Festival de Cannes 2015

"Carol" leva a discussão sobre lesbianismo e repressão a Cannes

Neusa Barbosa, de Cannes

 A competição em Cannes entrou em outro momento alto com a passagem de Carol, o ótimo drama dirigido pelo norte-americano Todd Haynes, que parte de um livro de Patricia Highsmith e enfoca o romance entre uma mulher rica e casada, Carol Aird (Cate Blanchett), e uma jovem atendente de uma loja de departamentos, Theresa (Rooney Mara). Evidentemente, já apareceu a mais séria candidata ao prêmio de interpretação feminina: Cate Blanchett. Nenhuma surpresa.
 
 A polêmica precedeu o filme, devido à repercussão de uma recente entrevista de Cate Blanchett à Variety, em que ela teria admitido ter tido relacionamentos com várias mulheres no passado. A própria Cate, ao ser indagada sobre isso, como era esperado na coletiva de imprensa, saiu-se com a elegância que demonstra nas telas: “Perguntaram-me se tinha tido relacionamentos com mulheres, disse que sim. Se tinha tido relacionamentos sexuais, disse que não. Mas a grande questão que deveríamos estar discutindo aqui hoje seria: “Quem liga para isso?”.
 
Evidentemente, o filme, roteirizado por Phyllis Nagy, é sobre paixão lésbica e muito mais – é um grande filme, aliás, produzido com a habitual serenidade, classe e delicadeza de Haynes, que já havia dirigido Cate em Não Estou Lá – a atriz, aliás, é produtora executiva também aqui.
 
A presença do refinado diretor de fotografia Ed Lachman (que filmou em super-16mm), do montador português Affonso Gonçalves e do compositor Carter Burwell (um habituê nos filmes dos irmãos Coen, hoje presidentes do júri principal de Cannes) garantem a beleza visual de uma história ambientada no início dos anos 1950. Evidentemente, o esplendor do figurino, joias, automóveis e ambientes estão unicamente a serviço da recriação minuciosa do clima de uma época, em que a beleza não encobre a intensa repressão, é antes a crosta de um disputado jogo de aparências.
 
Olhar para 60 anos atrás e recuperar o ardor das emoções, sem sufocá-las com toda essa elegância visual é o desafio cumprido, mais uma vez, por Haynes. A complexidade humana, bem como a ambiguidade e o mistério destas mulheres, às quais se soma ainda uma terceira, Abby (Sarah Paulson), velha amiga e antigo amor de Carol, são observadas na justa medida para manter-se fiel ao espírito do romance.
 
Importante também é colocar em foco o quanto um romance assim era proibido naqueles dias. Carol, afinal, é casada ainda e, como não quer mais viver com o marido (Kyle Chandler), ele disputará a filha dos dois no tribunal, num tempo em que o homossexualismo era visto quando não como crime, como doença.
 
As coisas mudaram hoje, neste aspecto, também foi perguntado a Cate na coletiva. Nem tanto, ela acha, lembrando que há vários países em que o homossexualismo ainda é crime. “Não sou homossexual, mas, se você é, tem de falar disso antes de mais nada, o tempo todo. Vivemos em tempos conservadores. Quem acha que não, está muito enganado”.
 
Ao seu lado, a roteirista Phyllis – que lutou, por anos, para adaptar o livro de Highsmith para o cinema – pediu a palavra também. “Acho que nada mudou, mas, ao mesmo tempo, tudo mudou. Este filme foi feito e se fala do assunto. Politizamos o tema quando o vivemos. Ao viver sua vida, sua identidade está sempre em evidência”.
 
Memórias afetivas de Allende
 
Na Quinzena dos Realizadores, a boa atração deste domingo (17) foi a première mundial do documentário chileno Allende, Mi Abuelo Allende, de Marcia Tambutti Allende. Uma das netas do falecido presidente chileno, a diretora resgata com persistência e carinho fragmentos de lembranças, inúmeras fotos e até alguns tabus familiares da vida do avô – como suas infidelidades conjugais -, traçando um perfil amoroso deste homem que ela praticamente não conheceu e cujo fantasma está encravado a sangue e fogo na história do Chile.
 
Mesmo dentro da fraturada família Allende – cujos membros se dispersaram entre México, Cuba e outros países depois do golpe de 1973 -, falar do ex-presidente, mesmo entre si, não tem sido fácil. Há dores que não se abordam, fotos guardadas em gavetas que nunca mais se havia tocado. A diretora escava essas hesitações, trazendo à luz conversas preciosas, com sua mãe, tia, primos – que, como ela, eram crianças à época do golpe – e também com a avó, Hortencia, que na época da filmagem tinha 92 anos (ela morreu poucos anos depois). Também pesquisa arquivos, oficiais e pessoais, encontrando a sequência rara que encerra o filme – uma filmagem doméstica, que mostra o jovem Allende, sua mulher e amigos, envolvidos na encenação de uma peça cômica, nos moldes do cinema mudo, ele vestindo uma espécie de bermuda.
 
Na entrevista em seguida à exibição matinal, a diretora informou que o documentário será lançado no Chile em setembro, “nunca um mês fácil por lá” (o golpe de 1973 aconteceu em 11 de setembro daquele ano). Indagada sobre as reações que espera, diante da polarização ainda existente no país em torno da figura do avô, ela disse ter a expectativa de que o filme “seja visto como o que é, um convite ao diálogo entre gerações e à recuperação da memória”.

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