Festival de Cannes 2015

Em ano patrioteiro, Palma de Ouro sai para o francês "Deephan"

Neusa Barbosa, de Cannes
 No final, a Palma de Ouro saiu para um francês, o melhor dos cinco concorrentes nacionais, Deephan, em que o veterano diretor Jacques Audiard (O Profeta) finalmente saiu da fila e levou o prêmio máximo para casa.
 
Há 7 anos que a Palma não saía para um francês – a última vez foi em 2008, com o documentário Entre os muros da escola, de Laurent Cantet. Audiard, afinal, é um refinado diretor francês e acertou em cheio no tema, que gira em torno de imigração, discriminação, violência e reação a ela. Mas não pareceu inteiramente justo. Afinal, o melhor e mais forte filme do ano, o húngaro Son of Saul, do estreante Lazlo Nemes, ficou só com o segundo lugar, ou seja, o Grande Prêmio do Júri.
 
 Muitos podem achar que, para um estreante, está de bom tamanho este prêmio. Mas não é bem assim. Nemes mostrou força e segurança na proposta estética, que está a serviço não de um formalismo de ocasião, mas de uma história duríssima – o cotidiano de um prisioneiro de campos de concentração que imagina reconhecer seu filho entre as vítimas da câmara de gás e torna-se obcecado para realizar seu sepultamento dentro dos cânones religiosos judaicos.
 
O prêmio de interpretação masculina dado a outro francês, o ótimo Vincent Lindon – recebendo, inacreditavelmente, o primeiro prêmio de uma longa e séria carreira, aos 55 anos, como protagonista do drama La loi du marché, de Stéphane Brizé, soou mais uma nota patriótica, mas também acendeu uma luz engajada na seleção. Afinal, o filme radiografa o dilema moral de um desempregado cinquentão (Lindon) que se revolta contra concessões que tem que fazer para sujeitar-se a um novo emprego.
 
Até aí, portanto, a premiação de Cannes poderia ser considerada até equilibrada, concedendo-se igualmente o Prêmio do Júri à distopia grega The Lobster, do diretor Yorgos Lanthimos – uma projeção de um futuro em que ficar solteiro é proibido e sujeito à pena de ser transformado num animal.
 
Mas, na premiação feminina, a coisa saiu dos trilhos, ao dividir, absurdamente o troféu entre mais uma francesa, Emmanuelle Bercot, pelo dramalhão francês Mon roi, de Maïwenn (uma diretora que goza de um imerecido prestígio em Cannes, como se atesta a premiação que levou pelo fraco Polisse), e a norte-americana Rooney Mara, pelo bom drama Carol, de Todd Haynes – quando a expectativa, com justiça, era que levasse o prêmio sozinha a protagonista do filme, a australiana Cate Blanchett, excelente no papel. Alguém surtou neste júri para descambar nesta premiação bizarra.
 
Só a história do chinês Hou Hsiao Hsien explica o prêmio de direção pelo esteticamente perfeito, mas dramaturgicamente falho drama de época The Assassin. Já o prêmio de roteiro ao mexicano Michel Franco, pelo drama Chronic, protagonizado por Tim Roth, na pele de um enfermeiro de doentes terminais, até que ficou de bom tamanho.
 
Em compensação, foram ridiculamente esnobados bons filmes como o chinês Mountains may depart, de Jia Zhang-ke – que frequentou várias bolsas de apostas como favorito à Palma -, e o drama italiano Mia Madre, de Nanni Moretti (em que a atriz Margherita Buy também seria uma opção de interpretação feminina). E Youth, do italiano Paolo Sorrentino, bem que poderia levar o prêmio de ator para Michael Caine. Não foi desta vez.
 
Numa seleção que ignorou solenemente a maior parte da produção latino-americana – inclusive a brasileira - o Caméra d’or saiu para um colombiano, César Augusto Acevedo, pelo drama La Tierra y la Sombra, da seção Semana da Crítica.
 
O prêmio principal da seção Um Certain Regard ficou para a produção islandesa Béliers, de Grímur Hakonarson. Aí, foi esnobado o tailandês Apichatpong Weerasathekul, que entregou o belo Cemetery of Splendour.  Enfim, acabou o 68º Festival. Que haja menos patriotada no ano que vem.

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