39ª Mostra de São Paulo

Últimas chances para as atrações da Mostra

Equipe Cineweb

Um Dia Perfeito
Conhecido por seus longas de temática social, como Segundas-Feiras ao Sol, o espanhol Fernando Leon de Aranoa faz seu primeiro longa em inglês, um filme sobre a globalização e a inércia do pós-guerra em algum lugar das Bálcãs, em meados dos anos de 1990.
Benicio del Toro, Tim Robbins e Mélanie Thierry são um porto-riquenho, um americano e uma francesa de um grupo de ajuda humanitária que tenta retirar um cadáver de um obeso de um poço numa aldeia para descontaminar a água. A burocracia, no entanto, além da falta de uma corda impedem-nos de fazer o trabalho. A situação, a principio facilmente resolvível, toma ares surreais a cada novo passo da equipe.
O tom alucinado que Aranoa imprime ao filme vai ao encontro da insanidade da situação e do cenário desolado, combinando com isso o humor do absurdo – o que faz lembrar filmes de guerra como M*A*S*H* e Ardil-22. O filme é um tributo a homens e mulheres de diversos lugares do mundo que se arriscam pela paz, mas também uma figuração da guerra em tempos de globalização.
Numa das cenas, Sophie (Mélanie Thierry) é informada por um militar também estrangeiro de que ela não pode se envolver porque aquele não é um conflito internacional, apesar de todos eles terem passaportes internacionais. Eles precisam esperar que a lei local aja. É em absurdos como esse – alguns exagerados para efeito dramático, mas ainda assim possíveis – que o diretor se apoia, trabalhando a partir do romance da escritora espanhola Paula Farias. Enfim, a mesma globalização que permite que essas pessoas estejam nesse lugar para ajudar os moradores é o entrave ao seu trabalho, além de um dos paradoxos do mundo contemporâneo. (Alysson Oliveira)
Indicação: 12 anos
Duração: 106 minutos
CINESESC - 4/11/2015 - 21:00 - Sessão: 1145
 
É o amor
Pouco conhecido no Brasil, o francês Paul Vecchiali foi uma surpresa e polêmica na Mostra de 2014 com seu Noites Brancas no Píer, uma adaptação bastante peculiar de Dostoievski. É o amor, seu novo longa, no entanto, é bem mais acessível – embora ainda um pouco estranho, o que fica claro logo na primeira cena, quando um homem (Julien Lucq) chega em casa depois do trabalho e trava uma conversa com sua mulher (Astrid Adverbe), enquanto ele se despe. Durante todo o diálogo, a câmera mostra apenas a ele – mesmo durante as falas dela. Depois, a mesma cena é repetida, mostrando apenas ela, que desconfia da fidelidade dele.
Para se vingar, a moça se envolve com Jean (Pascal Cervo), um ator premiado que está em crise, evitando os holofotes numa pequena cidade, junto com um ex-militar (Frédéric Karakozian), que fez figuração no último filme que ele protagonizou. Arma-se, então, uma ciranda de encontros, desencontros e traições.
Será que Vecchiali acredita num possível determinismo do amor? Todos estão fadados ao fracasso e sofrimento? Ou apenas investiga os mecanismos de aproximação e distanciamento entre duas pessoas? Talvez perguntas como essas não importem muito, e o que fica são as peculiaridades da forma que o cineasta usa em seus longas, além de uma divertida sátira a O Estranho do Lago – aqui “refilmado” de maneira tosca e com elenco bastante diferente dos nudistas charmosos do filme cult de 2013. (Alysson Oliveira)
Indicação: 16 anos
Duração: 97 minutos
CINEARTE 1 - 4/11/2015 - 18:15 - Sessão: 1128 (Quarta)
 
Aspirantes
A construção do personagem é o que marca Aspirantes, estreia de Ives Rosenfeld, carioca com uma longa carreira no departamento de som, que levou três troféus Redentor no Festival do Rio deste ano: Melhor Direção, Melhor Ator justamente para Ariclenes Barroso, que vive o protagonista Júnior, Melhor Atriz Coadjuvante para Julia Bernat, na pele da namorada do aspirante a jogador de futebol.
A narrativa, marcada por longos e estáticos planos-sequências, desenha o panorama da vida do jovem, cuja carreira em um time amador de Saquarema não aponta novos rumos, enquanto cresce nele a inveja pelo sucesso de seu melhor amigo Bento (Sérgio Malheiros) e a pressão de trabalhar e ganhar dinheiro para sustentar sua própria família, já que sua namorada, Karine, está grávida – destaque também para Karina Teles, como a mãe da garota. (Nayara Reynaud)
Indicação: 12 anos
Duração: 75 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – AUGUSTA - 4/11/2015 - 14:00 - Sessão: 1146 (Quarta)
 
