39ª Mostra de São Paulo

De olho nos nórdicos e nas raridades

Equipe Cineweb

Beatles
Baseado em livro de Lars Saabye Christensen, o filme norueguês, dirigido por Peter Flinth, aproxima-se com delicadeza e empatia dos ritos de formação de quatro adolescentes de classe média na Oslo dos anos 1960, quando varria o mundo a onda da Beatlemania.
Kim (Louis Williams), Gunnar (Ole Nicolai Jorgensen), Ola (Halvor Tangen Schulz) e Seb Havard Jackwitz) são colegas de escola e amigos inseparáveis, unidos também pelo sonho musical – querem formar uma banda. Apesar da dificuldade de uma era pré-internet, em que os discos dos Beatles custam a chegar, eles têm acesso a eles através de um amigo adulto, jovem ligado na contracultura dos anos 1960, que compartilha com eles a audição dos sucessos da banda.
A história acompanha os esforços dos garotos para aprender as músicas em inglês. Mas a maior dificuldade está em conseguir instrumentos de verdade. Ainda assim, ele executam pequenos trabalhos, juntam a mesada e vão adiante, formando a banda The Snafus – que vai ter uma grande chance na participação da festa de aniversário da garota mais bonita da escola. O amor, não só pela música, complica a vida de todo mundo nessa idade – e aí é que está a graça e a dor de tudo. Sem nenhuma ousadia, Beatles é bom de ver. (Neusa Barbosa)
Indicação: 12 anos
Duração: 110 min
CINEARTE 2 - 3/11/2015 - 22:10 - Sessão: 1047 (Terça)
 
O homem de 100 anos que pulou a janela e desapareceu
Surpreendente e anárquica, a comédia do sueco Felix Herngren segue as incríveis aventuras de um homem bem velho, Allan Karlsson (Robert Gustafsson), que, no dia de seu 100º aniversário, sai de seu quarto na casa de idosos pela janela (o título é a primeira piada de humor negro do filme) e pega um ônibus, dando início a uma trajetória cada vez mais maluca.
Tudo porque, na estação de ônibus, o velhinho cruza com um jovem gângster e uma mala. Para ir ao banheiro, o ladrão deixa nas mãos dele a tal mala, insistindo que não se separe dela. Mas o ônibus chega e o velhinho a leva consigo. Acontece que ali dentro estão milhões e uma gangue internacional vai seguir a pista.
Ao chegar ao ponto final do ônibus, Allan se junta a outro velhinho, Julius (Iwar Vijklander). Demonstrando insuspeitos talentos, os dois vão liquidando um a um os gângsters carecas, com pinta de neonazistas, que os perseguem. Ao mesmo tempo, Allan vai recordando episódios de uma vida muito aventurosa já no passado, incluindo incríveis participações na criação da bomba atômica nos EUA e serviços de espionagem prestados (?) tanto à CIA quanto à KGB – incluindo-se aí um impagável encontro com Josef Stálin.
O nonsense, o humor negro e a sátira política dão o tom desta comédia absurda, onde nada se estranha – nem mesmo a presença de um elefante que, num determinado momento, passa a integrar a trupe integrada por Allan e companhia. (Neusa Barbosa)
Indicação: 16 anos
Duração: 112 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1 - 3/11/2015 - 18:15 - Sessão: 1068 (Terça)
 
Cordeiro
Cinema etíope é raridade absoluta nas telas. Só por isso já mereceria atenção este drama, assinado pelo diretor Yared Zeleke, que foi selecionado para a seção Un Certain Regard, em Cannes, este ano.
O protagonista é o menino Ephraim (Rediat Amare), de 12 anos, que é deixado por seu pai na casa de parentes, numa região distante de sua casa original. Há uma grande seca devastando o país, a mãe do menino morreu, portanto, o pai acha melhor deixá-lo para trás e tentar um emprego na capital, Adis Abeba.
Tudo nesta jornada será um desafio para Ephraim, que vivia uma relação de ternura e proteção com os pais e agora é tratado como intruso pela maioria dos parentes. Sua única posse e ternura é uma ovelha, velha e estéril, que pertencia à sua mãe e que ele trata como animal de estimação.
Porém, a ovelha está na mira de seu tio, que vê no animal apenas alimento – ainda mais em tempos de escassez de tudo. Ele pretende sacrificá-la para uma grande festa religiosa que vem pela frente, para desespero de Ephraim.
Revelando grande iniciativa para salvar a ovelha, Ephraim dedica-se a fazer pasteis para vender na feira, dividindo o dinheiro com a tia. A atividade permite que o menino custeie a proteção à sua ovelha, que é o centro de seu ritual de amadurecimento. Há muitas escolhas e decepções em seu caminho, num núcleo familiar um tanto rude em relação a ele (as exceções são a tia-avó e uma prima rebelde). Mas o menino manifesta também uma integridade pessoal admirável.
O desdobramento da história do menino também permite a apresentação de paisagens de um país belíssimo, multirreligioso e de costumes desconhecidos para nós. (Neusa Barbosa)
Indicação: 14 anos
Duração: 94 min
CINEMATECA - SALA BNDES - 3/11/2015 - 19:00 - Sessão: 1054 (Terça)
 
