39ª Mostra de São Paulo

Fim de semana com histórias de paixão, terror e Tarkóvski

Equipe Cineweb

 Três lembranças da minha juventude
O cineasta francês Arnaud Desplechin volta a temas e personagens do filme Como eu briguei (por minha vida sexual), caso de Paul Dédalus (aqui novamente interpretado pelo Mathieu Amalric que, em 1996, venceu um César como revelação masculina por aquele filme).
Mathieu encarna Paul em sua versão madura, no momento em que termina um período de dez anos no Tadjiquistão, onde trabalhara como consultor de antropologia. No momento em que vai sair do país, identifica-se um problema com seu passaporte – informam-lhe que existe um outro Paul Dédalus. O incidente remete a uma das tais três lembranças do título, uma aventura que o Paul adolescente tivera numa misteriosa viagem à então URSS. E sua conversa com um severo inspetor (André Dussollier) desencadeia um dos flashbacks que compõe esta emocionada viagem no tempo.
O foco mais interessante da história, nos anos 1980, fica por conta do Paul aos 19 anos (o ótimo estreante Quentin Dolmaire), apaixonado pela bela e volúvel Esther (ótima estreante também a bela Lou Roy-Lecollinet). As idas-e-vindas deste amor, seu carrossel de emoções, traições e buscas de liberdade não têm como não emocionar quem algum dia já foi jovem, ou seja, todo mundo. Neste jovem Paul, como disse a crítica francesa, Desplechin compõe seu próprio Antoine Doinel – François Truffaut provavelmente aprovaria. (Neusa Barbosa)
Indicação: 16 anos
Duração: 123 min
RESERVA CULTURAL 2 -                                                               31/10/2015 - 21:10 - Sessão: 866 (Sábado)
CINESALA -                                                                                        1/11/2015 - 20:00 - Sessão: 905 (Domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 -                         2/11/2015 - 17:45 - Sessão: 999 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 -                         3/11/2015 - 15:15 - Sessão: 1082 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 -                         4/11/2015 - 20:15 - Sessão: 1169 (Quarta)
 
 Tarkóvski – tempo dentro do tempo
O documentário do norte-americano PJ Letofsky parte dos Diários do sublime cineasta russo Andrei Tarkóvski (1932-1986) para traçar um pequeno mas eficiente perfil de sua vida e obra. É uma espécie de pequena síntese de alguns dos principais momentos de uma biografia muito rica e também tumultuada pelo exílio e a perseguição política e, finalmente, interrompida pelo câncer que matou tão cedo o diretor de filmes míticos como A infância de Ivan, Andrei Rublev, Stalker, Nostalgia e O Sacrifício.
O próprio Letofsky foi levado ao encontro de Tarkóvski por acaso. Em 2006, o cineasta italiano Michelangelo Antonioni visitou Los Angeles para receber um prêmio por sua carreira, falando, entre outras coisas, como tinha ajudado Tarkóvski a escapar para a Itália, depois de ter sido perseguido pela censura e os órgãos estatais em seu país. Letofsky mergulhou, então, na obra do colega russo, descobrindo também seus volumosos Diários, numa edição em inglês. “Enxerguei ali um verdadeiro roteiro e até me perguntei como ninguém tinha pensado em usá-lo assim antes”, destacou o documentarista norte-americano, que veio a São Paulo.
O projeto do filme foi longo, começando em 2010. Exigiu diversas viagens de Letofsky à Europa, à Rússia, Itália e Suécia, países onde entrevistou personagens como a atriz Natalya Bondarchuk, a irmã de Tarkóvski, Marina, a viúva de Antonioni, Enrica, o roteirista Tonino Guerra e a produtora sueca Katinka Farago, parceira habitual de Ingmar Bergman que atuou na produção do último filme do russo, O Sacrifício (que usou outros colaboradores de Bergman, como o fotógrafo Sven Nyqvst e o ator Erland Josephson, o que provocou, segundo Katinka, ciúmes do mestre sueco).
Sobre um dos assuntos mencionados nos Diários, tratado no filme, o longo projeto de Tarkóvsky de fazer um filme sobre o escritor Fiódor Dostoiévski, o diretor disse que “gostaria muito de saber onde foi parar esse roteiro, até porque queria muito ajudar a que se tornasse um filme”. (Neusa Barbosa)
Indicação: livre
Duração: 73 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4                   31/10/2015 - 22:15 - Sessão: 832 (Sábado)
CINE OLIDO -                                                                                     4/11/2015 - 17:00 - Sessão: 1124 (Quarta)
 
 Zé do Caixão
Um dos personagens homenageados nesta 39ª. Mostra, o ator, diretor, produtor e pioneiro do terror (e do “terrir”) nacional, José Mojica Marins recebe outra justa homenagem com uma série para TV (canal Space), cujos dois primeiros capítulos foram condensados para uma apresentação especial.
Matheus Nachtergaele está magnífico na pele de Mojica, encarnando uma mistura de simplicidade e arrojo para retratar a luta do personagem para sobreviver na Boca do Lixo com “aulas de atuação” para alunos que depois pagavam para atuar em suas produções baratíssimas. A série também conta como foi criado seu carismático personagem, Zé do Caixão, a partir do filme À Meia-Noite Levarei sua Alma (164).
Mesmo sendo muito divertida, a série mostra grande respeito por Mojica, um faz-tudo e pioneiro de origem humilde que foi bastante explorado por produtores que levaram a melhor financeiramente de sua criação mas que, ainda em vida, teve o gosto de virar cult, inclusive com reconhecimento internacional (como “Coffin Joe”). A série tem previsão de seis episódios e estreia prevista para novembro. (Neusa Barbosa)
Indicação: 14 anos
Duração: 88 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 -                    31/10/2015 - 20:00 - Sessão: 841 (Sábado)
 
