39ª Mostra de São Paulo

Dia de fortes filmes latinos e filme-denúncia de Danis Tanovic

Equipe Cineweb

 Rosita
O longa dinamarquês, segundo trabalho da diretora Frederikke Aspöck, é um envolvente drama em torno da “importação” de esposas filipinas por homens maduros dinamarqueses – um retrato de problemas nas duas sociedades, de estágios de desenvolvimento tão diferentes.
Ulrik (Jens Albinus, habituê de filmes do Dogma, como Os Idiotas) é viúvo há muitos anos, Criou sozinho seus filhos, Johannes e Allan, agora adultos. Allan (Mads Riisom), inclusive já se casou e vai ser pai. Johannes (Mikkel Boel Folsgaard) continua morando com ele, mas é independente.
Assim, Ulrik entra na onda de “importação” de mulheres filipinas, recebendo em sua casa a jovem Rosita (Mercedes Cabral), pensando que já é hora de um novo casamento. Ela fala inglês, mas ele não, tornando a comunicação verbal impossível sem a ajuda de Johannes. Entre ele e Rosita, inclusive, surge uma atração, que vai ser um complicador de todas estas relações familiares meio confusas. Além disso, a eterna namorada de Johannes, Maja (Julie Agnete Vang), também espera casamento e filhos.
A história explora habilmente estas expectativas frustradas e conflitos sempre sublimados, mas finalmente vindo à tona já que Johannes se recusa a entrar no papel esperado dele. Ou seja, ser o filho obediente, o marido exemplar, o trabalhador constante da indústria pesqueira, a única atividade da cidadezinha onde vive. Rosita, por sua vez, encarna com muita verdade o dilema destas mulheres de países pobres, forçadas à imigração para sustentarem parentes deixados para trás. Por essa complexidade bem-conduzida, o filme merece uma visita. (Neusa Barbosa)
Indicação: 14 anos
Duração: 91 min
CINESESC                                29/10/2015 - 17:30 - Sessão: 632 (Quinta)
 
 Tigres
O diretor bósnio Danis Tanovic (Terra de Ninguém) é um velho conhecido da Mostra e de temas polêmicos. Nesta coprodução entre Índia, França e Inglaterra, ele compõe um filme-denúncia incômodo, envolvendo um escândalo protagonizado pela Nestlé e produtos infantis lançados pela empresa no Paquistão. Uma história, informa o filme, baseada em fatos reais e ainda inconclusa.
O protagonista é Ayan (Emraan Hashimi), vendedor de produtos farmacêuticos no Paquistão, que pensa ter tirado a sorte grande ao ser contratado pela Nestlé para vender um alimento infantil, para bebês. Eficiente, ele é um sucesso e ganha muito dinheiro. Mas, não demora muito, ele descobre, através de um médico, que o produto está matando bebês. Não porque sua fórmula contenha nenhum elemento tóxico e sim porque, nas áreas pobres, seu pó está sendo diluído em água não-tratada, provocando a diarreia e a morte de inúmeras crianças.
A descoberta cria um dilema moral para Ayan que, depois de hesitar, decide revelar o que sabe a documentaristas europeus. Isto desencadeia o inferno sobre sua vida, que o leva ao exílio no Canadá e a passar anos separado de sua família. E, o que é pior, sem solução para as crianças paquistanesas, vítimas do descaso das autoridades com sua saúde. (Neusa Barbosa)
Indicação: 14 anos
Duração: 90 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1           29/10/2015 - 13:30 - Sessão: 645 (Quinta)
SESC BELENZINHO - CINE TEATRO                           3/11/2015 - 20:00 - Sessão: 1110 (Terça)
 
