39ª Mostra de São Paulo

Diretores famosos, terror e clássicos são atrações na sexta

Equipe Cineweb

Os campos voltarão
Partindo das memórias de seu próprio pai e de livre referência a um conto (La Paura), o veterano diretor italiano Ermanno Olmi (A Árvore dos Tamancos) cria um curto mas intenso relato sobre as inquidades da guerra. De todas as guerras, embora o cenário desta história seja a Primeira Guerra Mundial, em 1917.
Com uma contenção que evoca expectativa, medo e uma cada vez mais combalida esperança, ele retrata um grupo de soldados confinados a uma trincheira no inverno. Cercados de neve, com frio e fome e aproveitando uma relativa trégua nas batalhas, eles tentam manter o espírito firme. Mas isso é cada vez mais difícil, pela espera, a inatividade e, finalmente, pelos sons distintos ao longe, que anunciam a próxima retomada do confronto. Nesse clima, o filme evoca um outro italiano, Valerio Zurlini, e seu fundamental O Deserto dos Tártaros, numa outra chave.
A chegada de oficiais com ordens impossíveis de cumprir é o detalhe que faltava para angustiar a tropa. Seu capitão, aliás, está com febre – é a gripe espanhola, que está dizimando também fora dali.
O melhor atrativo do filme é como encena este desespero surdo, que não domina completamente, mas expõe os soldados a uma situação-limite, que extrai de cada um reações distintas. Salta uma visão nada heroica, nem idealizada do que acontece numa guerra, não só esta, ainda que cada soldado se mostre capaz de um discurso quase poético diante da câmera, como se estivesse num teatro, sem que isso acarreta nenhuma rigidez. Ao contrário, quando cada soldado nos fita, é como se nos falasse diretamente, numa confissão pungente. Poucas definições serão melhores do que a que aparece nos letreiros finais: “A guerra é um animal feio que nunca pára”. Frase de um pastor, não de um filósofo, mas totalmente sábia. (Neusa Barbosa)
Indicação: 14 anos
Duração: 80 min
CINESALA                                                                                  30/10/2015 - 20:30 - Sessão: 724 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4                   2/11/2015 - 15:15 - Sessão: 1029 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6                   3/11/2015 - 17:15 - Sessão: 1098 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4            4/11/2015 - 19:45 - Sessão: 1154 (Quarta)
 
 
Um Novo Você
Em um ano em que os amantes de ficção científica foram brindados com a ótima produção britânica de Alex Garland, Ex-Machina: Instinto Artificial (2015) – infelizmente, lançada direto em home video aqui no Brasil –, aqueles que se sentirem tentados a conferir o filme independente compatriota de Simon Pummel, Um Novo Você (2015), provavelmente, sairão com uma ponta de frustração.
No papel, a sinopse parece interessantíssima: após o misterioso sequestro de sua namorada Nadia (Nora-Jane Noone), Slater (Lachlan Nieboer) descobre a existência da companhia Brand New U – título original do longa, aliás –, capaz de criar “idênticos”, versões de seus clientes que podem assumir uma vida nova e melhor. A narrativa apresenta várias subtramas instigantes, dignas de um dos contos e romances de Philip K. Dick, como a questão da identidade na multiplicidade de clones/robôs/duplos que se insere no mundo atual em que os indivíduos inventam novas faces para si mesmos nas redes sociais; as facetas de um amor obsessivo; e a crítica ao capitalismo desenfreado na criação de uma multinacional com poderes irrestritos.
O problema nem é a falta de apuro na construção dos cenários virtuais e efeitos visuais, algo compreensível para uma produção de baixo orçamento. O grande deslize de Pummel está nas resoluções confusas que escolhe, tanto como roteirista quanto diretor, além da fraca tensão gerada, talvez porque os personagens não conseguem conquistar o público como seria necessário. (Nayara Reynaud)
Indicação: 12 anos
Duração: 72 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4                31/10/2015 - 18:00 - Sessão: 875 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5                1/11/2015 - 19:05 - Sessão: 938 (Domingo)
 
