MOSTRA 2014

Último dia da Mostra tem comédias, dramas e cults

Equipe Cineweb

VIVER É FÁCIL COM OS OLHOS FECHADOS
Grande vencedor do Goya, o principal prêmio espanhol, deste ano, com seus troféus – entre eles melhor filme, diretor (David Trueba) e ator (Javier Cámara) – o filme  empresta seu título de um dos versos de Strawberry Fields, dos Beatles,  cujas músicas são uma espécie de razão de ser da história.  Em meados dos anos de 1960, Antonio (Cámara) é um professor de inglês apaixonado pela banda, que usa as músicas como material pedagógico – embora nem sempre tenha certeza se está passando a letra certa, afinal, tira de ouvido.
Quando descobre que John Lennon está em Almeria rodando um filme, Como Eu Ganhei a Guerra, decide ir para lá de carro para ter uma conversa com seu ídolo. No caminho, dá carona a Belén (Natalia de Molina), jovem grávida que fugiu de um abrigo católico para mães solteiras, e Juanjo (Francesc Colomer), que escapou do pai repressor.
Trueba (irmão do premiado diretor Fernando Trueba) narra sob a ótica do humor uma história melancólica de um tempo que já passou – tanto que a fotografia do longa tem um quê de esmaecida. É a jornada de autodescoberta do trio de personagens e de alguns que os cercam, numa Espanha sob a ditadura franquista. Representante da Espanha na busca de uma indicação ao Oscar, o filme deve ser lançado no Brasil no próximo ano. (Alysson Oliveira)
 
Indicação: 12 anos
Duração: 108 min
CINE SABESP  - 29/10/2014 - 19:40 - Sessão: 1176 (Quarta)
 
JAUJA
Vencedor do prêmio da Fipresci (Federação Internacional dos Críticos) na seção Um Certo Olhar do Festival de Cannes, o novo filme do diretor argentino Lisandro Alonso (Los Muertos) é mais um trabalho de ritmo compassado e fôlego peculiar. Desta vez, um filme de época, roteirizado por Alonso e o jornalista e dramaturgo Fabián Casas, ambientado na Patagônia do final do século XIX, quando se lançava a chamada “Conquista do Deserto” – um eufemismo cínico para uma ampla expedição genocida de extermínio dos indígenas locais, chamados acintosamente de “cabeças de coco”.
Junto com os soldados, vem um engenheiro dinamarquês, Gunnar Dinesen (Viggo Mortensen, também co-produtor do filme e compositor de sua trilha) – um europeu deslocado num mundo selvagem que ele não compreende. Ele está acompanhado de sua filha adolescente, Ingeborg (Viilbjork Agger Malling), que desperta a cobiça de vários elementos da tropa, como o jovem soldado Corto. O pai percebe o perigo e tenta reprimir a filha. Mas ela simplesmente desaparece numa noite, junto com Corto.
O desaparecimento da garota lança o pai numa jornada arriscada pela desértica Patagônia adentro, em que cada vez menos seus recursos culturais, “civilizados”, lhe valerão, diante de uma natureza bruta e de singulares encontros com realidades extremas, até mesmo mágicas. Viggo Mortensen, mais uma vez, está impecável na pele deste homem perdido, num filme repleto de climas e possibilidades de leitura. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 16 anos
Duração: 108 min
 
MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM                     29/10/2014 - 19:20 - Sessão: 1201 (Quarta)
 
ELEPHANT SONG
Desta vez, o jovem cineasta Xavier Dolan, cujas obras provocam reações do tipo “ame ou odeie”, integra apenas o elenco desta produção canadense, dirigida por Charles Binamé. O apreço do menino prodígio e prolífico – foram cinco filmes em cinco anos, sendo quatro premiados em Cannes e um em Veneza – por relações maternas conturbadas deve ser a razão para o ator ter escolhido participar deste projeto. O início do longa já apresenta, como um prólogo, um menino que busca inutilmente a atenção da mãe, uma famosa cantora de ópera, durante sua passagem por Cuba, no ano de 1947.
Na sequência, uma autoridade da administração hospitalar (Guy Nadon) entrevista o Dr. Toby Green (Bruce Greenwood), diretor de um hospital psiquiátrico, e a enfermeira Susan Peterson (Catherine Keener) sobre o recente incidente ocorrido no local, em 1966. Só então é introduzido o cerne do filme: o instigante encontro de Green com o instável e inteligente paciente Michael Aleen (Xavier Dolan), para tentar arrancar dele informações sobre o sumiço do psiquiatra Lawrence, que se mostra, ao mesmo tempo, um jogo de xadrez mental e uma sessão de terapia mútua. O jovem usa convenientemente o que sabe sobre o passado do hospital e do diretor, a exemplo de sua relação com Susan, para desestabilizá-lo, enquanto o médico consegue tirar poucas confissões do rapaz - como o porquê de sua fascinação por elefantes, como demonstra o título.
Com a maioria de seus últimos trabalhos na televisão, o diretor, além de desperdiçar Carrie-Anne Moss na subtrama da atual mulher do psiquiatra, também peca ao não obter o resultado desejado nesta adaptação de uma peça do premiado dramaturgo Nicolas Billon, que assina o roteiro. A estrutura teatral do embate entre esses dois “médicos e loucos” contribui para as interpretações, excelentes por sinal, de Dolan, Greenwood e Keener; porém, põe em dúvida o ensejo cinematográfico de Binamé com este projeto. Por fim, apesar de tocante, o desfecho desperta no público a pergunta se o que ocorre seria justificativa suficiente para Michael realizar um joguinho tão perspicaz, que, mesmo com as falhas do longa, envolve o espectador. (Nayara Reynaud)
 