 
O abraço da serpente
A famosa frase “o horror, o horror” do romance O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, também presente na melhor adaptação cinematográfica do livro, Apocalypse Now, ecoa em vários momentos no colombiano O Abraço da Serpente. Este segundo longa de Ciro Guerra, que assina também o roteiro, inspira-se nos diários do etnologista alemão Theodor Koch-Grünberg e do botânico Richard Evans Schultes, aqui chamados de Theodor (Jan Bijvoet) e Evan (Brionne Davis).
A ação interliga a jornada dos dois pelo rio Amazonas, entre 1909 e 1940, enquanto buscam uma flor chamada yakruna, supostamente com poderes de cura. Eles são guiados por um xamã nativo, Karamakate (interpretado por Nilbio Torres e Antonio Bolivar, nas duas fases), que é o único sobrevivente de um ataque de invasores que dizimou sua tribo.
Guerra parece compartilhar os mesmos interesses de Conrad um século atrás, trocando o Congo belga pela Amazônia colombiana, igualmente questionando o fracasso do projeto civilizatório, que mais destrói do que cria. A influência europeia se materializa quando um dos exploradores coloca um fonógrafo para tocar o oratório A Criação, do alemão Joseph Haydn – num momento que parece um aceno a Fitzcarraldo. Há um outro, uma viagem lisérgica, uma clara referência a 2001 – uma odisseia no espaço.
A bela fotografia em preto-e-branco, de David Gallego, e o cenário tropical remetem ao português Tabu, de Miguel Gomes, que também questiona os limites e as consequências da exploração e do colonialismo. É um lamento às perdas humanas e da natureza, da vitória da civilização sufocante frente à “barbárie” da liberdade.
O Abraço da Serpente é longo e demanda atenção, empenho e comprometimento do público. Ao mesmo tempo, oferece em troca uma obra de arte única, uma experiência cinematográfica rara, rica em sua estética e poderosa em seu comentário, que ecoa a frase famosa de George Orwell: “A história é escrita pelos vencedores”. (Alysson Oliveira)
Duração: 125 minutos
Indicação: 16 anos
RESERVA CULTURAL 2   -                                        29/10/2015 - 19:30 - Sessão: 677 (Quinta)
CINESALA -                                                                   30/10/2015 - 15:45 - Sessão: 722 (Sexta)
CINESESC -                                                                   31/10/2015 - 15:00 - Sessão: 817 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2-     2/11/2015 - 21:15 - Sessão: 1006 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1-     3/11/2015 - 21:45 - Sessão: 1080 (Terça)
 
Desde Allá
Foi uma grande surpresa e um fato inédito o filme venezuelano, do diretor estreante Lorenzo Vigas, ter vencido o Leão de Ouro do mais recente Festival de Veneza. Mas a premiação também dividiu opiniões, cujos motivos ficam muito claros agora, com sua exibição na Mostra.
Armando (o ator chileno Alfredo Castro) é um protético solitário, de 50 anos, que tem uma estranha e clandestina vida sexual. Ele procura adolescentes pobres nas periferias de Caracas e paga-lhes bom dinheiro para vê-los despidos.
Um desses garotos é Elder (Luis Silva), que tem com Armando um primeiro encontro que termina em violência. Isso não impede que Armando volte a procurá-lo, criando-se entre os dois uma relação inquietante, tensa e cheia de segredos. E que também não prefigura um final feliz.
Ator-fetiche de Pablo Larraín, em filmes como Tony Manero e Post Mortem, Alfredo Castro é um ator sempre muito interessante de seguir e que aqui, como sempre, está em pleno domínio de seu personagem. Da mesma forma, o garoto Luis Silva tem a energia necessária a Elder. O roteiro de Vigas, no entanto, deixa à mostra suas fragilidades, com um desfecho na verdade bastante previsível e uma série de pontas soltas. O que torna a premiação de Veneza um tanto quanto curiosa, para dizer o mínimo. (Neusa Barbosa)
Indicação: 14 anos
Duração: 93 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1                   29/10/2015 - 18:15 - Sessão: 637 (Quinta)
RESERVA CULTURAL 2                                                 1/11/2015 - 22:00 - Sessão: 952 (Domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2           3/11/2015 - 22:00 - Sessão: 1085 (Terça)
 
Marias
O documentário Marias, de Joana Mariani, investiga a fé e a devoção a Maria. Acompanhando devotos e devotas no Brasil, Cuba, Nicarágua, México e Peru, o longa faz um registro da globalização pelo viés da religião, mas sem tornar-se religioso. É um interesse sociológico que impulsiona a diretora em sua empreitada, filmada entre 2009 e 2013.
Nesse retrato, a questão feminina ganha força ao emergir no depoimento das devotas. “Maria somos todas nós. É essa mulher que está no morro, que tem seus filhos, o marido abandona, pega outra da metade da idade”, diz uma das entrevistadas brasileiras. É nesse registro que a documentarista trabalha, buscando o que une suas personagens e o que cada uma delas retém de particular. (Alysson Oliveira)
Indicação: Livre.
Duração: 75minutos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2             29/10/2015 - 15:45 - Sessão: 651 (Quinta)
 
 
Califórnia
Após seu debut no documentário Person (2007), dedicado à memória de seu pai, o cineasta Luiz Sérgio Person, chega o momento em que a filha investe em sua primeira ficção, Califórnia. Para isso, Marina Person busca em suas próprias experiências juvenis, sem deixar de entregar o que o público espera de um filme conduzido por uma VJ que marcou a história da MTV – incluindo uma referência inicial ao canal –, um retrato sutil dos anos 1980, com os elementos mais significativos daquela década: citações a Diretas Já, a propaganda do sutiã na TV, a forte presença do rock nacional e internacional sobre aqueles jovens e a sombra da AIDS. Em relação à doença, reside o principal mérito da narrativa do longa, ao ser retratada aqui da mesma maneira como era tratada pelas pessoas na época: sem nome, sem conhecimento e com muito preconceito.
A história acompanha a garota Estela (Clara Gallo), ou simplesmente Teca, que alimenta, durante toda a sua adolescência, o sonho de viajar pela Califórnia com o seu tio Carlos (Caio Blat), repórter musical a quem idolatra. Quando a viagem está prestes a concretizar-se, seu herói volta do exterior diferente – e através do ponto de vista da sobrinha, o espectador vai compreendendo o que o tio está sofrendo, apesar de não dito. O retorno dele culmina numa série de acontecimentos na vida da jovem, que está apaixonada pelo surfista Xande (Giovanni Gallo) e tem a ânsia de decifrar o novo aluno do colégio, o gótico JM (Caio Horowicz).
Em uma Mostra com um grande número de filmes adolescentes na programação e que demonstra a consolidação deste gênero no Brasil, Califórnia encontra o mesmo terreno desbravado pelo baiano Depois da Chuva. Mas se aquele centrava-se em uma busca de identidade por um viés mais político e de experimentação no underground, o alternativo deste é muito mais acessível e reconhecível por quem viveu ou não aquela década.
A pesquisa e trabalho da direção de arte, em conjunto com a fotografia de Flora Dias, suave e “suja” como os vídeos do período, são capazes de ambientar com fidelidade a época, mas o que grita é a seleção musical, que vai dos nacionais Metrô, Kid Abelha e Titãs – Paulo Miklos, por sinal, faz o pai de Teca – aos britânicos David Bowie, The Cure, The Smiths e Echo & the Bunnymen. Com um roteiro escrito em parceria com Francisco Guarnieri e Mariana Veríssimo e um bom elenco principal, Marina traz um coming of age que não foge dos clichês adolescentes, mas conquista pela sinceridade e delicadeza. (Nayara Reynaud)
 
Indicação: 12 anos
Duração: 91 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   29/10/2015 - 17:20 - Sessão: 652 (Quinta)
 
 
Ninguém Ama Ninguém... Por Mais de Dois Anos
Nelson Rodrigues volta às telas do cinema na adaptação de contos de A Vida Como Ela É, dirigida pelo estreante Clovis Mello. O editor de TV e diretor publicitário costura as histórias de amor, desamor e traição do escritor, com ambientação de época da direção de arte, da trilha sonora com choro e samba e do texto rodrigueano, que retrata o machismo e o preconceito da sociedade do período e que ecoa até hoje. (Nayara Reynaud)
 
Indicação: 16 anos
Duração: 87 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3       29/10/2015 - 15:30 - Sessão: 656 (Quinta)
 
 
Wanja
Exibido na última edição do festival de Berlim, Wanja é uma produção alemã que marca a estreia segura da sueca Carolina Hellsgård na direção de longas. Usando sua própria experiência de integração como imigrante na Alemanha, França e Estados Unidos, a diretora e roteirista cria a história da personagem-título, uma ladra de bancos que, após uma longa condenação, sai da prisão em condicional e tenta se reintegrar à sociedade, buscando trabalho e uma nova vida.
Quando encontra a possibilidade de um estágio em um estábulo de cavalos de corrida, Wanja (a ótima Anne Ratte-Polle, cuja semelhança com a norte-americana Jodie Foster é gritante em alguns momentos) logo se identifica com a jovem Emma (Nele Trebs, de Lore, 2012), uma adolescente problemática que segue um caminho parecido ao dela. Ao tentar tirar a garota do mundo das drogas, Wanja tem que superar sua própria dependência química, a tentação do crime e a mágoa de uma maternidade reprimida. Ainda que sem grandes surpresas, o retrato minimalista dos marginalizados de Carolina, especialmente na trajetória da protagonista, é tenso o suficiente para prender a atenção do espectador. (Nayara Reynaud)
 
Indicação: 14 anos
Duração: 87 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4   29/10/2015 - 14:00 - Sessão: 640 (Quinta)
 
 

Walter

Em um momento do longa de estreia de Anna Mastro, um personagem aponta para o fato do protagonista Walter Gary Benjamin (Andrew J. West) ter um típico nome de serial killer. Mas uma parcela do público perceberá uma referência muito mais clara ao pensador alemão Walter Benjamin (1892-1940), cuja discussão sobre a autenticidade e o aspecto único da obra de arte no que descrevia como a “era da reprodutibilidade técnica” faz-se muito pertinente a um filme que reproduz clichês e a estética de filmes indies, mas que encontra na metalinguagem a justificativa para isso.

Walter acompanha a estrita rotina do personagem-título, que incluiu, além de seu emprego como bilheteiro de um cinema e sua vida caseira com a mãe (Virginia Madsen), as obrigações como “filho de Deus”, que inclui julgar o destino final de todos os viventes: Céu ou Inferno. Mas quando vê a enfermeira Allie (Neve Campbell) em seu trabalho, o fantasma Greg (Justin Kirk) aparece querendo ser julgado de qualquer maneira e desencadeando uma série de descobertas do passado de Walter com Jim (Peter Facinelli), que todos consideram ser seu pai, fazendo-o duvidar de suas certezas.

Pesa à obra o fato de não decidir de que maneira tratar seu protagonista, hesitando em colocá-lo como alguém cujo luto não-superado se transformara em um complexo psicológico messiânico – e, quando se aproxima disso, parte para uma resolução simplória, apesar do bom trabalho de William H. Macy como o psiquiatra Dr. Corman. Com a estranheza e os planos gerais de um Embriagado de Amor (2002), a steadycam que marca outros trabalhos de Paul Thomas Anderson e a rápida e verborrágica narração em off de Wes Anderson, Mastro faz uma dramédia extremamente agradável, especialmente quando fala de cinema e na força dele como fuga da realidade ou se debruça no mundo de Walter já em desconstrução, mas ainda sem mostrar sua própria marca e a certeza necessária quanto ao que quer dizer. (Nayara Reynaud)

 

Indicação: 16 anos

Duração: 88 min

 

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4   29/10/2015 - 20:00 - Sessão: 643 (Quinta)


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