Visita ou Memórias e Confissões
Era como uma lenda o filme-testamento do cineasta português Manoel de Oliveira, filmado no início dos anos de 1980 e só seria mostrado depois de sua morte. Eis que, quando ele morreu em abril passado, aos 106 anos, revelou-se verdadeira a existência desse documentário, feito em 1982, quando ele tinha 73 anos. O filme é o réquiem para a casa, no Porto, onde morou com sua mulher por pouco mais de 40 anos, e precisou ser vendida para saldar dívidas de uma fábrica que herdou do pai.
Com diálogos de Augustina Bessa-Luís (escritora com quem trabalhou em filmes como Vale Abraão e O Princípio da Incerteza), e narrados por Teresa Madruga e Diogo Dória, Visita ou Memórias e Confissões é um documentário impressionista e pessoal sobre o fim de uma era e a necessidade de seguir em frente e tudo aquoilo envolvido nesse processo. É também uma meditação sobre o que faz uma casa ser o que é – mais do que a construção, as relações pessoais e familiares que se estabelecem em seu interior. É também o resgate da vida e trajetória de Manoel, além de uma investigação sobre sua relação com  o cinema.
Ao mesmo tempo, pelo viés pessoal, o cineasta resgata a história de Portugal, especialmente ao narrar o episódio de sua prisão durante a ditadura de Salazar. Ele havia terminado seu primeiro longa, Aniki Bobó (1942), quando sua casa foi invadida pela polícia e ele, levado. Relembra também o 25 de abril e as dificuldades financeiras – “mas estas não me afetaram a alma” –, o diretor faz uma obra ímpar, mas, ao mesmo tempo, tão parecida com seus outros filmes. E é aí que reside muito da graça de Visita ou Memórias e Confissões. (Alysson Oliveira)
Duração: 68 minutos
Indicação: 10 anos.
CINESESC                                03/11/2015 - 15:00 - Sessão: 1061 (Terça)
CINEARTE 2                              04/11/2015 - 22:50 – Sessão: 1134 (Quarta)
 
Três lembranças da minha juventude
O cineasta francês Arnaud Desplechin volta a temas e personagens do filme Como eu briguei (por minha vida sexual), caso de Paul Dédalus (aqui novamente interpretado pelo Mathieu Amalric que, em 1996, venceu um César como revelação masculina por aquele filme).
Mathieu encarna Paul em sua versão madura, no momento em que termina um período de dez anos no Tadjiquistão, onde trabalhara como consultor de antropologia. No momento em que vai sair do país, identifica-se um problema com seu passaporte – informam-lhe que existe um outro Paul Dédalus. O incidente remete a uma das tais três lembranças do título, uma aventura que o Paul adolescente tivera numa misteriosa viagem à então URSS. E sua conversa com um severo inspetor (André Dussollier) desencadeia um dos flashbacks que compõe esta emocionada viagem no tempo.
O foco mais interessante da história, nos anos 1980, fica por conta do Paul aos 19 anos (o ótimo estreante Quentin Dolmaire), apaixonado pela bela e volúvel Esther (ótima estreante também a bela Lou Roy-Lecollinet). As idas-e-vindas deste amor, seu carrossel de emoções, traições e buscas de liberdade não têm como não emocionar quem algum dia já foi jovem, ou seja, todo mundo. Neste jovem Paul, como disse a crítica francesa, Desplechin compõe seu próprio Antoine Doinel – François Truffaut provavelmente aprovaria. (Neusa Barbosa)
Indicação: 16 anos
Duração: 123 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 - 3/11/2015 - 15:15 - Sessão: 1082 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 - 4/11/2015 - 20:15 - Sessão: 1169 (Quarta)
 
Os campos voltarão
Partindo das memórias de seu próprio pai e de livre referência a um conto (La Paura), o veterano diretor italiano Ermanno Olmi (A Árvore dos Tamancos) cria um curto mas intenso e sublime relato sobre as iniquidades da guerra. De todas as guerras, embora o cenário desta história seja a Primeira Guerra Mundial, em 1917.
Com uma contenção que evoca expectativa, medo e uma cada vez mais combalida esperança, ele retrata um grupo de soldados confinados a uma trincheira no inverno. Cercados de neve, com frio e fome e aproveitando uma relativa trégua nas batalhas, eles tentam manter o espírito firme. Mas isso é cada vez mais difícil, pela espera, a inatividade e, finalmente, pelos sons distintos ao longe, que anunciam a próxima retomada do confronto. Nesse clima, o filme evoca um outro italiano, Valerio Zurlini, e seu fundamental O Deserto dos Tártaros, numa outra chave.
A chegada de oficiais com ordens impossíveis de cumprir é o detalhe que faltava para angustiar a tropa. Seu capitão, aliás, está com febre – é a gripe espanhola, que está dizimando também fora dali.
O melhor atrativo do filme é como encena este desespero surdo, que não domina completamente, mas expõe os soldados a uma situação-limite, que extrai de cada um reações distintas. Salta uma visão nada heroica, nem idealizada do que acontece numa guerra, não só esta, ainda que cada soldado se mostre capaz de um discurso quase poético diante da câmera, como se estivesse num teatro, sem que isso acarreta nenhuma rigidez. Ao contrário, quando cada soldado nos fita, é como se nos falasse diretamente, numa confissão pungente. Poucas definições serão melhores do que a que aparece nos letreiros finais: “A guerra é um animal feio que nunca pára”. Frase de um pastor, não de um filósofo, mas totalmente sábia. (Neusa Barbosa)
Indicação: 14 anos
Duração: 80 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6                   3/11/2015 - 17:15 - Sessão: 1098 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4            4/11/2015 - 19:45 - Sessão: 1154 (Quarta)
 
