CINE CEARÁ 2015

Drama cubano e novo romance de Jorge Furtado animam Cine Ceará

Neusa Barbosa, de Fortaleza

 Uma visão um tanto crítica, mas muito densa, de Cuba, no semidocumental A Obra do Século, de Carlos Machado Quintela, e um romance com várias subtramas instigantes, no brasileiro Real Beleza, de Jorge Furtado, foram as duas excelentes atrações da noite de sábado (20) do Cine Ceará, cujo nível na competição de longas ibero-americanos vem sendo, até agora, notável.
O filme cubano – em coprodução com Argentina, Alemanha e Suíça – intercala imagens de arquivo coloridas, documentais, com uma sólida trama ficcional, em preto-e-branco, para desenvolver uma reflexão em torno da memória e dos efeitos do grande plano, afinal fracassado, de construir diversas centrais nucleares em Cuba, com o apoio da então URSS, há cerca de 30 anos atrás. Sobrou da grandiloquência do projeto, que visava resolver a dramática instabilidade energética do país, uma cidade-fantasma, cujas ruínas são tudo o que resta da Cidade Eletro-Nuclear (CEN), perto de Cienfuegos.
 
Contraste de cores
As imagens de arquivo dão conta da imensidão do projeto e do impacto de seu fracasso. A trama ficcional, ambientada na parte residencial do local, que é habitada ainda hoje por antigos funcionários da CEN, focaliza a tensa relação entre três homens de uma mesma família, cuja vida foi afetada pela quimera nuclear: o avô (o galã cubano Mario Balmaseda), o pai (Mario Guerra) e o neto (Leonardo Gascón). Amontoados num mesmo apartamento, com escassas possibilidades profissionais e econômicas, os três se degladiam e apoiam, alternadamente. Nas crises, sobra até para o peixe de estimação do avô, o resistente Benjamin.
Representante do filme no festival, o fotógrafo do filme, Marcos Attila (um húngaro que estudou cinema em Cuba), destacou que o paralelismo entre cor e P&B teve a intenção justamente de demarcar esse contraste entre passado e presente, bem como a visão interna e externa do lugar. Os arquivos, originalmente em betacam, foram obtidos em boa parte de um dos moradores da CEN e digitalizados no ICAIC, o instituto estatal cubano de cinema, que não opôs qualquer obstáculo à realização do filme, apesar do conteúdo crítico de um passado recente.
O humor cáustico que impregna os diálogos e as relações entre os personagens, segundo Attila, surgiu naturalmente. Afinal, ressalta, “os cubanos têm mesmo o hábito de fazer piada sobre tudo”. Por isso, ele discute a opinião de uma jornalista espanhola de que A Obra do Século seja totalmente sombrio. “Pode até ser que o filme seja amargo, mas também quer dizer que, haja o que houver, os cubanos seguem em frente”, afirma Attila, atualmente morando na Bolívia, onde reside parte de sua família.
 
Já lançado em Cuba, A Obra do Século teve ali boa recepção, segundo o fotógrafo. "Muita gente não conhecia essa história e gostou de conhecê-la".
Busca da beleza
 
O sexto longa de Jorge Furtado, Real Beleza, não é, pela primeira vez em sua carreira, nem uma comédia nem um documentário (antes disso, ele assinou quatro longas cômicos e o documentário O Mercado de Notícias).
Como é habitual no trabalho deste diretor e excelente roteirista (este aqui também é um roteiro seu), o filme entrelaça vários temas e subtemas, em torno da ideia da própria beleza, que não é só física. Começa com a crise do fotógrafo João (Vladimir Brichta), que precisa buscar uma nova modelo para prosseguir em seu trabalho, depois que surtou com a última. Para isso, ele viaja pelo interior do Rio Grande do Sul, à procura de uma nova musa, adolescente e fotogênica, que atenda aos padrões da publicidade e da moda. E que ele encontra em Maria (Vitória Strada).
A menina de 16 anos, realmente linda, é filha de um casal peculiar: Anita (Adriana Esteves) e um marido muito mais velho, Pedro (Francisco Cuoco, excelente), um homem muito ligado à literatura, que vive cercado por uma belíssima biblioteca. A oposição do pai da menina à sua carreira de modelo provoca uma visita do fotógrafo à casa familiar que, por sua vez, dá início a uma complicada história de amor, entre João e Anita.
Esta trama principal é enriquecida por várias outras, com a de uma garçonete (Maria Carolina Ribeiro), uma outra adolescente obcecada por conquistar uma chance profissional (Isabela Pillar) e, particularmente, por um ritmo que valoriza cenas silenciosas em que muito está acontecendo, sutilmente. Mas, com certeza, é um filme que comanda um envolvimento do espectador, não um passivo público devorador de clichês.
Por essa característica, o diretor Furtado tem consciência de que é um pequeno desafio conquistar um público intermediário entre os grandes sucessos da comédia nacional, calcada nos modelos das novelas, ou os filmes cult. O próprio diretor destaca que ele mesmo, como espectador, “sente falta” deste filme intermediário, mais humanista, que alguns chamam de “filme médio”. Recentemente, ele gostou de Casa Grande, de Felipe Barbosa, e Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós, dois legítimos representantes de uma vertente do cinema brasileiro que procura ocupar as lacunas entre um modelo de mercado dominante e os filmes cult.
O lançamento está previsto para agosto, em 40 cópias. Mas a produtora Nora Goulart destaca que também serão trabalhadas outras janelas além do cinema, como tv a cabo e outras.
 
Curtas
A seleção de curtas da noite, bastante interessante, incluiu o ótimo Quintal, do mineiro André Novais Oliveira (de Ela volta na quinta), uma criativa mistura entre comédia e cinema fantástico, novamente tendo como atores principais seus pais, confrontados com um fenômeno paranormal na própria casa e possibilidades de ascensão social e cultural. O filme teve sua estreia mundial na Quinzena dos Realizadores de Cannes deste ano.
Miragem, de Virgínia Pinho (CE), apropria-se de fotos de viagens de um arquivo familiar, adquirido numa feira de uma praça, para criar uma narrativa ficcional que estende seu elo para a ditadura militar, porque aparentemente as fotos pertenceriam a um tenente-coronel nomeado pelo presidente-ditador Emílio Garrastazu Médici.
Kyoto, de Deborah Viegas (SP), explora as ambiguidades do universo infantil a partir dos problemas enfrentados por uma menininha (Julia Fernandes) na escola, por conta de uma redação narrando fatos supostamente imaginários, e também em casa.

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