Visita ou Memórias e Confissões
Era como uma lenda o filme-testamento do cineasta português Manoel de Oliveira, filmado no início dos anos de 1980 e só seria mostrado depois de sua morte. Eis que, quando ele morreu em abril passado, aos 106 anos, revelou-se verdadeira a existência desse documentário, feito em 1982, quando ele tinha 73 anos. O filme é o réquiem para a casa, no Porto, onde morou com sua mulher por pouco mais de 40 anos, e precisou ser vendida para saldar dívidas de uma fábrica que herdou do pai.
Com diálogos de Augustina Bessa-Luís (escritora com quem trabalhou em filmes como Vale Abraão e O Princípio da Incerteza), e narrados por Teresa Madruga e Diogo Dória, Visita ou Memórias e Confissões é um documentário impressionista e pessoal sobre o fim de uma era e a necessidade de seguir em frente e tudo aquoilo envolvido nesse processo. É também uma meditação sobre o que faz uma casa ser o que é – mais do que a construção, as relações pessoais e familiares que se estabelecem em seu interior. É também o resgate da vida e trajetória de Manoel, além de uma investigação sobre sua relação com  o cinema.
Ao mesmo tempo, pelo viés pessoal, o cineasta resgata a história de Portugal, especialmente ao narrar o episódio de sua prisão durante a ditadura de Salazar. Ele havia terminado seu primeiro longa, Aniki Bobó (1942), quando sua casa foi invadida pela polícia e ele, levado. Relembra também o 25 de abril e as dificuldades financeiras – “mas estas não me afetaram a alma” –, o diretor faz uma obra ímpar, mas, ao mesmo tempo, tão parecida com seus outros filmes. E é aí que reside muito da graça de Visita ou Memórias e Confissões. (Alysson Oliveira)
Duração: 68 minutos
Indicação: 10 anos.
CINEARTE 2  - 4/11/2015 - 22:50 – Sessão: 1134 (Quarta)
 
 
Tarkóvski – tempo dentro do tempo
O documentário do norte-americano PJ Letofsky parte dos Diários do sublime cineasta russo Andrei Tarkóvski (1932-1986) para traçar um pequeno mas eficiente perfil de sua vida e obra. É uma espécie de pequena síntese de alguns dos principais momentos de uma biografia muito rica e também tumultuada pelo exílio e a perseguição política e, finalmente, interrompida pelo câncer que matou tão cedo o diretor de filmes míticos como A infância de Ivan, Andrei Rublev, Stalker, Nostalgia e O Sacrifício.
O próprio Letofsky foi levado ao encontro de Tarkóvski por acaso. Em 2006, o cineasta italiano Michelangelo Antonioni visitou Los Angeles para receber um prêmio por sua carreira, falando, entre outras coisas, como tinha ajudado Tarkóvski a escapar para a Itália, depois de ter sido perseguido pela censura e os órgãos estatais em seu país. Letofsky mergulhou, então, na obra do colega russo, descobrindo também seus volumosos Diários, numa edição em inglês. “Enxerguei ali um verdadeiro roteiro e até me perguntei como ninguém tinha pensado em usá-lo assim antes”, destacou o documentarista norte-americano, que veio a São Paulo.
O projeto do filme foi longo, começando em 2010. Exigiu diversas viagens de Letofsky à Europa, à Rússia, Itália e Suécia, países onde entrevistou personagens como a atriz Natalya Bondarchuk, a irmã de Tarkóvski, Marina, a viúva de Antonioni, Enrica, o roteirista Tonino Guerra e a produtora sueca Katinka Farago, parceira habitual de Ingmar Bergman que atuou na produção do último filme do russo, O Sacrifício (que usou outros colaboradores de Bergman, como o fotógrafo Sven Nyqvst e o ator Erland Josephson, o que provocou, segundo Katinka, ciúmes do mestre sueco).
Sobre um dos assuntos mencionados nos Diários, tratado no filme, o longo projeto de Tarkóvsky de fazer um filme sobre o escritor Fiódor Dostoiévski, o diretor disse que “gostaria muito de saber onde foi parar esse roteiro, até porque queria muito ajudar a que se tornasse um filme”. (Neusa Barbosa)
Indicação: livre
Duração: 73 min
CINE OLIDO - 4/11/2015 - 17:00 - Sessão: 1124 (Quarta)
 
