MOSTRA 2014

Dia para dramas europeus e documentário sobre Cássia Eller

Equipe Cineweb

 CÁSSIA
Questionado sobre a razão de realizar um documentário sobre a emblemática cantora Cássia Eller, vítima de um enfarto em 2001, o diretor Paulo Henrique Fontenelle (do premiado Loki - Arnaldo Baptista) é enfático: “Vi que não existia nada sobre ela. Uma pessoa tão importante para a música brasileira não possui um especial de TV. O que eu achei foi uma biografia em catálogo.”
Assumiu, assim, a responsabilidade de trazer às telas, em um trabalho de quatro anos, o documentário Cássia, que mostra as várias facetas desta cantora, tão conhecida pelos estereótipos que provocava com sua atitude enérgica e, ao mesmo tempo, tímida. Uma obra que, sim, traz a irreverência da intérprete, seja nas extensas imagens de arquivo, seja na percepção dos entrevistados (amigos, produtores, críticos e amores, que inclui o filho, Francisco Eller, o Chicão).
O resultado é uma ode à cantora, que exalta seu talento, sem esquecer dos pontos polêmicos, como a ligação às drogas e a sanha da imprensa em sensacionalizar sua morte. Tudo pontuado pela família, que segundo o diretor, deu abertura para tocar em todos os temas.
“Ela (Maria Eugênia Vieira Martins, companheira da cantora) era contra, mas o Chicão falou com ela depois de ver Loki e aí começamos a conversar. A Cássia Eller faz um pouco da trilha sonora do Brasil e das nossas vidas também”, acredita Fontenelle.  (Rodrigo Zavala)

Indicação: 12 anos
Duração: 120 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2             21/10/2014 - 17:20 - Sessão: 455 (Terça)
CINE SABESP                                                                 29/10/2014 - 21:50 - Sessão: 1177 (Quarta)
 
 UMA CASA EM BERLIM
Instigante drama envolve a jornada de uma mulher, a professora escocesa Stella Miles (Susan Vidler), que repentinamente recebe a notícia de que é herdeira de um pequeno prédio em Berlim. Tudo está arranjado para a venda do imóvel, cabendo a ela uma quantia nada desprezível. Mas, por alguma razão, Stella decide ir pessoalmente a Berlim, conhecer o local, que veio às suas mãos pela linha de um tio-avô, Jakob, que ela nunca conheceu.
A partir do contato com dois moradores do prédio e de uma pesquisa pessoal, Stella vai desenrolando um fio complexo de memórias, envolvendo a vida de Jakob e a tragédia pessoal deste ramo de sua família, judeus atingidos em cheio pelos massacres nazistas.
O filme dirigido e co-roteirizado por Cynthia Beatt oferece um percurso existencial interessante e rico de reviravoltas, além de alguns caminhos inesperados neste tipo de tema. A trajetória pessoal da personagem, no entanto, é a mais rica. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 14 anos
 
Duração: 96 min
 
FAAP                                                                  21/10/2014 - 11:00 - Sessão: 497 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1       24/10/2014 - 14:00 - Sessão: 766 (Sexta)
 