 Outras garotas
O bom filme finlandês, do diretor Esa Illi, transpira sinceridade e energia ao traçar o retrato de quatro adolescentes e amigas: Jenny (Sara Soulié), Jessica Ida Vakkuri), Taru (Misa Lommi) e Aino (Bahar Tokat).
Com uma linguagem toda pop, musical e meio videoclipada – que faz sentido aqui -, o diretor enfileira temas pertinentes à vida das garotas, como sexo, amizade, traição, bullying, relacionamento com os pais e lesbianismo, equilibrando drama e humor. A nota dominante é a solidariedade deste jovem grupo feminino, prenunciando as inevitáveis escolhas e separações da vida adulta. (Neusa Barbosa)
Indicação: 12 anos
Duração: 83 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5 -                      31/10/2015 - 19:15 - Sessão: 851 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4-                3/11/2015 - 14:00 - Sessão: 1071 (Terça)
 
 Aeróbica – uma história de amor
Pelo título, sugere uma comédia, mas não é. E, apesar de ser um drama, o filme do sueco Anders Rune transborda em sensibilidade e até humor, quando cabe, para retratar a história de um improvável romance entre duas pessoas desajustadas: o obeso e divorciado Janne (Victor von Schirach), deprimido com a separação da esposa e do filho e sobrevivendo de uma pensão do governo; e uma moça com limitações mentais, Maria (Marina Nyström), que vive sob a guarda da irmã, Helen (Madeleine Martin).
Com todo esse potencial para virar um dramalhão lacrimoso, trilha-se um caminho que ressalta a dignidade dos protagonistas e seus sonhos e desejos, o primeiro deles, ficar juntos – o que é visto com uma até natural preocupação pela irmã e guardiã de Maria.
Quando envereda por um outro tema, o esforço de Janne para compor um projeto profissional para a televisão, é que a história encara seu maior risco, equilibrando-se com cuidado para sequer resvalar no ridículo. Nada disso. Maria e Janne evocam respeito e simpatia, sem nenhuma pitada de pieguice na receita. Ponto para a direção equilibrada e nada fria de Rune. (Neusa Barbosa)
Indicação: 12 anos
Duração: 74 min
CINEMATECA - SALA BNDES -                                 1/11/2015 - 17:00 - Sessão: 899 (Domingo)
 
 Que viva Eisenstein! – 10 dias que abalaram o México
O veterano diretor inglês Peter Greenaway esbanja excessos visuais (alguns, como de hábito, belíssimos) para filmar esta história, baseada em fatos reais, sobre a passagem do renomado diretor russo Sergei Eisenstein pelo México, em 1931.
É um momento de crise na vida de Eisenstein, que já filmara Greve (25), O Encouraçado Potemkin (25) e Outubro (28). Apesar da consagração, inclusive internacional, o diretor tinha problemas para prosseguir na carreira. Fora atraído a Hollywood, mas ali não conseguira filmar. Estimulado por apoiadores esquerdistas, como o escritor norte-americano Upton Sinclair, ele viaja ao México, onde filmaria o nunca concluído Que Viva México!.
Mesmo apoiado em fatos, o que menos interessa ao inquieto Greenaway é uma cinebiografia. O que realmente tem em vista é mergulhar de modo delirante na vida pessoal de Eisenstein que, segundo o filme, seria ainda virgem aos 33 anos e teria finalmente superado suas inibições ao ter uma tórrida aventura com seu guia mexicano, o professor mexicano Palomino Canedo (Luis Alberti).
Como sempre com Greenaway, há nudez em profusão, aqui mais masculina, e nenhuma timidez para expor uma caliente cena de sexo entre os dois homens – o que explica a recomendação etária para 18 anos, assim como a exposição de alguns dos muitos desenhos eróticos do diretor russo.
Apesar do interesse que se possa ter pelas contradições da vida de Eisenstein, que passaram também pela repressão sexual e a homofobia na terra natal (que, aliás, existe ainda hoje), o tom exagerado do filme e da interpretação do protagonista, o ator finlandês Elmer Bäck, resvalam na caricatura. Melhor seria se a direção garantisse um pouco mais de ambiguidade, deixando entrever também a genialidade do artista, que aqui parece não passar de um clown excêntrico. (Neusa Barbosa)
Indicação: 18 anos
Duração: 105 min
CINEARTE 1 -                          1/11/2015 - 22:00 - Sessão: 887 (Domingo)
CINEARTE 1 -                          2/11/2015 - 21:45 - Sessão: 965 (Segunda)
 
 Kaminski e eu
O diretor alemão Wolfgang Becker (Adeus Lênin) adapta livro homônimo de Daniel Kehlmann para compor esta história irônica, sobre um jornalista, Sebastian Zöllner (Daniel Brühl), candidato a biógrafo do velho e consagrado pintor Manuel Kaminski (Jesper Christensen).
Na sua juventude, Kaminski foi para a França e, apadrinhado por Matisse e Picasso, elevou-se à fama no início do século XX. Além de sua obra, um detalhe de sua biografia tornou-o ainda mais célebre: ele estaria ficando cego e totalmente cego ficaria, o que por muito tempo não o impediu de pintar e frequentar ambientes de celebridades, como Andy Warhol.
A investigação cínica de como se monta um mito em torno de lendas ou fatos – imprima-se a lenda – é um dos aspectos mais interessantes do filme, que acompanha o relacionamento aos solavancos entre o velhíssimo e decrépito pintor e o seu ambicioso pretendente a biógrafo. A convivência entre os dois, muito dificultada pela filha do pintor (Amira Casar), que o mantém recluso, finalmente se desdobra em direções não-previstas por nenhum dos dois e gradativamente se humaniza.
Uma participação deliciosa é de Geraldine Chaplin, como uma das mulheres da vida do pintor. O filme é encantador e não só para os amantes das artes plásticas (os letreiros finais, especialmente, são dedicados a estes últimos, um primor de formas e cores). (Neusa Barbosa)
Indicação: 16 anos
Duração: 125 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 -         31/10/2015 - 19:10 - Sessão: 846 (Sábado)
RESERVA CULTURAL 2 -                                               2/11/2015 - 19:30 - Sessão: 1026 (Segunda)
CINEARTE 1 -                                                                     3/11/2015 - 21:45 - Sessão: 1043 (Terça)
 
 Rocco e seus irmãos
O magnífico drama de Luchino Visconti, de 1960, restaurado pela Cineteca di Bologna com o apoio da The Film Foundation, resplandece novamente nas telas. Sua potência permanece intocada para retratar o drama da migração interna na Itália, o choque Norte-Sul dentro daquele país e os dramas da classe trabalhadora naquele momento.
A família protagonista vem da Sicília. São os Parondi, que migram para Turim, buscando emprego para seus filhos, como Rocco (Alain Delon) e Simone (Renato Salvatori). Na cidade grande, os interioranos enfrentam todos os percalços dos despossuídos de educação e dinheiro, oferecendo à história a chance de desenvolver muitos perfis humanos e sua luta para fazer frente a condições sociais desfavoráveis.
As personagens femininas são igualmente admiráveis, como a mãe Rosaria Salvatori (a atriz grega Katina Paxinou), e uma prostituta por quem Simone se apaixona, Nadia (a francesa Annie Girardot). Se há filmes que merecem a definição de imperdíveis, este é um deles. (Neusa Barbosa)
Indicação: 12 anos
Duração: 177 min
CINE OLIDO -                                                                       31/10/2015 - 19:00 - Sessão: 794 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 -          3/11/2015 - 13:30 - Sessão: 1086 (Terça)
 
O abraço da serpente
A famosa frase “o horror, o horror” do romance O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, também presente na melhor adaptação cinematográfica do livro, Apocalypse Now, ecoa em vários momentos no colombiano O Abraço da Serpente. Este segundo longa de Ciro Guerra, que assina também o roteiro, inspira-se nos diários do etnologista alemão Theodor Koch-Grünberg e do botânico Richard Evans Schultes, aqui chamados de Theodor (Jan Bijvoet) e Evan (Brionne Davis).
A ação interliga a jornada dos dois pelo rio Amazonas, entre 1909 e 1940, enquanto buscam uma flor chamada yakruna, supostamente com poderes de cura. Eles são guiados por um xamã nativo, Karamakate (interpretado por Nilbio Torres e Antonio Bolivar, nas duas fases), que é o único sobrevivente de um ataque de invasores que dizimou sua tribo.
Guerra parece compartilhar os mesmos interesses de Conrad um século atrás, trocando o Congo belga pela Amazônia colombiana, igualmente questionando o fracasso do projeto civilizatório, que mais destrói do que cria. A influência europeia se materializa quando um dos exploradores coloca um fonógrafo para tocar o oratório A Criação, do alemão Joseph Haydn – num momento que parece um aceno a Fitzcarraldo. Há um outro, uma viagem lisérgica, uma clara referência a 2001 – uma odisseia no espaço.
A bela fotografia em preto-e-branco, de David Gallego, e o cenário tropical remetem ao português Tabu, de Miguel Gomes, que também questiona os limites e as consequências da exploração e do colonialismo. É um lamento às perdas humanas e da natureza, da vitória da civilização sufocante frente à “barbárie” da liberdade.
O Abraço da Serpente é longo e demanda atenção, empenho e comprometimento do público. Ao mesmo tempo, oferece em troca uma obra de arte única, uma experiência cinematográfica rara, rica em sua estética e poderosa em seu comentário, que ecoa a frase famosa de George Orwell: “A história é escrita pelos vencedores”. (Alysson Oliveira)
Duração: 125 minutos
Indicação: 16 anos
CINESESC -                                                                         31/10/2015 - 15:00 - Sessão: 817 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2-           2/11/2015 - 21:15 - Sessão: 1006 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1-           3/11/2015 - 21:45 - Sessão: 1080 (Terça)
 
Alias Maria
Apresentado na seção Un Certain Regard da última edição de Cannes, a coprodução colombiana com a Argentina e a França, Alias Maria, reflete uma interessante visão interna dos conflitos que marcam a Colômbia desde os anos 1960, que dividiram o país entre a guerrilha de extrema esquerda, que lutava contra o governo totalitário, e a resposta da extrema direita com os grupos paramilitares. Hoje a situação está mais calma, porém, porque o tráfico de drogas e seus lucros geraram um certo equilíbrio de forças.
O segundo longa de ficção de José Luis Rugeles, cuja estreia foi em García (2010), acompanha uma missão da guerrilha, mais especificamente a soldada Maria. A garota de apenas 13 anos, segundo a sinopse – ela parece jovem, mas não ter esta idade, algo nunca citado dentro do filme –, fica responsável por cuidar do filho recém-nascido dos líderes da facção, enquanto ela, seu namorado Maurício (Carlos Clavijo), o empenhado Byron (Anderson Gomez) e o ainda menino Yuldor (Erik Ruiz) levam o bebê para a cidade, para que fique em segurança na casa de companheiros da causa. Mas a caminhada pela selva guarda muitos perigos e, um deles é que os outros descubram a condição de Maria.
Todos jovens ou crianças-soldados, o grupo é inexperiente demais e acaba tomando decisões precipitadas. Neste sentido, a escolha por atores não-profissionais, apesar de pesar em momentos de mais emoção, favorece essa sensação de falta de rumo dos personagens. Rugeles e o diretor de fotografia Sergio Iván Castaño usam a steady cam, no mesmo caminhar dos épicos de Malick, para pôr o espectador junto deles andando na selva. O resultado é um filme de sobrevivência, que cria uma tensão latente.
O cineasta ainda tem o mérito de traçar um retrato imparcial em termos políticos: os elementos desta guerra, de ambos os lados, praticam ações animalescas, e o país e, particularmente, seu povo são as vítimas. Trata-se então de uma obra de denúncia e igualmente valorização da força feminina e da maternidade, conforme a homenagem final a todas as mulheres que “lutam”, todas essas a quem o codinome Maria caberia. (Nayara Reynaud)
Indicação: 16 anos
Duração: 92 min
RESERVA CULTURAL 2 01/11/2015 - 20:15 - Sessão: 951 (Domingo)
 
