39ª Mostra de São Paulo

Na reta final da Mostra, o filme-testamento de Manoel de Oliveira

Equipe Cineweb

Experimentos
Um elefante faz uma aparição rápida em Experimentos, do americano  Michael Almereyda, o que pode parecer gratuito. Mas não é. O longa acompanha o psicólogo social Stanley Milgran (Peter Sarsgaard), cujos experimentos sobre obediência no início da década de 1960 causaram polêmica, revelando alguns pontos do coração das trevas da humanidade. O paquiderme surge ainda no começo do filme, quando o protagonista conta que é filho de judeus refugiados e cresceu no Brooklyn nova-iorquino nos anos de 1940. O elefante na sala é uma alegoria sagaz para aquilo que ronda o filme inteiro, sem se materializar na tela: a ascensão no nazismo.
Este é um filme sobre as condições de surgimento dos regimes totalitaristas, sobre aqueles que se aliam à elite, mesmo conhecendo sua potencialidade de exterminar populações. No seu teste, Milgran quer provar que as pessoas responderão a autoridades superiores sem as questionar, mesmo sabendo que estão causando mal para uma outra pessoa, ouvindo os gemidos de dor dessa outra pessoa.
Há a inevitável referência à natureza humana, sem mostrar se há algum ganho nessa perspectiva de abordagem da pesquisa do psicólogo (que fez o experimento quando dava aula em Yale). Mas o longa se destaca de verdade quando predominam seus impulsos de investigação social. Milgran, em alguns momentos, fala diretamente para a câmera, antecipa fatos e explicita outros que nem são mostrados. Com esse estratagema, o longa nos lembra da parcialidade da narrativa e explicita que esta é uma construção manipuladora (Brecht ficaria orgulhoso desse tipo de coisa no filme).
Wynona Ryder interpreta a mulher de Milgran que, dedicada e curiosa, muitas vezes, funciona como os olhos do público: às vezes, questionando, às vezes, indignando-se. Já Sarsgaard atravessa o filme com um olhar melancólico e com o interesse de quem pretende desvendar e revelar algo significativo. (Alysson Oliveira)
Indicação: 14 anos
Duração: 90 minutos
CINEARTE 1                                                                               2/11/2015 - 19:45 - Sessão: 964 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4                   4/11/2015 - 13:30 - Sessão: 1194 (Quarta)
 
 Visita ou Memórias e Confissões
Era como uma lenda o tal filme-testamento do cineasta português Manoel de Oliveira, que, supostamente, fora filmado no início dos anos de 1980 e só seria mostrado depois de sua morte. Eis que quando ele morreu em abril passado, aos 106 anos, revelou-se a verdadeira a existência desse documentário, feito em 1982, quando ele tinha 73 anos e nem poderia imaginar que viveria tantos anos mais. O filme é um réquiem para uma casa no Porto, onde morou com sua mulher por mais de 40 anos, precisando vendê-la para saldar dívidas de uma fábrica que herdou do pai.
Com diálogos de Augustina Bessa-Luís (escritora com quem trabalhou em filmes como Vale Abraão e O Princípio da Incerteza), interpretados por Teresa Madruga e Diogo Dória, Visita ou Memórias e Confissões é um semidocumentário impressionista e pessoal sobre o fim de uma era e a necessidade de seguir em frente, e tudo aquilo envolvido nesse processo. É também uma meditação sobre o que faz uma casa ser o que ela é – mais do que a construção, as relações pessoais e familiares que se estabelecem em seu interior. É também o resgate da vida e trajetória de Manoel, além de uma investigação sobre sua relação com  o cinema.
Ao mesmo tempo, pelo viés pessoal, o cineasta resgata a história de Portugal, especialmente ao narrar o episódio de sua prisão durante a ditadura de Salazar. Ele havia terminado seu primeiro longa, Aniki Bobó (1942), quando sua casa foi invadida pela polícia, e ele, levado preso. Relembra também o 25 de abril, e as dificuldades financeiras – “mas estas não me afetaram a alma”. O diretor faz uma obra ímpar, mas, ao mesmo tempo, tão parecida com seus outros filmes. E é aí que reside muito do encanto de Visita ou Memórias e Confissões. (Alysson Oliveira)
Duração: 68 minutos
Indicação: 10 anos.
CINESALA                                2/11/2015 - 17:45 - Sessão: 978 (Segunda)
CINESESC                                3/11/2015 - 15:00 - Sessão: 1061 (Terça)
CINEARTE 2                             4/11/2015 - 22:50 – Sessão: 1134 (Quarta)
 