Kaminski e eu
O diretor alemão Wolfgang Becker (Adeus Lênin) adapta livro homônimo de Daniel Kehlmann para compor esta história irônica, sobre um jornalista, Sebastian Zöllner (Daniel Brühl), candidato a biógrafo do velho e consagrado pintor Manuel Kaminski (Jesper Christensen).
Na sua juventude, Kaminski foi para a França e, apadrinhado por Matisse e Picasso, elevou-se à fama no início do século XX. Além de sua obra, um detalhe de sua biografia tornou-o ainda mais célebre: ele estaria ficando cego e totalmente cego ficaria, o que por muito tempo não o impediu de pintar e frequentar ambientes de celebridades, como Andy Warhol.
A investigação cínica de como se monta um mito em torno de lendas ou fatos – imprima-se a lenda – é um dos aspectos mais interessantes do filme, que acompanha o relacionamento aos solavancos entre o velhíssimo e decrépito pintor e o seu ambicioso pretendente a biógrafo. A convivência entre os dois, muito dificultada pela filha do pintor (Amira Casar), que o mantém recluso, finalmente se desdobra em direções não-previstas por nenhum dos dois e gradativamente se humaniza.
Uma participação deliciosa é de Geraldine Chaplin, como uma das mulheres da vida do pintor. O filme é encantador e não só para os amantes das artes plásticas (os letreiros finais, especialmente, são dedicados a estes últimos, um primor de formas e cores). (Neusa Barbosa)
Indicação: 16 anos
Duração: 125 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1            30/10/2015 - 21:30 - Sessão: 747 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3            31/10/2015 - 19:10 - Sessão: 846 (Sábado)
RESERVA CULTURAL 2                                                  2/11/2015 - 19:30 - Sessão: 1026 (Segunda)
CINEARTE 1                                                                        3/11/2015 - 21:45 - Sessão: 1043 (Terça)
 
Rocco e seus irmãos
O magnífico drama de Luchino Visconti, de 1960, restaurado pela Cineteca di Bologna com o apoio da The Film Foundation, resplandece novamente nas telas. Sua potência permanece intocada para retratar o drama da migração interna na Itália, o choque Norte-Sul dentro daquele país e os dramas da classe trabalhadora naquele momento.
A família protagonista vem da Sicília. São os Parondi, que migram para Turim, buscando emprego para seus filhos, como Rocco (Alain Delon) e Simone (Renato Salvatori). Na cidade grande, os interioranos enfrentam todos os percalços dos despossuídos de educação e dinheiro, oferecendo à história a chance de desenvolver muitos perfis humanos e sua luta para fazer frente a condições sociais desfavoráveis.
As personagens femininas são igualmente admiráveis, como a mãe Rosaria Salvatori (a atriz grega Katina Paxinou), e uma prostituta por quem Simone se apaixona, Nadia (a francesa Annie Girardot). Se há filmes que merecem a definição de imperdíveis, este é um deles. (Neusa Barbosa)
Indicação: 12 anos
Duração: 177 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6                30/10/2015 - 19:10 - Sessão: 766 (Sexta)
CINE OLIDO                                                                             31/10/2015 - 19:00 - Sessão: 794 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3                 3/11/2015 - 13:30 - Sessão: 1086 (Terça)
 
 
O botão de pérola
O cineasta chileno Patricio Guzmán já tem status de mestre. Seus documentários, cada vez mais são capazes de interações multidisciplinares, de raciocínios plurais, unindo enfoques em várias direções, dramáticos, complexos e emocionantes como a vida. Mais uma vez, como acontecia em Nostalgia da Luz (2010), ele atinge o sublime neste filme que teve como ponto de partida a trajetória de dois – aparentemente – simples botões. Um deles, dado a um índio no século XIX, que por conta da modestíssima prenda, acabou indo à Europa. Outro foi encontrado junto aos despojos de desaparecidos políticos da ditadura Pinochet.
Com este ponto de partida, Guzman foi capaz de traçar uma narrativa que percorre a história chilena e divaga também em torno de um tema muito contemporâneo, a água. A mesma água de onde veio a origem da vida sobre a Terra e que constitui a maior fronteira do Chile, no caso, o Oceano Pacífico, que era o meio preferencial de indígenas nômades que ocuparam o por muito tempo ignorado, no período colonial, das terras ao sul. Ali na Patagônia, índios viviam num habitat frio e aquoso, sem constituir moradia fixa, morando em barcos habilmente construídos a partir de troncos, com fogueiras ao centro, para espantar o frio. Mas a água também terminou trazendo conquistadores assassinos, que promoveram o genocídio indígena. Poucos restaram desse massacre, cujos descendentes tiveram uma oportunidade de compensação no governo Salvador Allende, justamente derrubado pelo general Pinochet, que usou esse mesmo oceano como cemitério para presos políticos jogados de aviões, numa das guerras sujas mais sangrentas do continente sul-americano.
Guzman, que vive na França, não é revanchista, é um cultivador da memória. Sabe e reafirma a cada um de seus filmes, cada vez mais matizados, que o esquecimento dos crimes do passado, sejam as mortes dos índios, seja a eliminação opositores do regime Pinochet, nada pode trazer de bom ao aprimoramento da humanidade que ali vive. Além do mais, ao retratar uma situação chilena, fala ao mundo, já que cada rincão deste planeta tem seus próprios crimes para exorcizar. (Neusa Barbosa)
Indicação: 14 anos
Duração: 82 min
CINE OLIDO                                                                   30/10/2015 - 19:00 - Sessão: 702 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1      2/11/2015 - 21:45 - Sessão: 1001 (Segunda)
CINESALA                                                                      3/11/2015 - 18:20 - Sessão: 1058 (Terça) 
 