O apóstata
Gonzalo Tamayo (Álvaro Ogalla) não quer mais saber da Igreja Católica. Mas ele não pretende apenas parar de ir à missa, comungar e confessar, ele quer romper os laços formalmente, eliminar todos os registros que o envolvam, como o certificado de batismo. Enfim, ser um apóstata. Mas para isso, o caminho não é fácil. Exige-se que ele cumpra diversas etapas, passando por uma espécie de tribunal e realizar um rito final, no qual ele sai de uma igreja de costas, encarando o altar.
O cineasta uruguaio Federico Veiroj (A Vida Útil) trata, em O Apóstata, do tema com humor e leveza, mas, ao fundo, discute uma questão séria e pertinente: o direito da escolha. Gonzalo, um sujeito perdido na vida, não escolheu ser católico, e, quando, finalmente, resolve que não o quer ser, esse direito lhe é negado. Ele lida com todo o processo propositadamente difícil e burocrático, em que autoridades eclesiásticas colocam todo tipo de barreira para o seu objetivo.
Dividido entre as aulas de filosofia na universidade – às quais nunca comparece – e ajudar um garotinho do andar de baixo com a lição de casa, Gozalo também tem idas e vindas amorosas com sua prima, Pilar (Marta Larralde), que acaba de se separar e vai procurar refúgio no apartamento dele.
Ogalla – que também assina o roteiro – tem uma presença marcante com seu tipo caladão, cheio de incertezas, acumulando uma surpreendente energia na decisão de renunciar a uma fé que nunca teve. Inseguro e dependente da mãe (Vicky Pena), livrar-se da religião, mais do que uma afronta a ela, significa, entre outras coisas, livrar-se dos anos de opressão passivo-agressiva pendente dessa relação com ela. A resolução cômica dos conflitos, no entanto, não diminui a complexidade com que aborda o tema. (Alysson Oliveira)
 
Indicação: 18 anos
Duração: 80 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 -                   31/10/2015 - 17:10 - Sessão: 845 (Sábado)
CINEMATECA - SALA BNDES -                                                1/11/2015 - 21:00 - Sessão: 901 (Domingo)
 
As 1001 Noites  1, 2 e 3
Misto de ficção e documentário, dividido em três partes, a nova obra de Miguel Gomes (Tabu) não é uma adaptação dos famosos relatos e sim um mergulho profundo na severa crise econômica de Portugal, intercalando depoimentos e personagens reais – como, na primeira parte, As 1001 Noites – Volume 1, O Inquieto, os empregados de um estaleiro em desmonte em Viana do Castelo, norte do país – e irônicas e corrosivas fábulas em torno de situações absurdas, tendo uma certa Sherazade como narradora, tal como ocorre nos livros originais.
A segunda parte de  As 1001 Noites – Volume 2, O Desolado abre-se com a história de Simão sem tripas (o estreante Chico Chapas, um ex-soldado e comerciante de pássaros), um criminoso foragido. Outras histórias se desenrolam num tribunal, presidido por uma juíza (Luísa Cruz) – um segmento que permite uma original superposição de casos e pontos de vista, além de um humor impagável – e também num condomínio suburbano, em que se sucedem histórias de fracasso, tristeza, sonho e também a posse de um cachorro, Dixie, por vários moradores. O cão, que se chama Lucky, na verdade, é um “ator”experiente, tendo aparecido em diversas produções espanholas, como Sombras de Goya, de Milos Forman.
No terceiro e último filme, O Encantado, o núcleo está nos cultivadores de uma peculiar paixão – o canto dos pássaros, que leva pessoas extremamente diferentes a treinarem suas aves, visando um concurso muito especial.
Em que pese toda a ironia de Gomes, é visível que ele quer falar sério. O que está fazendo em As 100 Noites é uma crônica de tempos sombrios, carregada de um humanismo melancólico os portugueses dominam como poucos. É um dos melhores programas da seleção do festival deste ano. (Neusa Barbosa)
Indicação: 16 anos
AS MIL E UMA NOITES: VOLUME 1, O INQUIETO (125 min)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2                31/10/2015 - 21:45 - Sessão: 842 (Sábado)
CINESESC                                                                               1/11/2015 - 15:00 - Sessão: 907 (Domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1                        3/11/2015 - 15:50 - Sessão: 1067 (Terça)
 
AS MIL E UMA NOITES: VOLUME 2, O DESOLADO (132 min)
RESERVA CULTURAL 2                                             31/10/2015 - 16:30 - Sessão: 864 (Sábado)
CINESESC                                                                     1/11/2015 - 17:30 - Sessão: 908 (Domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3      2/11/2015 - 19:30 - Sessão: 1010 (Segunda)
 
AS MIL E UMA NOITES: VOLUME 3, O ENCANTADO (125 MIN)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6 -                     31/10/2015 - 18:30 - Sessão: 855 (Sábado)
CINESESC -                                                                                    1/11/2015 - 20:00 - Sessão: 909 (Domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4                 2/11/2015 - 19:50 - Sessão: 995 (Segunda)
CINESALA-                                                                                      3/11/2015 - 16:00 - Sessão: 1057 (Terça)
 
