CANNES 2016

Sessão do brasileiro "Aquarius" inclui protesto contra o golpe

Neusa Barbosa, de Cannes
Cannes – Concorrente brasileiro à Palma de Ouro, Aquarius, segundo filme de Kleber Mendonça Filho, explora com perícia as contradições da classe média brasileira, e também mecanismos atávicos de dominação e convivência social, a partir do microcosmo do Recife. Conta, para isso, com uma extraordinária heroína, Clara, uma ex-crítica musical e escritora madura, interpretada com brio por Sonia Braga.
 
 
Na sessão oficial, nesta tarde de terça (17), houve igualmente manifestações da equipe do filme contra a ruptura democrática que se processa neste momento no Brasil. O diretor e toda a sua equipe ergueram pequenos cartazes de papel denunciando, em inglês, que “o Brasil vive um golpe de Estado”. Dentro da sala Lumière, mais brasileiros presentes (há vários representantes da indústria do cinema, produtores, diretores, etc.) ergueram outros cartazes e até uma faixa, “Parem o golpe no Brasil”. A plateia, internacional, aplaudiu efusivamente.
 
 Sem patriotada, deu orgulho ver na tela a crônica demolidora que se desenha na tela a partir de um conflito básico: o pequeno e antigo prédio onde Clara mora há décadas, onde viveu parte fundamental de sua história, na praia da Boa Viagem, foi inteiramente comprado por uma construtora, que se prepara para demoli-lo, substituindo-o pelos imensos e horrorosos espigões que infestam, como pragas, toda a faixa à beira-mar da capital pernambucana, a ponto de impor enormes sombras na praia, a partir do começo da tarde.
 
Clara, no entanto, não vende seu apartamento. Resiste a todas as investidas: aumento da oferta monetária, tentativa de cooptação de seus filhos e, finalmente, a estratégia do incômodo, do assédio. No apartamento vazio acima do seu, fazem uma “festa”, com muito barulho, mulheres, bebida, impedindo a única moradora de dormir. Num outro dia, o prédio é invadido por evangélicos, que ali realizam um culto e ocupam as escadas e o estacionamento.
 
 
A ideia é pressionar Clara para sentir-se uma intrusa, ter medo e partir, satisfazendo a expectativa geral. Mas esse notável personagem feminino foi desenhado com tanta sofisticação, tantas nuances, que o filme, afinal, fala de muitas outras coisas além da batalha central. Entre elas, inclusive, o papel das mulheres como Clara, ou uma parente, a tia Lúcia (Thaia Perez), na expansão das liberdades na vida e no mundo. São mulheres que não se conformam aos papeis socialmente estabelecidos, sexuais inclusive (o filme toca no sensível ponto da vida sexual das mulheres maduras, inclusive), que estão sempre empurrando fronteiras. Quem não gostar, que as enfrente.
Num filme tão rico em camadas, Aquarius pode ser lido também como uma crônica familiar e social do País. Quer se conheça ou não bem o Brasil, é possível enxergar as nuances das relações sociais entre patroas e empregadas (numa chave diferente da de Que Horas Ela Volta?, mas igualmente complexa); as enormes diferenças sociais e especialmente a arrogância de um certo tipo de elite, representada pelos donos da construtora. Há uma conversa, em particular, entre Clara e o neto do dono da construtora, Diego (Humberto Carrão), em que isso é mostrado à perfeição, quando ele fala da “pele morena” dela e do quanto ele imagina que a família dela “deve ter batalhado para chegar onde chegou”. Um retrato dessa polarização que o Brasil enfrenta há muito, ainda sem solução à vista. Por isso, um filme como Aquarius é tão importante.
ASSISTA AO TRAILER
 
Drama no feminino
Voltando aos seus melodramas de acento feminino, Pedro Almodóvar entregou Julieta, seu novo concorrente à Palma de Ouro – pela quinta vez. Certamente, é um passo adiante dos últimos e insatisfatórios A Pele que Habito e Amantes Passageiros, aproximando-se mais da chave de Amores Partidos. Ou seja, não se espere nenhuma gota daquele humor ferino e descabelado que fez a fama do diretor espanhol, talvez pelo desenraizamento, por não se tratar de uma história original e sim de uma adaptação, como sempre, muito livre, de conto da canadense Alice Munro, prêmio Nobel de Literatura.
 
