CANNES 2016

"Café Society" de Woody Allen, ilumina Cannes num ano tenso com a segurança

Neusa Barbosa, de Cannes
 Cannes – Se um filme de abertura pode – e deve – ser um sinal de uma boa edição, Café Society, de Woody Allen, deu este sinal. Comédia deliciosa e inteligente, banhada na luz envolvente de Vittorio Storaro e com um Jesse Eisenberg que encarna a melhor persona do diretor em cena em muito tempo, o filme inicial caiu como um bálsamo. E isto numa atmosfera em que os procedimentos de segurança, por conta da ameaça terrorista, tornam o cotidiano dos funcionários, jornalistas, convidados e participantes do festival cada vez mais estressante.
 
 Aos 80 anos, Allen – que faz a narração dentro do filme -, pode mergulhar num baú de lembranças, inclusive pessoais, para sintonizar o passado dourado de Hollywood dos anos 30, aí injetando sua habitual ironia para desmontar o endeusamento desse passado. Assim como fez em Meia-Noite em Paris e sua impagável viagem no tempo a bordo de um calhambeque, que conduzia aos personagens da Paris dos anos 1920, com Scott e Zelda Fitzgerald, Gertrude Stein, Pablo Picasso e Luis Buñuel.
 
A família judaica está novamente no centro da história, desta vez, o clã Dorfman. Um clã remediado, de classe média baixa, espelho da própria família de Allen. Os pais, sobretudo, lembram bastante os pais reais do diretor, assim como as relações entre irmãos (a irmã de Allen, Letty Aronson, é sua produtora há tempos).
 
 Bobby (Eisenberg) é o irmão caçula, que abandona o trabalho de joalheiro com o pai, no Brooklyn nova-iorquino, para sonhar com uma carreira na indústria do cinema, ao lado do tio materno, Phil (Steve Carell, no papel que era para ser de Bruce Willis), um agente rico e de sucesso. Bobby é o próprio jovem ingênuo, cheio de sonhos, que o contato com a realidade vai esculpindo aos poucos e à sua revelia. Sua guia inicial nesse ambiente é Veronica, ou Vonnie (Kristen Stewart), a secretária que o tio designa para aclimatá-lo na selva do cinema, ensinando-lhe os nomes das feras.
 
Mas Bobby apaixona-se por ela, sem imaginar que ela é amante do tio, casado há 25 anos. Ambos os homens vivem esse triângulo amoroso sem saber, até que há um momento em que tem que ocorrer uma decisão dela. Isto projeta uma volta da história a Nova York, onde cresce a participação do irmão gângster de Bobby, Ben (Corey Stoll, que interpretou Ernest Hemingway em Meia-noite em Paris).
 
 A participação de Ben, um gângster que despacha os inimigos e quem quer que incomode aos seus parentes (o caso do vizinho da irmã é típico), e do cunhado, Leonard (Stephen Kunken), um intelectual comunista obcecado pela civilidade e a ética, colocam no centro do filme uma discussão mais profunda do que mera comédia de superfície e adultério. Se quase sempre os filmes de Allen são muito mais do que isso, certamente este é o ainda mais, refletindo até uma polarização que há no mundo e que Allen nos lembra de que não é nova.
Café Society – que está fora da competição (Allen já é hors concours honorário) - é um prazer para os olhos, graças à elegância do diretor de fotografia italiano, o premiado Storaro, e para os ouvidos, por conta dos diálogos espertos de Allen, aqui em sua melhor forma. O humor negro e a habitual nota ferina diante do judaísmo de que ele faz parte e do cristianismo que o circunda por ser norte-americano são absolutamente impagáveis. Quem assistiu essa 1h36 de puro prazer sente que ganhou esse tempo a mais de vida. Culturalmente, com certeza.

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