MOSTRA 2014

O melhor de Veneza 2014 e joias independentes

Equipe Cineweb

UM POMBO POUSOU NUM GALHO REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA 
O diretor sueco Roy Andersson venceu o Leão de Ouro em Veneza este ano com esta obra plural, que constrói sua singularidade com uma mistura sutil de humor, ternura e também reflexão – a partir de seu imenso título. O filme fechou a trilogia formada por Canções do Segundo Andar (2000) e Vocês, os Vivos (2007) com mais uma série de pequenas histórias intercaladas, envolvendo a morte, o subemprego - de dois hilários, embora melancólicos, vendedores de "artigos para fazer rir", como sacos de risadas, máscaras e dentes de vampiro - e também comentários histórico-políticos, envolvendo guerras, colonialismo, genocídio e escravidão.
A maneira como Andersson é capaz de compor estes quadros é muito eficiente e particular, inclusive em termos estéticos, com um descoramento de cores de cenários, figurinos e personagens - o rosto de todos é pintado de branco, o que lhes dá um ar de clowns. É um universo que se assemelha às vezes ao do finlandês Aki Kaurismaki, mas tem o seu próprio tom.  O diretor sueco alinhava histórias, fragmentos, personagens, extraindo da alma deles uma estranha poesia, um humor peculiar e um sentido muito particular e crítico da História, e não só da Suécia. (Neusa Barbosa) 
 
Indicação: 16 anos
Duração: 102 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1             24/10/2014 - 22:20 - Sessão: 770 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1      26/10/2014 - 18:50 - Sessão: 924 (Domingo)
CINESESC                                                            27/10/2014 - 22:15 - Sessão: 1051 (Segunda)
 
ALMAS NEGRAS
Concorrendo na competição principal do último Festival de Veneza, o diretor Francesco Munzio, supera as expectativas ao criar um drama forte sobre uma família criminosa na Calábria. De um lado, o diretor não poupa realismo, ao ambientar o filme na própria região do sul italiano, adotando o dialeto local - o que exigiu um esforço especial da maioria dos atores, para adquirir o domínio e a credibilidade necessários. Exceto alguns deles, como Marco Leonardi (o intérprete famoso de Cinema Paradiso), que é calabrês e interpreta Luigi, um dos três irmãos da família Carbone, o mais duro e violento deles.
Os outros dois são Rocco (Peppino Mazzota), que cuida das finanças, em Milão, enquanto o mais velho, Luciano (Fabrizio Ferracane), que se recusa a envolver-se no tráfico de drogas e armas, além dos acertos de contas, cuida da velha propriedade rural, das cabras e das vinhas. No entanto, seu filho, Leo (Giuseppe Fumo), é impulsivo e decide tomar o caminho do crime ao lado do tio Luigi, uma decisão que transforma radicalmente os destinos.
Uma igreja em ruínas e uma escola abandonada terminam por transformar-se em metáforas eficazes de um relato que valoriza, uma fusão entre o arcaico e o moderno, que termina por definir a situação da Itália - e não só desse país. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 12 anos
Duração: 102 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1        24/10/2014 - 17:00 - Sessão: 727 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1               25/10/2014 - 23:59 - Sessão: 872 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3        27/10/2014 - 17:50 - Sessão: 1007 (Segunda)
RESERVA CULTURAL 1                                          28/10/2014 - 22:10 - Sessão: 1132 (Terça)
 
O SOL DO MARMELO
Algumas das joias desta edição da Mostra são os três longas do cineasta espanhol Victor Erice. Este O Sol do Marmelo (1992) é o mais recente longa deste diretor, que trabalha com grande rigor e meticulosidade em cada projeto. E talvez seja realmente o mais exigente de sua escassa, porém refinada filmografia, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Cannes.
Mesclando organicamente documentário e ficção, o filme acompanha o esforço do pintor Antonio López para retratar um marmeleiro, que ele plantou há alguns anos no jardim de seu estúdio, em Madri. Paralelamente, trabalhadores poloneses reformam a casa, que é frequentada também pelos familiares, amigos e colegas de López.
Ao acompanhar o percurso deste artista, corroteirista do filme, e tão perfeccionista quanto  Erice, o filme se transforma numa reflexão visual, poética e filosófica sobre o tempo e a arte, incorporando deliciosas conversas de López com os visitantes.
Como poucos filmes, O Sol do Marmelo consegue materializar quanta complexidade há na aparente simplicidade de procurar reproduzir a imagem de uma árvore, correndo contra o tempo, que carrega o sol, as estações e os próprios frutos. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 16 anos
Duração: 133 min
 