 
Armadilha
O diretor filipino Brillante Mendoza mergulhou fundo em um melodrama com forte cunho neorrealista, sempre com uma câmera muito documental, acompanhando os efeitos devastadores do tufão Hayan sobre a cidade de Tacloban, Filipinas.
Um ano depois da tragédia, os sobreviventes ainda se abrigam nos restos de suas próprias casas destruídas ou então em tendas precárias – uma delas pega fogo, matando os familiares do pescador Renato (Lou Veloso) que haviam escapado ao tufão.
Não há uma única família que não conte seus mortos. Dona de uma pequena lanchonete, Bebeth (Nora Aunor) perdeu três filhos e insiste para que o ex-marido, como ela, submeta-se a um teste de DNA para procurar localizar seus restos, entre os milhares que foram sepultados às pressas.
Focalizando também o apego a uma religiosidade cristã um tanto fanática, a luta contra a burocracia inepta e a pobreza onipresente, Mendoza faz de sua câmera um instrumento de engajamento, embora o filme não seja tão bem realizado quanto trabalhos anteriores, caso de Lola ou Kinatay. (Neusa Barbosa)
Duração: 97 min
Indicação: 16 anos
CINEARTE 1-                     1/11/2015 - 20:00 - Sessão: 886 (Domingo)
 
A Terra e a Sombra
Vencedor  do prêmio Caméra D’Or (ao qual concorrem todos os filmes de diretores estreantes exibidos no Festival de Cannes), o colombiano (coprodução com Brasil, Chile e Holanda) A Terra e a Sombra, de César Augusto Acevedo, é um filme que tem o tempo da narrativa bastante peculiar.
Algumas pessoas poderiam usar o termo reducionista “lento”, mas o longa é bem mais do que isso. O diretor, que também assina o roteiro, tenta capturar em imagens e narrativa a vida de personagens que se movem lentamente para o fim – assim como o mundo onde vivem.
Nesse sentido, não é de se espantar que o entorno de sua casa, numa região rural da Colômbia, seja consumido por fogo, e que a fumaça não apenas cegue os moradores como tenta asfixiá-los. A chegada de Alfonso (Haimer Leal) é apenas o ponto de partida. Idoso e distante da família há anos, ele volta para reencontrar o filho, Gerardo (Edison Raigosa), ex-cortador de cana-de-açúcar que tem uma doença pulmonar e pouco tempo de vida. Sua mulher (Marleyda Soto) trabalha nos campos de cana, assim como sua mãe (Hilda Ruizcuida), para sustentar a casa.
O que dita o tempo aqui, então, é a espera da inevitável morte de Gerardo, que parece, às vezes, adiada, mas da qual não se há como fugir. Uma agonia tal qual a do mundo onde vivem – que também parece com os dias contados. Trabalhando com o diretor de fotografia Mateo Guzman, Acevedo cria imagens que transitam entre o onírico e o realista, entre a esperança e o inevitável. Seus quadros são composições meditadas, das quais os personagens são, às vezes, acessórios – o que não deixa de refletir a existência melancólica deles. (Alysson Oliveira)
Indicação:  10 anos
Duração: 94 min
CINESALA -                           1/11/2015 - 18:00 - Sessão: 904 (Domingo)
CINEARTE 1 -                        3/11/2015 - 14:00 - Sessão: 1039 (Terça)
 
Son of Saul
Com impressionante segurança, o diretor estreante Lazlo Nemes (que foi assistente do veterano Bela Tárr), conduz os espectadores de Son of Saul ao centro do inominável horror dos campos de concentração, de uma forma nada convencional. Com uma câmera febrilmente colada ao corpo de seu protagonista, Saul (Reza Gohrig) e desfocando o seu entorno, Nemes coloca quem assiste na perspectiva deste homem subjugado, que é um “sonderkommando”, ou seja, um dos responsáveis pelo massacrante trabalho diário de remover as roupas e objetos pessoais das vítimas das câmaras de gás, e depois seus corpos. Também é um dos faxineiros dessas câmaras.
Embora o tema seja recorrente, Nemes consegue injetar frescor nesta abordagem, o que torna a jornada de Saul mais vital e próxima de quem a compartilha, até por levar em pensar em detalhes da vida num campo de concentração normalmente não muito enfatizados. Um único evento dramático, afinal, sacode a letargia de Saul – ele encontra, entre as vítimas de uma cremação, um menino, que acredita ser seu filho. A partir daí, sua única obsessão é encontrar um modo de sepultá-lo dignamente, seguindo os ritos religiosos judaicos.
Este único desejo, temerário, quase irracional num contexto em que a sobrevivência requer toda a energia, e os inimigos não são somente os nazistas – também os “kapi”, chefetes de setor, que são prisioneiros, exploram e submetem os demais -, é eloquente para tratar do verdadeiro tema do filme, que é o resgate da dignidade numa situação em que sua perda é o alvo maior dos opressores. O filme é forte, com um excelente trabalho de som – fundamental na trama. Vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes, e considerado aposta quase certa entre os indicados ao Oscar de filme estrangeiro do ano que vem, Nemes mostrou força e segurança na proposta estética, que está a serviço não de um formalismo de ocasião, mas de uma história duríssima. (Neusa Barbosa)
 Indicação: 16 anos
Duração: 107 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 - 31/10/2015 - 19:50 - Sessão: 836 (Sábado)
 
Sob Nuvens Elétricas
Composto de sete segmentos interconectados, o russo Sob Nuvens Elétricas, de Alexey German Jr., faz um retrato melancólico da Rússia contemporânea sob uma chave que mergulha na fantasia e expõe feridas sócio-culturais de seu país. A narrativa, num tom impressionista, está situada em 2017, não por acaso o centenário da Revolução Russa, num país, como se diz na abertura do longa, “crucificado entre o passado e o presente”.
Essa encruzilhada se materializa na figura de um prédio inacabado que reaparece insistentemente ao longo do filme – às vezes, com certa importância, às vezes, como figurante. A construção faz lembrar a antiga União Soviética, em seu projeto grandioso e imponente, mas restando inacabado. Os personagens transitam em seu entorno, como um trabalhador imigrante que não fala uma palavra de russo, um casal de irmãos da elite agora herdeiros do prédio, um guia de museu que trabalha com interpretações de personagens históricos, entre outros. Todos compõem um painel da situação atual do país em diversas camadas sociais.
German Jr., no entanto, não está preocupado em fazer conexões entre as diversas tramas e personagens – como, digamos, acontece em Magnólia, de Paul Thomas Anderson. Aqui, a fragmentação é o resultado e o sintoma do isolamento de cada uma dessas pessoas, num país de futuro incerto, ainda sob o peso de um passado-recente tumultuado. Assim, o cinema do diretor parece estar próximo do de Andrei Tarkovsky, situando seu filme numa zona de fantasia que transita entre o sonho e o pesadelo.
As belas imagens – com a fotografia assinada por Evgeniy Privin e Sergey Mikhalchuk – reforçam essa ideia. E renderam ao filme o Prêmio de Contribuição Artística, no Festival de Berlim, em fevereiro passado. (Alysson Oliveira)
 
