CANNES 2016

Ken Loach vence sua segunda Palma com o humanista "I, Daniel Blake"

Neusa Barbosa, de Cannes
 Cannes – No principal, prevaleceu o humanismo da melhor qualidade. O veterano cineasta inglês Ken Loach arrebatou sua segunda Palma de Ouro (a primeira foi Ventos da Liberdade, em 2006) com um novo e vibrante libelo a favor do ser humano: I, Daniel Blake, que acompanha o pesadelo de um carpinteiro de 59 anos, interpretado por Dave Johns, às voltas com a doença e as pressões de uma burocracia cruel, submetendo-o ao inferno para continuar a receber sua pensão.
No discurso de aceitação, Loach, 79 anos (completa 80 em junho), que ano passado tinha anunciado sua aposentadoria (felizmente desistiu), como sempre, foi firme na defesa dos valores que são transparentes em todos os seus filmes: “O mundo em que vivemos é perigoso. As ideias neoliberais ameaçam nos levar à catástrofe, jogando na miséria milhões de pessoas, , como na Grécia e em Portugal, enquanto uma minoria enriquece. Devemos passar uma mensagem de esperança: um outro mundo é possível e necessário”.
 
 Desvio de rota
Mas a noite teve também más notícias. O jovem canadense Xavier Dolan levou para casa seu segundo Grande Prêmio do Júri com o palavroso e artificial Juste la fin du monde. E, como na primeira vitória (com Mommy, em 2014, bem melhor do que este), o mais notório enfant terrible do cinema mundial fez um longo discurso, em lágrimas.
 
Bem pior foi a absurda divisão do importante prêmio de direção entre o competente romeno Cristian Mungiu e seu bom drama Baccalauréat e o francês Olivier Assayas – diretor de talento mas que, desta vez, entregou um dos filmes mais ridículos do festival, Personal Shopper, historinha sofrível de fantasmas em cenário fashion comn Kristen Stewart. Foi a patriotada da 69ª. edição.
 
  A melhor atriz foi a filipina Jaclyn Jose, protagonista do drama Ma’Rosa, de Brillante Mendoza – derrotando a brasileira Sonia Braga, protagonista do concorrente brasileiro Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, que obteve ótimas críticas, teve repercussão, inclusive política, por aqui, mas não levou prêmios – em compensação, ganhou uma vitrine internacional invejável e inicia agora uma carreira pelo mundo, com distribuição assegurada em 18 países até o momento.
 
O único prêmio para um filme brasileiro foi para o documentário Cinema Novo, do Eryk Rocha, vencedor do prêmio L’Oeil d’Or e que foi exibido na seção Cannes Classics. O curta brasileiro na competição do formato, A moça que dançou com o diabo, de João Paulo Miranda Maria ficou com uma menção especial.
 
O bom drama iraniano Forushande (The Salesman) ganhou dois prêmios merecidos – melhor ator para Shahab Hossein e melhor roteiro (de autoria do diretor, Asghar Farhadi).
 
A inglesa Andrea Arnold venceu seu terceiro Prêmio do Júri para seu irregular road movie filmado nos EUA, American Honey. Ela ganhou antes em 2006, com Red Road, e de novo em 2009, com Fish Tank.
 
A lista de esnobados é longa e inclui filmes muito bons, como Paterson, de Jim Jarmusch; Elle, de Paul Verhoeven; e SieraNevada, de Cristi Puiu. O Grande Prêmio dado da Dolan caberia muito bem na mão de qualquer um deles. O júri presidido por George Miller fez justiça na Palma mas cometeu alguns absurdos ao longo do caminho.

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Comentários:
  • 23/05/2016 - 10h41 - Por Paulo Olá. Dolan levou o Prêmio do Júri pelo ótimo "Mommy"; o Grande Prêmio foi para o fraco "As Maravilhas".
  • 23/05/2016 - 13h21 - Por Gildo Araújo "Aquarius" foi coproduzido pela Globo Filmes.

    E Kleber Mendonça mandou essa: "Como ato de democracia, a Globo Filmes apanhou um filme como "Aquarius". Quando "O Som ao Redor" passou na TV Globo, acho que foi muito bom para a cultura.
    E acho muito bom que "Aquarius" um dia passe na Globo e que seja visto por muita gente".

    Ou seja, para a turma raivosa do PT, Mendonça traiu o movimento.
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