CINEMATECA - SALA BNDES                 24/10/2014 - 17:00 - Sessão: 754 (Sexta)
MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM          26/10/2014 - 14:00 - Sessão: 968 (Domingo)
 
AS NOITES BRANCAS DO CARTEIRO
O veterano diretor russo Andrei Konchalovsky, de 77 anos, que venceu um Grande Prêmio do Júri em Veneza há 12 anos com Casa dos Loucos, surpreendeu todo mundo com este docudrama cheio de frescor, filmado no norte da Rússia, utilizando-se quase exclusivamente de moradores locais da região próxima ao lago Kenozero. Ganhou um novo e merecido prêmio em Veneza este ano, desta vez de direção.
Com assumida inspiração no neorrealismo, Konchalovsky revela a vida cotidiana de moradores de uma comunidade isolada, reconstituindo seu dia-a-dia sem nenhuma interpretação teatral.  Suas vidas são unidas pela presença de um atencioso carteiro, que costuma trazer notícias, pensões e também apoiar os solitários e os bêbados. Um clima de realismo mágico tempera o filme, que se vale da participação de crianças, da aparição misteriosa de um gato e invoca lendas, como de uma bruxa da água. Mas o míssil que se vê de repente nos ceus numa cena, garantiu o diretor, é rigorosamente real – perto do lago há mesmo uma base militar de lançamento, o que serve como lembrete de belicosa presença russa na Ucrânia. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 18 anos
Duração: 110 min
 
CINESESC                                  24/10/2014 - 23:45 - Sessão: 812 (Sexta)
CINE LIVRARIA CULTURA 1    25/10/2014 - 15:30 - Sessão: 863 (Sábado)
CINE SABESP                             27/10/2014 - 16:15 - Sessão: 1019 (Segunda) 
 
PÁSSARO BRANCO NA NEVASCA
Conhecido por filmes em que as descobertas e possibilidades sexuais estão em primeiro plano, o diretor americano Gregg Araki – de Kaboom, Geração Maldita e Splendor – se arrisca aqui na adaptação do livro homônimo de Laura Kasischke, um thriller dramático, que conversa em forma e conteúdo com sua filmografia.   
Estrelado pelas atrizes Shailene Woodley e Eva Green, o filme traz à tona os conflitos resultantes ao desaparecimento de Eve (Green) para sua filha Kat (Woodley) e marido Brock (Christopher Meloni). O estado aparente de loucura da matriarca nos dias que antecederam seu sumiço é um forte ponto de confusão para Kat, que passa a ter sonhos delirantes com sua mãe.
A partir de uma fonte tão próxima ao seu cinema, Araki mantém seu estilo, abusando da cores, da luz e da leitura alegórica da sexualidade. Ele se aproveita também da ambientação, nos final dos anos de 1980, para potencializar sua trilha sonora com hits da década, em especial da banda Depeche Mode.
Mas o destaque é mesmo das atrizes protagonistas. A queridinha Shailene Woodley, que se despe literalmente no papel da autossuficiente Kat, e Eva Green, que mais uma vez prova sua sensualidade, na pele da excêntrica Eve. (Rodrigo Zavala)

 Indicação: 18 anos
Duração: 91 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   24/10/2014 - 23:45 - Sessão: 736 (Sexta)
 