O botão de pérola
O cineasta chileno Patricio Guzmán já tem status de mestre. Seus documentários cada vez mais são capazes de interações multidisciplinares, de raciocínios plurais, unindo enfoques em várias direções, dramáticos, complexos e emocionantes como a vida. Mais uma vez, como acontecia em Nostalgia da Luz (2010), ele atinge o sublime neste filme que teve como ponto de partida a trajetória de dois – aparentemente – simples botões. Um deles, dado a um índio no século XIX, que por conta da modestíssima prenda, acabou indo à Europa. Outro foi encontrado junto aos despojos de desaparecidos políticos da ditadura Pinochet.
Com este ponto de partida, Guzman foi capaz de traçar uma narrativa que percorre a história chilena e divaga também em torno de um tema muito contemporâneo, a água. A mesma água de onde veio a origem da vida sobre a Terra e que constitui a maior fronteira do Chile, no caso, o Oceano Pacífico, que era o meio preferencial de indígenas nômades que ocuparam o por muito tempo ignorado, no período colonial, das terras ao sul. Ali na Patagônia, índios viviam num habitat frio e aquoso, sem constituir moradia fixa, morando em barcos habilmente construídos a partir de troncos, com fogueiras ao centro, para espantar o frio. Mas a água também terminou trazendo conquistadores assassinos, que promoveram o genocídio indígena. Poucos restaram desse massacre, cujos descendentes tiveram uma oportunidade de compensação no governo Salvador Allende, justamente derrubado pelo general Pinochet, que usou esse mesmo oceano como cemitério para presos políticos jogados de aviões, numa das guerras sujas mais sangrentas do continente sul-americano.
Guzman, que vive na França, não é revanchista, é um cultivador da memória. Sabe e reafirma a cada um de seus filmes, cada vez mais matizados, que o esquecimento dos crimes do passado, sejam as mortes dos índios, seja a eliminação opositores do regime Pinochet, nada pode trazer de bom ao aprimoramento da humanidade. Além do mais, ao retratar uma situação chilena, fala ao mundo, já que cada rincão deste planeta tem seus próprios crimes para exorcizar. (Neusa Barbosa)
Indicação: 14 anos
Duração: 82 min
CINESALA - 3/11/2015 - 18:20 - Sessão: 1058 (Terça)  
 
O esgrimista
Representante da Finlândia na corrida às indicações do Oscar de filme estrangeiro, o drama de época dirigido por Klaus Haro inspira-se num personagem real, o esgrimista estoniano Endel Nelis (1925-1993). Em 1952, ele é obrigado a deixar a URSS por problemas políticos e volta à sua cidadezinha natal, Haapsalu, num período em que a Estônia estava dominada pelos soviéticos. Endel (Mart Avandi) encontra emprego como professor de educação física numa escola, deixando a esgrima de lado. No entanto, o diretor de tendência stalinista (Hendrik Toompere) está obcecado não só em vigiá-lo como em conter suas tentativas de exercitar seus pequenos alunos. Um dia, planeja levá-los para esquiar, mas o diretor solicita antecipadamente todos os esquis de que a escola dispõe, frustrando seu esforço.
Tolhido em tudo, o professor finalmente tem a ideia, que parece maluca, de ensinar esgrima aos garotos da escola rural, meninos e meninas, mesmo sem contar com floretes. Junto com eles, colhe galhos que servirão como floretes substitutos. As crianças vão tomando gosto pela atividade e tornando-se, finalmente, mais exímios. O diretor combate como pode a iniciativa. Enquanto isso, Endel fica seduzido pela ideia de levar seus garotos a uma competição em Leningrado – uma viagem que pode colocá-lo em risco de prisão.
Bastante bem-produzido, o filme é envolvente e conta com um elenco infantil cativante. A menina Marta (Liisa Kopel), especialmente, é um encanto, uma espécie de líder mirim dos alunos e uma “consciência” para o professor em conflito. (Neusa Barbosa)
Indicação: 10 anos
Duração: 98 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 - 3/11/2015 - 22:15 - Sessão: 1075 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 - 4/11/2015 - 22:00 - Sessão: 1160 (Quarta)
 