 Três lembranças da minha juventude
O cineasta francês Arnaud Desplechin volta a temas e personagens do filme Como eu briguei (por minha vida sexual), caso de Paul Dédalus (aqui novamente interpretado pelo Mathieu Amalric que, em 1996, venceu um César como revelação masculina por aquele filme).
Mathieu encarna Paul em sua versão madura, no momento em que termina um período de dez anos no Tadjiquistão, onde trabalhara como consultor de antropologia. No momento em que vai sair do país, identifica-se um problema com seu passaporte – informam-lhe que existe um outro Paul Dédalus. O incidente remete a uma das tais três lembranças do título, uma aventura que o Paul adolescente tivera numa misteriosa viagem à então URSS. E sua conversa com um severo inspetor (André Dussollier) desencadeia um dos flashbacks que compõe esta emocionada viagem no tempo.
O foco mais interessante da história, nos anos 1980, fica por conta do Paul aos 19 anos (o ótimo estreante Quentin Dolmaire), apaixonado pela bela e volúvel Esther (ótima estreante também a bela Lou Roy-Lecollinet). As idas-e-vindas deste amor, seu carrossel de emoções, traições e buscas de liberdade não têm como não emocionar quem algum dia já foi jovem, ou seja, todo mundo. Neste jovem Paul, como disse a crítica francesa, Desplechin compõe seu próprio Antoine Doinel – François Truffaut provavelmente aprovaria. (Neusa Barbosa)
Indicação: 16 anos
Duração: 123 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 -                         2/11/2015 - 17:45 - Sessão: 999 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 -                         3/11/2015 - 15:15 - Sessão: 1082 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 -                         4/11/2015 - 20:15 - Sessão: 1169 (Quarta)
 
 Os campos voltarão
Partindo das memórias de seu próprio pai e de livre referência a um conto (La Paura), o veterano diretor italiano Ermanno Olmi (A Árvore dos Tamancos) cria um curto mas intenso e sublime relato sobre as iniquidades da guerra. De todas as guerras, embora o cenário desta história seja a Primeira Guerra Mundial, em 1917.
Com uma contenção que evoca expectativa, medo e uma cada vez mais combalida esperança, ele retrata um grupo de soldados confinados a uma trincheira no inverno. Cercados de neve, com frio e fome e aproveitando uma relativa trégua nas batalhas, eles tentam manter o espírito firme. Mas isso é cada vez mais difícil, pela espera, a inatividade e, finalmente, pelos sons distintos ao longe, que anunciam a próxima retomada do confronto. Nesse clima, o filme evoca um outro italiano, Valerio Zurlini, e seu fundamental O Deserto dos Tártaros, numa outra chave.
A chegada de oficiais com ordens impossíveis de cumprir é o detalhe que faltava para angustiar a tropa. Seu capitão, aliás, está com febre – é a gripe espanhola, que está dizimando também fora dali.
O melhor atrativo do filme é como encena este desespero surdo, que não domina completamente, mas expõe os soldados a uma situação-limite, que extrai de cada um reações distintas. Salta uma visão nada heroica, nem idealizada do que acontece numa guerra, não só esta, ainda que cada soldado se mostre capaz de um discurso quase poético diante da câmera, como se estivesse num teatro, sem que isso acarreta nenhuma rigidez. Ao contrário, quando cada soldado nos fita, é como se nos falasse diretamente, numa confissão pungente. Poucas definições serão melhores do que a que aparece nos letreiros finais: “A guerra é um animal feio que nunca pára”. Frase de um pastor, não de um filósofo, mas totalmente sábia. (Neusa Barbosa)
Indicação: 14 anos
Duração: 80 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4                   2/11/2015 - 15:15 - Sessão: 1029 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6                   3/11/2015 - 17:15 - Sessão: 1098 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4            4/11/2015 - 19:45 - Sessão: 1154 (Quarta)
 
 O botão de pérola
O cineasta chileno Patricio Guzmán já tem status de mestre. Seus documentários cada vez mais são capazes de interações multidisciplinares, de raciocínios plurais, unindo enfoques em várias direções, dramáticos, complexos e emocionantes como a vida. Mais uma vez, como acontecia em Nostalgia da Luz (2010), ele atinge o sublime neste filme que teve como ponto de partida a trajetória de dois – aparentemente – simples botões. Um deles, dado a um índio no século XIX, que por conta da modestíssima prenda, acabou indo à Europa. Outro foi encontrado junto aos despojos de desaparecidos políticos da ditadura Pinochet.
Com este ponto de partida, Guzman foi capaz de traçar uma narrativa que percorre a história chilena e divaga também em torno de um tema muito contemporâneo, a água. A mesma água de onde veio a origem da vida sobre a Terra e que constitui a maior fronteira do Chile, no caso, o Oceano Pacífico, que era o meio preferencial de indígenas nômades que ocuparam o por muito tempo ignorado, no período colonial, das terras ao sul. Ali na Patagônia, índios viviam num habitat frio e aquoso, sem constituir moradia fixa, morando em barcos habilmente construídos a partir de troncos, com fogueiras ao centro, para espantar o frio. Mas a água também terminou trazendo conquistadores assassinos, que promoveram o genocídio indígena. Poucos restaram desse massacre, cujos descendentes tiveram uma oportunidade de compensação no governo Salvador Allende, justamente derrubado pelo general Pinochet, que usou esse mesmo oceano como cemitério para presos políticos jogados de aviões, numa das guerras sujas mais sangrentas do continente sul-americano.
Guzman, que vive na França, não é revanchista, é um cultivador da memória. Sabe e reafirma a cada um de seus filmes, cada vez mais matizados, que o esquecimento dos crimes do passado, sejam as mortes dos índios, seja a eliminação opositores do regime Pinochet, nada pode trazer de bom ao aprimoramento da humanidade que ali vive. Além do mais, ao retratar uma situação chilena, fala ao mundo, já que cada rincão deste planeta tem seus próprios crimes para exorcizar. (Neusa Barbosa)
Indicação: 14 anos
Duração: 82 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1      2/11/2015 - 21:45 - Sessão: 1001 (Segunda)
CINESALA                                                                      3/11/2015 - 18:20 - Sessão: 1058 (Terça)  
 