 
Três lembranças da minha juventude
O cineasta francês Arnaud Desplechin volta a temas e personagens do filme Como eu briguei (por minha vida sexual), caso de Paul Dédalus (aqui novamente interpretado pelo Mathieu Amalric que, em 1996, venceu um César como revelação masculina por aquele filme).
Mathieu encarna Paul em sua versão madura, no momento em que termina um período de dez anos no Tadjiquistão, onde trabalhara como consultor de antropologia. No momento em que vai sair do país, identifica-se um problema com seu passaporte – informam-lhe que existe um outro Paul Dédalus. O incidente remete a uma das tais três lembranças do título, uma aventura que o Paul adolescente tivera numa misteriosa viagem à então URSS. E sua conversa com um severo inspetor (André Dussollier) desencadeia um dos flashbacks que compõe esta emocionada viagem no tempo.
O foco mais interessante da história, nos anos 1980, fica por conta do Paul aos 19 anos (o ótimo estreante Quentin Dolmaire), apaixonado pela bela e volúvel Esther (ótima estreante também a bela Lou Roy-Lecollinet). As idas-e-vindas deste amor, seu carrossel de emoções, traições e buscas de liberdade não têm como não emocionar quem algum dia já foi jovem, ou seja, todo mundo. Neste jovem Paul, como disse a crítica francesa, Desplechin compõe seu próprio Antoine Doinel – François Truffaut provavelmente aprovaria. (Neusa Barbosa)
Indicação: 16 anos
Duração: 123 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 - 4/11/2015 - 20:15 - Sessão: 1169 (Quarta)
 
 
A Ovelha Negra
Vencedor da mostra Um Certain Regard (Um Certo Olhar) do Festival de Cannes deste ano e candidato islandês para a corrida do Oscar de 2016 entre os filmes estrangeiros, A Ovelha Negra apresenta um raro equilíbrio entre melancolia e humor, rigor estético e singelo apelo emocional.
Inspirado em casos reais de pastores locais de carneiros, mais populosos que os humanos na insular Islândia, conforme brinca o próprio, Grímur Hákonarson utiliza um tom de fábula para apresentar a história dos irmãos e vizinhos Gummi (Sigurður Sigurjónsson) e Kiddi (Theodór Júlíusson), que não se falam há 40 anos. Sabiamente, o porquê da briga nunca é levado à tona. Até aquilo que mais prezam, seus rebanhos, ser posto em risco pela chegada da Scrapie, doença letal para os ovinos – equivalente ao “Mal da Vaca Louca” nos bovinos – e mudar tudo que parecia concreto no vilarejo.
Em seu segundo longa de ficção – o anterior foi Summerland (2010) –, Hákonarson apresenta uma direção segura, de execução limpa e humor pitoresco, sem deixar de lado sua experiência como documentarista para mostrar a rotina de cuidados com o rebanho. O cineasta e o diretor de fotografia Sturla Brandth Grovlen aproveitam toda a amplitude do widescreen/cinemascope para reforçar a imagem das duas figuras solitárias em uma imensidão fria que marca o interior do país. Junto com a edição de Kristjan Lodmfjord, Grímur usa longos silêncios para marcar isso também, mas quebra estes momentos com alguma situação inusitada da relação conflituosa e cômica entre os irmãos, dosando a diversão necessária ao filme.
O diretor, que afirmou preferir falar sobre “pessoas que lutam contra o sistema” em seus trabalhos, considera seus personagens, “fazendeiros rebeldes”. E se o final é o único momento em que o longa cede ao sentimentalismo, a concessão serve ao propósito da obra em levar a catarse da resistência, seja de seus princípios ou de um amor fraterno congelado gélida paisagem islandesa. (Nayara Reynaud)
Indicação: 14 anos
Duração: 93 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4  - 4/11/2015 - 21:30 - Sessão: 1198 (Quarta)
 
 
Os campos voltarão
Partindo das memórias de seu próprio pai e de livre referência a um conto (La Paura), o veterano diretor italiano Ermanno Olmi (A Árvore dos Tamancos) cria um curto mas intenso e sublime relato sobre as iniquidades da guerra. De todas as guerras, embora o cenário desta história seja a Primeira Guerra Mundial, em 1917.
Com uma contenção que evoca expectativa, medo e uma cada vez mais combalida esperança, ele retrata um grupo de soldados confinados a uma trincheira no inverno. Cercados de neve, com frio e fome e aproveitando uma relativa trégua nas batalhas, eles tentam manter o espírito firme. Mas isso é cada vez mais difícil, pela espera, a inatividade e, finalmente, pelos sons distintos ao longe, que anunciam a próxima retomada do confronto. Nesse clima, o filme evoca um outro italiano, Valerio Zurlini, e seu fundamental O Deserto dos Tártaros, numa outra chave.
A chegada de oficiais com ordens impossíveis de cumprir é o detalhe que faltava para angustiar a tropa. Seu capitão, aliás, está com febre – é a gripe espanhola, que está dizimando também fora dali.
O melhor atrativo do filme é como encena este desespero surdo, que não domina completamente, mas expõe os soldados a uma situação-limite, que extrai de cada um reações distintas. Salta uma visão nada heroica, nem idealizada do que acontece numa guerra, não só esta, ainda que cada soldado se mostre capaz de um discurso quase poético diante da câmera, como se estivesse num teatro, sem que isso acarreta nenhuma rigidez. Ao contrário, quando cada soldado nos fita, é como se nos falasse diretamente, numa confissão pungente. Poucas definições serão melhores do que a que aparece nos letreiros finais: “A guerra é um animal feio que nunca pára”. Frase de um pastor, não de um filósofo, mas totalmente sábia. (Neusa Barbosa)
Indicação: 14 anos
Duração: 80 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 - 4/11/2015 - 19:45 - Sessão: 1154 (Quarta)
 
 
Experimentos
Um elefante faz uma aparição rápida em Experimentos, do americano Michael Almereyda, o que pode parecer gratuito. Mas não é. O longa acompanha o psicólogo social Stanley Milgran (Peter Sarsgaard), cujos experimentos sobre obediência no início da década de 1960 causaram polêmica, revelando alguns pontos do coração das trevas da humanidade. O paquiderme surge ainda no começo do filme, quando o protagonista conta que é filho de judeus refugiados e cresceu no Brooklyn nova-iorquino nos anos de 1940. O elefante na sala é uma alegoria sagaz para aquilo que ronda o filme inteiro, sem se materializar na tela: a ascensão no nazismo.
Este é um filme sobre as condições de surgimento dos regimes totalitaristas, sobre aqueles que se aliam à elite, mesmo conhecendo sua potencialidade de exterminar populações. No seu teste, Milgran quer provar que as pessoas responderão a autoridades superiores sem as questionar, mesmo sabendo que estão causando mal para uma outra pessoa, ouvindo os gemidos de dor dessa outra pessoa.
Há a inevitável referência à natureza humana, sem mostrar se há algum ganho nessa perspectiva de abordagem da pesquisa do psicólogo (que fez o experimento quando dava aula em Yale). Mas o longa se destaca de verdade quando predominam seus impulsos de investigação social. Milgran, em alguns momentos, fala diretamente para a câmera, antecipa fatos e explicita outros que nem são mostrados. Com esse estratagema, o longa nos lembra da parcialidade da narrativa e explicita que esta é uma construção manipuladora (Brecht ficaria orgulhoso desse tipo de coisa no filme).
Wynona Ryder interpreta a mulher de Milgran que, dedicada e curiosa, muitas vezes, funciona como os olhos do público: às vezes, questionando, às vezes, indignando-se. Já Sarsgaard atravessa o filme com um olhar melancólico e com o interesse de quem pretende desvendar e revelar algo significativo. (Alysson Oliveira)
Indicação: 14 anos
Duração: 90 minutos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4   - 4/11/2015 - 13:30 - Sessão: 1194 (Quarta)
 
 
 