Kaminski e eu
O diretor alemão Wolfgang Becker (Adeus Lênin) adapta livro homônimo de Daniel Kehlmann para compor esta história irônica, sobre um jornalista, Sebastian Zöllner (Daniel Brühl), candidato a biógrafo do velho e consagrado pintor Manuel Kaminski (Jesper Christensen).
Na sua juventude, Kaminski foi para a França e, apadrinhado por Matisse e Picasso, elevou-se à fama no início do século XX. Além de sua obra, um detalhe de sua biografia tornou-o ainda mais célebre: ele estaria ficando cego e totalmente cego ficaria, o que por muito tempo não o impediu de pintar e frequentar ambientes de celebridades, como Andy Warhol.
A investigação cínica de como se monta um mito em torno de lendas ou fatos – imprima-se a lenda – é um dos aspectos mais interessantes do filme, que acompanha o relacionamento aos solavancos entre o velhíssimo e decrépito pintor e o seu ambicioso pretendente a biógrafo. A convivência entre os dois, muito dificultada pela filha do pintor (Amira Casar), que o mantém recluso, finalmente se desdobra em direções não-previstas por nenhum dos dois e se humaniza.
Uma participação deliciosa é de Geraldine Chaplin, como uma das mulheres da vida do pintor. O filme é encantador e não só para os amantes das artes plásticas (os letreiros finais, especialmente, são dedicados a estes últimos, um primor de formas e cores). (Neusa Barbosa)
Indicação: 16 anos
Duração: 125 min
CINEARTE 1 -                                                                     3/11/2015 - 21:45 - Sessão: 1043 (Terça)
 
O abraço da serpente
A famosa frase “o horror, o horror” do romance O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, também presente na melhor adaptação cinematográfica do livro, Apocalypse Now, ecoa em vários momentos no colombiano O Abraço da Serpente. Este segundo longa de Ciro Guerra, que assina também o roteiro, inspira-se nos diários do etnologista alemão Theodor Koch-Grünberg e do botânico Richard Evans Schultes, aqui chamados de Theodor (Jan Bijvoet) e Evan (Brionne Davis).
A ação interliga a jornada dos dois pelo rio Amazonas, entre 1909 e 1940, enquanto buscam uma flor chamada yakruna, supostamente com poderes de cura. Eles são guiados por um xamã nativo, Karamakate (interpretado por Nilbio Torres e Antonio Bolivar, nas duas fases), que é o único sobrevivente de um ataque de invasores que dizimou sua tribo.
Guerra parece compartilhar os mesmos interesses de Conrad um século atrás, trocando o Congo belga pela Amazônia colombiana, igualmente questionando o fracasso do projeto civilizatório, que mais destrói do que cria. A influência europeia se materializa quando um dos exploradores coloca um fonógrafo para tocar o oratório A Criação, do alemão Joseph Haydn – num momento que parece um aceno a Fitzcarraldo. Há um outro, uma viagem lisérgica, uma clara referência a 2001 – uma odisseia no espaço.
A bela fotografia em preto-e-branco, de David Gallego, e o cenário tropical remetem ao português Tabu, de Miguel Gomes, que também questiona os limites e as consequências da exploração e do colonialismo. É um lamento às perdas humanas e da natureza, da vitória da civilização sufocante frente à “barbárie” da liberdade.
O Abraço da Serpente é longo e demanda atenção, empenho e comprometimento do público. Ao mesmo tempo, oferece em troca uma obra de arte única, uma experiência cinematográfica rara, rica em sua estética e poderosa em seu comentário, que ecoa a frase famosa de George Orwell: “A história é escrita pelos vencedores”. (Alysson Oliveira)
Duração: 125 minutos
Indicação: 16 anos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1- 3/11/2015 - 21:45 - Sessão: 1080 (Terça)
 