 Para minha amada morta
Estreia em longa de ficção do premiado documentarista e curta-metragista Aly Muritiba, o drama Para Minha Amada Morta revelou uma potência narrativa entusiasmante e levou merecidos cinco prêmios no mais recente Festival de Brasília, incluindo-se o de melhor diretor.
Impressiona o controle preciso da tensão ao longo do filme, que acompanha os dilemas do viúvo Fernando (Fernando Alves Pinto) após a morte súbita da mulher. A história, em diversas camadas, acomoda discussões sobre paixão, obsessão, ciúme, vingança de uma maneira admirável. Nunca antes Fernando Alves Pinto fez um papel tão bom, com uma dor e raiva introjetadas prestes a transbordar a cada minuto, carregando o espectador nessa espiral de emoções que o sacodem.
No roteiro também assinado por Muritiba, o ponto de vista é masculino. Assiste-se a um réquiem nas cenas iniciais, que mostram o protagonista acariciando os vestidos e sapatos da mulher, aparentemente incapaz de corresponder à carência do filho pequeno (Vinicius Sabbag). Fernando oscila entre obcecado e anestesiado, realizando roboticamente seu trabalho diário, de fotógrafo policial, num ambiente também árido e brutal, e também bastante sugestivo dentro do contexto do filme.
A descoberta de uma caixa de vídeos antigos da mulher leva o marido ao encontro de histórias desconhecidas, tanto da infância dela, que aumentam a idealização da amada morta, como outras, que revelam paixões desconhecidas dela.
Esse novo capítulo incorpora um outro homem, Salvador (Lourinelson Vladimir), um mecânico evangélico em cujo núcleo familiar Fernando entra, primeiro a partir da igreja, depois alugando a casa dos fundos deles. Assim, o intruso se introduz na intimidade da mulher de Salvador (Mayana Neiva) e da filha adolescente (Giuly Biancato), criando a cada momento a expectativa de que algo violento está para acontecer.
O coração do espectador é levado a compartilhar desta expectativa, imaginando quase tudo que é possível brotar destas situações. Mas nunca se perde de vista uma admirável contenção – um passo a mais, e a história derraparia num novelão. Felizmente, isso não ocorre. (Neusa Barbosa)
Indicação: 16 anos
Duração: 113 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2             2/11/2015 - 19:00 - Sessão: 1005 (Segunda)
CINEARTE 1                                                                         4/11/2015 - 14:00 - Sessão: 1126 (Quarta)
 
 O esgrimista
Representante da Finlândia na corrida às indicações do Oscar de filme estrangeiro, o drama de época dirigido por Klaus Haro inspira-se num personagem real, o esgrimista estoniano Endel Nelis (1925-1993). Em 1952, ele é obrigado a deixar a URSS por problemas políticos e volta à sua cidadezinha natal, Haapsalu, num período em que a Estônia estava dominada pelos soviéticos. Endel (Mart Avandi) encontra emprego como professor de educação física numa escola, deixando a esgrima de lado. No entanto, o diretor de tendência stalinista (Hendrik Toompere) está obcecado não só em vigiá-lo como em conter suas tentativas de exercitar seus pequenos alunos. Um dia, planeja levá-los para esquiar, mas o diretor solicita antecipadamente todos os esquis de que a escola dispõe, frustrando seu esforço.
Tolhido em tudo, o professor finalmente tem a ideia, que parece maluca, de ensinar esgrima aos garotos da escola rural, meninos e meninas, mesmo sem contar com floretes. Junto com eles, colhe galhos que servirão como floretes substitutos. As crianças vão tomando gosto pela atividade e tornando-se, finalmente, mais exímios. O diretor combate como pode a iniciativa. Enquanto isso, Endel fica seduzido pela ideia de levar seus garotos a uma competição em Leningrado – uma viagem que pode colocá-lo em risco de prisão.
Bastante bem-produzido, o filme é envolvente e conta com um elenco infantil cativante. A menina Marta (Liisa Kopel), especialmente, é um encanto, uma espécie de líder mirim dos alunos e uma “consciência” para o professor em conflito. (Neusa Barbosa)
Indicação: 10 anos
Duração: 98 min
CINESESC                                                                              2/11/2015 - 17:10 - Sessão: 983 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4        3/11/2015 - 22:15 - Sessão: 1075 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1               4/11/2015 - 22:00 - Sessão: 1160 (Quarta)
 
