CINE CEARÁ 2015

Cine Ceará encerra competição com ficção científica "Crumbs"

Neusa Barbosa, de Fortaleza
 Em sua reta final, o Cine Ceará reservou uma surpresa – isto numa seleção de longas, especialmente os ibero-americanos, especialmente boa nesta 25ª edição do festival.
A surpresa atendeu pelo nome Crumbs, último longa concorrente da seção principal. Filmado na Etiópia, este que é o longa de estreia do diretor espanhol Miguel Llansó, é uma inusitada mistura de fábula e ficção científica, que se utiliza dos exóticos cenários do país africano, onde o diretor viveu vários anos, para acompanhar a estranha jornada de dois personagens, Candy (Daniel Tadesse) e sua amada, que ele chama de “Passarinho” (Selam Tesfaye).
Desde a aparência, não se trata de um herói convencional – o jovem tem uma série deformidade nas costas, que não é impedimento para nenhuma atividade, nem é colocada em questão pelo casal. Nem é obstáculo para que ele se lance numa jornada que para ele prometia ser épica, num mundo futuro devastado por apocalipse e guerras, mas que afinal será bem outra coisa.
A boa novidade do filme está em como sedimenta sua noção central de fragmentação – o título em inglês significa “migalhas” – no sentido real e metafórico. Afinal, os personagens se movem em cenários destruídos, um parque de diversões, o que parece ser o resto de um hotel de luxo, linhas de trem, estações, um boliche assombrado pela figura de um estranho Papai Noel. Andrei Tarkovsly adoraria estes lugares.
 
 Referências pop
Uma das características mais interessantes da história, à qual não falta humor, é a deglutição de símbolos pop nesse futuro sombrio. Caso de Michael Jordan, cuja foto é vista num altar, sendo reverenciado como deus de um culto pagão. Outras referências remetem a “São Pablo Picasso”,“Justin Bieber VI” e “Paul McCartney XI”, um disco vinil de Michael Jackson e um bonequinho dos Tartarugas Ninja, entre vários outros.
Ainda que se mova neste mundo ilusório do protagonista, que se diz habitante de outro planeta e vive à espera de que a nave espacial vista no céu esteja chegando para levá-lo de volta (uma menção indireta a E.T. - O extraterrestre), o filme arma um discurso que comenta a dominação cultural dos mundos míticos primitivos, como a própria Etiópia, pela símbolos da indústria cultural, que sobrevivem confusamente depois que o próprio planeta e a civilização como a conhecíamos transformou-se em terra arrasada.
Curiosamente, Crumbs, que foi exibido no Festival de Roterdã, funciona em vários níveis e foi um dos filmes mais instigantes do festival cearense, que anuncia sua premiação nesta noite de quarta (24).
 
Curtas
Fechando a competição dos curtas, que este ano foi particularmente sofrível no festival – com raras exceções, como o criativo concorrente mineiro Quintal, de André Novais Oliveira -, a última noite não reservou boas notícias. Foram exibidos A Felicidade Chega aos 40, de Daniel Nolasco (GO), uma falha tentativa de armar uma história de realismo fantástico; Muriel, de Vanessa Cavalcante (CE), sobre a tentativa aflita de um rapaz para arrumar namorada; e O Lugar Mais Frio do Rio, de Madiano Marchetti (RJ), usando a linguagem dos computadores e mídias sociais para abordar a solidão.

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