Mistress America
A parceria entre o diretor Noah Baumbach e a atriz Greta Gerwig funcionou tanto em Frances Ha (2012), que rendeu um outro filme. Mistress America – assinado pela produtora brasileira RT Features – é um passo além. No princípio, pode parecer apenas que a dupla não saiu de sua zona de conforto, mas, na verdade, há um outro tipo de olhar para uma outra personagem.
É um tipo de comédia sofisticada que se passa num cenário que agradaria a Woody Allen – mas o viés de Baumbach é outro. Aqui temos a elite cultural e intelectual de Nova York, que pode não coincidir com a elite financeira, mas parece uma circulação muito proveitosa entre as duas. Tracy (Lola Kirke) é a heroína que acaba de completar 18 anos e se muda para a cidade para estudar literatura. No entanto, é incapaz de socializar com seus novos colegas de uma das faculdades prestigiadas dos EUA.
A vida parece lhe sorrir quando conhece sua futura “irmã”, Brooke (Greta) – cujo pai está de casamento marcado com a mãe de Tracy. A nova amiga é uma figura peculiar – vive intensamente uma precoce crise da meia-idade e é incapaz de levar qualquer projeto até o final, embora pareça ter grandes ideias. Curiosamente, o filme parece ser sobre essa garota com seus grandes e belos olhos, sorriso sempre aberto e cinismo sempre pronto. Mas não, o ponto de vista aqui é de Tracy, e uma geração separa as duas, embora para Brooke “apesar dos 10, 12 anos que nos separam somos da mesma geração”.
No roteiro assinado pelo diretor e sua estrela, o tema predominante é a perda da ilusão. O filme poderia ser um romance do século XIX que ensina Tracy a ser adulta, o que fazer e o que não fazer. Basicamente, é evitar seguir os mesmos passos da nova irmã. Brooke é, no fundo um desastre ambulante, e sua empolgação com tudo na vida é uma armadura contra sua solidão e perdas.
Muito ajuda a química entre as duas atrizes, e a direção em sintonia com as personagens – afinal, o filme é um estudo de personagens e da relação que nasce delas em tempos de laços de afeto fugazes. Tracy, que vive num eterno bloqueio criativo, escreve um conto sobre Brooke. Aparentemente, a melhor coisa que já escreveu na vida. A outra, por sua vez, quer abrir um restaurante, desses que combinaria o “melhor do capitalismo”. Eis aí boa parte da graça e uma pista gigante para entender a personagem: há uma dose de ingenuidade nela, aquela típica de uma elite fechada em seu mundo, que desconhece como as coisas realmente funcionam do lado de fora.
No melhor momento do filme, Tracy, Brooke e outros dois personagens viajam a Connecticut para que a moça consiga dinheiro com um ex-namorado e sua atual mulher (ex-melhor amiga dela) para abrir o tal restaurante. Seguem cenas completamente teatrais em sua precisão nos diálogos cortantes, na fina ironia e na mise-en-scène, É aí que Baumbach mostra o quanto pode ser sofisticado seu cinema, em sua comédia de costumes que critica de forma sutil e sagaz o vazio em que toda uma geração pode ter caído. Resta, então, a esperança na figura de Tracy e o seu futuro como escritora. (Alysson Oliveira)
Indicação: 12 anos
Duração: 85 minutos
CINESESC                                                                          3/11/2015 - 18:00 - Sessão: 1063 (Terça)
CINESALA                                                                          4/11/2015 - 18:00 - Sessão:
1142 (Quarta)
 
A Bruxa
O longa de estreia do americano Robert Eggers, depois de alguns curtas, escritos e dirigidos por ele – entre eles, o Coração Delator, inspirado no clássico de Edgard Alan Poe, de quem muito bebe nesta produção – é um dos candidatos a cult da Mostra.
De uma forma bastante direta, Eggers constrói sua cena. Uma família protestante inglesa, em meio ao caos do novo continente americano, é banida para os limites do que é, então, conhecido. Uma terra que nada prospera, costeada por um bosque em que tudo pode dar errado.
Já de início, aos olhos da adolescente Thomasin (Anya Taylor-Joy), o bebê da família é levado. É claro que foi uma criatura, e aqui o diretor se amarra na imagem de bruxa da idade média, universalizada pelos irmãos Grimm, sedentas por crianças.     
Impotente frente aos fatos, pouco importam as buscas empreendidas pelo pai William (Ralph Ineson, cuja gravidade de voz supera Morgan Freeman), que credita à responsabilidade do sumiço da criança a um lobo. Frente ao óbvio, os adeptos do autoengano culpam a grama.
O fervor religioso da família, colocada à prova, torna o filme um suspense em que a bruxa em si é mero símbolo. A euforia de encontrar culpados, aqui representado por Thomasin, lembra os julgamentos de Salem. A fé como poder e o poder como arma da condenação.
O desfecho, muito menos solene do que todo o desenvolvimento da narrativa,  carece de envergadura frente ao que se estabeleceu como diálogo com o espectador. Eggers brinca com a trilha sonora, cenografia, fotografia e sua ideia para nos levar diretamente à idade das trevas da ignorância com fé. Pouco usual, mas muito coesa, a produção por um lado é terror mas, ao mesmo tempo, induz à reflexão, de cinema e de contemporaneidade. (Rodrigo Zavala)
Indicação: 16 anos
Duração: 92 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 –            3/11/2015 – 20:00 (terça)
 
Tigres
O diretor bósnio Danis Tanovic (Terra de Ninguém) é um velho conhecido da Mostra e de temas polêmicos. Nesta coprodução entre Índia, França e Inglaterra, ele compõe um filme-denúncia incômodo, envolvendo um escândalo protagonizado pela Nestlé e produtos infantis lançados pela empresa no Paquistão. Uma história, informa o filme, baseada em fatos reais e ainda inconclusa.
O protagonista é Ayan (Emraan Hashimi), vendedor de produtos farmacêuticos no Paquistão, que pensa ter tirado a sorte grande ao ser contratado pela Nestlé para vender um alimento infantil, para bebês. Eficiente, ele é um sucesso e ganha muito dinheiro. Mas, não demora muito, ele descobre, através de um médico, que o produto está matando bebês. Não porque sua fórmula contenha nenhum elemento tóxico e sim porque, nas áreas pobres, seu pó está sendo diluído em água não-tratada, provocando a diarreia e a morte de inúmeras crianças.
A descoberta cria um dilema moral para Ayan que, depois de hesitar, decide revelar o que sabe a documentaristas europeus. Isto desencadeia o inferno sobre sua vida, que o leva ao exílio no Canadá e a passar anos separado de sua família. E, o que é pior, sem solução para as crianças paquistanesas, vítimas do descaso das autoridades com sua saúde. (Neusa Barbosa)
Indicação: 14 anos
Duração: 90 min
SESC BELENZINHO - CINE TEATRO                           3/11/2015 - 20:00 - Sessão: 1110 (Terça)
 
