39ª Mostra de São Paulo

Repescagem da Mostra exibe 27 títulos até dia 11 no Cinesesc

Equipe Cineweb
Começa nesta quinta (5) e prossegue até dia 11 a repescagem da Mostra, exibindo 27 títulos, exclusivamente no CineSesc. Abaixo, algumas das melhores pedidas:
                                                                     
A Terra e a Sombra
Vencedor  do prêmio Caméra D’Or (ao qual concorrem todos os filmes de diretores estreantes exibidos no Festival de Cannes), o colombiano (coprodução com Brasil, Chile e Holanda) A Terra e a Sombra, de César Augusto Acevedo, é um filme que tem o tempo da narrativa bastante peculiar.
Algumas pessoas poderiam usar o termo reducionista “lento”, mas o longa é bem mais do que isso. O diretor, que também assina o roteiro, tenta capturar em imagens e narrativa a vida de personagens que se movem lentamente para o fim – assim como o mundo onde vivem.
Nesse sentido, não é de se espantar que o entorno de sua casa, numa região rural da Colômbia, seja consumido por fogo, e que a fumaça não apenas cegue os moradores como tenta asfixiá-los. A chegada de Alfonso (Haimer Leal) é apenas o ponto de partida. Idoso e distante da família há anos, ele volta para reencontrar o filho, Gerardo (Edison Raigosa), ex-cortador de cana-de-açúcar que tem uma doença pulmonar e pouco tempo de vida. Sua mulher (Marleyda Soto) trabalha nos campos de cana, assim como sua mãe (Hilda Ruizcuida), para sustentar a casa.
O que dita o tempo aqui, então, é a espera da inevitável morte de Gerardo, que parece, às vezes, adiada, mas da qual não se há como fugir. Uma agonia tal qual a do mundo onde vivem – que também parece com os dias contados. Trabalhando com o diretor de fotografia Mateo Guzman, Acevedo cria imagens que transitam entre o onírico e o realista, entre a esperança e o inevitável. Seus quadros são composições meditadas, das quais os personagens são, às vezes, acessórios – o que não deixa de refletir a existência melancólica deles. (Alysson Oliveira)
Indicação:  10 anos
Duração: 94 min
Quinta (5), 19h10
 
Os campos voltarão
Partindo das memórias de seu próprio pai e de livre referência a um conto (La Paura), o veterano diretor italiano Ermanno Olmi (A Árvore dos Tamancos) cria um curto mas intenso e sublime relato sobre as iniquidades da guerra. De todas as guerras, embora o cenário desta história seja a Primeira Guerra Mundial, em 1917.
Com uma contenção que evoca expectativa, medo e uma cada vez mais combalida esperança, ele retrata um grupo de soldados confinados a uma trincheira no inverno. Cercados de neve, com frio e fome e aproveitando uma relativa trégua nas batalhas, eles tentam manter o espírito firme. Mas isso é cada vez mais difícil, pela espera, a inatividade e, finalmente, pelos sons distintos ao longe, que anunciam a próxima retomada do confronto. Nesse clima, o filme evoca um outro italiano, Valerio Zurlini, e seu fundamental O Deserto dos Tártaros, numa outra chave.
A chegada de oficiais com ordens impossíveis de cumprir é o detalhe que faltava para angustiar a tropa. Seu capitão, aliás, está com febre – é a gripe espanhola, que está dizimando também fora dali.
O melhor atrativo do filme é como encena este desespero surdo, que não domina completamente, mas expõe os soldados a uma situação-limite, que extrai de cada um reações distintas. Salta uma visão nada heroica, nem idealizada do que acontece numa guerra, não só esta, ainda que cada soldado se mostre capaz de um discurso quase poético diante da câmera, como se estivesse num teatro, sem que isso acarreta nenhuma rigidez. Ao contrário, quando cada soldado nos fita, é como se nos falasse diretamente, numa confissão pungente. Poucas definições serão melhores do que a que aparece nos letreiros finais: “A guerra é um animal feio que nunca pára”. Frase de um pastor, não de um filósofo, mas totalmente sábia. (Neusa Barbosa)
Indicação: 14 anos
Duração: 80 min
Quinta (5), 21h
 
Um Dia Perfeito
Conhecido por seus longas de temática social, como Segundas-Feiras ao Sol, o espanhol Fernando Leon de Aranoa faz seu primeiro longa em inglês, um filme sobre a globalização e a inércia do pós-guerra em algum lugar das Bálcãs, em meados dos anos de 1990.
Benicio del Toro, Tim Robbins e Mélanie Thierry são um porto-riquenho, um americano e uma francesa de um grupo de ajuda humanitária que tenta retirar um cadáver de um obeso de um poço numa aldeia para descontaminar a água. A burocracia, no entanto, além da falta de uma corda impedem-nos de fazer o trabalho. A situação, a principio facilmente resolvível, toma ares surreais a cada novo passo da equipe.
O tom alucinado que Aranoa imprime ao filme vai ao encontro da insanidade da situação e do cenário desolado, combinando com isso o humor do absurdo – o que faz lembrar filmes de guerra como M*A*S*H* e Ardil-22. O filme é um tributo a homens e mulheres de diversos lugares do mundo que se arriscam pela paz, mas também uma figuração da guerra em tempos de globalização.
Numa das cenas, Sophie (Mélanie Thierry) é informada por um militar também estrangeiro de que ela não pode se envolver porque aquele não é um conflito internacional, apesar de todos eles terem passaportes internacionais. Eles precisam esperar que a lei local aja. É em absurdos como esse – alguns exagerados para efeito dramático, mas ainda assim possíveis – que o diretor se apoia, trabalhando a partir do romance da escritora espanhola Paula Farias. Enfim, a mesma globalização que permite que essas pessoas estejam nesse lugar para ajudar os moradores é o entrave ao seu trabalho, além de um dos paradoxos do mundo contemporâneo. (Alysson Oliveira)
Indicação: 12 anos
Duração: 106 minutos
Sábado (7), 21h15 e terça (10), 18h50
 
Sabor da vida
Filme da diretora japonesa Naomi Kawase, que abriu a seção Un Certain Regard, do Festival de Cannes de 2015, remete ao estilo de Akira Kurosawa, num esmiuçamento de relações humanas entre gerações.
Na meia-idade, Sentaro (Masatoshi Nagase), gerencia, sem grande entusiasmo, um pequeno negócio de “dorayakis” (espécie de mini-panquecas recheadas com massa doce de feijão). Ele está ali contra a vontade, devedor de enormes favores à família que é dona do lugar.
Sentaro coloca um anúncio para contratar um auxiliar e aparece-lhe como entusiasmada candidata uma velha senhora de 76 anos, Tokue (Kiki Kirin), com visíveis deformações nos dedos das mãos. Ele a recusa inicialmente, mas Tokue não é dessas pessoas que aceita um não como resposta. O resultado é uma inusitada parceria que muda o recheio das panquecas e sacode a vida do solitário Sentaro.
Com problemas com a família, uma das frequentadoras da lojinha de Sentaro, a adolescente Wakana (Kyara Uchida), torna-se o terceiro vértice deste triângulo, em que dialogam as necessidades humanas de todas as idades. Nesse diálogo, Kawase concretiza cenas de grande beleza plástica, envolvendo as cerejeiras em flor que Tokue admira tanto, num filme que discute a discriminação e o preconceito contra os doentes de hanseníase, antes isolados em sanatórios. (Neusa Barbosa)
 Indicação: 12 anos
Duração: 113 min
Sábado (7), 19h
 
Pardais
O segundo longa do islandês Runar Runarsson (que estreou com Vulcão, de 2011, também em exibição na Mostra), parte de um assunto já bastante abordado no cinema, o amadurecimento de um jovem, mas é capaz de dizer algo novo sobre o assunto. Muito se deve ao talento do diretor, do protagonista (Atli Oskar Fjalarsson), e de paisagens arrebatadoras da Islândia.
Ari (Fjalarsson) é um adolescente dono de uma bela voz – tanto que faz parte de um coral – que é obrigado a mudar-se da capital, Reykjavic, para a casa do pai (Ingvar E. Sigurosoon), numa região isolada e cercada de montanhas. Foi lá que passou sua infância, então seu retorno é uma volta ao seu passado, e também o reencontro com amigos e uma paixão juvenil, Lara (Rakel Bjork Bjornsdottir).
A mãe, com quem Ari morava antes, partiu com o novo marido para a África, onde ela julga não haver boas condições para acolher o filho. Entretanto, a relação entre Ari e o pai não é boa. Nunca tiveram muito contato, são distantes, e, para piorar, o sujeito é alcoólatra, ignorante e um tanto rude. Além disso, a atmosfera opressora do local – sempre claro e gélido, mesmo no verão – contribui para a sensação de isolamento do rapaz. Com os jovens de sua idade, ele também tem pouco a compartilhar, porque estão já contaminados por uma atmosfera um tanto primitiva e bruta.
O cenário grandioso e imponente introduz um certo estranhamento ao filme, contribuindo com texturas no retrato da dura jornada de amadurecimento do protagonista. Seu trajeto da inocência à maturidade é narrado com precisão e poucas palavras. (Alysson Oliveira)
Indicação: 18 anos
Duração: 99 minutos
Domingo (8), 21h45
 
O botão de pérola
O cineasta chileno Patricio Guzmán já tem status de mestre. Seus documentários cada vez mais são capazes de interações multidisciplinares, de raciocínios plurais, unindo enfoques em várias direções, dramáticos, complexos e emocionantes como a vida. Mais uma vez, como acontecia em Nostalgia da Luz (2010), ele atinge o sublime neste filme que teve como ponto de partida a trajetória de dois – aparentemente – simples botões. Um deles, dado a um índio no século XIX, que por conta da modestíssima prenda, acabou indo à Europa. Outro foi encontrado junto aos despojos de desaparecidos políticos da ditadura Pinochet.
Com este ponto de partida, Guzman foi capaz de traçar uma narrativa que percorre a história chilena e divaga também em torno de um tema muito contemporâneo, a água. A mesma água de onde veio a origem da vida sobre a Terra e que constitui a maior fronteira do Chile, no caso, o Oceano Pacífico, que era o meio preferencial de indígenas nômades que ocuparam o por muito tempo ignorado, no período colonial, das terras ao sul. Ali na Patagônia, índios viviam num habitat frio e aquoso, sem constituir moradia fixa, morando em barcos habilmente construídos a partir de troncos, com fogueiras ao centro, para espantar o frio. Mas a água também terminou trazendo conquistadores assassinos, que promoveram o genocídio indígena. Poucos restaram desse massacre, cujos descendentes tiveram uma oportunidade de compensação no governo Salvador Allende, justamente derrubado pelo general Pinochet, que usou esse mesmo oceano como cemitério para presos políticos jogados de aviões, numa das guerras sujas mais sangrentas do continente sul-americano.
Guzman, que vive na França, não é revanchista, é um cultivador da memória. Sabe e reafirma a cada um de seus filmes, cada vez mais matizados, que o esquecimento dos crimes do passado, sejam as mortes dos índios, seja a eliminação opositores do regime Pinochet, nada pode trazer de bom ao aprimoramento da humanidade. Além do mais, ao retratar uma situação chilena, fala ao mundo, já que cada rincão deste planeta tem seus próprios crimes para exorcizar. (Neusa Barbosa)
Indicação: 14 anos
Duração: 82 min
Terça (10), 15h
 
Kaminski e eu
O diretor alemão Wolfgang Becker (Adeus Lênin) adapta livro homônimo de Daniel Kehlmann para compor esta história irônica, sobre um jornalista, Sebastian Zöllner (Daniel Brühl), candidato a biógrafo do velho e consagrado pintor Manuel Kaminski (Jesper Christensen).
Na sua juventude, Kaminski foi para a França e, apadrinhado por Matisse e Picasso, elevou-se à fama no início do século XX. Além de sua obra, um detalhe de sua biografia tornou-o ainda mais célebre: ele estaria ficando cego e totalmente cego ficaria, o que por muito tempo não o impediu de pintar e frequentar ambientes de celebridades, como Andy Warhol.
A investigação cínica de como se monta um mito em torno de lendas ou fatos – imprima-se a lenda – é um dos aspectos mais interessantes do filme, que acompanha o relacionamento aos solavancos entre o velhíssimo e decrépito pintor e o seu ambicioso pretendente a biógrafo. A convivência entre os dois, muito dificultada pela filha do pintor (Amira Casar), que o mantém recluso, finalmente se desdobra em direções não-previstas por nenhum dos dois e se humaniza.
Uma participação deliciosa é de Geraldine Chaplin, como uma das mulheres da vida do pintor. O filme é encantador e não só para os amantes das artes plásticas (os letreiros finais, especialmente, são dedicados a estes últimos, um primor de formas e cores). (Neusa Barbosa)
Indicação: 16 anos
Duração: 125 min
Terça (10), 21h
 
Visita ou Memórias e Confissões
Era como uma lenda o filme-testamento do cineasta português Manoel de Oliveira, filmado no início dos anos de 1980 e só seria mostrado depois de sua morte. Eis que, quando ele morreu em abril passado, aos 106 anos, revelou-se verdadeira a existência desse documentário, feito em 1982, quando ele tinha 73 anos. O filme é o réquiem para a casa, no Porto, onde morou com sua mulher por pouco mais de 40 anos, e precisou ser vendida para saldar dívidas de uma fábrica que herdou do pai.
Com diálogos de Augustina Bessa-Luís (escritora com quem trabalhou em filmes como Vale Abraão e O Princípio da Incerteza), e narrados por Teresa Madruga e Diogo Dória, Visita ou Memórias e Confissões é um documentário impressionista e pessoal sobre o fim de uma era e a necessidade de seguir em frente e tudo aquoilo envolvido nesse processo. É também uma meditação sobre o que faz uma casa ser o que é – mais do que a construção, as relações pessoais e familiares que se estabelecem em seu interior. É também o resgate da vida e trajetória de Manoel, além de uma investigação sobre sua relação com  o cinema.
Ao mesmo tempo, pelo viés pessoal, o cineasta resgata a história de Portugal, especialmente ao narrar o episódio de sua prisão durante a ditadura de Salazar. Ele havia terminado seu primeiro longa, Aniki Bobó (1942), quando sua casa foi invadida pela polícia e ele, levado. Relembra também o 25 de abril e as dificuldades financeiras – “mas estas não me afetaram a alma” –, o diretor faz uma obra ímpar, mas, ao mesmo tempo, tão parecida com seus outros filmes. E é aí que reside muito da graça de Visita ou Memórias e Confissões. (Alysson Oliveira)
Duração: 68 min
Indicação: 10 anos
Quarta (11), 15h

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