Juventude Transviada
A última oportunidade de assistir à cópia restaurada de Juventude Transviada (1955), será em uma sessão especial, estilo drive-in, organizada pelo Sesc no Parque Dom Pedro II. É uma escolha acertada, até porque os carros compõem um elemento importante – não só como fetiche do grupo representado, mas também narrativamente – do clássico que imortalizou James Dean como ícone da rebeldia adolescente.
Através da chegada do rebelde de passado turbulento Jim Stark (James Dean) a uma cidade californiana e seu contato com outros jovens desajustados, como Judy (Natalie Wood) e Plato/Platão (Sal Mineo), o cineasta Nicholas Ray (1911-1979) traça o perfil de uma juventude que encontra um abismo em relação aos seus pais, sejam eles presentes ou não, e o mundo adulto, e usa suas ações desmedidas e inconsequentes para impor sua voz. (Nayara Reynaud)
Indicação: 16 anos
Duração: 89 min
AUTO CINE SESC PARQUE DOM PEDRO II          30/10/2015 - 21:00
 

Cinzento e Negro

O filme português tem como cenário a ilha do Pico, nos Açores, onde se desenvolve uma trama que beira o folhetinesco, mas é contada tão bem, e tão elegantemente conduzida, que o resultado é melhor do que o esperado. Maria (Joana Bárcia), mulher infeliz e coxa, traída pelo namorado, David (Miguel Borges), jura vingança. Para isso, conta com ajuda de Lucas (Filipe Duarte), inspetor de polícia, que aceita fazer esse freelance nas férias.A primeira parte do longa joga muitas questões, coloca os personagens em cena, sem muito explicar ou dizer quem são. Acompanhamos quase que intuitivamente a trama, porque ela desperta interesse. Na segunda parte, quando o diretor e roteirista Luís Felipe Rocha leva o filme para o passado e narra o que trouxe aquelas pessoas até a ilha, tudo começa a fazer sentido.Rocha filma com segurança, muito consciente do que cada cena significa na construção da narrativa e arco dos personagens. A bela fotografia de André Szankowski aproveita bem a paisagem local, cujo vulcão, Montanha do Pico, e a vastidão espelham os estados de espíritos dos personagens. (Alysson Oliveira)
Indicação: 12 anos
Duração: 125 minutos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   30/10/2015 - 21:45 - Sessão: 752 (Sexta)

Luz incidente
É curioso ver a atriz argentina Erica Rivas protagonizando o drama Luz Incidente, porque a única memória que temos dela é como a noiva tresloucada de Relatos Selvagens. Aqui, ela está numa chave completamente diferente, num filme melancólico sobre uma viúva, Luisa, que precisa reencontrar seu rumo na vida para cuidar das duas filhas pequenas.
O filme é, no fundo, sobre o processo de luto de Luisa, que começa a ser assediada por um homem apaixonado por ela, interpretado por Marcelo Subiotto. Existe uma possibilidade de futuro para ela, numa época em que as mulheres pareciam não ter muitas opções na vida, especialmente sem um homem ao seu lado.
Escrito e dirigido por Ariel Rotter (El Otro), Luz Incidente é um drama à moda antiga que ressoa em assuntos atuais, como os direitos e liberdades da mulher. Muito bem fotografado em preto-e-branco, por Guillermo Nieto, o longa dá chance a Érica de mostrar uma interpretação contida e delicada. (Alysson Oliveira)
Duração: 95 minutos
Indicação: Livre
MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM -            30/10/2015 - 15:00 - Sessão: 768 (Sexta)
CINEARTE 2 -                                                          3/11/2015 - 18:40 - Sessão: 1045 (Terça) 

Coração de Leão
A coprodução sueco-finlandesa aborda um tema candente: o neonazismo e a violência contra negros, imigrantes ou não, na Finlândia. O protagonista é um desses militantes fanáticos de extrema-direita, Teppo Salminen (Peter Franzen), um ex-soldado que passa os dias alimentando uma raiva insana contra imigrantes, estrangeiros, judeus e negros, participando de agressões contra eles ou suas moradias. Por uma ironia, ele se envolve com Sari (Laura Birn), garçonete de um bar, que é divorciada e mãe de um menino negro, Rhamadhani (Yusuf Sidbeh). Quando ela vê as tatuagens com suásticas no corpo de Teppo, ela tenta romper todo contato com ele. Mas ele insiste em procurá-la, instaurando uma espécie de trégua pessoal para conviver com este menino, que também o rejeita, vendo nele um inimigo, com bastante razão.
Ao mesmo tempo em que Teppo aos poucos se humaniza, naturalmente distancia-se de sua antiga vida. Mas não demora e seus amigos e o irmão soldado descobrem onde ele vive e porque os deixou. O enredo cria tensão real neste convívio e no confronto entre mundos muito diferentes. Pode não parecer totalmente crível em alguns momentos, mas a licença poética vale, neste caso, para explorar várias possibilidades de lidar com este tema tão importante. Às vezes até surpreendentemente, não faltam nem humor nem ironia para atravessar as situações. (Neusa Barbosa)
Indicação: 14 anos
Duração: 99 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2                     30/10/2015 - 13:30 - Sessão: 748 (Sexta)
CINE CAIXA BELAS ARTES - SALA SPCINE                        31/10/2015 - 15:45 - Sessão: 806 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4                     1/11/2015 - 19:00 - Sessão: 959 (Domingo)
 
O abraço da serpente
A famosa frase “o horror, o horror” do romance O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, também presente na melhor adaptação cinematográfica do livro, Apocalypse Now, ecoa em vários momentos no colombiano O Abraço da Serpente. Este segundo longa de Ciro Guerra, que assina também o roteiro, inspira-se nos diários do etnologista alemão Theodor Koch-Grünberg e do botânico Richard Evans Schultes, aqui chamados de Theodor (Jan Bijvoet) e Evan (Brionne Davis).
A ação interliga a jornada dos dois pelo rio Amazonas, entre 1909 e 1940, enquanto buscam uma flor chamada yakruna, supostamente com poderes de cura. Eles são guiados por um xamã nativo, Karamakate (interpretado por Nilbio Torres e Antonio Bolivar, nas duas fases), que é o único sobrevivente de um ataque de invasores que dizimou sua tribo.
Guerra parece compartilhar os mesmos interesses de Conrad um século atrás, trocando o Congo belga pela Amazônia colombiana, igualmente questionando o fracasso do projeto civilizatório, que mais destrói do que cria. A influência europeia se materializa quando um dos exploradores coloca um fonógrafo para tocar o oratório A Criação, do alemão Joseph Haydn – num momento que parece um aceno a Fitzcarraldo. Há um outro, uma viagem lisérgica, uma clara referência a 2001 – uma odisseia no espaço.
A bela fotografia em preto-e-branco, de David Gallego, e o cenário tropical remetem ao português Tabu, de Miguel Gomes, que também questiona os limites e as consequências da exploração e do colonialismo. É um lamento às perdas humanas e da natureza, da vitória da civilização sufocante frente à “barbárie” da liberdade.
O Abraço da Serpente é longo e demanda atenção, empenho e comprometimento do público. Ao mesmo tempo, oferece em troca uma obra de arte única, uma experiência cinematográfica rara, rica em sua estética e poderosa em seu comentário, que ecoa a frase famosa de George Orwell: “A história é escrita pelos vencedores”. (Alysson Oliveira)
Duração: 125 minutos
Indicação: 16 anos
CINESALA -                                                                   30/10/2015 - 15:45 - Sessão: 722 (Sexta)
CINESESC -                                                                   31/10/2015 - 15:00 - Sessão: 817 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2-     2/11/2015 - 21:15 - Sessão: 1006 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1-     3/11/2015 - 21:45 - Sessão: 1080 (Terça)
 