Desde Allá
Foi uma grande surpresa e um fato inédito o filme venezuelano, do diretor estreante Lorenzo Vigas, ter vencido o Leão de Ouro do mais recente Festival de Veneza. Mas a premiação também dividiu opiniões, cujos motivos ficam muito claros agora, com sua exibição na Mostra.
Armando (o ator chileno Alfredo Castro) é um protético solitário, de 50 anos, que tem uma estranha e clandestina vida sexual. Ele procura adolescentes pobres nas periferias de Caracas e paga-lhes bom dinheiro para vê-los despidos.
Um desses garotos é Elder (Luis Silva), que tem com Armando um primeiro encontro que termina em violência. Isso não impede que Armando volte a procurá-lo, criando-se entre os dois uma relação inquietante, tensa e cheia de segredos. E que também não prefigura um final feliz.
Ator-fetiche de Pablo Larraín, em filmes como Tony Manero e Post Mortem, Alfredo Castro é um ator sempre muito interessante de seguir e que aqui, como sempre, está em pleno domínio de seu personagem. Da mesma forma, o garoto Luis Silva tem a energia necessária a Elder. O roteiro de Vigas, no entanto, deixa à mostra suas fragilidades, com um desfecho na verdade bastante previsível e uma série de pontas soltas. O que torna a premiação de Veneza um tanto quanto curiosa, para dizer o mínimo. (Neusa Barbosa)
Indicação: 14 anos
Duração: 93 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2           3/11/2015 - 22:00 - Sessão: 1085 (Terça)
 
Ixcanul
Primeiro longa guatemalteco a ser selecionado para representar o país e concorrer a uma indicação ao Oscar na categoria filme estrangeiro, Ixcanul estreou na mostra competitiva do Festival de Berlim, onde ganhou o prêmio Alfred Bauer Prize, concedido a filmes que abrem uma nova perspectiva sobre o cinema. Desde então, foi exibido em diversos festivais, entre eles Cartagena, onde ganhou o prêmio principal.
Escrito e dirigido pelo estreante Jayro Bustamante, o longa acompanha o cotidiano de uma família numa fazenda numa região remota, próxima ao vulcão do título. Durante boa parte, o longa retoma aquilo que um dia foi chamado de “filme etnográfico”, mostrando o dia-a-dia dessas pessoas. A jovem Maria (Maria Mercedes Coroy) não tem muitas opções, nem está feliz com o futuro que lhe foi reservado, quando sua mão está prometida a um jovem local. Ela, no entanto, está apaixonada por Pepe, um cafeicultor que sonha em morar nos EUA e ter uma casa luxuosa para fazer a moça feliz. Ele diz que o país está logo ali, depois do vulcão e do México.
Dados os personagens e o cenário, Bustamante poderia facilmente deixar-se levar pelo exotismo, mas ele é centrado e tem os pés no chão, quer dar voz a essas pessoas que são invisíveis no contexto do mundo global. Os EUA surgem com a terra do sonho, o futuro melhor, mas também inatingível. A questão social começa a dominar o filme quando a narrativa toma caminhos inesperados, abordando a exploração da população indígena, especialmente o tráfico humano.
Há duas culturas – a da tradição e a da modernidade – duelando pelo futuro dessas pessoas. A vitória de uma delas, porém, pode significar o fim desse mundo, ou, ao menos, a extinção dele como se mantém há anos. Ao mesmo tempo, essas pessoas não podem depender apenas de suas crenças milenares, quando, por exemplo, uma delas é picada por uma cobra. Como conciliar as duas forças? Qual o preço a se pagar pela escolha? São perguntas cujas respostas transcendem o filme. (Alysson Oliveira)
Indicação : 12 anos
Duração: 91 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4-03/11/2015 - 22:00 - Sessão: 1118 (Terça)
SESC BELENZINHO - CINE TEATRO- 04/11/2015 - 16:00 - Sessão: 1188 (Quarta)
 
Sabor da vida
Filme da diretora japonesa Naomi Kawase, que abriu a seção Un Certain Regard, do Festival de Cannes de 2015, remete ao estilo de Akira Kurosawa, num esmiuçamento de relações humanas entre gerações.
Na meia-idade, Sentaro (Masatoshi Nagase), gerencia, sem grande entusiasmo, um pequeno negócio de “dorayakis” (espécie de mini-panquecas recheadas com massa doce de feijão). Ele está ali contra a vontade, devedor de enormes favores à família que é dona do lugar.
Sentaro coloca um anúncio para contratar um auxiliar e aparece-lhe como entusiasmada candidata uma velha senhora de 76 anos, Tokue (Kiki Kirin), com visíveis deformações nos dedos das mãos. Ele a recusa inicialmente, mas Tokue não é dessas pessoas que aceita um não como resposta. O resultado é uma inusitada parceria que muda o recheio das panquecas e sacode a vida do solitário Sentaro.
Com problemas com a família, uma das frequentadoras da lojinha de Sentaro, a adolescente Wakana (Kyara Uchida), torna-se o terceiro vértice deste triângulo, em que dialogam as necessidades humanas de todas as idades. Nesse diálogo, Kawase concretiza cenas de grande beleza plástica, envolvendo as cerejeiras em flor que Tokue admira tanto, num filme que discute a discriminação e o preconceito contra os doentes de hanseníase, antes isolados em sanatórios. (Neusa Barbosa)
 Indicação: 12 anos
Duração: 113 min
CINE CAIXA BELAS ARTES - SALA SPCINE    03/11/2015 - 21:40 - Sessão: 1052 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   04/11/2015 - 17:15 - Sessão: 1163 (Quarta)
 