ANTES DA NEVE
No centro da mídia por causa do avanço do grupo terrorista Estado Islâmico em seu território, a população curda sempre foi sufocada por aquelas que possuem oficialmente a terra, sejam iraquianos, turcos, sírios, entre outros. Por isso, apesar das falhas, não deixa de ser louvável o esforço cinematográfico de Hisham Zaman, um curdo radicado na Noruega, em sua estreia, realizada em 2013 – a Mostra também apresenta na programação, o novo filme do cineasta, Carta ao Rei (2014).
Ele traz à tela a história de Siyar (Taher Abdullah Taher), que, após a morte do pai, se transforma no chefe de sua família e se sente na obrigação de punir a irmã (Bahar Ozen) por fugir da aldeia, a fim de evitar um casamento arranjado para ela e poder viver com o seu amor. Para ir atrás dela, o jovem sai do Curdistão iraquiano rumo a Istambul. Depois, percorre a Europa até chegar a Oslo, tudo isso financiado pela família do noivo da irmã, que deseja vingança. Só que nesse caminho, além de se envolver com contrabandistas, o garoto conhece Evin (Suzan Ilir), que se torna sua companheira de viagem e desperta nele um sentimento desconhecido.
Embora seja uma produção de porte considerável – há curdos, noruegueses e alemães envolvidos –, com gravações em vários países, o filme tropeça no básico. O roteiro e o elenco são fracos, especialmente o jovem ator no papel do protagonista. No entanto, Zaman consegue, ao final, ecoar a questão da pressão das tradições naquelas aldeias e a opressão das mulheres frente à cultura de seu povo – ainda que seja algo que se repete em diversos pontos do planeta. (Nayara Reynaud)
                                                                                                          
Indicação: 12 anos
Duração: 105 min
 
CINE SABESP                                                                   24/10/2014 - 16:45 - Sessão: 751 (Sexta)
CINEMARK - SHOPPING VILLA-LOBOS - SALA 2     28/10/2014 - 19:00 - Sessão: 1146 (Terça)
 
A HISTÓRIA DA ETERNIDADE
Um dos últimos filmes da competição do Festival de Paulínia, logo de cara arrebatou a todo mundo – sendo, aliás, aplaudido em cena aberta, num dos momentos mais bonitos. Arrebatou tanto que levou os cinco principais prêmios: filme, diretor (Camilo Cavalcante), ator (Irandhir Santos), atriz (dividido entre Marcélia Cartaxo, Zezita Matos e Débora Ingrid) e o prêmio da Associação Brasileira de Críticos de Cinema, a Abraccine.  
O longa de estreia deste diretor se passa no sertão nordestino, onde três histórias se interligam tendo como ponto em comum o desejo e a decepção. É um lugar mítico, com figuras emblemáticas, como uma matriarca forte (Zezita Matos), uma espécie de avó coragem, que abriga em sua casa o neto que voltou do sudeste (Maxwell Nascimento).
A outra é uma garota que sonha com o mar (Débora Ingrid), cujos delírios rendem alguns dos melhores momentos do filme. Seu único amigo é o tio (Irandhir Santos), que tenta a protegê-la do pai abusivo (Claudio Jaborandy). O filme é organizado pelas histórias de suas personagens femininas. A terceira é uma mulher (Marcélia Cartaxo), cujo filho pequeno é enterrado na cena inicial, e agora precisa lidar com o luto.
Cavalcante, experiente e premiado diretor de curtas, encontra na forma meditada a materialização estética das emoções e experiências de seus personagens. A câmera se mantém fixa até certo ponto, numa bela cena envolvendo uma canção da banda Secos & Molhados – a partir daí, a câmera e a imagem voam. São opções arriscadas, mas muito bem pensadas e eficientes em compor uma obra que exala poesia sem nunca deixar de fazer um comentário sobre uma paisagem que mesmo árida está inserida no mundo globalizado. (Alysson Oliveira)
 
Indicação: 16 anos
Duração: 120 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 -            24/10/2014 - 21:00 - Sessão: 735 (Sexta)
CINESESC  -                                                                       26/10/2014 - 15:00 - Sessão: 983 (Domingo)
RESERVA CULTURAL 1-                                                  28/10/2014 - 19:50 - Sessão: 1131 (Terça)
 