Mistress America
A parceria entre o diretor Noah Baumbach e a atriz Greta Gerwig funcionou tanto em Frances Ha (2012), que rendeu um outro filme. Mistress America – assinado pela produtora brasileira RT Features – é um passo além. No princípio, pode parecer apenas que a dupla não saiu de sua zona de conforto, mas, na verdade, há um outro tipo de olhar para uma outra personagem.
É um tipo de comédia sofisticada que se passa num cenário que agradaria a Woody Allen – mas o viés de Baumbach é outro. Aqui temos a elite cultural e intelectual de Nova York, que pode não coincidir com a elite financeira, mas parece uma circulação muito proveitosa entre as duas. Tracy (Lola Kirke) é a heroína que acaba de completar 18 anos e se muda para a cidade para estudar literatura. No entanto, é incapaz de socializar com seus novos colegas de uma das faculdades prestigiadas dos EUA.
A vida parece lhe sorrir quando conhece sua futura “irmã”, Brooke (Greta) – cujo pai está de casamento marcado com a mãe de Tracy. A nova amiga é uma figura peculiar – vive intensamente uma precoce crise da meia-idade e é incapaz de levar qualquer projeto até o final, embora pareça ter grandes ideias. Curiosamente, o filme parece ser sobre essa garota com seus grandes e belos olhos, sorriso sempre aberto e cinismo sempre pronto. Mas não, o ponto de vista aqui é de Tracy, e uma geração separa as duas, embora para Brooke “apesar dos 10, 12 anos que nos separam somos da mesma geração”.
No roteiro assinado pelo diretor e sua estrela, o tema predominante é a perda da ilusão. O filme poderia ser um romance do século XIX que ensina Tracy a ser adulta, o que fazer e o que não fazer. Basicamente, é evitar seguir os mesmos passos da nova irmã. Brooke é, no fundo um desastre ambulante, e sua empolgação com tudo na vida é uma armadura contra sua solidão e perdas.
Muito ajuda a química entre as duas atrizes, e a direção em sintonia com as personagens – afinal, o filme é um estudo de personagens e da relação que nasce delas em tempos de laços de afeto fugazes. Tracy, que vive num eterno bloqueio criativo, escreve um conto sobre Brooke. Aparentemente, a melhor coisa que já escreveu na vida. A outra, por sua vez, quer abrir um restaurante, desses que combinaria o “melhor do capitalismo”. Eis aí boa parte da graça e uma pista gigante para entender a personagem: há uma dose de ingenuidade nela, aquela típica de uma elite fechada em seu mundo, que desconhece como as coisas realmente funcionam do lado de fora.
No melhor momento do filme, Tracy, Brooke e outros dois personagens viajam a Connecticut para que a moça consiga dinheiro com um ex-namorado e sua atual mulher (ex-melhor amiga dela) para abrir o tal restaurante. Seguem cenas completamente teatrais em sua precisão nos diálogos cortantes, na fina ironia e na mise-en-scène, É aí que Baumbach mostra o quanto pode ser sofisticado seu cinema, em sua comédia de costumes que critica de forma sutil e sagaz o vazio em que toda uma geração pode ter caído. Resta, então, a esperança na figura de Tracy e o seu futuro como escritora. (Alysson Oliveira)
Indicação: 12 anos
Duração: 85 minutos
CINESALA  - 4/11/2015 - 18:00 - Sessão: 1142 (Quarta)      
 
 
Aferim!
Ganhador do prêmio de direção no Festival de Berlim – dividido com o polonês Body, de Malgorzata Szumowska, também na seleção da Mostra – Aferim! é algo diferente daquilo a que estamos acostumados no cinema romeno. Não existe a estética do minimalismo nesse longa em preto-e-branco, com uma narrativa inspirada por documentos históricos. O título, que pode ser traduzido como “Bravo!”, é uma referência irônica aos feitos do par de protagonista, um pai e um filho, que trabalham como comissários de polícia e  devem recuperar um escravo cigano fugido, no ano de 1835.
A dupla – tal qual D. Quixote e Sancho Panza – está na estrada. E cada episódio de suas (des)venturas cria novas camadas na investigação do tratamento da Romênia do passado em relação às minorias, o que deve ecoar em toda a Europa do presente. Constantin (Teodor Corban) e seu filho Ionita (Mihai Comanoiu) atravessam uma paisagem árida, pagos por um senhor feudal em busca do fugitivo.
Imbuído de uma mentalidade, comum na época, que duvidava mesmo da natureza humana dos ciganos – chamados por ele de “peões do diabo” – Constantin, a partir da captura do escravo, acaba sendo colocado em outra perspectiva, levando o captor a se perguntar sobre seu papel no processo de dominação que existe em seu mundo. Há um quê de humor negro em Aferim!, nas incertezas e erros dos personagens, que acham estar fazendo algo nobre, que lhes trará fama com o passar dos anos. Mas também há os horrores da exploração e dizimação de um povo diante da ausência de solidariedade – nada muito diferente da Europa contemporânea. (Alysson Oliveira)
Indicação: 12 anos
Duração: 108 min
CINEARTE 1 - 4/11/2015 - 21:45 - Sessão: 1130 (Quarta)
 
