39ª Mostra de São Paulo

Segunda-feira em ritmo de leveza e várias faces da espiritualidade

Equipe Cineweb

O apóstata
 
Gonzalo Tamayo (Álvaro Ogalla) não quer mais saber da Igreja Católica. Mas ele não pretende apenas parar de ir à missa, comungar e confessar, ele quer romper os laços formalmente, eliminar todos os registros que o envolvam, como o certificado de batismo. Enfim, ser um apóstata. Mas para isso, o caminho não é fácil. Exige-se que ele cumpra diversas etapas, passando por uma espécie de tribunal e realizar um rito final, no qual ele sai de uma igreja de costas, encarando o altar.
O cineasta uruguaio Federico Veiroj (A Vida Útil) trata, em O Apóstata, do tema com humor e leveza, mas, ao fundo, discute uma questão séria e pertinente: o direito da escolha. Gonzalo, um sujeito perdido na vida, não escolheu ser católico, e, quando, finalmente, resolve que não o quer ser, esse direito lhe é negado. Ele lida com todo o processo propositadamente difícil e burocrático, em que autoridades eclesiásticas colocam todo tipo de barreira para o seu objetivo.
Dividido entre as aulas de filosofia na universidade – às quais nunca comparece – e ajudar um garotinho do andar de baixo com a lição de casa, Gozalo também tem idas e vindas amorosas com sua prima, Pilar (Marta Larralde), que acaba de se separar e vai procurar refúgio no apartamento dele.
Ogalla – que também assina o roteiro – tem uma presença marcante com seu tipo caladão, cheio de incertezas, acumulando uma surpreendente energia na decisão de renunciar a uma fé que nunca teve. Inseguro e dependente da mãe (Vicky Pena), livrar-se da religião, mais do que uma afronta a ela, significa, entre outras coisas, livrar-se dos anos de opressão passivo-agressiva pendente dessa relação com ela. A resolução cômica dos conflitos, no entanto, não diminui a complexidade com que aborda o tema. (Alysson Oliveira)
 
Indicação: 18 anos
Duração: 80 min
CINE CAIXA BELAS ARTES - SALA SPCINE - 26/10/2015 - 15:50 - Sessão: 363 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2-30/10/2015 - 17:50 - Sessão: 750 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 -31/10/2015 - 17:10 - Sessão: 845 (Sábado)
CINEMATECA - SALA BNDES - 01/11/2015 - 21:00 - Sessão: 901 (Domingo)
 
Para o outro lado
Vencedor do Prêmio de direção na mostra Um Certo Olhar, do Festival de Cannes, o drama japonês, do veterano Kyoshi Kurosawa (Sonata de Tóquio) extrai sua originalidade de um toque surreal. A história decola com a volta para casa de Yusuke (Tadanobu Asano), o marido de Mizuki (Eri Fukatsu) que havia morrido há três anos. O choque da volta do marido é rapidamente superado. Mizuki aceita e até deseja este retorno de Yusuke, cujo desaparecimento deixara várias brechas abertas.
A delicadeza com que estas perguntas irrespondidas é inserida no contexto da jornada de Yusuke e Mizuki é o grande trunfo para que o diretor leve seus mais céticos espectadores a suspenderem suas desconfianças, acompanhando o casal numa viagem a alguns lugares do país. Yusuke conduz a mulher a alguns locais onde estivera durante sua ausência, revisitando pessoas por quem fora ajudado, como um velho distribuidor de jornais, que sofre pela perda da esposa; um casal dono de um pequeno restaurante; e uma pequena comunidade rural. Nos três locais, há questões pendentes que se relacionam com a jornada de Yusuke e Mizuki. O melhor é que a leitura mística de certas passagens não sufoca a vivência humana das situações, enriquecendo o percurso do filme. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 18 anos
Duração: 128 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4   26/10/2015 - 15:20 - Sessão: 419 (Segunda)
CINESESC                                27/10/2015 - 16:45 - Sessão: 453 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 30/10/2015 - 15:30 - Sessão: 739 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1       31/10/2015 - 20:00 - Sessão: 826 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   02/11/2015 - 13:30 - Sessão: 997 (Segunda)
 
Umrika
 
O estranhamento inicial do nome do longa de Prashant Nair, vencedor do prêmio do público na última edição do Festival de Sundance, dissipa-se logo no começo da exibição de Umraki (2015), quando se compreende de que se trata da maneira como os habitantes de uma pequena aldeia na Índia, dentro de seu dialeto local, chamam a “América”; no caso, os Estados Unidos. Repetida incessantemente, a palavra torna-se um objeto e os EUA, um personagem, ainda que o espectador só ouça sobre o país, em uma clara mostra da influência da cultura norte-americana nos rincões do mundo. Um aspecto sensível na trilha sonora, com músicas pop indianas do período, com uma clara influência do som ocidental.
O indiano Nair, que passou a infância em vários países da Europa, África e Ásia e trabalhou durante 12 anos em Nova York, carrega essas experiências em seu segundo trabalho – sua estreia foi em Delhi in a Day (2011) –, realizando um filme mais ocidental, ainda que não totalmente hollywoodiano, do que bollywwodiano em sua estrutura. Além disso, põe no elenco dois atores cujos rostos são familiares para o público ocidental: Suraj Sharma, que apareceu em As Aventuras de Pi (2012), vive o protagonista Ramakant, enquanto Tony Revolori, conhecido como o mensageiro de O Grande Hotel Budapeste (2014), interpreta seu melhor amigo, Lalu.
A história acompanha Rama desde os anos 70, quando seu irmão Udai (Prateik Babbar) sai de sua humilde vila para tentar o “sonho americano”, até os anos 80, quando o país tão distante, em plena era Reagan, se torna o objetivo de vida do próprio garoto quando jovem, em um retrato de época traduzido até nos grãos da fotografia de Petra Korner, que filma em Super 16mm. A primeira parte mostra uma vibração familiar contagiante de uma aldeia em efusiva alegria e esperança a cada nova carta que chegava do filho da terra que estava em “Umrika”. Quando Rama descobre a origem das correspondências que davam novo sentido à comunidade, ele parte para a cidade grande em busca de respostas sobre o destino do seu irmão, um personagem que, apesar da virada do terceiro ato, poderia ser mais desenvolvido no roteiro.
Além de se se mostrar atual, dada a crise de imigração que ocorre na Europa hoje, a obra possui uma universalidade quanto a sua ênfase de que todos criam versões de sua própria vida, desde o olhar microscópico sobre a vida dos irmãos Rama e Udai, até sua crítica macro, em relação à imagem que um país impõe de si mesmo aos outros. (Nayara Reynaud)
 
Indicação: 16 anos
Duração: 104 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4    02/11/2015 - 14:00 - Sessão: 992 (Segunda)
RESERVA CULTURAL 2 03/11/2015 - 16:15 - Sessão: 1106 (Terça)
 
Monstros do ringue
O documentário de Marc Dourdin focaliza a história da luta livre no Brasil, que desfrutou de uma incrível popularidade na TV nos anos 1960, com ídolos como o lutador louro argentino Ted Boy Marino, uma espécie de galã das lutas nos tempos da Jovem Guarda. Com diversas entrevistas de lutadores e empresários, desvenda-se o mecanismo dessas lutas, a paixão que desperta tanto em seus praticantes como no público e sua admirável sobrevivência, entre altos e baixos, concorrendo com diversas outras formas de entretenimento e esporte, até os dias de hoje.
Farto material de arquivo permite recuperar a memórias das várias fases do “telecatch” e também sua modernização – hoje há inclusive lutadoras em ação, coisa inimaginável décadas atrás. O saboroso filme também permite comparar a evolução desta prática com o atual e muitíssimo mais violento MMC. Instrutivo e divertido, o filme também oferece larga matéria para uma reflexão inclusive científica sobre o interesse da humanidade em lutas, desde os gladiadores romanos. Os perigos da atividade estão evidentes também – mesmo ensaiadas (ou com golpes combinados), com muita frequência, arruinaram a saúde de seus lutadores, oscilando em momentos de decadência e glória. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 12 anos
Duração: 87 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6   26/10/2015 - 17:45 - Sessão: 409 (Segunda)
CCSP - SALA PAULO EMILIO                29/10/2015 - 19:00 - Sessão: 606 (Quinta)
 
Son of Saul
Com impressionante segurança, o diretor estreante Lazlo Nemes (que foi assistente do veterano Bela Tárr), conduz os espectadores de Son of Saul ao centro do inominável horror dos campos de concentração, de uma forma nada convencional. Com uma câmera febrilmente colada ao corpo de seu protagonista, Saul (Reza Gohrig) e desfocando o seu entorno, Nemes coloca quem assiste na perspectiva deste homem subjugado, que é um “sonderkommando”, ou seja, um dos responsáveis pelo massacrante trabalho diário de remover as roupas e objetos pessoais das vítimas das câmaras de gás, e depois seus corpos. Também é um dos faxineiros dessas câmaras.
Embora o tema seja recorrente, Nemes consegue injetar frescor nesta abordagem, o que torna a jornada de Saul mais vital e próxima de quem a compartilha, até por levar em pensar em detalhes da vida num campo de concentração normalmente não muito enfatizados. Um único evento dramático, afinal, sacode a letargia de Saul – ele encontra, entre as vítimas de uma cremação, um menino, que acredita ser seu filho. A partir daí, sua única obsessão é encontrar um modo de sepultá-lo dignamente, seguindo os ritos religiosos judaicos.
Este único desejo, temerário, quase irracional num contexto em que a sobrevivência requer toda a energia, e os inimigos não são somente os nazistas – também os “kapi”, chefetes de setor, que são prisioneiros, exploram e submetem os demais -, é eloquente para tratar do verdadeiro tema do filme, que é o resgate da dignidade numa situação em que sua perda é o alvo maior dos opressores. O filme é forte, com um excelente trabalho de som – fundamental na trama. Vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes, e considerado aposta quase certa entre os indicados ao Oscar de filme estrangeiro do ano que vem, Nemes mostrou força e segurança na proposta estética, que está a serviço não de um formalismo de ocasião, mas de uma história duríssima. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 16 anos
Duração: 107 min
 
CINESESC                                                                  26/10/2015 - 21:30 - Sessão: 375 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   31/10/2015 - 19:50 - Sessão: 836 (Sábado)
 
Sob Nuvens Elétricas
Composto de sete segmentos interconectados, o russo Sob Nuvens Elétricas, de Alexey German Jr., faz um retrato melancólico da Rússia contemporânea sob uma chave que mergulha na fantasia e expõe feridas sócio-culturais de seu país. A narrativa, num tom impressionista, está situada em 2017, não por acaso o centenário da Revolução Russa, num país, como se diz na abertura do longa, “crucificado entre o passado e o presente”.
Essa encruzilhada se materializa na figura de um prédio inacabado que reaparece insistentemente ao longo do filme – às vezes, com certa importância, às vezes, como figurante. A construção faz lembrar a antiga União Soviética, em seu projeto grandioso e imponente, mas restando inacabado. Os personagens transitam em seu entorno, como um trabalhador imigrante que não fala uma palavra de russo, um casal de irmãos da elite agora herdeiros do prédio, um guia de museu que trabalha com interpretações de personagens históricos, entre outros. Todos compõem um painel da situação atual do país em diversas camadas sociais.
German Jr., no entanto, não está preocupado em fazer conexões entre as diversas tramas e personagens – como, digamos, acontece em Magnólia, de Paul Thomas Anderson. Aqui, a fragmentação é o resultado e o sintoma do isolamento de cada uma dessas pessoas, num país de futuro incerto, ainda sob o peso de um passado-recente tumultuado. Assim, o cinema do diretor parece estar próximo do de Andrei Tarkovsky, situando seu filme numa zona de fantasia que transita entre o sonho e o pesadelo.
As belas imagens – com a fotografia assinada por Evgeniy Privin e Sergey Mikhalchuk – reforçam essa ideia. E renderam ao filme o Prêmio de Contribuição Artística, no Festival de Berlim, em fevereiro passado. (Alysson Oliveira)
 
Indicação: 14 anos
Duração: 137 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1 -          26/10/2015 - 21:30 - Sessão: 382 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 -  29/10/2015 - 19:30 - Sessão: 648 (Quinta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 -  01/11/2015 - 17:00 - Sessão: 927 (Domingo)
 
 
Yorgos
 
O registro dos chilenos Paco Toledo, diretor de fotografia, e José Domingo Rivera, com mais experiência à frente de documentários, dedica-se aos relatos de moradores da Ilha de Páscoa, pertencente ao Chile, sobre as mudanças ocorridos durante e depois das filmagens do épico hollywoodiano Rapa Nui – Uma Aventura no Paraíso (1994), filme de Kevin Reynolds produzido por Kevin Costner, naquele histórico e exótico pedaço de terra. Muitos deles foram figurantes ou ajudaram nas gravações e apontam desde o errôneo retrato de seus antepassados – maneira de se vestir, ou não se vestir, e beijar – no longa norte-americano, quanto o aumento das drogas, comuns nos sets da produção, e do turismo no local.
Os documentaristas intercalam esses depoimentos com o retrato do cotidiano desses habitantes da ilha, cuja relação com os cavalos é muito forte na comunidade. No entanto, Yorgos (2014) desperdiça o bom uso das paisagens de que dispõe nas escolhas da fotografia e a potência das críticas dos ilhéus de Páscoa. (Nayara Reynaud)
 
Indicação: 12 anos
Duração: 72 min
 
CINEARTE 1      26/10/2015 - 14:00 - Sessão: 354 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 6       02/11/2015 - 22:15 - Sessão: 1022 (Segunda)

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