UMA CASA EM BERLIM
Instigante drama envolve a jornada de uma mulher, a professora escocesa Stella Miles (Susan Vidler), que repentinamente recebe a notícia de que é herdeira de um pequeno prédio em Berlim. Tudo está arranjado para a venda do imóvel, cabendo a ela uma quantia nada desprezível. Mas, por alguma razão, Stella decide ir pessoalmente a Berlim, conhecer o local, que veio às suas mãos pela linha de um tio-avô, Jakob, que ela nunca conheceu.
A partir do contato com dois moradores do prédio e de uma pesquisa pessoal, Stella vai desenrolando um fio complexo de memórias, envolvendo a vida de Jakob e a tragédia pessoal deste ramo de sua família, judeus atingidos em cheio pelos massacres nazistas.
O filme dirigido e co-roteirizado por Cynthia Beatt oferece um percurso existencial interessante e cheio de reviravoltas, além de alguns caminhos inesperados neste tipo de tema. A trajetória pessoal da personagem, no entanto, é a mais rica. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 14 anos
Duração: 96 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1       24/10/2014 - 14:00 - Sessão: 766 (Sexta)
 
3 BELEZAS 
Ao lado do petróleo, um dos produtos nacionais venezuelanos mais reconhecidos internacionalmente é a beleza de suas mulheres. Desde que passaram a ser top no concurso Miss Universo, a partir dos anos de 1970, a estética feminina passou a ser obsessão nacional, em um país onde “la buena presencia” é sinônimo de virtude e trabalho duro.
A preocupação com a beleza, como em todo o mundo, foi acompanhada por um aumento dos procedimentos corretivos para chegar ao padrão: pernas longas, peitos vigorosos, bumbum empinado e uma cintura de vespa. Uma preocupação colocada em xeque pelo diretor e roteirista Carlos Caridad Montero, que em 3 Belezas faz um retrato ficcional caricato, mas fulminante sobre essa compulsão em seu país.
Para isso, dá voz a Perla, uma ex-miss nacional que faz de tudo para sua filha Carolina se tornar princesa de concurso de beleza, mesmo que isso crie problemas para seus outros dois filhos Estefanía e Salvador. Sem dinheiro, vende o que tem para realizar seu sonho, não compartilhado por ninguém em sua família.  
Este primeiro longa-metragem de Montero é repleto de humor negro, tornando o filme uma tragicomédia exagerada, mas agilíssima em sua crítica sobre a ideia que beleza é perfeição, a forte ligação entre os concursos e cirurgia plástica. (Rodrigo Zavala)  

Indicação: 14 anos
Duração: 97 min 
 
RESERVA CULTURAL 1                                           24/10/2014 - 14:00 - Sessão: 802 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1      29/10/2014 - 15:15 - Sessão: 1149 (Quarta)
 
FILMAR OBSTINADAMENTE, UM ENCONTRO COM PATRICIO GUZMÁN 
Autor de documentários fundamentais, como A Batalha do Chile e A Nostalgia da Luz, o cineasta chileno Patricio Guzmán aparece generosamente diante das câmeras do diretor francês Boris Nicot, que faz uma justa homenagem a um profissional que prima pela discrição, engajamento e originalidade, além do inegociável humanismo.
É muito fácil encantar-se por esse sereno septuagenário, sua fala firme detalhando o meticuloso processo de pesquisa de suas produções, pelas quais passa uma parte dramática da história de seu próprio país, onde ele não vive há décadas, desde a ditadura Pinochet, mas do qual ele tampouco se aparta.
O exílio francês, a esta altura voluntário, parece, ao contrário, dar-lhe uma perspectiva única diante das contradições de uma nação tão violentamente dividida ideologicamente, marcada pelas muitas cicatrizes da ditadura, como as execuções e desaparecimentos de milhares de opositores – um contingente que, por pouco, o próprio Guzmán não integrou, já que foi detido no Estádio Nacional, nos primeiros dias do golpe de 1973.
O melhor é acompanhar o ritmo compassado como ele reexamina a confecção de suas principais obras e a sabedoria com que pontifica que talvez leve 100 anos para o Chile superar a herança maldita do arbítrio. Uma atração à parte é conhecer os primeiros detalhes de um novo trabalho do cineasta, já em preparação. Guzmán é destas pessoas cuja simples existência torna o mundo inteiro melhor. (Neusa Barbosa
 
Indicação: 12 anos
Duração: 98 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4      24/10/2014 - 19:00 - Sessão: 774 (Sexta)
MATILHA CULTURAL                                                        28/10/2014 - 18:10 - Sessão: 1117 (Terça)

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