Indicação: 16 anos
Duração: 137 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 -             1/11/2015 - 17:00 - Sessão: 927 (Domingo)

Pardais
O segundo longa do islandês Runar Runarsson (que estreou com Vulcão, de 2011, também em exibição na Mostra), parte de um assunto já bastante abordado no cinema, o amadurecimento de um jovem, mas é capaz de dizer algo novo sobre o assunto. Muito se deve ao talento do diretor, do protagonista (Atli Oskar Fjalarsson), e de paisagens arrebatadoras da Islândia.
Ari (Fjalarsson) é um adolescente dono de uma bela voz – tanto que faz parte de um coral – que é obrigado a mudar-se da capital, Reykjavic, para a casa do pai (Ingvar E. Sigurosoon), numa região isolada e cercada de montanhas. Foi lá que passou sua infância, então seu retorno é uma volta ao seu passado, e também o reencontro com amigos e uma paixão juvenil, Lara (Rakel Bjork Bjornsdottir).
A mãe, com quem Ari morava antes, partiu com o novo marido para a África, onde ela julga não haver boas condições para acolher o filho. Entretanto, a relação entre Ari e o pai não é boa. Nunca tiveram muito contato, são distantes, e, para piorar, o sujeito é alcoólatra, ignorante e um tanto rude. Além disso, a atmosfera opressora do local – sempre claro e gélido, mesmo no verão – contribui para a sensação de isolamento do rapaz. Com os jovens de sua idade, ele também tem pouco a compartilhar, porque estão já contaminados por uma atmosfera um tanto primitiva e bruta.
O cenário grandioso e imponente introduz um certo estranhamento ao filme, contribuindo com texturas no retrato da dura jornada de amadurecimento do protagonista. Seu trajeto da inocência à maturidade é narrado com precisão e poucas palavras. (Alysson Oliveira)
Indicação: 18 anos
Duração: 99 minutos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1     1/11/2015 - 19:45 - Sessão: 923 (Domingo)
 
Vulcão
Indicação: 16 anos
Duração: 95 minutos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3       1/11/2015 - 13:30 - Sessão: 930 (Domingo)
 
 
Girls Lost
O terceiro filme da sueca Alexandra-Therese Keining se apropria do plot da mudança ou troca de corpos, tão comum nas comédias, para criar um drama em que usa a fantasia a fim de discutir questões de gênero na adolescência. A produção, exibida no Festival de Toronto deste ano, é baseada no romance juvenil de Jessica Schiefauer, premiado na Suécia, na qual um trio de garotas, Kim (Tuva Jagell), Momo (Louise Nyvall) e Bella (Wilma Holmen), por volta de seus 14 anos encontram uma semente mágica, cujo néctar as transforma em meninos (Emrik Ohlander, Alexander Gustavsson e Vilgot Ostwald Vesterlund dão vida às versões masculinas de Kim, Momo e Balla, respectivamente), durante algumas horas.
O que, em um primeiro momento, pode parecer uma simples masculinização das protagonistas, serve como gatilho de um empoderamento feminino: vítimas de bullying em uma escola onde os garotos, do tipo escrotos, mandam, tais mudanças geram nelas uma força para enfrentar seus agressores. Para Kim, no entanto, a magia corpórea gera uma satisfação diferente das amigas, pois é somente sob a nova forma que ela se sente bem com o seu corpo e tem a coragem para falar com o garoto por quem se interessa (Mandus Berg) – dilemas transexuais e homossexuais, às avessas, aparecem pelo caminho.
Os conflitos amorosos instigam o drama e o suspense que marcam o filme, mas, por si só, não instigam muito interesse. A trilha sonora de Sophia Ersson, entre um synthpop e o trip hop, aproveita as batidas eletrônicas e melodias climáticas em favor do suspense e da fantasia, em colaboração com a fotografia de Ragna Jorming, intercalando múltiplas cores e a escuridão, e a videoclíptica edição de Malin Lindstrom. Como dá para ver, uma produção extremamente feminina, até em sua equipe técnica. (Nayara Reynaud)
Indicação: 14 anos
Duração: 106 min
MATILHA CULTURAL     01/11/2015 - 18:00 - Sessão: 955 (Domingo)
 