Body
O trabalho que rendeu à polonesa Malgorzata Szumowska o prêmio de direção no Festival de Berlim – dividido com o romeno Radu Jude, de Aferim!, também na seleção da Mostra – é um filme de emoções contidas e momentos de estranhamento. A narrativa se concentra em três personagens: um investigador de polícia (Janusz Gajos), sua filha com anorexia, Olga (Justyna Suwala), e a terapeuta dela, Anna (Maja Ostaszewska ), que acredita ser capaz de se comunicar com os mortos.
O roteiro, assinado pela diretora e Michal Englert, acompanha as três perspectivas que, na verdade, pouco se complementam, o que, no fundo, evidencia o isolamento e a solidão de cada um desses personagens. Nenhum deles é feliz em sua vida, em suas escolhas – ou falta delas. O investigador lida com a morte todos os dias, a ponto de parecer ter perdido a sensibilidade. Quando um jovem colega começa a tremer numa cena de crime, o protagonista aconselha que ele precisa lidar com isso: “É o nosso trabalho”.
Anna é uma terapeuta esforçada, trabalhando com um grupo de jovens anoréxicas e tentando trazer um novo sopro de vida para elas. Quando Olga chega à clínica, ela precisa não apenas se adaptar ao grupo, como também aprender a lidar com seus próprios fantasmas. Nas horas vagas, quando não está passeando com seu enorme cachorro, Anna se comunica com os mortos, psicografando páginas e mais páginas aparentemente ditadas por espíritos.
Há um humor delicado, às vezes negro, vindo da ingenuidade dessas personagens. Mas o que predomina é um olhar cuidadoso da diretora sobre essas três figuras que, cada um a seu modo, está à margem, perdeu o gosto pela vida – seja pela anestesia de conviver diariamente com a morte, ou pelo simples fato de não ter expectativas para o futuro.
Ao mesmo tempo, o longa é um comentário sobre a Polônia contemporânea, cuja identidade está cindida – entre a modernidade e os valores do passado -, e onde a religião já não é mais capaz de dar respostas ou, ao menos, conforto. O que sobra é se agarrar ao místico, como Anna. (Alysson Oliveira)
 Indicação:  16 anos
Duração: 90 min
CINEARTE 1 -  3/11/2015 - 17:45 - Sessão: 1041 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5 - 4/11/2015 - 15:30 - Sessão: 1172 (Quarta)
 
A Terra e a Sombra
Vencedor  do prêmio Caméra D’Or (ao qual concorrem todos os filmes de diretores estreantes exibidos no Festival de Cannes), o colombiano (coprodução com Brasil, Chile e Holanda) A Terra e a Sombra, de César Augusto Acevedo, é um filme que tem o tempo da narrativa bastante peculiar.
Algumas pessoas poderiam usar o termo reducionista “lento”, mas o longa é bem mais do que isso. O diretor, que também assina o roteiro, tenta capturar em imagens e narrativa a vida de personagens que se movem lentamente para o fim – assim como o mundo onde vivem.
Nesse sentido, não é de se espantar que o entorno de sua casa, numa região rural da Colômbia, seja consumido por fogo, e que a fumaça não apenas cegue os moradores como tenta asfixiá-los. A chegada de Alfonso (Haimer Leal) é apenas o ponto de partida. Idoso e distante da família há anos, ele volta para reencontrar o filho, Gerardo (Edison Raigosa), ex-cortador de cana-de-açúcar que tem uma doença pulmonar e pouco tempo de vida. Sua mulher (Marleyda Soto) trabalha nos campos de cana, assim como sua mãe (Hilda Ruizcuida), para sustentar a casa.
O que dita o tempo aqui, então, é a espera da inevitável morte de Gerardo, que parece, às vezes, adiada, mas da qual não se há como fugir. Uma agonia tal qual a do mundo onde vivem – que também parece com os dias contados. Trabalhando com o diretor de fotografia Mateo Guzman, Acevedo cria imagens que transitam entre o onírico e o realista, entre a esperança e o inevitável. Seus quadros são composições meditadas, das quais os personagens são, às vezes, acessórios – o que não deixa de refletir a existência melancólica deles. (Alysson Oliveira)
Indicação:  10 anos
Duração: 94 min
CINEARTE 1   -  3/11/2015 - 14:00 - Sessão: 1039 (Terça)
 