 Aferim!
Ganhador do prêmio de direção no Festival de Berlim – dividido com o polonês Body, de Malgorzata Szumowska, também na seleção da Mostra – Aferim! é algo diferente daquilo a que estamos acostumados no cinema romeno. Não existe a estética do minimalismo nesse longa em preto-e-branco, com uma narrativa inspirada por documentos históricos. O título, que pode ser traduzido como “Bravo!”, é uma referência irônica aos feitos do par de protagonista, um pai e um filho, que trabalham como comissários de polícia e  devem recuperar um escravo cigano fugido, no ano de 1835.
A dupla – tal qual D. Quixote e Sancho Panza – está na estrada. E cada episódio de suas (des)venturas cria novas camadas na investigação do tratamento da Romênia do passado em relação às minorias, o que deve ecoar em toda a Europa do presente. Constantin (Teodor Corban) e seu filho Ionita (Mihai Comanoiu) atravessam uma paisagem árida, pagos por um senhor feudal em busca do fugitivo.
Imbuído de uma mentalidade, comum na época, que duvidava mesmo da natureza humana dos ciganos – chamados por ele de “peões do diabo” – Constantin, a partir da captura do escravo, acaba sendo colocado em outra perspectiva, levando o captor a se perguntar sobre seu papel no processo de dominação que existe em seu mundo. Há um quê de humor negro em Aferim!, nas incertezas e erros dos personagens, que acham estar fazendo algo nobre, que lhes trará fama com o passar dos anos. Mas também há os horrores da exploração e dizimação de um povo diante da ausência de solidariedade – nada muito diferente da Europa contemporânea. (Alysson Oliveira)
Indicação: 12 anos
Duração: 108 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1 -                        2/11/2015 - 20:00 - Sessão: 990 (Segunda)
CINEARTE 1 -                                                                            4/11/2015 - 21:45 - Sessão: 1130 (Quarta
 
 Que viva Eisenstein! – 10 dias que abalaram o México
O veterano diretor inglês Peter Greenaway esbanja excessos visuais (alguns, como de hábito, belíssimos) para filmar esta história, baseada em fatos reais, sobre a passagem do renomado diretor russo Sergei Eisenstein pelo México, em 1931.
É um momento de crise na vida de Eisenstein, que já filmara Greve (25), O Encouraçado Potemkin (25) e Outubro (28). Apesar da consagração, inclusive internacional, o diretor tinha problemas para prosseguir na carreira. Fora atraído a Hollywood, mas ali não conseguira filmar. Estimulado por apoiadores esquerdistas, como o escritor norte-americano Upton Sinclair, ele viaja ao México, onde filmaria o nunca concluído Que Viva México!.
Mesmo apoiado em fatos, o que menos interessa ao inquieto Greenaway é uma cinebiografia. O que realmente tem em vista é mergulhar de modo delirante na vida pessoal de Eisenstein que, segundo o filme, seria ainda virgem aos 33 anos e teria finalmente superado suas inibições ao ter uma tórrida aventura com seu guia mexicano, o professor mexicano Palomino Canedo (Luis Alberti).
Como sempre com Greenaway, há nudez em profusão, aqui mais masculina, e nenhuma timidez para expor uma caliente cena de sexo entre os dois homens – o que explica a recomendação etária para 18 anos, assim como a exposição de alguns dos muitos desenhos eróticos do diretor russo.
Apesar do interesse que se possa ter pelas contradições da vida de Eisenstein, que passaram também pela repressão sexual e a homofobia na terra natal (que, aliás, existe ainda hoje), o tom exagerado do filme e da interpretação do protagonista, o ator finlandês Elmer Bäck, resvalam na caricatura. Melhor seria se a direção garantisse um pouco mais de ambiguidade, deixando entrever também a genialidade do artista, que aqui parece não passar de um clown excêntrico. (Neusa Barbosa)
Indicação: 18 anos
Duração: 105 min
CINEARTE 1 -                          2/11/2015 - 21:45 - Sessão: 965 (Segunda)
 
 Kaminski e eu
O diretor alemão Wolfgang Becker (Adeus Lênin) adapta livro homônimo de Daniel Kehlmann para compor esta história irônica, sobre um jornalista, Sebastian Zöllner (Daniel Brühl), candidato a biógrafo do velho e consagrado pintor Manuel Kaminski (Jesper Christensen).
Na sua juventude, Kaminski foi para a França e, apadrinhado por Matisse e Picasso, elevou-se à fama no início do século XX. Além de sua obra, um detalhe de sua biografia tornou-o ainda mais célebre: ele estaria ficando cego e totalmente cego ficaria, o que por muito tempo não o impediu de pintar e frequentar ambientes de celebridades, como Andy Warhol.
A investigação cínica de como se monta um mito em torno de lendas ou fatos – imprima-se a lenda – é um dos aspectos mais interessantes do filme, que acompanha o relacionamento aos solavancos entre o velhíssimo e decrépito pintor e o seu ambicioso pretendente a biógrafo. A convivência entre os dois, muito dificultada pela filha do pintor (Amira Casar), que o mantém recluso, finalmente se desdobra em direções não-previstas por nenhum dos dois e se humaniza.
Uma participação deliciosa é de Geraldine Chaplin, como uma das mulheres da vida do pintor. O filme é encantador e não só para os amantes das artes plásticas (os letreiros finais, especialmente, são dedicados a estes últimos, um primor de formas e cores). (Neusa Barbosa)
Indicação: 16 anos
Duração: 125 min
RESERVA CULTURAL 2 -                                               2/11/2015 - 19:30 - Sessão: 1026 (Segunda)
CINEARTE 1 -                                                                     3/11/2015 - 21:45 - Sessão: 1043 (Terça)
 
