CANNES 2016

Liberdade na ordem do dia, em documentários sobre Assange e Iggy Pop

Neusa Barbosa, de Cannes

 Cannes – A liberdade de expressão esteve na ordem do dia nesta quinta (19), com a première do documentário Risk, da norte-americana Laura Poitras, na Quinzena dos Realizadores. Dona de um Oscar por outro documentário, Cidadão quatro, que retrata a trajetória do ativista Edward Snowden, desta vez Laura seguiu o rumo de outra pedra no sapato dos órgãos de segurança internacionais, o editor do Wikileaks, Julian Assange.
Poitras é uma documentarista refinada e criteriosa, que acompanha Assange desde 2011 – quando acompanha um contato dele com o Departamento de Estado, oferecendo sua ajuda ao informar o governo norte-americano de que inúmeros arquivos não filtrados estavam para ser divulgados na rede por um importante veículo de imprensa, que tivera acesso ao seu código de criptografia. A conversa, por intermédio de uma das mais importantes assessoras de Assange, Sarah Harrison, e ele mesmo, como se pode imaginar, é infrutífera. Mas a perseguição do governo dos EUA contra ele se acentua precisamente depois deste episódio.
Risk reconstitui momentos-chave da história do criador do Wikileaks e de alguns de seus principais colaboradores, como Jacob Appelbaum, traçando suas iniciativas ao redor do mundo e as duras consequências pessoais sofridas por cada um deles. Assange está, há cinco anos e meio, confinado na embaixada equatoriana em Londres, permanentemente cercada de policiais, sem que ele obtenha permissão de deslocar-se para o Equador, que lhe concedeu asilo político (e isto apesar de pedido formal da ONU para sua liberação, tanto junto à Inglaterra, como à Suécia, que pedira a extradição dele para depor num caso de assédio sexual, em que não foi formalizada nenhuma acusação até hoje).
 
 Da mesma forma, por suas constantes denúncias sobre os mecanismos de vigilância que hoje invadem a privacidade das pessoas na internet ao redor do mundo, Jacob Appelbaum e Sarah Harrison faz três anos não podem voltar aos seus respectivos países – EUA e Inglaterra, respectivamente – por correrem o risco de prisão e constrangimentos (o que vem acontecendo, por exemplo, com a família de Appelbaum, como ele denunciou aqui em Cannes, numa conversa após a sessão do filme).Ambos vivem na Alemanha.
A própria diretora, há anos, sofre perseguição nos EUA por conta do simples exercício de seu trabalho. Após a sessão do filme, ela lembrou que, desde 2006, quando tentou realizar um documentário sobre o Iraque, entrou numa lista de vigilância do governo norte-americano. Por conta disso, ela soube que existe contra ela uma investigação secreta por supostas ligações com terrorismo, que continua, e sobre a qual ela vem tentando, sem êxito, obter informações. Nada disso a intimida: “Isso faz parte do meu cotidiano e da rotina do meu trabalho”.
 
 Iggy Pop
Outro documentário, fora de competição – e que será a concorridíssima atração da sessão da meia-noite de hoje (19) – jogou numa chave muito mais pop: Gimme Danger, em que Jim Jarmusch (que está na competição com o excelente Paterson), recupera a palpitante história da banda The Stooges, em que estreou Iggy Pop, e que viveu seu momento de maior brilho no início dos anos 1970.
Não há nada de propriamente anticonvencional na linguagem deste documentário, exceto seu protagonista – que é visto completamente à vontade diante da câmera, lembrando episódios engraçados e dramáticos de sua vida em Ann Arbor, Michigan, onde nasceu, e sua interação com outros membros da banda, da qual três continuam vivos (ele, Scott Asheton e o último baixista da banda, James Williamson, que curiosamente teve uma carreira nos últimos 30 anos como executivo da indústria de tecnologia do Sillicon Valley).
 
 É um recurso esperto, no entanto, reconstituir alguns desses episódios usando animações. Mas o melhor de tudo é mesmo a música da banda, inovadora e da melhor qualidade, e traçar a sua influência sobre vários outros artistas e grupos que vieram depois. Mas talvez o melhor de tudo seja o filme traçar a ascensão, queda e revival da banda, que se reuniu novamente no final dos anos 2000 e, em 2010, entrou, tardia mas justamente, no Rock’n Roll Hall of Fame (o documentário apresenta a memorável fala de Iggy na ocasião).
 
 Egotrip palavrosa
Depois de dar sinais de amadurecimento em seu último filme, Mommy – que venceu um Prêmio do Júri em Cannes 2014 -, o jovem diretor canadense Xavier Dolan deu alguns passos atrás e recaiu no blábláblá palavroso, excessivo e vazio em novo concorrente à Palma, Juste la fin du monde.
Baseado numa peça de teatro de Jean-Luc Lagarce, Dolan compõe a crônica histérica de uma família disfuncional, à qual volta, depois de 12 anos, o escritor Louis (Gaspard Ulliel). A intenção dele é contar à família que ele está morrendo.
 
 O grande foco da história está na falta de comunicação de um clã em constante ataque de nervos, formado pela mãe de Louis, Martine (Nathalie Baye quase irreconhecível com um cabelo preto de Morticia Adams e unhas azuis), e seus filhos Antoine (Vincent Cassel) e Suzanne (Léa Seydoux), e a mulher de Antoine, Catherine (Marion Cotillard).
Na ampla casa burguesa, prepara-se um grande almoço para o filho pródigo retornado. Mas as discussões se sucedem, por motivos gratuitos, que expõem realmente a falta de afinidade, afeto, respeito, interesse mútuo. É um filme que se pretende ácido, ferino, mas em que muito se põe a perder pela mão barroca deste jovem diretor egocêntrico, amante dos momentos videoclipe. Há muito excesso e irritação, mas falta respiração à história, apesar de tantos bons atores.
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 Curtas brasileiros
Num ano em que o Brasil está especialmente bem representado em Cannes, com um longa na competição (Aquarius) e um documentário na seção Cannes Classics (Cinema Novo), há também um curta nacional em cada uma das principais mostras.
Na competição de curtas-metragens (que também vale Palma de Ouro), o concorrente brasileiro é A moça que dançou com o diabo, de João Paulo Miranda Maria, que explora, com um toque fantástico, a dualidade na vida de uma garota, dividida entre as pressões fundamentalistas da família evangélica e seus próprios desejos de diversão e prazer. A história é inspirada em uma lenda narrada na cidade de São Carlos e que ainda é lembrada pelos moradores mais antigos.
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 Na Semana da Crítica – que tem premiação específica -, o candidato brasileiro é o curta O delírio é a redenção dos aflitos, de Fellipe Fernandez. A história cobre a angústia de uma jovem balconista e mãe (Nash Laila, de Tatuagem), que tem que mudar-se urgentemente de um prédio condenado, mas necessita de um carro emprestado. Na noite em que deve ocorrer a mudança, o marido (Everton Gomes) demora e ela ouve um barulho ameaçador vindo das paredes rachadas. Sua reação, fugindo com a filha e envolvendo uma loja de colchões, é um comentário social e humano complexo e criativo.
 
 Na Quinzena dos Realizadores, o representante brasileiro é o curta documental Abigail, das diretoras Isabel Penoni e Valentina Homem, que reconstitui a história de Abigail Lopes (1923-2011). Mãe de santo no Rio de Janeiro na velhice, Abigail teve um passado de pioneira sertanista junto aos Xavantes, ao lado de Francisco Meirelles, que foi seu companheiro e com quem teve filhos. Trechos de arquivo, de filmes dessa atuação de Abigail junto aos índios, formam um paralelo eloquente com o aspecto decadente da casa em que ela viveu seus últimos dias.

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