O apóstata
Gonzalo Tamayo (Álvaro Ogalla) não quer mais saber da Igreja Católica. Mas ele não pretende apenas parar de ir à missa, comungar e confessar, ele quer romper os laços formalmente, eliminar todos os registros que o envolvam, como o certificado de batismo. Enfim, ser um apóstata. Mas para isso, o caminho não é fácil. Exige-se que ele cumpra diversas etapas, passando por uma espécie de tribunal e realizar um rito final, no qual ele sai de uma igreja de costas, encarando o altar.
O cineasta uruguaio Federico Veiroj (A Vida Útil) trata, em O Apóstata, do tema com humor e leveza, mas, ao fundo, discute uma questão séria e pertinente: o direito da escolha. Gonzalo, um sujeito perdido na vida, não escolheu ser católico, e, quando, finalmente, resolve que não o quer ser, esse direito lhe é negado. Ele lida com todo o processo propositadamente difícil e burocrático, em que autoridades eclesiásticas colocam todo tipo de barreira para o seu objetivo.
Dividido entre as aulas de filosofia na universidade – às quais nunca comparece – e ajudar um garotinho do andar de baixo com a lição de casa, Gozalo também tem idas e vindas amorosas com sua prima, Pilar (Marta Larralde), que acaba de se separar e vai procurar refúgio no apartamento dele.
Ogalla – que também assina o roteiro – tem uma presença marcante com seu tipo caladão, cheio de incertezas, acumulando uma surpreendente energia na decisão de renunciar a uma fé que nunca teve. Inseguro e dependente da mãe (Vicky Pena), livrar-se da religião, mais do que uma afronta a ela, significa, entre outras coisas, livrar-se dos anos de opressão passivo-agressiva pendente dessa relação com ela. A resolução cômica dos conflitos, no entanto, não diminui a complexidade com que aborda o tema. (Alysson Oliveira)
Indicação: 18 anos
Duração: 80 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2-30/10/2015 - 17:50 - Sessão: 750 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 -31/10/2015 - 17:10 - Sessão: 845 (Sábado)
CINEMATECA - SALA BNDES - 01/11/2015 - 21:00 - Sessão: 901 (Domingo)
 
O Quarto Proibido
Há mais de dez anos, a obra do canadense Guy Maddin foi tema de uma retrospectiva completa na Mostra – na época, inclusive, ele lançava o filme que se tornou o mais famoso, A Música Mais Triste do Mundo. Dessa forma, o novo trabalho do cineasta (codirigido por Evan Johnson), O Quarto Proibido, não deve soar de todo inusitado ao público da Mostra – embora o filme seja extremamente estranho.
Há, aqui, o universo onírico e a fantasmagoria típicos da obra do cineasta, assim como a relação com formas de fazer cinema do passado – especialmente do momento em que conviviam os últimos filmes mudos e os primeiros falados. Ao centro, está um submarino com pouco oxigênio, condenando sua tripulação a poucas horas de vida.
O Quarto Proibido parece se dar na fissura dos vintages que fascinam Maddin – quando nem uma forma nem a outra é a hegemônica, e os filmes mudos lutam uma batalha perdida para terem uma sobrevida. Esse parece o destino de seus personagens aqui. Suas vidas são capturadas em diversos suportes – desde duas formas de película populares nos anos de 1930 e 1940, além de projeções, e momentos em que o filme (o objeto físico) parece desmanchar enquanto é exibido.
Maddin, que deve ser um dos sujeitos mais populares do mundo que faz filmes estranhos, consegue um elenco de estrelas europeias em papéis pequenos, mas que também parecem ter se divertido muito – como é o caso de Mathieu Amalric, Geraldine Chaplin, Maria de Medeiros e Charlotte Rampling, entre outros. E é, de certa forma, uma bobagem tentar sumarizar o filme numa sinopse, porque aqui pouco importa o que tem para contar, mas como os diretores contam o filme, o que o torna uma experiência quase sensorial. (Alysson Oliveira)
Indicação: 16 anos
Duração: 128 min
CINEARTE 1 - 30/10/2015 - 16:45 - Sessão: 704 (Sexta)
 
