39ª Mostra de São Paulo

Mostra exibe mais de 300 produções e o filme-testamento de Manoel de Oliveira

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
 Ao preparar sua 39ª edição, a última palavra que se ouve na Mostra Internacional de São Paulo é “crise”. Já na coletiva de lançamento de 2015, a diretora Renata de Almeida fez questão de reafirmar: “Não é uma Mostra de crise, é uma Mostra forte, muito forte este ano. A Mostra não está em crise”.
Assim, não deve ser visto como sinal de encolhimento ou desânimo a redução das atrações a 312 filmes, ligeiramente menor do que anos anteriores. A ideia é ter maior controle, oferecer mais sessões, mais chances ao público de conhecer algumas obras. E todo mundo vai concordar que mais de 300 não é um cardápio nada modesto. Serão produções de 63 países, em 22 espaços, alguns deles ao ar livre, com sessões gratuitas. Itinerâncias, como em unidades do SESC do interior paulista, também cresceram este ano, além do acréscimo do circuito da CPFL.
 
Premiados de festivais
Sem dúvida, os grandes destaques da programação são, de um lado, os filmes premiados nos principais festivais internacionais, de outro, os clássicos restaurados de várias épocas, que fazem parte da homenagem à The Film Foundation, entidade criada pelo diretor Martin Scorsese, que assina o pôster da Mostra, ilustrado com um trecho do storyboard de seu próximo longa, Silence. Dheepan (foto ao lado), de Jacques Audiard, e Son of Saul, de Lászlo Nemes, premiados em Cannes, com Palma de Ouro e Grande Prêmio do Júri, respectivamente, além de Desde Allá, de Lorenzo Vigas, que levou o Leão de Ouro, no Festival de Veneza, são alguns dos filmes mais badalados.
Do Festival de Berlim, a Mostra exibirá os dois longas que dividiram o prêmio de direção: o romeno Aferim!, de Radu Jude, e o polonês Body, de Malgorzata Szumowska, além do esplêndido documentário O Botão de Pérola, do chileno Patricio Guzman, vencedor do troféu de melhor roteiro no mesmo festival. Ainda da competição principal de Cannes, faz parte da programação do festival o mexicano Chronic, de Michel Franco, outro ganhador do prêmio de roteiro. De San Sebastian, vem o nórdico Pardais, de Rúnar Rúnarsson, que ganhou o prêmio principal; e de Sundance, A Bruxa, um terror cult que rendeu a Robert Eggers o prêmio de direção.
O Brasil está representado com 70 títulos distribuídos nas diversas seções. Alguns destaques são longas inéditos na cidade, mas já premiados em diversos festivais, como Boi Neon, de Gabriel Mascaro, Califórnia, de Marina Person, Garoto de Julio Bressane, e Mate-me Por Favor, de Anita Rocha da Silveira.
 
 Memória restaurada
Ao todo, serão exibidos 25 longas restaurados pela The Film Foundation. Os destaques nesta seleção são Aconteceu Naquela Noite (foto ao lado), de Frank Capra (primeira produção a acumular Oscar de melhor filme, diretor, ator, atriz e roteiro), Juventude Transviada, de Nicholas Ray, Sindicato de Ladrões, de Elia Kazan, e Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti, entre outros. Já Meu Único Amor (27), de Sam Taylor, também restaurado, será exibido ao ar livre, na área externa do Auditório Ibirapuera, com acompanhamento da Orquestra de Heliópolis, sob regência do maestro americano David Frank.
Neste ano, os homenageados são José Mojica Marins, que receberá o prêmio Leon Cakoff, e terá duas de suas obras exibidas gratuitamente no Vão Livre do MASP (À Meia-Noite Levarei Sua Alma e Encarnação do Demônio), além da estreia na Mostra dos dois primeiros capítulos de uma série, que será exibida na TV a cabo, na qual Matheus Nachtergaele interpreta o seu famoso personagem, Zé do Caixão. Os outros homenageados, com o Troféu Humanidade, são o chileno Patrício Guzmán e o italiano Ermanno Olmi, cujos trabalhos mais recentes, O Botão de Pérola e Os Campos Voltarão estão na programação. O diretor cômico italiano Mario Monicelli, morto em 2010, será relembrado com a exibição de cinco clássicos, entre elas, Os Eternos Desconhecidos e Ladrão Apaixonado.
Como é tradicional na Mostra, a cada ano, um país, cuja filmografia é pouco conhecida no Brasil, ganha relevo. Na 39a edição, o Foco Nórdico apresentará longas da Dinamarca, Suécia, Finlândia e Noruega. Serão exibidas mais de 60 produções, que representam diversos gêneros e tendências – destacando longas premiados em Cannes, A Ovelha Negra (ganhador do Caméra D’Or), e Virgin Mountain, vencedor dos troféus de melhor filme, ator e roteiro, no Festival de Tribeca.
Por fim, a Mostra trará a oportunidade rara de assistir a Visita ou Memórias e Confissões, o filme-testamento do cineasta português Manoel de Oliveira, morto em abril passado. Como disse Renata durante a apresentação do festival, esse filme era uma lenda. “Todo mundo ouvia dizer que ele fez um média que seria exibido só depois de sua morte. Isso, no começo dos anos de 1980. Mal sabia ele que iria viver por mais de 100 anos”. Ela também destaca que Visita ou Memórias e Confissões é um filme muito pessoal do diretor, que parte de suas reflexões sobre uma casa, onde ele viveu por décadas e que, naquele momento, teria que vender. Documentário e ficção mesclam-se neste extraordinário testamento do mestre luso. 
 
Confira a programação no site da Mostra

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