupla Abbott & Costello), entre muitos outros. Um mural no bar, frequentado por Paterson toda noite, guarda as pegadas dessas célebres passagens pela cidade.
Habilmente, Jarmusch provoca nossas expectativas viciadas como espectadores. Cria pistas que levam a temer grandes tragédias e violência. E aí, também, nos lembra de que tantos outros caminhos se sucedem diariamente, ao largo dessa espetaculosidade enganosa que o próprio cinema, em geral, estimula. E aí está o grande prazer de descobrir este filme sutilmente grandioso.
 
 Memória do racismo
Loving, outro concorrente yankee à Palma, este dirigido por Jeff Nichols (Amor Bandido), viajou no tempo em busca de uma história real de luta pelos direitos civis, que começou no final dos anos 1950. Na Virgínia sulista rural, um casal, formado pelo branco Loving (Joel Edgerton) e a negra Mildred (Ruth Negga) sofre perseguição e prisão mais de uma vez apenas porque querem formar uma família. Mesmo casados (em Washington, fora daquele estado), eles não podem permanecer ali.
 
Os dois são pessoas simples, tragados num momento de virada histórica. E o caso deles é cristalino para servir de exemplo no momento em que os EUA se incendeia na luta pelos direitos civis, nos  anos1950, virada dos 1960. O filme acerta quando procura capturar a atmosfera doméstica da família Loving (um nome real e que parece predestinado). Eles são pessoas simples, não militantes – estes estão à sua volta, tentando ajudá-los, mas tendo sua agenda política própria. Mas os Loving não se deixam manipular. São íntegros demais para servirem de garotos de propaganda de qualquer causa.
 
 Loving, o filme, tem uma narrativa clássica, sóbria, em que inexiste a intenção de reinventar a arte cinematográfica, mas sim a de fazer justiça aos seus protagonistas. Isto, Nichols certamente conseguiu.
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