 
Ixcanul
Primeiro longa guatemalteco a ser selecionado para representar o país e concorrer a uma indicação ao Oscar na categoria filme estrangeiro, Ixcanul estreou na mostra competitiva do Festival de Berlim, onde ganhou o prêmio Alfred Bauer Prize, concedido a filmes que abrem uma nova perspectiva sobre o cinema. Desde então, foi exibido em diversos festivais, entre eles Cartagena, onde ganhou o prêmio principal.
Escrito e dirigido pelo estreante Jayro Bustamante, o longa acompanha o cotidiano de uma família numa fazenda numa região remota, próxima ao vulcão do título. Durante boa parte, o longa retoma aquilo que um dia foi chamado de “filme etnográfico”, mostrando o dia-a-dia dessas pessoas. A jovem Maria (Maria Mercedes Coroy) não tem muitas opções, nem está feliz com o futuro que lhe foi reservado, quando sua mão está prometida a um jovem local. Ela, no entanto, está apaixonada por Pepe, um cafeicultor que sonha em morar nos EUA e ter uma casa luxuosa para fazer a moça feliz. Ele diz que o país está logo ali, depois do vulcão e do México.
Dados os personagens e o cenário, Bustamante poderia facilmente deixar-se levar pelo exotismo, mas ele é centrado e tem os pés no chão, quer dar voz a essas pessoas que são invisíveis no contexto do mundo global. Os EUA surgem com a terra do sonho, o futuro melhor, mas também inatingível. A questão social começa a dominar o filme quando a narrativa toma caminhos inesperados, abordando a exploração da população indígena, especialmente o tráfico humano.
Há duas culturas – a da tradição e a da modernidade – duelando pelo futuro dessas pessoas. A vitória de uma delas, porém, pode significar o fim desse mundo, ou, ao menos, a extinção dele como se mantém há anos. Ao mesmo tempo, essas pessoas não podem depender apenas de suas crenças milenares, quando, por exemplo, uma delas é picada por uma cobra. Como conciliar as duas forças? Qual o preço a se pagar pela escolha? São perguntas cujas respostas transcendem o filme. (Alysson Oliveira)
Indicação : 12 anos
Duração: 91 min
SESC BELENZINHO - CINE TEATRO- 04/11/2015 - 16:00 - Sessão: 1188 (Quarta)
 
 
Sabor da vida
Filme da diretora japonesa Naomi Kawase, que abriu a seção Un Certain Regard, do Festival de Cannes de 2015, remete ao estilo de Akira Kurosawa, num esmiuçamento de relações humanas entre gerações.
Na meia-idade, Sentaro (Masatoshi Nagase), gerencia, sem grande entusiasmo, um pequeno negócio de “dorayakis” (espécie de mini-panquecas recheadas com massa doce de feijão). Ele está ali contra a vontade, devedor de enormes favores à família que é dona do lugar.
Sentaro coloca um anúncio para contratar um auxiliar e aparece-lhe como entusiasmada candidata uma velha senhora de 76 anos, Tokue (Kiki Kirin), com visíveis deformações nos dedos das mãos. Ele a recusa inicialmente, mas Tokue não é dessas pessoas que aceita um não como resposta. O resultado é uma inusitada parceria que muda o recheio das panquecas e sacode a vida do solitário Sentaro.
Com problemas com a família, uma das frequentadoras da lojinha de Sentaro, a adolescente Wakana (Kyara Uchida), torna-se o terceiro vértice deste triângulo, em que dialogam as necessidades humanas de todas as idades. Nesse diálogo, Kawase concretiza cenas de grande beleza plástica, envolvendo as cerejeiras em flor que Tokue admira tanto, num filme que discute a discriminação e o preconceito contra os doentes de hanseníase, antes isolados em sanatórios. (Neusa Barbosa)
 Indicação: 12 anos
Duração: 113 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   04/11/2015 - 17:15 - Sessão: 1163 (Quarta)
 
 
Body
O trabalho que rendeu à polonesa Malgorzata Szumowska o prêmio de direção no Festival de Berlim – dividido com o romeno Radu Jude, de Aferim!, também na seleção da Mostra – é um filme de emoções contidas e momentos de estranhamento. A narrativa se concentra em três personagens: um investigador de polícia (Janusz Gajos), sua filha com anorexia, Olga (Justyna Suwala), e a terapeuta dela, Anna (Maja Ostaszewska ), que acredita ser capaz de se comunicar com os mortos.
O roteiro, assinado pela diretora e Michal Englert, acompanha as três perspectivas que, na verdade, pouco se complementam, o que, no fundo, evidencia o isolamento e a solidão de cada um desses personagens. Nenhum deles é feliz em sua vida, em suas escolhas – ou falta delas. O investigador lida com a morte todos os dias, a ponto de parecer ter perdido a sensibilidade. Quando um jovem colega começa a tremer numa cena de crime, o protagonista aconselha que ele precisa lidar com isso: “É o nosso trabalho”.
Anna é uma terapeuta esforçada, trabalhando com um grupo de jovens anoréxicas e tentando trazer um novo sopro de vida para elas. Quando Olga chega à clínica, ela precisa não apenas se adaptar ao grupo, como também aprender a lidar com seus próprios fantasmas. Nas horas vagas, quando não está passeando com seu enorme cachorro, Anna se comunica com os mortos, psicografando páginas e mais páginas aparentemente ditadas por espíritos.
Há um humor delicado, às vezes negro, vindo da ingenuidade dessas personagens. Mas o que predomina é um olhar cuidadoso da diretora sobre essas três figuras que, cada um a seu modo, está à margem, perdeu o gosto pela vida – seja pela anestesia de conviver diariamente com a morte, ou pelo simples fato de não ter expectativas para o futuro.
Ao mesmo tempo, o longa é um comentário sobre a Polônia contemporânea, cuja identidade está cindida – entre a modernidade e os valores do passado -, e onde a religião já não é mais capaz de dar respostas ou, ao menos, conforto. O que sobra é se agarrar ao místico, como Anna. (Alysson Oliveira)
 Indicação:  16 anos
Duração: 90 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5 - 4/11/2015 - 15:30 - Sessão: 1172 (Quarta)
 
 
10% minha filha
O filme israelense, de Uri Bar-On parece ter fundo autobiográfico, tal a sinceridade e o frescor que extrai de uma história simples, envolvendo o jovem estudante de cinema Nico, que ainda não conseguiu concluir seu filme de formatura, e Franny, a filha de sete anos de sua nova namorada divorciada.
Abordando um ritual de amadurecimento, tanto de Nico quanto da menina – que, a princípio, odeia o homem responsável pelo divórcio de seus pais –, a história flui entre muitas emoções, alternando momentos dramáticos e bem-humorados. É o tipo do filme para todos os públicos, que se segue com interesse pela honestidade e falta de pretensão. É também bastante contemporâneo e nada piegas ao tratar de um relacionamento afetivo de uma família não convencional. (Neusa Barbosa)
Duração: 83 min
Indicação: 10 anos
CCSP - SALA PAULO EMILIO - 4/11/2015 - 19:00 - Sessão: 1122 (Quarta)
 
Jonas
Filme de gênero e de forte apelo comercial – e, por isso mesmo, merecia melhores efeitos especiais em seu final –, a estreia de Lô Politi na direção traz Jesuíta Barbosa como um jovem que dá título ao longa, cuja paixão por Branca (Laura Neiva), filha da patroa de sua mãe, o coloca em situações inesperadas e que fogem de seu controle, como sequestrar a sua amada.
O submundo do crime e as tensões entre classes sociais não trazem nada de novo, mas Jonas faz uma mistura interessante disso, com toques de obsessão e síndrome de Estocolmo, e ambientando a trama ao mundo do carnaval paulistano, com um elenco repleto de grandes nomes do rap paulista, como Criolo e Karol Conká. No entanto, a melhor relação do filme é fraternal e a dinâmica entre Jonas – cujas metáforas bíblicas são desnecessariamente reforçadas no texto – e seu irmão Jamder (Luam Marques) garante frescor à obra. (Nayara Reynaud)
Indicação: 14 anos
Duração: 97 min
CINEARTE 2  - 4/11/2015 - 17:00 - Sessão: 1131 (Quarta)
 
