39ª Mostra de São Paulo

Entre temas sociais e experimentalismo

Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
Neste primeiro dia da programação da Mostra, sobressaem filmes premiados em festivais e/ou com temas fortes, como os conflitos da imigração na Europa (Dheepan e Lampedusa no Inverno), os sofrimentos num campo de concentração na II Guerra (Son of Saul), a opressão e escravidão dos ciganos na Romênia do século XIX (Aferim!), além da criatividade visual e temática do filme russo Sob Nuvens Elétricas.
 
Dheepan
Palma de Ouro em Cannes 2015, o drama Dheepan, do veterano diretor francês Jacques Audiard, debruça-se de maneira contundente sobre o tema da imigração e também da violência urbana que, neste momento, abala a Europa e também outros lugares do mundo.
Dheepan é o nome do protagonista, um imigrante do Sri-Lanka interpretado pelo escritor Anthonythasan Jesuthasan. Como seu personagem, o ator tem larga vivência anterior como ex-guerrilheiro da guerra civil que destroça seu país. No filme, ao fugir dessa situação, ele forma uma falsa família com a jovem Yalini (Kalieaswari Srinovasan) e uma menina órfã de 9 anos, Illayaal (Claudine Vinasithamby), condição que facilita seu acolhimento como refugiados na França.
Uma vez na Europa, Dheepan acha alojamento e emprego como porteiro de um conjunto habitacional de periferia, dominado pelos traficantes. Tudo o que ele e a família precisam fazer para ter paz é ignorar o que fazem os criminosos à luz do dia – sem que se veja intervenção alguma da polícia. Mas, finalmente, a espiral de violência não os poupa. Dheepan é um filme sobre engajamento, escolhas, autodefesa e busca de amor.
Nada ingênuo, nem melodramático, o filme de Audiard (diretor de Ferrugem e OssoO Profeta) é um instrumento de reflexão sobre o contemporâneo que não abre mão de sua natureza, ou seja, é cinema, não manual didático. O que só aumenta sua força. (Neusa Barbosa)
 
DHEEPAN - O REFÚGIO (DHEEPAN), de Jacques Audiard (115').
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1         22/10/2015 - 21:15 - Sessão: 46 (Quinta)
CINEARTE 1                                                                     24/10/2015 - 17:30 - Sessão: 181 (Sábado)
CINE CAIXA BELAS ARTES - SALA SPCINE            25/10/2015 - 18:00 - Sessão: 280 (Domingo)
SALA UMUARAMA - CPFL CULTURA                        27/10/2015 - 21:00 - Sessão: 457 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1                 28/10/2015 - 21:40 - Sessão: 552 (Quarta)
 
Son of Saul
Com impressionante segurança, o diretor estreante Lazlo Nemes (que foi assistente do veterano Bela Tárr), conduz os espectadores de Son of Saul ao centro do inominável horror dos campos de concentração, de uma forma nada convencional. Com uma câmera febrilmente colada ao corpo de seu protagonista, Saul (Reza Gohrig) e desfocando o seu entorno, Nemes coloca quem assiste na perspectiva deste homem subjugado, que é um “sonderkommando”, ou seja, um dos responsáveis pelo massacrante trabalho diário de remover as roupas e objetos pessoais das vítimas das câmaras de gás, e depois seus corpos. Também é um dos faxineiros dessas câmaras.
Embora o tema seja recorrente, Nemes consegue injetar frescor nesta abordagem, o que torna a jornada de Saul mais vital e próxima de quem a compartilha, até por levar em pensar em detalhes da vida num campo de concentração normalmente não muito enfatizados. Um único evento dramático, afinal, sacode a letargia de Saul – ele encontra, entre as vítimas de uma cremação, um menino, que acredita ser seu filho. A partir daí, sua única obsessão é encontrar um modo de sepultá-lo dignamente, seguindo os ritos religiosos judaicos.
Este único desejo, temerário, quase irracional num contexto em que a sobrevivência requer toda a energia, e os inimigos não são somente os nazistas – também os “kapi”, chefetes de setor, que são prisioneiros, exploram e submetem os demais -, é eloquente para tratar do verdadeiro tema do filme, que é o resgate da dignidade numa situação em que sua perda é o alvo maior dos opressores. O filme é forte, com um excelente trabalho de som – fundamental na trama. Vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes, e considerado aposta quase certa entre os indicados ao Oscar de filme estrangeiro do ano que vem, Nemes mostrou força e segurança na proposta estética, que está a serviço não de um formalismo de ocasião, mas de uma história duríssima. (Neusa Barbosa)
 
SON OF SAUL (SAUL FIA), de László Nemes (107').
CINEARTE 1                                                               22/10/2015 - 20:00 - Sessão: 10 (Quinta)
CINESALA                                                                   23/10/2015 - 18:00 - Sessão: 112 (Sexta)
RESERVA CULTURAL 2                                         24/10/2015 - 23:00 - Sessão: 249 (Sábado)
CINESESC                                                                  26/10/2015 - 21:30 - Sessão: 375 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   31/10/2015 - 19:50 - Sessão: 836 (Sábado)
 
Sob Nuvens Elétricas
Composto de sete segmentos interconectados, o russo Sob Nuvens Elétricas, de Alexey German Jr., faz um retrato melancólico da Rússia contemporânea sob uma chave que mergulha na fantasia e expõe feridas sócio-culturais de seu país. A narrativa, num tom impressionista, está situada em 2017, não por acaso o centenário da Revolução Russa, num país, como se diz na abertura do longa, “crucificado entre o passado e o presente”.
Essa encruzilhada se materializa na figura de um prédio inacabado que reaparece insistentemente ao longo do filme – às vezes, com certa importância, às vezes, como figurante. A construção faz lembrar a antiga União Soviética, em seu projeto grandioso e imponente, mas restando inacabado. Os personagens transitam em seu entorno, como um trabalhador imigrante que não fala uma palavra de russo, um casal de irmãos da elite agora herdeiros do prédio, um guia de museu que trabalha com interpretações de personagens históricos, entre outros. Todos compõem um painel da situação atual do país em diversas camadas sociais.
German Jr., no entanto, não está preocupado em fazer conexões entre as diversas tramas e personagens – como, digamos, acontece em Magnólia, de Paul Thomas Anderson. Aqui, a fragmentação é o resultado e o sintoma do isolamento de cada uma dessas pessoas, num país de futuro incerto, ainda sob o peso de um passado-recente tumultuado. Assim, o cinema do diretor parece estar próximo do de Andrei Tarkovsky, situando seu filme numa zona de fantasia que transita entre o sonho e o pesadelo.
As belas imagens – com a fotografia assinada por Evgeniy Privin e Sergey Mikhalchuk – reforçam essa ideia. E renderam ao filme o Prêmio de Contribuição Artística, no Festival de Berlim, em fevereiro passado. (Alysson Oliveira)
 
SOB NUVENS ELÉTRICAS (POD ELEKTRICHESKIMI OBLAKAMI), de Aleksey German (137').
CINEARTE 2 -                                                              22/10/2015 - 18:45 - Sessão: 13 (Quinta)
CINE CAIXA BELAS ARTES - SALA SPCINE -     23/10/2015 - 14:00 - Sessão: 103 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1 -          26/10/2015 - 21:30 - Sessão: 382 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 -  29/10/2015 - 19:30 - Sessão: 648 (Quinta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 -  01/11/2015 - 17:00 - Sessão: 927 (Domingo)
 
Aferim!
Ganhador do prêmio de direção no Festival de Berlim – dividido com o polonês Body, de Malgorzata Szumowska, também na seleção da Mostra – Aferim! é algo diferente daquilo a que estamos acostumados no cinema romeno. Não existe a estética do minimalismo nesse longa em preto-e-branco, com uma narrativa inspirada por documentos históricos. O título, que pode ser traduzido como “Bravo!”, é uma referência irônica aos feitos do par de protagonista, um pai e um filho, que trabalham como comissários de polícia e  devem recuperar um escravo cigano fugido, no ano de 1835.
A dupla – tal qual D. Quixote e Sancho Panza – está na estrada. E cada episódio de suas (des)venturas cria novas camadas na investigação do tratamento da Romênia do passado em relação às minorias, o que deve ecoar em toda a Europa do presente. Constantin (Teodor Corban) e seu filho Ionita (Mihai Comanoiu) atravessam uma paisagem árida, pagos por um senhor feudal em busca do fugitivo.
Imbuído de uma mentalidade, comum na época, que duvidava mesmo da natureza humana dos ciganos – chamados por ele de “peões do diabo” – Constantin, a partir da captura do escravo, acaba sendo colocado em outra perspectiva, levando o captor a se perguntar sobre seu papel no processo de dominação que existe em seu mundo. Há um quê de humor negro em Aferim!, nas incertezas e erros dos personagens, que acham estar fazendo algo nobre, que lhes trará fama com o passar dos anos. Mas também há os horrores da exploração e dizimação de um povo diante da ausência de solidariedade – nada muito diferente da Europa contemporânea. (Alysson Oliveira)
 
AFERIM! (AFERIM!), de Radu Jude (108').
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2-                 22/10/2015 - 17:45 - Sessão: 49 (Quinta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1-                 24/10/2015 - 13:30 - Sessão: 216 (Sábado)
CINESALA -                                                                                27/10/2015 - 21:20 - Sessão: 451 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1 -                        2/11/2015 - 20:00 - Sessão: 990 (Segunda)
CINEARTE 1 -                                                                            4/11/2015 - 21:45 - Sessão: 1130 (Quarta)
 
 
Lampedusa no Inverno
O documentário Lampedusa no Inverno é urgente em seu tema, ao tratar da questão da imigração na pequena ilha italiana no Mediterrâneo, que fica entre a Europa e a África. Dirigido pelo austríaco Jakob Brossmann, o longa acompanha um momento de crise e tensão com a chegada de imigrantes.
O cineasta cria um contraponto entre o ritmo cotidiano do local – que tem cerca de 6 mil habitantes, que vivem do turismo e pesca – e a chegada inesperada de refugiados. O dia-a-dia é mostrado nos barcos de pesca, na rádio local, ou no treino de futebol num campinho. O contraste está na necessidade de abrir locais para abrigar as levas de recém-chegados e a tensão que surge quando os moradores locais não parecem abertos a isso.
Imigrantes estavam sendo levados para a Europa quando a embarcação onde estavam pega fogo, assim precisam ficar esperando na ilha a resolução da questão. Ao mesmo tempo, a temporada de turismo acaba, os turistas se vão, e os pescadores locais ocupam o porto e protestam por melhores condições de trabalho, isolando a ilha.
Brossmann está distante do glamour do turismo. A ele, interessam os pequenos dramas pessoais e a ressonância política e social – e é isso que o filme traz de interessante. Num tempo em que a imigração é um tema espinhoso na Europa, o filme ao menos tenta iluminá-lo, destacando o seu retrato humanista dos envolvidos. (Alysson Oliveira)
 
LAMPEDUSA NO INVERNO (LAMPEDUSA IM WINTER), de Jakob Brossmann (93').
MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM -                   22/10/2015 - 19:00 – Sessão: 69 (Quinta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5 -    23/10/2015 - 17:30 - Sessão: 147 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 -    4/11/2015 - 18:15 - Sessão: 1168 (Quarta)

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