Túmulos e Ossos
Na programação especial de véspera de Halloween da Mostra, com vários filmes de terror exibidos na sequência na mesma sala, chama a atenção o exemplar islandês do gênero. Túmulos e Ossos é o longa de estreia de Anton Sigurdsson e, mesmo entre seus curtas, sua primeira incursão no universo do horror. Por isso, talvez, a forte presença do drama, até o terceiro ato, quando o sobrenatural, que dá relances durante todo o filme, realmente ganha a tela, numa história que não foge dos clichês do gênero, como a da casa mal-assombrada.
O casal Gunnar (Björn Hlynur Haraldsson) e Sonja (Nína Dögg Filippusdóttir) viaja para o interior do país, a fim de buscar sua sobrinha Perla (Elva María Birgisdóttir), agora órfã. Mas recaem sobre os ombros dos dois toda a repercussão sobre a maior manobra financeira ilegal ocorrida na Islândia, executada por Gunnar, a morte trágica do irmão dele junto da esposa e, como o público fica posteriormente sabendo, a perda da filha deles, há um ano. Todos esses problemas culminam em várias discussões e, enquanto Sonja tenta restabelecer um vínculo maternal através de Perla, a menina parece guardar segredos sobre outros habitantes daquela casa.
O filme é eficiente quando subverte o gênero e entrega, em cada preparação para um susto inexistente, um pequeno anticlímax. De certo modo, isso prejudica o próprio clímax, pois todo o clima de tensão se esvai quando o “mal” realmente aparece. Contudo, o que realmente prejudica a parte do terror em si do longa é a forma apressada com que Sigurdsson a conduz. (Nayara Reynaud)
Indicação: 16 anos
Duração: 89 min
CINEARTE 1      30/10/2015 - 22:00 - Sessão: 706 (Sexta)
 
A Senhora da Van
Nicholas Hytner tem uma frutífera parceria com o escritor e dramaturgo Alan Bennett, responsável pelas adaptações de suas próprias peças, dirigidas pelo cineasta, que resultaram no primeiro longa do diretor, As Loucuras do Rei George (1994), e seu último trabalho até então, Fazendo História (2006). Após um hiato de nove anos no cinema, com a carreira dedicada só ao teatro, retoma-se a parceria para trazer às telas A Senhora da Van, um filme autobiográfico do roteirista sobre os fantasmas da própria consciência de um indivíduo e a pressão da moral coletiva.
Por causa de um episódio passado, pelo qual lhe pesa a morte de alguém, agravado por sua rígida educação religiosa como freira, na qual a música era um pecado, uma senhora viveu erraticamente com a sua van pelas ruas de Camden Town, em Londres, entre os anos 1970 até o fim da década de 80. A produção acompanha o período em que Alan Bennett, aqui interpretado por Alex Jennings (o príncipe Charles de A Rainha, de 2006), chega ao bairro e conhece a chamada Miss Sheppard (a duas vezes ganhadora do Oscar, Maggie Smith, agora na série Downton Abbey).
Os moradores locais, com a culpa por viverem em ótima situação financeira e o dever moral, acabam oferecendo pequenas ajudas à idosa, apesar de não desejarem que ela pare sua malcheirosa casa sobre rodas em frente às suas casas. Mas é com o dramaturgo que ela estabelece uma relação mais próxima. Sentindo-se culpado por não poder (ou querer?) cuidar da mãe, internada em um asilo, Bennett acaba cuidando involuntariamente da senhora, por quem, a contragosto e mesmo com todo seu nojo, cria certa afeição.
A divisão visual e de personagens que é criada para o Alan que escreve e o Alan que vive funciona, graças ao ágil e sarcástico texto do próprio roteirista, conduzido com o clássico humor britânico e delicadeza por Hytner. Se, em algum momento, pesar na consciência do espectador o fato de rir de uma situação tão grave, seja a de rua ou de alguém em tão grande autopenitência, culpe Maggie Smith, cuja atuação soberba é a melhor dela, ao menos no cinema, em algum tempo. (Nayara Reynaud)
Indicação: 10 anos
Duração: 104 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1 30/10/2015 - 19:40 - Sessão: 736 (Sexta)ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6            04/11/2015 - 17:15 - Sessão: 1178 (Quarta)

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