 
Mistress America
A parceria entre o diretor Noah Baumbach e a atriz Greta Gerwig funcionou tanto em Frances Ha (2012), que rendeu um outro filme. Mistress America – assinado pela produtora brasileira RT Features – é um passo além. No princípio, pode parecer apenas que a dupla não saiu de sua zona de conforto, mas, na verdade, há um outro tipo de olhar para uma outra personagem.
É um tipo de comédia sofisticada que se passa num cenário que agradaria a Woody Allen – mas o viés de Baumbach é outro. Aqui temos a elite cultural e intelectual de Nova York, que pode não coincidir com a elite financeira, mas parece uma circulação muito proveitosa entre as duas. Tracy (Lola Kirke) é a heroína que acaba de completar 18 anos e se muda para a cidade para estudar literatura. No entanto, é incapaz de socializar com seus novos colegas de uma das faculdades prestigiadas dos EUA.
A vida parece lhe sorrir quando conhece sua futura “irmã”, Brooke (Greta) – cujo pai está de casamento marcado com a mãe de Tracy. A nova amiga é uma figura peculiar – vive intensamente uma precoce crise da meia-idade e é incapaz de levar qualquer projeto até o final, embora pareça ter grandes ideias. Curiosamente, o filme parece ser sobre essa garota com seus grandes e belos olhos, sorriso sempre aberto e cinismo sempre pronto. Mas não, o ponto de vista aqui é de Tracy, e uma geração separa as duas, embora para Brooke “apesar dos 10, 12 anos que nos separam somos da mesma geração”.
No roteiro assinado pelo diretor e sua estrela, o tema predominante é a perda da ilusão. O filme poderia ser um romance do século XIX que ensina Tracy a ser adulta, o que fazer e o que não fazer. Basicamente, é evitar seguir os mesmos passos da nova irmã. Brooke é, no fundo um desastre ambulante, e sua empolgação com tudo na vida é uma armadura contra sua solidão e perdas.
Muito ajuda a química entre as duas atrizes, e a direção em sintonia com as personagens – afinal, o filme é um estudo de personagens e da relação que nasce delas em tempos de laços de afeto fugazes. Tracy, que vive num eterno bloqueio criativo, escreve um conto sobre Brooke. Aparentemente, a melhor coisa que já escreveu na vida. A outra, por sua vez, quer abrir um restaurante, desses que combinaria o “melhor do capitalismo”. Eis aí boa parte da graça e uma pista gigante para entender a personagem: há uma dose de ingenuidade nela, aquela típica de uma elite fechada em seu mundo, que desconhece como as coisas realmente funcionam do lado de fora.
No melhor momento do filme, Tracy, Brooke e outros dois personagens viajam a Connecticut para que a moça consiga dinheiro com um ex-namorado e sua atual mulher (ex-melhor amiga dela) para abrir o tal restaurante. Seguem cenas completamente teatrais em sua precisão nos diálogos cortantes, na fina ironia e na mise-en-scène, É aí que Baumbach mostra o quanto pode ser sofisticado seu cinema, em sua comédia de costumes que critica de forma sutil e sagaz o vazio em que toda uma geração pode ter caído. Resta, então, a esperança na figura de Tracy e o seu futuro como escritora. (Alysson Oliveira)
Indicação: 12 anos
Duração: 85 minutos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1               1/11/2015 - 17:45 – Sessão: 912 (Domingo)
ESPA«O ITA⁄ DE CINEMA - FREI CANECA 1           2/11/2015 - 20:00 – Sessão: 1000 (Segunda)
CINESESC                                                                       3/11/2015 - 18:00 - Sessão: 1063 (Terça)
CINESALA                                                                        4/11/2015 - 18:00 - Sessão: 1142 (Quarta)
 
A Bruxa
Com sessão lotada na noite do dia 30 de outubro, o início do Halloween americano, estreou na Mostra A Bruxa, longa de estreia do americano Robert Eggers, depois de alguns curtas, escritos e dirigidos por ele. Um deles, há de se levar em conta, o Coração Delator, inspirado no clássico de Edgard Alan Poe, de quem muito bebe nesta produção.
De uma forma bastante direta, Eggers constrói sua cena. Uma família protestante inglesa, em meio ao caos do novo continente americano, é banida para os limites do que é, então, conhecido. Uma terra que nada prospera, costeada por um bosque em que tudo pode dar errado.
Já de início, aos olhos da adolescente Thomasin (Anya Taylor-Joy), o bebê da família é levado. É claro que foi uma criatura, e aqui o diretor se amarra na imagem de bruxa da idade média, universalizada pelos irmãos Grimm, sedentas por crianças.     
Impotente frente aos fatos, pouco importam as buscas empreendidas pelo pai William (Ralph Ineson, cuja gravidade de voz supera Morgan Freeman), que credita à responsabilidade do sumiço da criança a um lobo. Frente ao óbvio, os adeptos do autoengano culpam a grama.
O fervor religioso da família, colocada à prova, torna o filme um suspense em que a bruxa em si é mero símbolo. A euforia de encontrar culpados, aqui representado por Thomasin, lembra os julgamentos de Salem. A fé como poder e o poder como arma da condenação.
O desfecho, muito menos solene do que todo o desenvolvimento da narrativa,  carece de envergadura frente ao que se estabeleceu como diálogo com o espectador. Eggers brinca com a trilha sonora, cenografia, fotografia e sua ideia para nos levar diretamente à idade das trevas da ignorância com fé. Pouco usual, mas muito coesa, a produção combina com Halloween e com a Mostra: se por um lado é terror, ao mesmo tempo traz todos à reflexão, de cinema e de contemporaneidade. (Rodrigo Zavala)
Indicação: 16 anos
Duração: 92 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 –           31/10/2015 - 21:50 (sábado)
CINESALA -                                                                            1/11/2015 – 22:15 (domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1 –                   1/11/2015 - 18:00  (segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 –            3/11/2015 – 20:00 (terça)
 
A Ovelha Negra
Vencedor da mostra Um Certain Regard (Um Certo Olhar) do Festival de Cannes deste ano e candidato islandês para a corrida do Oscar de 2016 entre os filmes estrangeiros, A Ovelha Negra apresenta um raro equilíbrio entre melancolia e humor, rigor estético e singelo apelo emocional.
Inspirado em casos reais de pastores locais de carneiros, mais populosos que os humanos na insular Islândia, conforme brinca o próprio, Grímur Hákonarson utiliza um tom de fábula para apresentar a história dos irmãos e vizinhos Gummi (Sigurður Sigurjónsson) e Kiddi (Theodór Júlíusson), que não se falam há 40 anos. Sabiamente, o porquê da briga nunca é levado à tona. Até aquilo que mais prezam, seus rebanhos, ser posto em risco pela chegada da Scrapie, doença letal para os ovinos – equivalente ao “Mal da Vaca Louca” nos bovinos – e mudar tudo que parecia concreto no vilarejo.
Em seu segundo longa de ficção – o anterior foi Summerland (2010) –, Hákonarson apresenta uma direção segura, de execução limpa e humor pitoresco, sem deixar de lado sua experiência como documentarista para mostrar a rotina de cuidados com o rebanho. O cineasta e o diretor de fotografia Sturla Brandth Grovlen aproveitam toda a amplitude do widescreen/cinemascope para reforçar a imagem das duas figuras solitárias em uma imensidão fria que marca o interior do país. Junto com a edição de Kristjan Lodmfjord, Grímur usa longos silêncios para marcar isso também, mas quebra estes momentos com alguma situação inusitada da relação conflituosa e cômica entre os irmãos, dosando a diversão necessária ao filme.
O diretor, que afirmou preferir falar sobre “pessoas que lutam contra o sistema” em seus trabalhos, considera seus personagens, “fazendeiros rebeldes”. E se o final é o único momento em que o longa cede ao sentimentalismo, a concessão serve ao propósito da obra em levar a catarse da resistência, seja de seus princípios ou de um amor fraterno congelado gélida paisagem islandesa. (Nayara Reynaud)
Indicação: 14 anos
Duração: 93 min
CINESESC         31/10/2015 - 19:30 - Sessão: 819 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5                      1/11/2015 - 13:30 - Sessão: 935 (Domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4                      4/11/2015 - 21:30 - Sessão: 1198 (Quarta)
 
O Muro
O naturalismo e minimalismo marcam o primeiro longa do polonês Dariusz Glazer, que acompanha o jovem Maruisz “Turek” (Tomasz Schuchardt) saindo de seu velho apartamento, em que vivia às turras com a mãe (Aleksandra Konieczna), cada vez mais doente, para morar de aluguel no novo condomínio, em que justamente faz “bicos” como pedreiro e pintor – sem falar que ele complementa a renda traficando drogas.
Por lá, o rapaz conhece Agata (Marta Nieradkiewicz), mãe solteira e filha do projetista do moderno conjunto de prédios, com quem inicia uma relação que não foge dos lugares-comuns de relações intersociais cinematográficas, mas sem sentimentalismo e muito consciente de uma parcela da sociedade – polonesa ou de qualquer outro lugar – que, isolada, não sabe e não se importa com o que ocorre com o resto da população que vive depois dos muros. E a difícil relação do protagonista com sua mãe leva à interpretação de uma pátria-mãe que rejeita seus próprios filhos, enquanto estes não se importam com a nação doente.
A pálida e cinzenta paleta de cores da fotografia e direção de arte traduzem a frieza das relações, que, até certo ponto, prejudicam a geração de empatia pelos personagens por parte do público. (Nayara Reynaud)
Indicação: 14 anos
Duração: 86 min
CINEARTE 2 - 31/10/2015 - 16:00 - Sessão: 801 (Sábado)
 
Zoom
Após codirigir com o pai, Paulo Morelli, o drama Entre Nós (2013), Pedro Morelli mostra sua própria voz em uma coprodução Brasil-Canadá, o triplamente metalinguístico Zoom (2015). São três histórias, contadas sob diferentes óticas narrativas e estéticas que se entrelaçam: Alison Pill é uma designer de bonecas infláveis – do tipo real doll mesmo – e quadrinista insatisfeita com seu corpo, especialmente seus peitos; Gael García Bernal, um cineasta assumindo novos e mais profundos rumos na sua carreira, enquanto enfrenta uma súbita redução peniana; Mariana Ximenes, uma modelo tentando se tornar romancista, a despeito da descrença do marido, interpretado por Jason Priestley.
A maneira como cada protagonista interfere no destino do outro fica entre a narrativa de Mais Estranho que a Ficção (2006) e o caos interdimensional de Sense 8 (2015-), especialmente pelas diferenças entre os segmentos. O estilo de comédia indie de Alison Pill encontra o melhor humor, especialmente em suas cenas com Tyler Labine. A animação com rotoscopia da parte de Bernal confere a inventividade mais bem construída da obra, junto ao charme do ator. Ximenes fica com a parte mais fraca, não só por causa da direção over de seu trecho – e existe um porquê narrativo para isso –, mas pelo fraco desenvolvimento de sua personagem no roteiro do novato Matt Hansen, que recicla ideias originais em seu trabalho, em que dilui muito do subtexto do culto ao corpo e aos padrões de beleza pré-estabelecidos.
Todas as estripulias visuais podem afastar parte do público, ciente de que Pedro Morelli se “esforçou demais”, mas há em seu trabalho um encanto e leveza que debocham do ridículo que é a própria história, a arte, o cinema ou a vida, que, encontrando um espírito semelhante no espectador, entregará uma divertida e satisfatória experiência, embalada por uma enérgica trilha de Kid Koala. (Nayara Reynaud)
Indicação: 14 anos
Duração: 96 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6       01/11/2015 - 17:30 - Sessão: 942 (Domingo)
 
Linha de Fuga 2.0
Uma conversa virtual entre um homem sob o apelido Sherlock (Caco Ciocler) e uma mulher usando Mata Hari (Luciana Caruso) como nome de usuário em um chat é apresentada em uma linguagem visual subjetiva, com câmeras posicionadas na cabeça dos atores, sem nunca revelar os rostos dos personagens.
O segundo longa de Alexandre Stockler é escatológico, mais nas palavras, pois o anonimato permite que os dois falem de tudo – suas histórias de aventuras sexuais e preferências na hora do sexo, por exemplo, entre citações literárias –, do que nas imagens, mesmo com cenas explícitas de masturbação e aparição das genitálias. O diretor tenta falar sobre a solidão, o espaço virtual como substituto de uma vida real e as dificuldades de relacionamento nos tempos atuais, mas o sexting acaba chamando mais atenção e uma reflexão mais aprofundada se mostra tão fugaz quanto qualquer bate-papo virtual. (Nayara Reynaud)
Indicação: 18 anos<

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