39ª Mostra de São Paulo

Dia de cinema nórdico e clássico documental de Patricio Guzmán

Equipe Cineweb

 O botão de pérola
O cineasta chileno Patricio Guzman já tem status de mestre. Seus documentários, cada vez mais são capazes de interações multidisciplinares, de raciocínios plurais, unindo enfoques em várias direções, dramáticos, complexos e emocionantes como a vida. Mais uma vez, como acontecia em Nostalgia da Luz (2010), ele atinge o sublime neste filme que teve como ponto de partida a trajetória de dois – aparentemente – simples botões. Um deles, dado a um índio no século XIX, que por conta da modestíssima prenda, acabou indo à Europa. Outro foi encontrado junto aos despojos de desaparecidos políticos da ditadura Pinochet.
Com este ponto de partida, Guzman foi capaz de traçar uma narrativa que percorre a história chilena e divaga também em torno de um tema muito contemporâneo, a água. A mesma água de onde veio a origem da vida sobre a Terra e que constitui a maior fronteira do Chile, no caso, o Oceano Pacífico, que era o meio preferencial de indígenas nômades que ocuparam o por muito tempo ignorado, no período colonial, das terras ao sul. Ali na Patagônia, índios viviam num habitat frio e aquoso, sem constituir moradia fixa, morando em barcos habilmente construídos a partir de troncos, com fogueiras ao centro, para espantar o frio. Mas a água também terminou trazendo conquistadores assassinos, que promoveram o genocídio indígena. Poucos restaram desse massacre, cujos descendentes tiveram uma oportunidade de compensação no governo Salvador Allende, justamente derrubado pelo general Pinochet, que usou esse mesmo oceano como cemitério para presos políticos jogados de aviões, numa das guerras sujas mais sangrentas do continente sul-americano.
Guzman, que vive na França, não é revanchista, é um cultivador da memória. Sabe e reafirma a cada um de seus filmes, cada vez mais matizados, que o esquecimento dos crimes do passado, sejam as mortes dos índios, seja a eliminação opositores do regime Pinochet, nada pode trazer de bom ao aprimoramento da humanidade que ali vive. Além do mais, ao retratar uma situação chilena, fala ao mundo, já que cada rincão deste planeta tem seus próprios crimes para exorcizar. Por tudo isso e algo mais, O Botão de Pérola é o que se pode chamar de filme imperdível. (Neusa Barbosa)
Indicação: 14 anos
Duração: 82 min
CINEARTE 1                                                                  28/10/2015 - 18:15 - Sessão: 523 (Quarta)
MATILHA CULTURAL                                                  29/10/2015 - 19:30 - Sessão: 689 (Quinta)
CINE OLIDO                                                                   30/10/2015 - 19:00 - Sessão: 702 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1      2/11/2015 - 21:45 - Sessão: 1001 (Segunda)
CINESALA                                                                      3/11/2015 - 18:20 - Sessão: 1058 (Terça)  
 
 John From
O universo da paixão juvenil e da descoberta é a força da narrativa do belo John From, do português João Nicolau. No filme, Rita (Julia Palha) está entediada nas férias de verão, e sua única companhia é a vizinha e melhor amiga (Clara Riedenstein). Seus mundos são de incertezas e despreocupações, elas têm o futuro pela frente. Até a chegada de um novo vizinho, um fotógrafo e pai solteiro (Filipe Vargas). Imediatamente, a protagonista começa a fantasiar um romance com ele.
“Eu tinha vontade de sentir contato com jovens, interesse em sentir o que as novas gerações vivem”, disse em entrevista ao Cineweb o diretor e roteirista João Nicolau, que está presente à Mostra para a exibição de seu filme. “Não tenho contato com adolescentes, mas as atrizes trouxeram muita contribuição nos ensaios”.
O longa começa num registro realista, retratando o tédio castigado pelo sol de verão na cidade, de onde Rita espera sair com os pais numa viagem em breve. Aos poucos, a fantasia, em pequenas doses, toma conta do filme. “Foi algo pensado para ser uma transição sutil, não abrupta. E, assim, trazer um pouco da imaginação da personagem para o final.”
Protagonizado por duas estreantes, Julia e Clara, Nicolau conta que o processo de pré-produção foi bastante importante. “É o universo delas, é aquilo que elas conhecem, então, puderam trazer mais informações, e também se preparar para as filmagens descobrindo as personagens. Trabalhamos como se fosse teatro. Só fomos filmar mesmo quando todos estávamos muito seguros”. O elenco também conta com os veteranos Adriano Luz e Leonor Silveira, no papel dos pais de Rita. “Eles foram um contrabalanço, mas na hora em que estamos no set, trato todos da mesma forma”.
A Mostra deste ano exibe, entre seus destaques, a trilogia As 1001 Noites, do português Miguel Gomes, além de diversas produções do país, mas Nicolau conta que, podemos ter a impressão de existir uma nova geração de jovens cineastas lusitanos, mas isso não é verdade. “Por ano, temos feito muitos poucos filmes, são 6 ou 7. Não há muitos investimentos, nem fomentos.” Depois de exibido na Mostra, John From está previsto para entrar em cartaz no Brasil no primeiro trimestre de 2016. (Alysson Oliveira)
Indicação: Livre.
Duração: 98 min
RESERVA CULTURAL 2 -                                   28/10/2015 - 14:00 - Sessão: 587 (Quarta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1 -    31/10/2015 - 15:50 - Sessão: 824 (Sábado)
 