Crônica da Demolição
Dialogando com o recente brasiliense Plano B (2013) e, consequentemente, com o clássico censurado e escondido de Joaquim Pedro de Andrade, Contradições de Uma Cidade Nova (1967), que o documentário de Getsemane Silva retomava para traçar um panorama do espaço urbano atual de Brasília, Eduardo Ades faz de seu primeiro filme uma crônica, como afirma o próprio título, de um processo praticamente antropofágico de destruição em favor do novo, ocorrido na urbe carioca. Assim, o documentário acompanha os vários processos de revitalização promovidos durante o século XX no Rio de Janeiro, especialmente no centro da cidade, tomando a demolição do Palácio Monroe, hoje um estacionamento subterrâneo com um chafariz em cima, como ponto de partida.
O início é pungente, remetendo aos filmes citados anteriormente, até nos travellings, mas com a diferenciação da música sinfônica acentuando o processo autodestrutivo de uma sociedade que relega seu passado e sua cultura – algo ressaltado ao final, com o choro profético do início do século passado na última sequência e o som da cidade nos créditos. No decorrer, o longa cai em certo formalismo na abordagem dos depoimentos, mas o extensa pesquisa em arquivos, fotos e filmes sustenta-se e Ades novamente encontra bons momentos na segunda parte, quando explora criticamente a decadência urbana em imagem e som. (Nayara Reynaud)
Indicação: Livre
Duração: 89 min
CINESALA  - 4/11/2015 - 16:00 - Sessão: 1141 (Quarta)
 
Boi Neon
Aquela velha máxima de que os sonhos movem o mundo pode ser discutível na vida real, mas é certo que eles movem as tramas ficcionais, fazendo os personagens moverem rios e montanhas para alcançar seus objetivos, com sucesso ou não. Em Boi Neon, no entanto, eles se aproximam da realidade de muitas pessoas, onde esse desejo continua como algo presente em seu imaginário, mas nunca muito palpável numa possível tentativa de realização. O vaqueiro Iremar (Juliano Cazarré) sonha abrir sua própria confecção de roupas e a pequena Cacá (Alyne Santana), filha da motorista Galega (Maeve Jenkins), venera os cavalos que deseja ter.
Assim, Gabriel Mascaro sustenta seu filme no retrato de um extrato do povo brasileiro, através do ambiente da vaquejada, que representa as tradições culturais, o bom humor e os sonhos perdidos, mas nunca esquecidos de cada cidadão. O diretor de Doméstica (2012) e Ventos de Agosto (2014) ressalta ainda a correlação humana e animal no vigor físico e no sexo, além de subverter estereótipos de gênero, sem cair nas armadilhas de um clichê óbvio: o de que, por se interessar por moda, o vaqueiro deveria ser necessariamente homossexual.
A despeito da duração prolongada de muitas cenas, destacam-se o trabalho de Diego Garcia na direção de fotografia e, especialmente, os diálogos, rápidos e certeiros em seu humor, dando margem ao ótimo trabalho do elenco. Não por menos, a produção levou os troféus Redentor de melhor longa de ficção, melhor roteiro, melhor direção de fotografia e melhor atriz coadjuvante para a pequena Alyne, no Festival do Rio, além do prêmio especial do júri na mostra Horizontes da última edição de Veneza. (Nayara Reynaud)
Indicação: 16 anos
Duração: 101 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 - 4/11/2015 - 13:30 - Sessão: 1161 (Quarta)
 
Memórias Secretas
O novo filme de Atom Egoyan tem uma virada final que se enquadra entre as mais surpreendentes dos últimos anos. Este desfecho, ainda que não perfeito – a cena final é uma redundância para aquele espectador que não entendeu qual era realmente o plano –, talvez seja capaz de fazer o público relevar tudo que veio antes.
A premissa da trama é uma vingança pessoal, tendo o Holocausto – genocídios são um tema caro ao cineasta canadense descendente de armênios – de fundo: após a morte de sua esposa, Zev (Christopher Plummer), cuja demência, provavelmente causada por Alzheimer, já não lhe permite lembrar de detalhes de seu passado, conta com a ajuda do seu colega de asilo, o também judeu Max (Martin Landau), para caçar o algoz que matou a família deles em Auschwitz.
Apesar da grande virada, o roteiro de Benjamin August recai no melodrama e em situações forçadas, que não são bem conduzidas pela direção a fim de resolverem um certo caráter inverossímil. Vide a atuação caricata de Dean Norris, que enfraquece um momento que destacaria como a ideologia nazista ainda vive no coração de alguns homens. A trilha sonora, entre arranjos de cordas e clássicos de Mendelssohn e Wagner, é claro, expõe essa fragilidade ao conferir a tensão certa a algumas cenas e degringolar para o sentimentalismo em outras. Mas a performance de Plummer consegue manter o equilíbrio que falta a estas outras partes da produção germano-canadense. (Nayara Reynaud)
Indicação: 18 anos
Duração: 97 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – AUGUSTA- 4/11/2015 - 22:00 - Sessão: 1150 (Quarta)
 
 
 
 
 
 

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