 
 SANGUE AZUL
Multipremiado no Festival do Rio, o novo filme de Lírio Ferreira, percorre aquele universo livre, criativo, lúdico de um diretor que já deu muitas alegrias ao cinema brasileiro, e continua dando. Um sopro de vida e liberdade está neste filme, que bate na telacom toda a imaginação, sensualidade e fluidez que acompanha sempre o trabalho deste pernambucano inquieto, que despontou para o cinema brasileiro a partir do agora mítico Baile Perfumado (96) – uma parceria dele com Paulo Caldas.
É uma outra parceria, esta de produção, a que une agora Lírio Ferreira aos paulistas Renato Ciasca e Beto Brant. Desde 2009, o trio prepara a produção deste filme, ambientado numa ilha desde o plano inicial, e que acabou sendo Fernando de Noronha na reta final – com toda a sua beleza intocada e mágica e as incontornáveis dificuldades de produção num paraíso natural protegido e de acesso restrito, retratado em película 35 mm.
A escolha do ambiente, em todo caso, não é mero detalhe para um cineasta que, como Lírio, assumidamente gosta de “sair de sua zona de conforto”, como ele definiu na coletiva do filme no Festival de Paulínia, inclusive geograficamente. As ideias, para Lírio, “caem como chuva” e ele se deixa levar, quando escreve um roteiro (aqui, dividindo a autoria com Sergio Oliveira e Fellipe Barbosa, diretor do longa Casa Grande, também na programação da Mostra) e também quando filma. Ele gosta de “se perder e se achar”. A dispersão, que críticos lhe apontam como um defeito, às vezes, no seu entender é não só proposital como a graça que ele encontra na viagem.
Depois de dois belos documentários musicais – Cartola (2007) e O Homem que engarrafava nuvens (2008) – Lírio sentia falta da ficção, que ele não visitava desde Árido Movie (2006). Há inúmeras inspirações e influências neste relato sobre a volta de Zolah (Daniel de Oliveira) à ilha vulcânica de onde ele foi levado, ainda criança, por Caleb (Paulo Cesar Pereio), com o consentimento da mãe (Sandra Corveloni), que temia uma relação incestuosa entre o menino e a irmã, Raquel (adulta, interpretada por Caroline Abras).
Zolah – cujo nome era Pedro – volta não só como um homem feito, mas como uma espécie de pop star, o Homem-Bala, grande atração de um circo que se instala na ilha e cujos integrantes, interagindo com os ilhéus, rompem a rotina. Há paixões e tensões vindo à tona nesta acomodação entre a população local e os forasteiros que impulsionam uma história repleta de momentos mágicos, meio surreais – como o desaparecimento de Caleb, que ocasionalmente retorna, como um motoqueiro-fantasma (?), calcado na figura de Marlon Brando em O Selvagem (1953).
Pereio, aliás, e Ruy Guerra – que interpretam ambos xamãs profanos – fazem uma ponte entre o cinema contemporâneo de Lírio e o Cinema Novo, que é evocado, também, na sequência inicial, em preto-e-branco, que retrata a volta de Zolah e em que este, sintomaticamente, vomita, como se o filme extirpasse de dentro também os restos do culto ao cinema dos anos 60, deixando para trás algo que, muito belo, já foi digerido e agora segue em frente, em outras medidas, em outras procuras.
Sangue Azul é para muitas visitas, muitas leituras e um sopro de vida, anárquica, explosiva. Lírio admira muito o escritor Graciliano Ramos – que é, inclusive lembrado, em alguns capítulos do filme (“Insônia”, “Angústia”, “Infância”). Mas em seu derramamento quase barroco, ele está mais para Guimarães Rosa. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 18 anos
 
Duração: 114 min
 
RESERVA CULTURAL 1                                          21/10/2014 - 21:40 - Sessão: 522 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3       26/10/2014 - 16:15 - Sessão: 933 (Domingo)
 
DE ARMAS E BAGAGENS
 
A dramática retirada dos milhares de portugueses e angolanos descendentes deles durante a guerra civil, em torno da independência do país, em 1975, é recuperado neste documentário intimista, de uma diretora, Ana Delgado, que tem relação direta com o tema – ela saiu de sua Angola natal ainda bebê de um mês, nos braços da mãe, que é uma das entrevistadas do filme.
Sem nenhuma preocupação política ou social de discutir temas como a colonização ou a guerra civil – mencionada, como seria inevitável, em vários depoimentos -, o filme flui ao sabor das narrativas destas pessoas desenraizadas à força. Seu foco está, claramente, no sofrimento humano de seus personagens, abandonando suas raízes, propriedades e bens materiais, para empreender fugas não raro arriscadíssimas, como os 201 que se lançaram a uma perigosa viagem pela Costa dos Esqueletos, rumo à África do Sul.
A maioria nunca mais voltou e não esconde sua saudade, nem sua adequação forçada a Portugal, país que muitos nem conheciam, antes de serem forçados à retirada, no auge da violência da guerra civil e onde não raro foram mal-recbidos – eram os “retornados”. Estes formaram uma comunidade em Portugal, que compartilha suas lembranças e música peculiares. Os poucos que voltaram também dão seus testemunhos, bem mais alegres. Percorrem o filme os temas de pátria e identidade. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: livre
 
Duração: 72 min
 
CINE OLIDO        21/10/2014 - 19:00 - Sessão: 495 (Terça)
 
 O IDIOTA
Diretor e roteirista de uma nova geração russa, Yury Bykov assina este drama, que saiu de Locarno com o prêmio de melhor ator para seu dedicado protagonista, Artyom Bystrov. Sua entrega ao papel é de fato a melhor característica de um filme que, se tem um vinco realista, aspira mais a tornar-se uma espécie de alegoria de denúncia de crimes e pecados da Rússia contemporânea.
A sombra de Fyodor Dostoievski paira desde o título, impregnando-se cada vez mais nos dramáticos desdobramentos das escolhas de seu anti-heroi. Dima Nikitin (Bystrov) é um aplicado estudante noturno da Faculdade de Engenharia. Casado e pai de um filho pequeno, trabalha numa equipe municipal de manutenção de prédios, morando junto com os pais, devido ao aperto econômico geral.
Do pai, pobre porque nunca abriu mão de ser completamente honesto, Dima herdou a integridade a toda prova. Todo esse apego aos valores será testado diante de uma situação inesperada – numa noite, quando o inspetor de plantão não é localizado, Dima tem que dirigir-se a um enorme prédio popular, onde um marido abusivo e drogado bateu na mulher e estourou um encanamento de gás no seu banheiro. Um problema que nada tem de corriqueiro, já que Dima constata que o prédio todo, com mais de 800 moradores, está coberto de rachaduras de alto a baixo. Motivo pelo qual pode ruir a qualquer momento.
Se o edifício condenado é apresentado como uma amostra do povo russo – ali moram pessoas empobrecidas, aposentados e jovens sem perspectivas -, a burocracia estatal local, que Dima tentará convencer a uma pronta intervenção no edifício, é uma sinistra compilação de uma classe dirigente completamente corrupta e envilecida. Por vários momentos, o tom parece didático, ou excessivo. Mesmo Dima, em sua persistência, pode ser visto também como uma espécie de louco. De todo modo, o filme tem sua força como parábola. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 12 anos
 
Duração: 117 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4                    21/10/2014 - 14:00 - Sessão: 463 (Terça)
CINEMATECA - SALA PETROBRAS                                    23/10/2014 - 21:00 - Sessão: 660 (Quinta) 
 
LIVRE
Depois de perder a mãe e fazer muita bobagem na vida – inclusive destruir seu casamento - Cheryl Strayed (Reese Witherspoon) resolve que sua salvação estará em fazer a trilha Pacific Crest Trail, que vai da fronteira dos EUA com o México até o Canadá. Sem muita experiência na prática, e muitos fantasmas para exorcizar, a garota, que tinha 26 anos na época, passa 150 dias caminhando, cruzando diversos estados, enfrentando obstáculos e conhecendo pessoas..
Baseado no livro de memórias da própria Cheryl, com roteiro do escritor inglês Nick Hornby, Livre é repleto de boas intenções, mas ainda assim um tanto raso, especialmente quando se torna emocionalmente manipulador – com os flashbacks envolvendo a mãe (Laura Dern) e a jornada autodestrutiva de Cheryl nos últimos anos.
A trilha, para ela, torna-se uma espécie de Caminho de Santiago de Compostela – uma jornada espiritual que lhe trará a redenção depois de passar caminhando todos esses dias, e com pouco contato com outras pessoas. Como se fosse simples assim.
A direção do canadense Jean-Marc Vallée (O Clube de Compras Dallas, C.R.A.Z.Y.) transforma a jornada espiritual de Cheryl em algo redundante, como se sofrimento, arranhões e, usando as palavras da personagem, “gororoba fria” fossem o suficiente para transformá-la em outra pessoa. Em todo caso, Reese está bastante cotada para o Oscar. A previsão de estreia no Brasil é para janeiro. (Alysson Oliveira)
 
Indicação: 18 anos
Duração: 115 min
 
CINE LIVRARIA CULTURA 1    -                               21/10/2014 - 19:30 - Sessão: 481 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1  -           22/10/2014 - 17:40 - Sessão: 575 (Quarta)
CINE SABESP   -                                                       26/10/2014 - 20:15 - Sessão: 947 (Domingo)
 
 
 A SELVA INTERIOR
Premiado no Festival de Sevilha do ano passado, o filmetransita entre o documentário e a dramatização numa história pessoal de um casal. Luz (Luz Barrero) é um pesquisador prestes a embarcar numa jornada, em que ficará meses longe da sua namorada, Gala (Gala Pérez Iñesta). Antes disso, eles viajam para uma pequena cidade onde ele passou sua infância.
Numa casa antiga, histórias do passado, segredos e lembranças emergem. O casal também presencia festas religiosas na cidade, e, depois desta temporada, sua vida passa por uma grande transformação – não apenas pela viagem de Luz.
O cineasta Juan Barrero filma com delicadeza e precisão a jornada do casal, com seus altos e baixos, encontros e desencontros e as surpresas que o destino traz para Luz e Gala. O lado documental injeta um peso emocional no filme, graças à coragem dos dois em se expor.  (Alysson Oliveira)
 
Indicação: 12 anos
Duração: 80 min
 
RESERVA CULTURAL 1  -  21/10/2014 - 15:55 - Sessão: 519 (Terça)
 
Desvio
 
A excelente recepção que o diretor Duane Hopkins recebeu pelo seu debut em Better Things (2008), exibido aqui na 32ª edição da Mostra, pode ter influído nas escolhas exageradas adotadas pelo inglês em seu novo trabalho. No seu segundo longa, o empenho estético é priorizado, frente ao cuidado com o roteiro, em um maneirismo do cineasta que pouco acrescenta em funcionalidade ao conceito que deseja transmitir.
O filme começa com a história de Greg (Benjamin Dilloway), um futuro craque do futebol que teve sua carreira interrompida por uma lesão e, sem perspectiva de emprego em uma cidade do norte da Inglaterra, onde as siderúrgicas já não oferecem mais vagas, ingressa em uma gangue que assalta residências, para poder sustentar sua família. A estrutura familiar, que já era frágil com a falta da presença paterna – não fica muito claro o que aconteceu e quando ele se ausenta, mas a figura do pai influencia diretamente seus filhos – e a situação da mãe acamada – também sem explicações –, piora quando esta morre e Greg é preso.
Como uma espécie de prólogo, o trecho contextualiza o calvário pelo qual Tim (George MacKay) – o verdadeiro protagonista – está passando: além de cuidar da irmã rebelde (Lara Peake) e sustentar a casa seguindo o mesmo caminho do irmão na vida do crime, ele ainda tem de pagar diversas dívidas, sejam oficiais ou ilegais, e lidar com uma notícia inesperada da sua adorável namorada (Charlotte Spencer), aguentando tudo estoicamente. No entanto, a pressão psicológica e moral se manifesta fisicamente, com manchas que lhe aparecem no corpo e náuseas que se intensificam no decorrer da trama, com o aparecimento de sintomas mais graves. Isso é ainda mais evidente graças à performance impecável de George MacKay, que, em outro trabalho na última Mostra, Para Aqueles Em Perigo (2013), já havia demonstrado sua dedicação em outro personagem à beira do total esgotamento.
O problema é que Duane sobrepõe o drama com uma montagem intrincada, com vários primeiros planos, cheios de flare – reflexo do sol na lente – e tratamento de cor azulado, quase como um filtro de Instagram. Apesar do apuro estético da fotografia de David Procter, dando, teoricamente, um aspecto onírico à dura realidade de Tim, isso prejudica sensivelmente o filme, que, em contrapartida, tem uma trilha sonora na medida certa para dar a sensação de pressão e sufocamento vivida pelo protagonista. (Nayara Reynaud)
                                                                                                          
Indicação: 18 anos
Duração: 103 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1       21/10/2014 - 18:00 - Sessão: 485 (Terça)

Deixe seu comentrio:

Imagem de segurana