 Ixcanul
Primeiro longa guatemalteco a ser selecionado para representar o país e concorrer a uma indicação ao Oscar na categoria filme estrangeiro, Ixcanul estreou na mostra competitiva do Festival de Berlim, onde ganhou o prêmio Alfred Bauer Prize, concedido a filmes que abrem uma nova perspectiva sobre o cinema. Desde então, foi exibido em diversos festivais, entre eles Cartagena, onde ganhou o prêmio principal.
Escrito e dirigido pelo estreante Jayro Bustamante, o longa acompanha o cotidiano de uma família numa fazenda numa região remota, próxima ao vulcão do título. Durante boa parte, o longa retoma aquilo que um dia foi chamado de “filme etnográfico”, mostrando o dia-a-dia dessas pessoas. A jovem Maria (Maria Mercedes Coroy) não tem muitas opções, nem está feliz com o futuro que lhe foi reservado, quando sua mão está prometida a um jovem local. Ela, no entanto, está apaixonada por Pepe, um cafeicultor que sonha em morar nos EUA e ter uma casa luxuosa para fazer a moça feliz. Ele diz que o país está logo ali, depois do vulcão e do México.
Dados os personagens e o cenário, Bustamante poderia facilmente deixar-se levar pelo exotismo, mas ele é centrado e tem os pés no chão, quer dar voz a essas pessoas que são invisíveis no contexto do mundo global. Os EUA surgem com a terra do sonho, o futuro melhor, mas também inatingível. A questão social começa a dominar o filme quando a narrativa toma caminhos inesperados, abordando a exploração da população indígena, especialmente o tráfico humano.
Há duas culturas – a da tradição e a da modernidade – duelando pelo futuro dessas pessoas. A vitória de uma delas, porém, pode significar o fim desse mundo, ou, ao menos, a extinção dele como se mantém há anos. Ao mesmo tempo, essas pessoas não podem depender apenas de suas crenças milenares, quando, por exemplo, uma delas é picada por uma cobra. Como conciliar as duas forças? Qual o preço a se pagar pela escolha? São perguntas cujas respostas transcendem o filme. (Alysson Oliveira)
Indicação : 12 anos
Duração: 91 min
CINESALA- 28/10/2015 - 17:30 - Sessão: 539 (Quarta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4-03/11/2015 - 22:00 - Sessão: 1118 (Terça)
SESC BELENZINHO - CINE TEATRO- 04/11/2015 - 16:00 - Sessão: 1188 (Quarta)
                                                                                                                  
