CINE PE 2016

No Cine PE, "O Prefeito" coloca em pauta vícios políticos do Brasil

Neusa Barbosa, do Recife

 Recife – Segundo longa concorrente, a produção carioca O Prefeito, de Bruno Safadi, conectou-se imediatamente com um país em transe com a fratura política. De maneira sutil, criativa e consistente – apesar de um orçamento guerrilheiro, micro, de apenas R$ 60.000,00 -, descreve a trajetória de um prefeito carioca (Nizo Neto), obcecado por planos mirabolantes, desde a destruição/construção de inúmeras paisagens do Rio até a separação da cidade do resto do País, constituindo-se em Estado independente.
 
Afastando-se de um tom naturalista e explorando caminhos que passam pela farsa e a alegoria, o filme remete sutilmente a Terra em Transe, de Glauber Rocha – este, uma obra-prima que sintetizou operisticamente os mecanismos de poder e dominação do Brasil que continuam, sob outras formas, até hoje. O próprio Safadi, num muito frutífero debate do filme na manhã de hoje, apontou, com precisão, o parentesco da situação brasileira, passada e presente, com a de O Leopardo, deLuchino Visconti – em que o nobre diz que tudo deve mudar para continuar exatamente igual.
 
Realizando aqui seu sexto longa, Safadi revela-se um cinéfilo apaixonado, tanto do cinema brasileiro, como do internacional – ele não vê a fronteira. Seu maior sonho é fazer muitos filmes, 30, 40, se puder. “Este é meu mais consistente projeto de vida”, afirma. E não se trata de nenhuma ideia descabida, já que há muito Safadi associou-se a Julio Bressane, uma parceria que ultrapassa 10 anos. Foi Bressane, aliás, quem produziu O Prefeito.
 
Mesmo não sendo realista, inúmeras pistas evidenciam o parentesco da história com o surreal cotidiano político do Brasil – em que a realidade, aliás, supera diariamente a mais tresloucada ficção, com o que concorda o diretor. A destruição permanente do Rio e o som das britadeiras incansáveis, num Rio que se desmonta para receber as Olimpíadas, em agosto, são imagens documentais, na verdade (no filme, o cais do porto em ruínas é o cenário recorrente).
 
Fugindo ao registro naturalista, em torno da figura deste prefeito falastrão, cuja prosódia remete ao registro radiofônico dos anos 1940 (o filme é repleto dessas referências sonoras, visuais e musicais), gira a Alma Errante (Djin Sganzerla), uma espécie de fantasma, de sonho, que incorpora várias mulheres míticas – Lilith, Cleópatra, Maria, Nadja (personagem de André Breton – e o aprofunda no delírio. Modesto no orçamento, o filme não o é no propósito, nem na realização. Constitui um saudável sopro de vida, de reflexão, de fruição. E, o que é melhor, de um jovem diretor que conhece o passado do cinema brasileiro e caminha a partir dele, indo à frente.
 
Suassuna
 
Não foi tão estimulante a segunda noite da competição, em termos dos curtas-metragens. Dirigido pelos jornalistas Houldine Nascimento e Wanderley Silva, o documental O imperador da pedra do reino (PE) revisita com um tanto de reverência a figura ímpar do escritor Ariano Suassuna – o que, em todo caso, é muito bem-vindo.
 
Já as três demais ficções da noite revelaram-se problemáticas. Faltou consistência e sobraram trancos no ritmo de Minha geladeira pensa que é um freezer (um nome bastante provocativo e promissor), de Pablo Polo. Na produção capixaba +1 Brasileiro, de Gustavo Moraes, a dramaturgia se revelou tosca, rasa e com um final edificante forçado, num filme que incorpora o musical a partir da figura de um taxista viúvo em crise econômica (Charles Fricks, o premiado ator do monólogo O Filho Eterno).
 
Descompasso entre forma (estimulante) e conteúdo (confuso) foi o principal problema de This is not a song of hope, de Daniel Aragão (diretor do longa Boa sorte, meu amor). Como naquele longa, transparecem algumas obsessões inquietantes do diretor (como uma aparente misoginia), que ficam a pedir um burilamento maior. Figura polêmica em Recife, Aragão no momento está nos EUA, deixando atrás de si uma série de disputas com ex-amigos do círculo cinematográfico local.

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