 O abraço da serpente
A famosa frase “o horror, o horror” do romance O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, também presente na melhor adaptação cinematográfica do livro, Apocalypse Now, ecoa em vários momentos no colombiano O Abraço da Serpente. Este segundo longa de Ciro Guerra, que assina também o roteiro, inspira-se nos diários do etnologista alemão Theodor Koch-Grünberg e do botânico Richard Evans Schultes, aqui chamados de Theodor (Jan Bijvoet) e Evan (Brionne Davis).
A ação interliga a jornada dos dois pelo rio Amazonas, entre 1909 e 1940, enquanto buscam uma flor chamada yakruna, supostamente com poderes de cura. Eles são guiados por um xamã nativo, Karamakate (interpretado por Nilbio Torres e Antonio Bolivar, nas duas fases), que é o único sobrevivente de um ataque de invasores que dizimou sua tribo.
Guerra parece compartilhar os mesmos interesses de Conrad um século atrás, trocando o Congo belga pela Amazônia colombiana, igualmente questionando o fracasso do projeto civilizatório, que mais destrói do que cria. A influência europeia se materializa quando um dos exploradores coloca um fonógrafo para tocar o oratório A Criação, do alemão Joseph Haydn – num momento que parece um aceno a Fitzcarraldo. Há um outro, uma viagem lisérgica, uma clara referência a 2001 – uma odisseia no espaço.
A bela fotografia em preto-e-branco, de David Gallego, e o cenário tropical remetem ao português Tabu, de Miguel Gomes, que também questiona os limites e as consequências da exploração e do colonialismo. É um lamento às perdas humanas e da natureza, da vitória da civilização sufocante frente à “barbárie” da liberdade.
O Abraço da Serpente é longo e demanda atenção, empenho e comprometimento do público. Ao mesmo tempo, oferece em troca uma obra de arte única, uma experiência cinematográfica rara, rica em sua estética e poderosa em seu comentário, que ecoa a frase famosa de George Orwell: “A história é escrita pelos vencedores”. (Alysson Oliveira)
Duração: 125 minutos
Indicação: 16 anos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2-           2/11/2015 - 21:15 - Sessão: 1006 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1-           3/11/2015 - 21:45 - Sessão: 1080 (Terça)
 
 As 1001 Noites  1, 2 e 3
Misto de ficção e documentário, dividido em três partes, a nova obra de Miguel Gomes (Tabu) não é uma adaptação dos famosos relatos e sim um mergulho profundo na severa crise econômica de Portugal, intercalando depoimentos e personagens reais – como, na primeira parte, As 1001 Noites – Volume 1, O Inquieto, os empregados de um estaleiro em desmonte em Viana do Castelo, norte do país – e irônicas e corrosivas fábulas em torno de situações absurdas, tendo uma certa Sherazade como narradora, tal como ocorre nos livros originais.
A segunda parte de  As 1001 Noites – Volume 2, O Desolado abre-se com a história de Simão sem tripas (o estreante Chico Chapas, um ex-soldado e comerciante de pássaros), um criminoso foragido. Outras histórias se desenrolam num tribunal, presidido por uma juíza (Luísa Cruz) – um segmento que permite uma original superposição de casos e pontos de vista, além de um humor impagável – e também num condomínio suburbano, em que se sucedem histórias de fracasso, tristeza, sonho e também a posse de um cachorro, Dixie, por vários moradores. O cão, que se chama Lucky, na verdade, é um “ator”experiente, tendo aparecido em diversas produções espanholas, como Sombras de Goya, de Milos Forman.
No terceiro e último filme, O Encantado, o núcleo está nos cultivadores de uma peculiar paixão – o canto dos pássaros, que leva pessoas extremamente diferentes a treinarem suas aves, visando um concurso muito especial.
Em que pese toda a ironia de Gomes, é visível que ele quer falar sério. O que está fazendo em As 100 Noites é uma crônica de tempos sombrios, carregada de um humanismo melancólico os portugueses dominam como poucos. É um dos melhores programas da seleção do festival deste ano. (Neusa Barbosa)
Indicação: 16 anos
AS MIL E UMA NOITES: VOLUME 1, O INQUIETO (125 min)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1                                   3/11/2015 - 15:50 - Sessão: 1067 (Terça)
 
AS MIL E UMA NOITES: VOLUME 2, O DESOLADO (132 min)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3                           2/11/2015 - 19:30 - Sessão: 1010 (Segunda)
 
AS MIL E UMA NOITES: VOLUME 3, O ENCANTADO (125 min)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 -                 2/11/2015 - 19:50 - Sessão: 995 (Segunda)
CINESALA-                                                                                         3/11/2015 - 16:00 - Sessão: 1057 (Terça)
 
 Mistress America
A parceria entre o diretor Noah Baumbach e a atriz Greta Gerwig funcionou tanto em Frances Ha (2012), que rendeu um outro filme. Mistress America – assinado pela produtora brasileira RT Features – é um passo além. No princípio, pode parecer apenas que a dupla não saiu de sua zona de conforto, mas, na verdade, há um outro tipo de olhar para uma outra personagem.
É um tipo de comédia sofisticada que se passa num cenário que agradaria a Woody Allen – mas o viés de Baumbach é outro. Aqui temos a elite cultural e intelectual de Nova York, que pode não coincidir com a elite financeira, mas parece uma circulação muito proveitosa entre as duas. Tracy (Lola Kirke) é a heroína que acaba de completar 18 anos e se muda para a cidade para estudar literatura. No entanto, é incapaz de socializar com seus novos colegas de uma das faculdades prestigiadas dos EUA.
A vida parece lhe sorrir quando conhece sua futura “irmã”, Brooke (Greta) – cujo pai está de casamento marcado com a mãe de Tracy. A nova amiga é uma figura peculiar – vive intensamente uma precoce crise da meia-idade e é incapaz de levar qualquer projeto até o final, embora pareça ter grandes ideias. Curiosamente, o filme parece ser sobre essa garota com seus grandes e belos olhos, sorriso sempre aberto e cinismo sempre pronto. Mas não, o ponto de vista aqui é de Tracy, e uma geração separa as duas, embora para Brooke “apesar dos 10, 12 anos que nos separam somos da mesma geração”.
No roteiro assinado pelo diretor e sua estrela, o tema predominante é a perda da ilusão. O filme poderia ser um romance do século XIX que ensina Tracy a ser adulta, o que fazer e o que não fazer. Basicamente, é evitar seguir os mesmos passos da nova irmã. Brooke é, no fundo um desastre ambulante, e sua empolgação com tudo na vida é uma armadura contra sua solidão e perdas.
Muito ajuda a química entre as duas atrizes, e a direção em sintonia com as personagens – afinal, o filme é um estudo de personagens e da relação que nasce delas em tempos de laços de afeto fugazes. Tracy, que vive num eterno bloqueio criativo, escreve um conto sobre Brooke. Aparentemente, a melhor coisa que já escreveu na vida. A outra, por sua vez, quer abrir um restaurante, desses que combinaria o “melhor do capitalismo”. Eis aí boa parte da graça e uma pista gigante para entender a personagem: há uma dose de ingenuidade nela, aquela típica de uma elite fechada em seu mundo, que desconhece como as coisas realmente funcionam do lado de fora.
No melhor momento do filme, Tracy, Brooke e outros dois personagens viajam a Connecticut para que a moça consiga dinheiro com um ex-namorado e sua atual mulher (ex-melhor amiga dela) para abrir o tal restaurante. Seguem cenas completamente teatrais em sua precisão nos diálogos cortantes, na fina ironia e na mise-en-scène, É aí que Baumbach mostra o quanto pode ser sofisticado seu cinema, em sua comédia de costumes que critica de forma sutil e sagaz o vazio em que toda uma geração pode ter caído. Resta, então, a esperança na figura de Tracy e o seu futuro como escritora. (Alysson Oliveira)
Indicação: 12 anos
Duração: 85 minutos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1           2/11/2015 - 20:00 – Sessão: 1000 (Segunda)
CINESESC                                                                          3/11/2015 - 18:00 - Sessão: 1063 (Terça)
CINESALA                                                                          4/11/2015 - 18:00 - Sessão: 1142 (Quarta)
 
 A Bruxa
O longa de estreia do americano Robert Eggers, depois de alguns curtas, escritos e dirigidos por ele – entre eles, o Coração Delator, inspirado no clássico de Edgard Alan Poe, de quem muito bebe nesta produção – é um dos candidatos a cult da Mostra.
De uma forma bastante direta, Eggers constrói sua cena. Uma família protestante inglesa, em meio ao caos do novo continente americano, é banida para os limites do que é, então, conhecido. Uma terra que nada prospera, costeada por um bosque em que tudo pode dar errado.
Já de início, aos olhos da adolescente Thomasin (Anya Taylor-Joy), o bebê da família é levado. É claro que foi uma criatura, e aqui o diretor se amarra na imagem de bruxa da idade média, universalizada pelos irmãos Grimm, sedentas por crianças.     
Impotente frente aos fatos, pouco importam as buscas empreendidas pelo pai William (Ralph Ineson, cuja gravidade de voz supera Morgan Freeman), que credita à responsabilidade do sumiço da criança a um lobo. Frente ao óbvio, os adeptos do autoengano culpam a grama.
O fervor religioso da família, colocada à prova, torna o filme um suspense em que a bruxa em si é mero símbolo. A euforia de encontrar culpados, aqui representado por Thomasin, lembra os julgamentos de Salem. A fé como poder e o poder como arma da condenação.
O desfecho, muito menos solene do que todo o desenvolvimento da narrativa,  carece de envergadura frente ao que se estabeleceu como diálogo com o espectador. Eggers brinca com a trilha sonora, cenografia, fotografia e sua ideia para nos levar diretamente à idade das trevas da ignorância com fé. Pouco usual, mas muito coesa, a produção por um lado é terror mas, ao mesmo tempo, induz à reflexão, de cinema e de contemporaneidade. (Rodrigo Zavala)
Indicação: 16 anos
Duração: 92 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1 –                   1/11/2015 - 18:00  (segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 –            3/11/2015 – 20:00 (terça)
 
A família Dionti
O filme do cariocaAllan Minas,  adentrou um território que mistura poesia, realismo mágico, cultura popular e o universo adolescente, ainda que não seja, a rigor, um filme voltado exclusivamente ao público infanto-juvenil. As admirações literárias deste diretor carioca de primeira viagem na ficção (em 2010, realizou o documentário A Morte Inventada) saltam aos olhos a cada passo, tanto no desenrolar do roteiro, de sua autoria – e Minas também é escritor – como nas inspirações poéticas visíveis nos diálogos, de Manoel de Barros a Guimarães Rosa.
Filmado ao redor de Cataguases (MG), lugar mítico na história do cinema nacional por conta do pioneiro Humberto Mauro, A Família Dionti tem nos seus protagonistas adolescentes, talentos locais, um de seus trunfos: Murilo Quirino (Kelton), Bernardo Santos (Serino) e Anna Luiza Paes (Sofia). Em torno deles, talentos refinados, como Antonio Edson, do grupo Galpão, Gero Camilo, Bia Bedran, Fernando Bohrer e Neila Tavares.
Produzido a partir de um edital carioca de baixíssimo orçamento (R$ 400.000,00), o filme viabilizou-se a partir de uma série de apoios fundamentais, como o do Polo da Zona da Mata mineira, da universidade inglesa National Film and Television, que participou da finalização e efeitos especiais, e de um fundo latino do Festival de Tribeca, Nova York, que rendeu uma soma adicional de US$ 10.000.
Saindo desse desafio econômico, o filme revela uma aposta na diversidade sobre como será o trânsito desta história junto a uma plateia adolescente urbana, fixada em telas de celulares e computadores e dominada e dominante na internet – este, um universo ausente da história, ambientada no sertão mineiro, em torno de uma família formada por Josué (Antonio Edson), pai que cria sozinho dois filhos adolescentes, Kelton e Serino, depois que a mulher literalmente evaporou, como água, como uma nuvem. Um destino insólito que ameaça colher também o filho caçula, Kelton, quando este se apaixona por uma jovem forasteira, Sofia. Apesar de algumas hesitações, o filme tem seu encanto. (Neusa Barbosa)
Indicação: livre
Duração: 96 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6   02/11/2015 - 13:30 - Sessão: 1018 (Segunda)
 
Glauco do Brasil
O principal trunfo narrativo do documentário do gaúcho Zeca Brito é ter a gravação de uma entrevista informal, que fez ainda pré-adolescente em uma festa, com o concidadão de Bagé, o pintor Glauco Rodrigues (1929-2004). Apesar do formalismo na abordagem e uma visão um tanto ufanista do Brasil, o longa fornece ao público a chance de conhecer um nome não tão conhecido para quem não vai além do básico nas artes plásticas brasileiras, descobrindo o grande retratista, renomado designer, vanguardista da Pop Art nacional e, antes de tudo, um amante do Brasil de outrora e do seu tempo. (Nayara Reynaud)
Indicação: Livre
Duração: 90 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3       02/11/2015 - 13:30 - Sessão: 1007 (Segunda)
 
A Morte de J. P. Cuenca
A partir de um problema pessoal, quando foi dado morto em 2008 por causa de um homônimo, o escritor João Paulo Cuenca faz sua estreia na sétima arte, misturando documentário e ficção para mostrar as aflições e questionamentos que lhe ocorreram com o caso. Com um início mais bem-humorado, parte para um experimentalismo no decorrer da projeção que, apesar de flertar com uma visão surrealista com a morte simbolizada na figura de uma misteriosa mulher, não encontra perde sua voz no meio do caos. (Nayara Reynaud)
Indicação: 18 anos
Duração: 90 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5       02/11/2015 - 13:30 - Sessão: 1012 (Segunda)
 