 Há muito do universo Almodóvar, no entanto, para garantir o interesse – até a volta da impagável Rossy de Palma, interpretando Marian, uma empregada sinistra, digna de figurar em qualquer terror vitoriano inglês. Ela insere uma nota sempre ligeiramente atemorizante e uma nesga de humor negro. No mais, não se encontra espaço para ironia. Outro rosto conhecido de volta é do ator argentino Dario Grandinetti (Fale com Ela).
A protagonista, Julieta, é interpretada por duas atrizes. Jovem, pela belíssima Adriana Ugarte, que vive a fase em que esta professora de mitologia grega conhece num trem um atraente pescador, Xoan (Daniel Grao). Ele é casado e sua mulher está em coma. Mas Julieta e ele vivem uma noite de amor no trem, que sofreu uma brusca parada devido ao suicídio de um homem.
 
 Desse envolvimento, nasce uma filha, Antía (Blanca Parés, na adolescência), que está no centro do grande drama da vida da Julieta madura (Emma Suárez). Anos depois de uma tragédia familiar, Antía sumiu da vida da mãe, que entrou em depressão. Quando finalmente ela está encontrando um novo eixo e possibilidade de uma nova vida, reencontra uma amiga de infância da filha e o drama recomeça.
É tudo muito elegante, bem filmado – Almodóvar é um diretor refinado. Mas, ao mesmo tempo, dramaticamente, parece faltar algo. Uma história desta densidade cria expectativas. O tempo todo parece que algo vai acontecer e não acontece. Há uma certa frustração ao final, especialmente porque as expectativas são sempre altíssimas, em se tratando deste diretor esplêndido, que já assinou Carne Trêmula, Tudo sobre minha mãe, Fale com Ela e tantos outros títulos que compõem o melhor de nossa memória cinematográfica.
 
Panama Papers
Na concorrida coletiva de imprensa, Almodóvar recusou-se a dar uma definição precisa do filme – foi perguntado se era um “metadrama”. Ele lembrou de Caetano Veloso, que uma vez lhe disse que, na verdade, ele era um “diretor brasileiro”, uma definição que o agrada. Na verdade, para Almodóvar, tudo tem a ver com a “natureza barroca” do melodrama em si. E lembrou que seus filmes já foram classificados por um crítico, como “almodramas”. Mas ele disse não saber se Julieta cabe mesmo nesta definição. Apenas procurou servir ao que a história pedia e isto era um tom mais sombrio.
O tempo ameaçou fechar na coletiva no momento em que um jornalista levantou o caso dos “Panama Papers”, em que os irmãos Almodóvar são citados. Depois da tentativa do coordenador da coletiva de evitar o tema e que ali se trataria apenas do filme, o próprio diretor resolveu responder e com uma tirada irônica. Criticou a imprensa espanhola por ter colocado a ele e seu irmão e produtor, Agustín, como “protagonistas” naquele escândalo, como se fossem os maiores beneficiários. “Na verdade, se os Panama Papers fossem um filme, nós nem mesmo apareceríamos nos créditos”.
 
 Fantasma picareta
A maior decepção do festival até aqui foi o renomado diretor francês Olivier Assayas, cujo Personal Shopper, um drameco de suspense que recebeu, com méritos, a maior vaia da sessão de imprensa até este momento.
A decepção é tanto maior, como no caso de Almodóvar, pelo confronto com o passado. Como aceitar que Assayas, que nos entregou os belos Depois de Maio, Horas de Verão e a série Carlos, o Chacal possa ter escrito uma história assim inconsistente, cheia de furos, francamente ridícula e constrangedora?
Resumo da ópera: Maureen (Kristen Stewart) é uma garota americana vivendo em Paris. Ela vive obcecada pela possibilidade de um contato espírita com o irmão gêmeo, Lewis, com quem ela compartilhava uma deficiência cardíaca genética e uma promessa: quem morresse primeiro mandaria um sinal do além ao outro, já que ambos eram médiuns.
 
 Maureen sobrevive como personal shopper de uma figura midiática, transportando para cá e para lá nas ruas de Paris, numa simples Vespa, sacolas e sacolas de roupas, sapatos, acessórios e jóias caríssimas. Outro absurdo é o figurino dela, que levantaria suspeitas de qualquer segurança desses locais caríssimos que ela frequenta.
Maureen passa noites na casa do irmão morto, sozinha, tentando contato. Numa noite, um fantasma aparece (efeito especial trash, aliás). Mas é mesmo Lewis ou outra figura do além ? Não se sabe. O que é certo é que, numa viagem a Londres, no Eurostar, Maureen começa a receber mensagens de um desconhecido no celular que lhe dão medo. Um fantasma que usa smartfone?
Enfim, daí para a frente nada melhora. Será que Kristen Stewart sentiu saudade de uma história sobrenatural depois do ciclo Crepúsculo ? A Assayas, definitivamente, esta incursão na área foi realmente péssima. Outra pergunta que não quer calar: o que este filme está fazendo na competição ? Patriotada, parte 2.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança