CANNES 2016

Cannes 2016 investe na pluralidade e tem brasileiro na luta pela Palma

Neusa Barbosa, de Cannes

 Depois de oito anos, um brasileiro, Kleber Mendonça Filho e seu Aquarius (foto ao lado), volta à competição principal do festival mais famoso do mundo, concorrendo com nomes como Ken Loach, Pedro Almodóvar, Bruno Dumont e os irmãos Dardenne. Mas o cardápio do ano parece mais variado e rico, com clássicos, especiais e documentários sobre o Cinema Novo e Iggy Pop.
 
Tentando fazer o mundo esquecer a patriotada da edição de 2015 – em que cinco filmes franceses, e não da maior qualidade, concorreram à Palma e um deles (Dheepan, de Jacques Audiard, nenhuma obra-prima apesar das credenciais do diretor) a levou -, a seleção de Cannes 2016 parece mais variada e recheada de grandes nomes, desses capazes de entusiasmar qualquer fã de cinema: Pedro Almodóvar, irmãos Dardenne, Bruno Dumont, Brillante Mendoza, Jim Jarmusch, Ken Loach, Park Chan-wook, Andrea Arnold, Asghar Farhadi, Cristi Puiu, até Sean Penn.
 
 Verdade que há quatro franceses – Olivier Assayas, Bruno Dumont, Nicole Garcia e Alain Guiraudie -, mas espera-se que façam mais bonito do que seus antecessores do ano passado. E um brasileiro, Kleber Mendonça Filho, um dos melhores nomes do recente cinema pernambucano, competindo pelo ouro com Aquarius, com a estrela Sonia Braga, voltando à Croisette depois de 35 anos (a última vez foi em 1981, com Eu te amo, de Arnaldo Jabor).
 
Tudo parece conspirar para uma edição muito boa do festival, a começar pelo filme de abertura, no dia 11 de maio, o novo Woody Allen, Café Society (foto acima), que conta a história de um jovem (Jesse Eisenberg) que chega à Hollywood dos anos 1930 disposto a inscrever seu nome na fábrica de sonhos, mas se apaixona pelo caminho – Kristen Stewart está na parada, num elenco que inclui Steve Carell, Parker Posey e Judy Davis.  
 
Na principal seção paralela, Un Certain Regard (com premiação própria), há uma aposta séria nos novos realizadores. Nada menos de sete estreantes foram selecionados aqui, dois da França, um da Argentina, um de Israel, um da Finlândia, outro da Romênia, outro dos EUA. Um filme da rara cinematografia egípcia, Eshtebak (Clash), de Mohamed Diab, foi escolhido para a sessão de abertura.
 
 Todos eles figuram ao lado de nomes mais conhecidos, como o japonês Hirokazu Kore-eda (comparecendo com After the storm - foto ao lado), o israelense Eran Kolirin (de A Banda), trazendo seu novo Me’Ever Laharim Vehagvaot, o italiano Stefano Mordini, com o filme de gângster Pericle, Il Nero, protagonizado pelo conhecido galã Riccardo Scamarcio, além do britânico David Mackenzie, à frente da produção norte-americana Hell or High Water, com elenco integrado por Chris Pine, Ben Foster e Jeff Bridges.
 
 Mais estrelas
 
Fora da competição, não faltam nomes de prestígio para garantir presenças no tapete vermelho, caso de Jodie Foster, exibindo seu novo trabalho na direção, Money Monster (foto ao lado), um suspense dramático sobre um guru televisivo das finanças sequestrado e ameaçado de morte diante das câmeras, estrelado por George Clooney e Julia Roberts; e Steven Spielberg, com seu novo trabalho na Disney, o filme infanto-juvenil O Bom Gigante Amigo, baseado em Roald Dahl, e estrelado pela menina Ruby Barnhill, ao lado de Rebecca Hall e Mark Rylance (o Oscar de coadjuvante do ano, por outro filme de Spielberg, Ponte dos Espiões).
 
O legado pop recebe uma altíssima homenagem em Gimme Danger, de Jim Jarmusch, documentário sobre a banda punk The Stooges que certamente garantirá a sessão da meia-noite mais concorrida do festival, com presença confirmada do astro Iggy Pop.
 
Nas sessões especiais, a última atração confirmada foi a co-produção EUA/Panamá Manos de piedra (Hands of Stone), a cinebiografia do boxeador panamenho Roberto Duran, ou “Mãos de pedra” (Edgar Ramirez), e seu não menos lendário treinador, Ray Arcel – interpretado por Robert De Niro, que será homenageado no festival, na sessão do filme, no próximo dia 16 de maio.
 
Outros especiais são o novo filme do cambodjano Rithy Panh, Exil, e do tunisiano Karim Dridi, Le Chouf.
 
Clássicos de sempre
A seção Cannes Classics, verdadeiro festival paralelo, será mais uma vez um luxo para os olhos. Traz novidades, como o alentado documentário de 3h15 de Bertrand Tavernier sobre o cinema francês, Voyage à travers le cinéma français. Cópias novas, restauradas, de Confusões à italiana, de Pietro Germi e Um homem, uma mulher, de Claude Lelouch – que dividiram a Palma de Ouro 1966 -, Memórias do Subdesenvolvimento, de Tomás Gutiérres Alea (1968), Retorno a Howard End, de James Ivory (1992), os capítulos 5 (Não matarás) e 6 (Não pecarás contra a castidade) do sublime Decálogo (1989), de Krzysztof Kieslowski, Solaris, de Andrei Tarkovsky (1972), e Contos da Lua Vaga, de Kenji Mizoguchi (1953), entre muitos outros.
 
Acompanhando a Leçon de Cinéma, que este ano será dada pelo realizador norte-americano William Friedkin, no dia 18 de maio, será mostrada uma cópia restaurada de sua aventura de 1977, Comboio do medo, com Roy Scheider, Bruno Cremer e Francisco Rabal.
 
Um espaço especial é dedicado, nesta seção, aos documentários. De um lado, serão exibidas cópias restauradas de alguns deles, caso de Hospital, do norte-americano Frederick Wiseman (1969), e Faits divers, do francês Raymond Depardon (83), em sessões com a presença de seus veteranos realizadores, Wiseman com 86 anos, Depardon, com 73 (completa 74 em julho).
 
Há todo um segmento dedicado aos novos documentários sobre cinema, da qual faz parte o brasileiro Cinema Novo, em que o diretor Eryk Rocha homenageia de forma singular toda a geração de que fez parte seu pai, Glauber Rocha, ao lado de Joaquim Pedro de Andrade, Nelson Pereira dos Santos e tantos outros, responsáveis por um dos momentos mais luminosos do cinema brasileiro de todos os tempos.
 
Entre estes novos, há também a produção francesa Et la femme créa Hollywood, das diretoras Clara e Julia Kuperberg, que traça o perfil de várias mulheres pioneiras do cinema, muitas injustamente esquecidas, entre as quais se incluem Lois Weber, Mary Pickford e Dorothy Arzner.
O festival estende-se entre 11 e 22 de maio. Haja fôlego!

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