Sex: speak
O surpreendente documentário alemão, dirigido por Saskia Walker e Ralf Hechelmann, é muito eficaz na escolha de seus personagens e na extraordinária sinceridade que obteve deles para falar de sua vida sexual. As idades variam entre 12 e 74 anos. E o garotinho de 12 anos é um dos depoimentos mais interessantes do filme. (Neusa Barbosa) 
Duração:  80 min
Indicação: 14 anos 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3        3/11/2015 - 22:30 - Sessão: 1090 (Terça)
 
Tropykaos
Eco soteropolitano da alegoria de uma sociedade em ebulição encontrada em Riocorrente, de Paulo Sacramento – lá através da cidade, aqui representada em um homem –, a estreia de Daniel Lisboa adota a estética de um filme B para mostrar o lado B de Salvador, ou daqueles que preferiam não viver a efervescência tão famosa da cidade, que encontra seu auge no Carnaval.
A fábula pós-moderna entre o sarcasmo e a loucura, criada pelo diretor, segue um poeta (Gabriel Pardal) que sofre com o mais quente verão dos últimos anos em Salvador. Sentindo um calor que os médicos não conseguem explicar, Guima acredita sofrer de “ultraviolência solar” e tudo que deseja é um ar-condicionado funcionando. (Nayara Reynaud)
Indicação: Livre
Duração: 82 min
CCSP - SALA PAULO EMILIO         03/11/2015 - 17:00 - Sessão: 1034 (Terça)
 
Ponto Zero
Com mais de 30 anos de carreira em curtas, como O Dia em que Dorival Encarou o Guarda (1984) e na publicidade, José Pedro Goulart emprega muita ousadia em seu primeiro longa, que guarda muitas diferenças do cinema gaúcho conhecido pelo público, especialmente pelos trabalhos de Jorge Furtado.
Angustiante drama sobre um adolescente vivenciando uma grave crise familiar, cuja própria vida entra em transformação depois de uma noite trágica, o filme impressiona pelo apuro visual, com uma trilha sonora complementando a tensão empregada na excelente fotografia e engenhosa direção. Mas há lacunas no roteiro e a impressão de dois curtas em um único produto, que nem sempre conseguem encontrar ligação entre si através dos simbolismos e metáforas. (Nayara Reynaud)
Indicação: 14 anos
Duração: 94 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1       03/11/2015 - 17:30 - Sessão: 1078 (Terça)
 
Estive em Lisboa e Lembrei de Você
O português José Barahona adapta o romance homônimo de Luiz Ruffato, escritor de Cataguases (MG), em uma produção luso-brasileira sobre as dificuldades de um imigrante mineiro em Portugal, como exemplo de todos os que tentaram a vida além-mar e que viram seu sonho se esvair, especialmente com a crise econômica que atingiu o país europeu. Com um tom documental em alguns momentos e uma sensação de amadorismo que permeia as cenas iniciais, o longa abusa da narração em off do protagonista, que extrapola a função de muleta para o roteiro. (Nayara Reynaud)
Indicação: 16 anos
Duração: 94 min
RESERVA CULTURAL 2        03/11/2015 - 18:15 - Sessão: 1107 (Terça)

 

Órfãos do Eldorado
Fantasia e crítica social disputam atenções em Órfãos do Eldorado, do diretor Guilherme Coelho, documentarista premiado (Fala Tu e PQD), em sua primeira incursão na ficção. Estrelado por Dira Paes e Daniel de Oliveira, em atuações bastante comprometidas, o filme apresenta de forma dramática crenças e mitos amazônicos, ao mesmo tempo em que deixa, em um segundo plano transparente, fatos que vislumbram sua exploração.
 Elementos, aliás, que compõem a escrita de Milton Hatoum (que atua na produção), em livro homônimo, de quem Coelho bebe com anuência do literato. Uma adaptação (ou interpretação como prefere o escritor), um tanto frouxa pela vontade do diretor de reduzir a atmosfera criada por Hatoum em duas horas de experiência cinematográfica.
Nela, Daniel de Oliveira é Arminto, que volta a Belém do Pará (não datado), rememorando sua infância com Florita (Dira Paes), uma aparente governanta. Ela tem um relacionamento sexual com o pai do garoto Paulo Fonseca, que aparentemente enriqueceu com o ciclo da borracha. Há segredos nessas relações, que perduram até o regresso de Arminto, mas que passam a ser explorados a partir da morte de patriarca, deixando o espectador com os mistérios, alguns deles míticos, dessa família.     
“Eu intuía que o sentimento de decadência, excitação e de enlouquecimento no romance era algo muito cinematográfico e muito desafiador em termos de execução, daí optei por um melodrama com outra chave: de estranhamento. Pois tem o lado fabular da narrativa do Milton, que eu tive um grande desafio de traduzir em fantasia, oralidade, memória e realidade”, afirma o diretor sobre a dificuldade na construção do roteiro. (Rodrigo Zavala)
Indicação: 16 anos
Duração: 96 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 - 3/11/2015 - 13:30 - Sessão: 1076 (Terça)