 Mulheres vestindo camisas de homens
Com um título bastante sugestivo – cujo sentido o enredo decifra ao longo do caminho – o  filme de estreia da diretora norueguesa Yngvild Sve Flikke custa um pouco a pegar, mas depois flui com muita leveza mas também propriedade, ao traçar o retrato de três mulheres e seus percursos de vida. Uma delas é a jovem Sigrid (Inga Ibsdotter Lilleas), estudante experimentando justamente a transição para a vida adulta. Ela quer escrever, amar, aproveitar o sexo, mas nada está dando certo. No meio dessa confusão íntima, ela conhece Kare (Hallvard Holmen), um escritor quarentão no auge do sucesso e que ela também admira muito. Poderia ser o relacionamento que ela aproveitaria para amadurecer, mas Kare também está no meio de uma crise pessoal com a mulher, além de ser um bocado vaidoso e autocentrado.
Uma outra mulher interessada em Kare, por bem outros motivos, é Agnes (Anne Krigsvold). Décadas atrás, ela já foi uma jovem sensação da literatura alternativa, a partir de seu até agora único livro, intitulado “No Rabo”. Depois disso, entrou numa espiral descendente, cujos motivos o público em geral desconhece. Em linhas gerais, teve a ver com uma gravidez indesejada, da qual resultou um filho que ela deu para adoção. Anos depois, ela acha que esse filho pode ser Kare.
Trabalhando como gerente de uma marcenaria, Agnes torna-se providencial na vida de Trine (Henriette Steenstrup), uma artista performáticas com um gênio do cão, que tenta fazer a obra de sua vida ao mesmo tempo em que está num final de uma gravidez também indesejada. Agnes a contrata na marcenaria, para pequenos serviços, e ao mesmo tempo a acolhe em sua própria casa.
O entrelaçamento da vida dessas três mulheres muito diferentes oferece à diretora a oportunidade de desenvolver vários papeis femininos bem interessantes, curiosos, divertidos, cujas intuições e erros são igualmente enriquecedores. Vale a pena descobrir essa novidade que vem da Noruega. (Neusa Barbosa)
Indicação: 16 anos
Duração:  100 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4   28/10/2015 - 13:30 - Sessão: 597 (Quarta)
 
 O esgrimista
Representante da Finlândia na corrida às indicações do Oscar de filme estrangeiro, o drama de época dirigido por Klaus Haro inspira-se num personagem real, o esgrimista estoniano Endel Nelis (1925-1993). Em 1952, ele é obrigado a deixar a URSS por problemas políticos e volta à sua cidadezinha natal, Haapsalu, num período em que a Estônia estava dominada pelos soviéticos. Endel (Mart Avandi) encontra emprego como professor de educação física numa escola, deixando a esgrima de lado. No entanto, o diretor de tendência stalinista (Hendrik Toompere) está obcecado não só em vigiá-lo como em conter suas tentativas de exercitar seus pequenos alunos. Um dia, planeja levá-los para esquiar, mas o diretor solicita antecipadamente todos os esquis de que a escola dispõe, frustrando seu esforço.
Tolhido em tudo, o professor finalmente tem a ideia, que parece maluca, de ensinar esgrima aos garotos da escola rural, meninos e meninas, mesmo sem contar com floretes. Junto com eles, colhe galhos que servirão como floretes substitutos. As crianças vão tomando gosto pela atividade e tornando-se, finalmente, mais exímios. O diretor combate como pode a iniciativa. Enquanto isso, Endel fica seduzido pela ideia de levar seus garotos a uma competição em Leningrado – uma viagem que pode colocá-lo em risco de prisão.
Bastante bem-produzido, o filme é envolvente e conta com um elenco infantil cativante. A menina Marta (Liisa Kopel), especialmente, é um encanto, uma espécie de líder mirim do grupo de alunos e uma espécie de “consciência” para o professor em conflito. (Neusa Barbosa)
Indicação: 10 anos
Duração: 98 min
MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM                             28/10/2015 - 15:00 - Sessão: 583 (Quarta)
CINESESC                                                                              2/11/2015 - 17:10 - Sessão: 983 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4       3/11/2015 - 22:15 - Sessão: 1075 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1              4/11/2015 - 22:00 - Sessão: 1160 (Quarta)
 
