CINE PE 2016

No Cine PE, longa "Guerra do Paraguay" discute polarização e pacifismo

Neusa Barbosa, do Recife

No Cine PE, longa "Guerra do Paraguay" discute polarização e pacifismo
Recife – Terceiro longa concorrente, Guerra do Paraguay, de Luiz Rosemberg Filho (RJ), traz à tona um cinema inventivo, com raízes fincadas no passado, mas, como toda obra capaz de dialogar acima do tempo, finamente certeira e contemporânea. Nada de estranhar no trabalho de um cineasta veterano, cuja obra, em que se incluem Jardim de espumas (71), Crônicas de um industrial (78) e O santo e a vedete (82), dialogou sempre com a procura de novos caminhos, valendo-lhe enormes problemas com a censura da ditadura militar.
 
Filmado todo em preto-e-branco, em planos-sequência, o filme começa com uma frase de Mário de Andrade (o passado é lição para meditar, não repetir) e dedicatória a Stanley Kubrick (Dr. Fantástico) e Jean-Luc Godard (Os Carabineiros). Assim, anuncia desde logo sua filiação a um cinema sem medo de explorações além dos rumos confortáveis.
 
Com roteiro assinado também pelo próprio Rosemberg, Guerra do Paraguay declara um acento fortemente teatral, o que implica diálogos mais longos e elaborados. O primeiro personagem é um fantasma de soldado paraguaio (Chico Díaz), cujos ferimentos evocam o massacre realizado em seu país pela guerra vencida pela tríplice aliança, da qual fez parte o Brasil (além do Uruguai e Argentina), no século 19.
 
Soldado brasileiro que anuncia, solitário, a vitória sobre o Paraguai (Alexandre Dacosta) tem um breve encontro com o fantasma – que ele mesmo pode ter matado. Mas seu caminho segue adiante, cruzando-se com uma carroça mambembe, sem cavalo, arrastada penosamente por mulheres.
 
Uma delas, mãe das outras duas, acaba de morrer. O soldado ajuda a sepultá-la e ali inicia um instigante e quase sempre áspero diálogo com a filha mais velha, atriz (Patricia Niedermeier) que cuida da irmã caçula, moça autista (Ana Abbott).
 
Dentro da proposta de liberdade da história, permite-se este embate entre dois personagens que sequer pertencem à mesma época: o soldado é do século 19, a atriz, brechtiana, contemporânea. Ela evoca falas de escritores e poetas para contrapor a lógica autoritária, militarista e machista do soldado, que, sob uma aparência contida, esconde um veio de violência cuja irrupção é um baque.
 
Na parte final, mostram-se imagens documentais terríveis, de diversas guerras. Há todo um discurso pacifista entremeando o filme, mas não só. A polarização entre arte e inteligência, de um lado, e truculência, do outro, não poderia ser mais atual. História do Paraguay é um filme exigente para com o espectador, mas que certamente oferece um prato de resistência para os seus sentidos e pensamento.  
 
Curtas
 
A terceira noite ofereceu dois curtas. O pernambucano Soberanos do Congo, de Raoni Moreno, retrata nuances do maracatu, num filme bonito e interessante, mas traído por um excesso de didatismo, especialmente numa narração em off por demais explicativa.
 
A produção documental capixaba Das águas passam, de Diego Zon, por sua vez, acreditou totalmente na potência das imagens falando por si, ao acompanhar a vida de pescadores em torno da região de Regência (ES) – localizada na foz do Rio Doce e vista aqui antes da tragédia ambiental da ruptura da barragem de Mariana (MG).
 
Homenagem
 
Também fez parte da terceira noite uma homenagem ao crítico paulistano Christian Petermann, que morreu, aos 49 anos, na última terça-feira. Ex- profissional das revistas Set e Rolling Stone e ex-colaborador do jornal Folha de S. Paulo, Christian era sócio-fundador da Abraccine (Associação Brasileira dos Críticos de Cinema) e atualmente comentarista de cinema do programa Todo Seu, da Tv Gazeta. Faria 50 anos no dia 16 de maio.

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança