CINE PE 2016

Cultura nordestina domina curtas e longas do primeiro dia do Cine PE

Neusa Barbosa, do Recife

 Recife – Na noite inicial de sua 20ª edição, o Cine PE conseguiu o feito de que os dois curtas exibidos, os documentais pernambucanos Não tem só mandacaru (foto ao lado), de Tauana Uchôa, e Paulo Bruscky, de Walter Carvalho, tivessem tanta ou mais substância e material para discussão do que o longa Por trás do céu, de Caio Soh (SP).
 
Não faltaram inclusive razões para preferir os curtas ao longa, que remete a um Nordeste mítico/moderno, para contar a história de Aparecida (Nathalia Dill). Mulher do sertanejo Edivaldo (Emilio Orciolo Netto), que sofre uma violência do patrão deles (Léo Rosa), Aparecida foge com o marido para um local ermo, onde coleciona objetos e fantasias de atingir o céu, ou depois do céu, inclusive com o projeto mirabolante de construir um foguete. O outro habitante deste mundo é seu amigo, Micuim (Renato Góis), que participa da construção de uma espécie de universo paralelo ao realismo, não só a partir do vocabulário como das atitudes e do pensamento mágico. Como uma trupe teatral, eles se completam.
 
Como ressaltou o diretor e roteirista Caio Soh, o “estado de Aparecida é o sonho”. Para ele, ela não se deixou dominar pela violência sofrida (estupro), como aconteceu ao marido, humilhado e devastado pela ideia de vingança, ainda que não tenha perdido um milímetro da paixão que nutre pela mulher. Só que erigiu para ela um refúgio que virou uma espécie de prisão. Aparecida sonha em sair dali, conhecer outras pessoas e espaços, dos quais o céu é o símbolo.
 
Não é segredo para ninguém, inclusive o produtor Denis Feijão (que produziu o documentário Raul – o início, o fim e o meio, que atraiu cerca de 150.000 espectadores) que Por trás do céu é um filme de formato peculiar, um híbrido com uma dificuldade de definir seu gênero e seu público. Prova disso é que ainda não encontraram distribuidor, o que continua em negociação.
 
Na sessão em Recife, que foi a primeira pública do filme, o acolhimento, em todo caso, foi grande, talvez porque a plateia local se identificou com o universo e a linguagem nordestinos – que assumidamente reflete referências literárias do diretor paulista, que nunca antes havia visitado o sertão (o filme foi realizado no Lajedo do pai Mateus, na Paraíba). Por isso, sente-se uma ponta de artificialismo, como ocorreu com produções recentes em torno deste “neo-Nordeste visto de fora”, como Reza a Lenda, de Homero Olivetto.
 
Entre os artistas
Já os curtas pernambucanos tiveram total clareza no retrato de seus temas. Não tem só mandacaru, de Tauana Uchoa, apresenta-se, desde o título, como uma declaração de princípios, procurando revogar os estereótipos que cercam o Nordeste ao apresentar em riqueza de detalhes o universo musical em torno da cidade de São José do Egito.
 
Verdadeiro celeiro de poetas e repentistas, a cidade vibra em suas ruas cheias de jovens e também veteranos, sempre com um verso na boca. O curta registra ainda uma comemoração especial, pelo centenário de um dos mais famosos repentistas da região, Lourival Batista, o Louro do Pajeú, evento que atraiu à cidade inúmeros cantores e músicos, como Lirinha. Mas são muitos outros, famosos ou não, que desfilam diante da câmera, resgatando a vida que existe num lugar muito distante dos grandes centros e cuja cultura nada fica a lhes dever, antes tem sua feição e riqueza próprias.
 
 Em Paulo Bruscky (foto ao lado), Walter Carvalho encontra a forma ideal de representar esse artista plástico veterano. Em 26 minutos, criou um filme que é também uma obra em conjunto, em que Bruscky não só fala do que acredita e do que faz, como também constrói um trabalho com tinta numa tela de lycra que, por ser filmado, incorpora também um lado de performance.
 
Realização de um projeto acalentado há vários anos por Walter, Beto Brant e Cláudio Assis (que é produtor deste curta, parte de um projeto mais amplo sobre artistas recentemente aprovado num fundo setorial), Paulo Bruscky revela também uma riqueza visual cinematográfica exemplar, como se poderia esperar. Tudo o que se vê na tela, como o artista em duplo, falando consigo mesmo, por exemplo, não foi resultado de nenhuma pós-produção. Tudo foi obtido no set, através da colocação de duas câmeras, uma fixa, outra não (esta para os detalhes).
E as imagens que mostram Paulo indo para a frente num viaduto, enquanto as outras pessoas e mesmo os ônibus andam para trás, são, mais do que tudo, um sinal a mais de justa inquietação para os dias que correm no Brasil.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança