Festival de Cannes 2015

Vencedores da Palma dividem opiniões e Portugal brilha nas paralelas

Neusa Barbosa, de Cannes
Nem demorou tanto a primeira vaia de Cannes. Só não se podia prever que seria destinada a um já vencedor da Palma de Ouro, o norte-americano Gus Van Sant (ganhador aqui por Elefante), e que decepcionou muitíssimo com a xaropada de seu novo drama, The Sea of Trees.
O filme de Van Sant parece um manual mal-acabado de clichês melodramáticos ao contar a história de Arthur (Matthew McConaughey), que viaja ao Japão para suicidar-se na floresta de Aokigahara, no sopé do Monte Fuji, um dos endereços preferidos dos suicidas de vários locais. Na floresta, encontra um homem ferido (Ken Watanabe) e distrai-se de seu objetivo, empenhado subitamente em salvar o desconhecido, numa jornada cheia de acidentes.
Por meio de flashbacks, num filme encharcado de música (de Chris Douridas), vai-se revelando a vida pregressa de Arthur, cujo foco dramático é um casamento problemático com Joan (Naomi Watts).
No cipoal de clichês, falta pouca coisa: doença na família, acidente de trânsito, alcoolismo e um mal-usado toque de espiritualismo. Partindo de um roteiro de Christopher Sparling, o diretor Van Sant pode ter revisitado suas referências cinematográficas. Mas, como aconteceu em sua malfadada refilmagem de Psicose, deu muito errado.
 
Adeus à mãe e às ilusões
Outro vencedor da Palma (com O Quarto do Filho), o italiano Nanni Moretti, foi melhor num novo drama, Mia Madre, cujo tema central está na crise de uma diretora de cinema, Margherita (Margherita Buy), angustiada pela iminente perda da mãe e pela produção de um filme complicado, especialmente pelas confusões causadas por seu vaidoso ator norte-americano, Barry Huggins (John Turturro).
O próprio Moretti faz um papel secundário como Giovanni, irmão de Margherita, que está vivendo uma crise profissional em paralelo. Diretor experiente e politizado, Moretti, co-autor do roteiro com Francesco Piccolo e Valia Santella, insere reflexões sobre a crise italiana do emprego, através do tema do filme da diretora na ficção. Tudo bastante sutil, sem muito didatismo, funcionando com mais eficiência.
Analisando em paralelo dilemas pessoais e sociais bem contemporâneos envolvendo várias gerações – através também da filha adolescente de Margherita, Livia (Beatrice Mancini) -, a trama tem um bem-vindo alívio cômico nas entradas histriônicas e egocêntricas de Barry, que se gaba de ter sido o ator favorito de Stanley Kubrick e dá uma de prima donna em qualquer oportunidade, oferecendo uma chance de ouro a Turturro de expor sua veia humorística. Além disso, Mia Madre nunca perde uma chance de filtrar uma auto-ironia ao próprio métier, ao meio cinematográfico – como numa fala em que se diz que os diretores são idiotas a quem se dá o poder de fazer tudo.
 
1001 noites lusitanas
Na seção paralela da Quinzena dos Realizadores, a grande atração deste sábado (16) foi a primeira das três partes do novo e ambicioso filme do diretor português Miguel Gomes, As 1001 Noites. Misto de ficção e documentário, a obra não é uma adaptação dos famosos relatos e sim um mergulho profundo na severa crise econômica de Portugal, intercalando depoimentos e personagens reais – como os empregados de um estaleiro em desmonte em Viana do Castelo, norte do país – e irônicas e corrosivas fábulas em torno de situações absurdas, tendo uma certa Sherazade como narradora, tal como ocorre nos livros originais.
Falando após a sessão, o diretor Gomes explicou que uma equipe de jornalistas pesquisou os personagens e situações apresentadas, porque uma de suas intenções era traçar “um retrato preciso do que acontece em Portugal”. Ao mesmo tempo, valeu-se de uma espécie de “esconde-esconde” entre realidade e ficção, inspirando-se em As 1001 Noites, que ele descreveu como “o livro mais delirante já escrito”, para dar uma forma ficcional a essa crise. Ele entende como justa esta mistura já que para ele o cinema lida com “sonho, desejo e narrativa”. E as situações reais com que se depara seu país muitas vezes atingem as raias do absurdo,
necessitando-se, portanto, das ferramentas da ficção para dar conta de descrevê-las. Em todo caso, a ousadia deu certo. Dá muita vontade de assistir às outras duas partes do filme, que serão exibidas aqui nos próximos dias (no total, as três partes somam seis horas de duração, divididas em segmentos de aproximadamente duas horas cada um).

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