Nós Somos Jovens. Nós Somos Fortes.
Inspirado no episódio real de violência contra imigrantes vietnamitas na cidade de Rostock, após uma série de manifestações xenófobas de alemães insatisfeitos naquele ano de 1992, Burhan Qurbani, ele mesmo um alemão filho de refugiados afegãos, recria o ambiente de desesperança que abateu a Alemanha reunificada após a Queda do Muro de Berlim.
Acompanha-se os acontecimentos daquele 24 de agosto a partir de três perspectivas distintas. O principal é o pungente retrato de uma juventude que, agora desempregada e sem nenhum vislumbre de futuro – a cena da entrevista escancara a situação –, encontra na violência e, especialmente, na ideologia neonazista, uma razão para uma vida sem sentido. O destaque fica com o perdido protagonista Stefan (Jonas Nay) e a ótima atuação de Joel Basman como o perturbado Robbie.
Embora sem o mesmo brilho, o núcleo dos vietnamitas, capitaneado por Lien (Trang Le Hong), serve para pontuar o conflito de uma série de imigrantes, entre o sonho de paraíso que encontram em um país mais desenvolvido do que o de sua origem e o inferno que é ser aceito nele. A parte mais fraca é a do pai de Stefan, o político Martin (Devid Striesow), que, apesar de representar a ineficiência do governo e a apatia diante dos conflitos, se mostra deslocado em vários momentos.
Em seu segundo longa, Burhan e o diretor de fotografia Yoshi Heimrath usam a plasticidade de longos planos-sequências, do slow motion e de enquadramentos precisos, somados a um aestético preto-e-branco para criar uma ópera visual da desilusão, do vazio. É curioso que, quando as cores entram na tela, uma escolha justificada pela ideia de um passado que volta à tona, o filme perca a força. Não por uma preferência estética pessoal, mas porque a mudança marca não só uma perda de qualidade técnica e narrativa da mesma fotografia e uma direção que recorre a certos clichês. Ainda assim, a última cena faz jus a uma obra que reforça o quanto a História se repete ao longo dos anos. A atual crise de refugiados na Europa, dividindo mais uma vez os europeus, lembra isso. (Nayara Reynaud)
Indicação: Livre
Duração: 116 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6       2/11/2015 - 17:45 - Sessão: 1020 (Segunda)
 
Mate-me Por Favor
Retomando os elementos recorrentes em seus curtas, como, por exemplo, o ambiente escolar, o flerte com o terror, a sexualidade a transbordar na adolescência, o handebol e músicas dignas de flashback, Anita Rocha da Silveira apresenta um consistente trabalho em seu primeiro longa, Mate-me Por Favor (2015). Seu début chega à Mostra tendo como referências o Bisato d’Oro, prêmio paralelo de Veneza concedido pela crítica independente à atuação das meninas, e os troféus de Melhor Direção e Melhor Atriz, dado à também estreante em longas, Valentina Herszage, no último Festival do Rio.
Com uma perseguição ao estilo dos filmes de horror trash oitentista no prólogo, a trama apresenta Bia (Valentina Herszage), uma garota de 15 anos que, junto ao seu trio de amigas (Mari Oliveira, Julia Roliz e Dora Friend), passa a desenvolver um interesse mórbido por tudo que envolve uma série de assassinatos de jovens, na maioria mulheres, que ocorrem nas imediações de sua escola na Barra da Tijuca, assustando toda a comunidade local. É isso o que importa mais à obra, mais do que necessariamente a resolução do mistério.
Há um equilíbrio entre a criação de um ambiente realista do cotidiano desses jovens, constantemente pontuado por elementos fantásticos, cujo artificialismo expõe sentimentos em ebulição e signos fortes desta época, especialmente o sexo, a dor, a violência e o senso moral e religioso. É como se o retrato sarcástico e animalesco do ensino médio de Meninas Malvadas (2004) encontrasse o cinema de David Lynch, sem deixar de lado a crítica tão presente no cinema nacional contemporâneo às mudanças dos novos espaços urbanos, que repetem a velha estratificação social. Tudo isso, embalado pelo funk melody dos anos 1990.
E a ausência total de adultos na história – por mais que o estranho irmão deva ser maior de idade, ele aparece aqui como mais um jovem – não só expõe uma produção voltada totalmente ao público adolescente, mas a falta de perspectiva de futuro da geração atual. (Nayara Reynaud)
Indicação: 14 anos
Duração: 110 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5       2/11/2015 - 17:00 - Sessão: 1014 (Segunda)
 
Barash
Em uma seleção de muitos longas de temática adolescente que marca esta edição da Mostra, a evidência dos clichês de Barash (2015) fica mais escancarada aos olhos do público. Talvez o que o filme traga de diferente esteja em sua própria origem, por se tratar de uma produção israelense e o espectador se perguntar o quanto deve ser difícil ser rebelde em uma sociedade cuja religião e conservadorismo são tão arraigados. Mas a impressão é que até isso poderia ser mais bem trabalhado.
O primeiro longa de Michal Vinik, exibido no Festival de San Sebastian, acompanha a jovem Naama Barash (a estreante Sivan Noam Shimon), que encontra na nova colega, Dana Hershko (Hadas Jade Sakori), uma forma de fugir dos problemas de sua casa, acentuados pelo desaparecimento da irmã mais velha (Bar Bem Vakil) – uma personagem com um potencial dramático interessante, se tivesse destaque. Nas descobertas da protagonista acerca de sua sexualidade e do mundo das drogas, apresentadas por uma estética videoclíptica e uma fotografia próxima aos filtros de Instagram, a diretora, porém, não encontra algo novo a dizer. (Nayara Reynaud)
Indicação: 16 anos
Duração: 83 min
CINEARTE 2      02/11/2015 - 14:00 - Sessão: 966 (Segunda)

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