 Coração de leão
A coprodução sueco-finlandesa aborda um tema candente: o neonazismo e a violência contra negros, imigrantes ou não, na Finlândia. O protagonista é um desses militantes fanáticos de extrema-direita, Teppo Salminen (Peter Franzen), um ex-soldado que passa os dias alimentando uma raiva insana contra imigrantes, estrangeiros, judeus e negros, participando de agressões contra eles ou suas moradias. Por uma ironia, ele se envolve com Sari (Laura Birn), garçonete de um bar, que é divorciada e mãe de um menino negro, Rhamadhani (Yusuf Sidbeh). Quando ela vê as tatuagens com suásticas no corpo de Teppo, ela tenta romper todo contato com ele. Mas ele insiste em procurá-la, instaurando uma espécie de trégua pessoal para conviver com este menino, que também o rejeita, vendo nele um inimigo, com bastante razão.
Ao mesmo tempo em que Teppo aos poucos se humaniza, naturalmente distancia-se de sua antiga vida. Mas não demora e seus amigos e o irmão soldado descobrem onde ele vive e porque os deixou. O enredo cria tensão real neste convívio e no confronto entre mundos muito diferentes. Pode não parecer totalmente crível em alguns momentos, mas a licença poética vale, neste caso, para explorar várias possibilidades de lidar com este tema tão importante. Às vezes até surpreendentemente, não faltam nem humor nem ironia para atravessar as situações. (Neusa Barbosa)
Indicação: 14 anos
Duração: 99 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3                     28/10/2015 - 22:00 - Sessão: 572 (Quarta)
CINESESC                                                                                    29/10/2015 - 15:00 - Sessão: 631 (Quinta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2                     30/10/2015 - 13:30 - Sessão: 748 (Sexta)
CINE CAIXA BELAS ARTES - SALA SPCINE                        31/10/2015 - 15:45 - Sessão: 806 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4                     1/11/2015 - 19:00 - Sessão: 959 (Domingo)

 Deuses
O primeiro transplante de coração ocorrido na Polônia é o centro do drama biográfico Deuses (2014), em que Łukasz Palkowski surpreende com uma trama interessante até para quem não é polonês. Isso porque a burocracia durante o regime comunista no país, as dificuldades da comunidade médica local em aceitar o novo e as dúvidas e crenças da sociedade, para quem o coração tem algo de mítico – e isso se manifesta de maneira clara na fala da esposa do primeiro transplantado – colocaram diversos empecilhos às tentativas do procedimento.
A steady cam da fotografia de Piotr Sobociński Jr. passeia pelos corredores da clínica, dando vida àquele ambiente, de uma maneira bem conhecida pelos espectadores do E.R./Plantão Médico (1994-2009). Ainda que falte certa ousadia e haveria a possibilidade de maior concisão, a direção de Palkowski é segura e vai além, dosando doses de comédia e suspense na ação clandestina deles, embaladas por músicas setentistas norte-americanas, que também servem para o fácil reconhecimento do público internacional.
O vocabulário médico é constante e, para os mais sensíveis, fica o aviso de que os procedimentos são mostrados sem nenhum pudor e com muito sangue. Fica também o destaque para Tomasz Kot, que ganhou um prêmio local por sua atuação como protagonista, dando vida ao Dr. Religa com dedicação física, vide sua corcunda, e empenho de um sonhador que queria desafiar a todos, inclusive a Deus. (Nayara Reynaud)
Indicação: 16 anos
Duração: 121 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6       28/10/2015 - 19:45 - Sessão: 581 (Quarta) 

 Todas as Cores da Noite
O estreante diretor pernambucano Pedro Severien se inspira nos casos de violência urbana que escutou desde sua infância para fazer um filme que questiona a validade do discurso, através dos relatos dos personagens de histórias vividas por eles ou conhecidos, abordando também as forças sexuais e violentas humanas em seu vai-e vem-narrativo. (Nayara Reynaud)
Indicação: 12 anos
Duração: 70 min
CINESALA     28/10/2015 - 16:00 - Sessão: 538 (Quarta) 

 O Touro
Flertando com um relato ficcional que é próprio de seu tema – algo mais claro em seu desfecho –, o documentário da estreante Larissa Figueiredo acompanha a visita da portuguesa Joana à ilha de Lençóis, no Maranhão, onde os habitantes cultivam a crença de que o Rei Dom Sebastião, cujo desaparecimento em batalha no Marrocos alimenta muitas lendas, vive por ali, em sua forma “encantada”. Os moradores locais, além de darem diversas informações sobre o sincretismo na região, conferem certo humor ao filme. (Nayara Reynaud)
Indicação: Livre
Duração: 78 min
CINE CAIXA BELAS ARTES - SALA SPCINE        28/10/2015 - 16:00 - Sessão: 530 (Quarta)


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