CINE PE 2015

"O Vendedor de Passados" inova na forma como mistura gêneros

Neusa Barbosa, do Recife

 Proposta arriscada, por ousar romper a fronteira dos gêneros e sair do binômio comédia/violência urbana que domina o cinema nacional há um bom tempo, O Vendedor de Passados, de Lula Buarque de Holanda, anima quem acredita que o cinema brasileiro pode ser mais criativo e diversificado.
 
Valeu a aposta do diretor e do ator Lázaro Ramos – aqui funcionando também como produtor, o que vem se tornando cada vez mais frequente em sua carreira -, ao mergulhar numa adaptação bastante livre do romance original do autor angolano José Eduardo Agualusa. Para começar, transpondo a história de Angola para o Brasil e alterando drasticamente a natureza do narrador.
 
O protagonista é Vicente (Lázaro), dono de uma profissão inusitada – criar passados diferentes para seus clientes, a partir de demandas específicas. O que implica pesquisar materiais como fotos, compondo novos álbuns e biografias sob medida para alguma intenção. Como um ex-obeso e solteiro, que recorre a uma nova história pessoal em que existe uma ex-mulher, acreditando que um divorciado rico tem melhores condições de um romance.
 
Uma cliente intrigante aparece em sua vida – ela (Alinne Moraes) recusa a dar-lhe seu nome, bem como qualquer detalhe de sua vida real, querendo que Vicente, partindo do zero, lhe crie uma nova história em que ela tenha cometido um crime.
 
Atraído pela estranha, ele procura atender seu desejo, criando uma biografia cruzada com a ditadura argentina – uma referência sugerida pela roteirista e que veio a calhar pela assumida admiração do diretor Lula Buarque pelo cinema dos vizinhos hermanos – a quem credita um “cinema contemporâneo” de boa qualidade, como destacou na coletiva de imprensa desta segunda (4).
 
 Pontes
 
Da mesma forma, Lázaro Ramos destacou ver com bons olhos o fato de que o filme “ergue pontes ao unir um autor angolano, a ditadura argentina e personagens brasileiros”.
 
O fato de o ator principal ser negro foi uma questão discutida entre Lázaro e Lula. Embora o filme não faça menção explícita a racismo, nem o protagonista enfrente qualquer obstáculo nos ambientes em que se movimenta, a questão entra organicamente nos inúmeros caminhos subterrâneos da história, bem-urdida, ainda mais tendo-se uma sequência em que contracenam Lázaro Ramos e Ruth de Souza – que, aos 94 anos, tem uma participação deliciosa como uma esperta senhora que coleciona álbuns de fotografia antigos (o colecionismo de objetos é um dos vícios do protagonista e do próprio Lázaro na vida real).
 
O diálogo entre uma veterana, pioneira das batalhas dos atores negros por maior presença nas telas e na TV, e de um ator mais jovem, que entrou nessa história em outro contexto, faz imediatamente a questão da negritude ser incorporada, sem discursos, sem ênfase excessiva, oferecendo-se à inteligência do espectador, até mesmo solicitando-a. Como o filme faz, também implicitamente, com a questão das múltiplas tecnologias e suportes de imagens e dados que, ao mesmo tempo que são ferramentas para preservação da memória, podem servir como instrumentos para manipulação da verdade – como na composição das novas biografias dos clientes de Vicente.
 
Por conta dessas características, O Vendedor de Passados é um filme que desafia classificações de gênero. “Cada um que assiste diz uma coisa”, diverte-se Lázaro, para quem o filme é um “suspense com romance”. Mas também lhe caberia ser definido como uma comédia dramática, ou mesmo um drama. Para o diretor “o filme não tem um gênero específico”. Tanto na sessão de ontem, quanto em sua première em Lisboa, com a presença de Agualusa – que disse ter gostado da adaptação -, o público riu de maneira inesperada para o realizador, que viu a reação com bons olhos.
 
Esta indefinição de gênero, que pode ser estimulante, também é arriscada e ambos não o ignoram. Por outro lado, Lázaro afirma que por isso mesmo é que tem cada vez mais buscado a produção: “Me interesso muito por filmes que são fora da cartilha, embora sabendo do desafio que se tem em como fazer esses filmes chegarem ao seu público”. Ele também manifesta o desejo de dirigir em breve.
 
No caso de O Vendedor de Passados, a aposta será testada no dia 21 de maio, quando o filme estreia nacionalmente em 200 cópias, no Rio reabrindo o ex-Odeon, agora um centro cultural, que aliará diversas atividades, incluindo cinema e teatro.
 
Filme português cancelado
 
O esperado filme do cineasta português Pedro Costa, Cavalo Dinheiro, que deveria participar da competição do Cine PE nesta noite, teve sua exibição cancelada. O motivo foi que seu HD, que integrou um festival argentino, não chegou a tempo, estando ainda em trânsito. O próprio Costa, que viria a Recife, também não veio, entre outros motivos, por problemas decorrentes da greve da companhia aérea portuguesa TAP (o que complicou a vinda do diretor inglês John Madden, realocado por outra companhia).
 
O filme não será substituído na programação, que hoje exibirá apenas os três curtas previamente previstos: O Gaivota, de Raoni Assis, Palace Hotel, de Cao Guimarães e Vestibular, de Tati Loureiro e Ruy Prado.
 
Animação e cultura afro
 
Entre os três curtas exibidos no domingo (3), chamou a atenção a animação pernambucana Salu e o Cavalo Marinho, da estreante Cecília da Fonte, uma designer que recontou na tela a infância do músico mestre Salustiano (1945-2008). Pensada para crianças mas sem facilitar seu conteúdo ou forma por isso, a animação é divertida, bem-humorada e arrebatou a plateia do cine São Luiz.
 
Outro filme do festival a evocar a herança da cultura negra foi o curta Xirê, de Marcelo Pinheiro, um trabalho sensorial do bailarino Robson Duarte que elabora a diáspora africana no continente americano.
 
O terceiro curta da noite foi Alegria, de Hsu Chien Hsin (nascido na China, desde os 4 anos no Brasil), uma sátira doce-amarga em torno de uma pequena família interiorana que vive decepções quando vence um concurso que a leva a um fim-de-semana à beira-mar no Rio de Janeiro. 

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