Festival de Brasília 2015

"Para minha amada morta" aumenta expectativas em Brasília

Neusa Barbosa, de Brasília

Estreia em longa de ficção do premiado documentarista e curta-metragista Aly Muritiba (foto), o drama Para Minha Amada Morta revelou uma potência narrativa que entusiasmou a plateia na noite desta sexta (18) no Festival de Brasília.
Impressionou o controle preciso da tensão ao longo do filme, que acompanha os dilemas do viúvo Fernando (Fernando Alves Pinto) após a morte súbita da mulher. A história, em diversas camadas, acomoda discussões sobre paixão, obsessão, ciúme, vingança de uma maneira admirável. O filme revela-se candidatíssimo aos principais prêmios do festival, inclusive o de melhor ator – nunca antes Fernando Alves Pinto fez um papel tão bom, com uma dor e raiva introjetadas prestes a transbordar a cada minuto, carregando o espectador nessa espiral de emoções que o sacodem.
No roteiro também assinado por Muritiba, o ponto de vista é masculino. Assiste-se a um réquiem nas cenas iniciais, que mostram o protagonista acariciando os vestidos e sapatos da mulher, aparentemente incapaz de corresponder à carência do filho pequeno (Vinicius Sabbag). Fernando oscila entre obcecado e anestesiado, realizando roboticamente seu trabalho diário, de fotógrafo policial, num ambiente também árido e brutal, e também bastante sugestivo dentro do contexto do filme.
 
 Vídeos
A descoberta de uma caixa de vídeos antigos da mulher leva o marido ao encontro de histórias desconhecidas, tanto da infância dela, que aumentam a idealização da amada morta, como outras, que revelam paixões desconhecidas dela.
Esse novo capítulo incorpora um outro homem, Salvador (Lourinelson Vladimir), um mecânico evangélico em cujo núcleo familiar Fernando entra, primeiro a partir da igreja, depois alugando a casa dos fundos deles. Assim, o intruso se introduz na intimidade da mulher de Salvador (Mayana Neiva) e da filha adolescente (Giuly Biancato), criando a cada momento a expectativa de que algo violento está para acontecer.
O coração do espectador é levado a compartilhar desta expectativa, imaginando quase tudo que é possível brotar destas situações. Mas nunca se perde de vista uma admirável contenção – um passo a mais, e a história derraparia num novelão. Felizmente, isso não ocorre. Como revelou no debate sobre seu curta Tarântula, também concorrente aqui, Muritiba é um admirador do rigor e também do controle do cineasta austríaco Michael Haneke.
 Mais de uma vez, somos levados a lembrar de filmes como Caché, por exemplo. Mas há planos que recordam também uma saga de vingança de outra ordem, presente em O Filho, dos irmãos Dardenne. Como esses diretores, Muritiba esquiva-se das muletas musicais para evocar sentimentos em seu espectador a partir da dramaturgia do roteiro, criando cenas visualmente muito impactantes e bem-resolvidas - como os diálogos dos dois homens entre ferramentas no quintal, uma outra num telhado e outra numa cozinha. Nesses momentos, o filme é quase um western, ao menos em termos de clima.
Se falta, propositalmente, o ponto de vista da morta – que o espectador também é solicitado a imaginar -, a presença de Mayana Neiva e Giuly Biancato (uma jovem atriz muito promissora, também vista no curta Tarântula) assinalam um pequeno contraponto feminino neste mundo muito masculino.
 
Curtas
A noite de sexta já não andou tão bem na seção dos curtas-metragens. Cidade Nova, de Diego Hoefel (CE/DF), revelou-se mais apurado na realização técnica, realmente eficaz, do que na dramaturgia ao contar a história de um homem (João Campos) que volta à sua cidade natal, que desapareceu, coberta pelas águas.
O diretor do curta mineiro Copyleft, Rodrigo Carneiro, foi a sensação da noite, ao subir para apresentar seu trabalho vestindo uma longa capa cortada, que ele disse representar “as vítimas da homofobia, lesbofobia, transfobia” do país. O discurso pela tolerância foi ótimo e despertou aplausos antes do filme, que infelizmente não deu conta das intenções de seu realizador. Ao retratar o sofrimento de um jovem (André Nakau) por não conseguir expressar livremente sua sexualidade, o curta derrapou numa realização tosca. Nem a participação carismática de Elke Maravilha o salvou.

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