Indicação: 14 anos
Duração: 98 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   29/10/2014 - 21:30 - Sessão: 1152 (Quarta)
 
AMIGOS DA FRANÇA
O título do primeiro longa do casal de montadores, Anne Weil e Philippe Kotlarski, traz o código que os jovens protagonistas usavam para poder entrar em contato com os refuseniks, judeus perseguidos dentro da União Soviética e que pediam asilo em Israel e outros países. A coprodução entre França, Alemanha, Rússia e Canadá tem como cenário a Odessa de 1979, cidade – cujas escadarias ficaram famosas no clássico O Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein –com uma grande comunidade judaica que foi perseguida pelo regime comunista.
Para falar do tema, o roteiro segue a viagem dos primos Carole e Jérôme, na faixa dos 19 anos, para o local, por meio de uma excursão de turistas franceses, na qual se disfarçam como um casal que acabara de noivar. Foi a maneira que encontraram de levar suprimentos, produtos e livros proibidos aos judeus da região, já que a vigilância do regime é tamanha que microfones são colocados nos quartos do hotel e nas residências para espionar a população. Se a jovem tem o idealismo político e social como motor desta aventura, o rapaz só se engaja nesta arriscada jornada para estar ao lado dela.
Além do suspense das ações às escondidas que eles fazem, o longa segue alimentando no público a dúvida se a moça irá ou não ceder à paixão do primo, enquanto ambos se envolvem com jovens judeus da região. Pela escolha de dar mais foco à trama romântica, a narrativa acaba negligenciando o viés político do filme, ainda que a abordagem do tema seja suficiente para gerar no espectador o interesse por mais esse triste capítulo da História. No mais, Amigos da França é um filme instigante que só perde seu ritmo no final, com um prólogo, dez anos depois dos acontecimentos centrais da história. (Nayara Reynaud)
 
Indicação: 16 anos
Duração: 100 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1       29/10/2014 - 18:30 - Sessão: 1185 (Quarta)
 
CÁSSIA
Questionado sobre a razão de realizar um documentário sobre a emblemática cantora Cássia Eller, vítima de um enfarto em 2001, o diretor Paulo Henrique Fontenelle (do premiado Loki - Arnaldo Baptista) é enfático: “Vi que não existia nada sobre ela. Uma pessoa tão importante para a música brasileira não possui um especial de TV. O que eu achei foi uma biografia em catálogo.”
Assumiu, assim, a responsabilidade de trazer às telas, em um trabalho de quatro anos, o documentário Cássia, que mostra as várias facetas desta cantora, tão conhecida pelos estereótipos que provocava com sua atitude enérgica e, ao mesmo tempo, tímida. Uma obra que, sim, traz a irreverência da intérprete, seja nas extensas imagens de arquivo, seja na percepção dos entrevistados (amigos, produtores, críticos e amores, que inclui o filho, Francisco Eller, o Chicão).
O resultado é uma ode à cantora, que exalta seu talento, sem esquecer dos pontos polêmicos, como a ligação às drogas e a sanha da imprensa em sensacionalizar sua morte. Tudo pontuado pela família, que segundo o diretor, deu abertura para tocar em todos os temas.
“Ela (Maria Eugênia Vieira Martins, companheira da cantora) era contra, mas o Chicão falou com ela depois de ver Loki e aí começamos a conversar. A Cássia Eller faz um pouco da trilha sonora do Brasil e das nossas vidas também”, acredita Fontenelle.  (Rodrigo Zavala)

Indicação: 12 anos
Duração: 120 min
 
CINE SABESP                                                                 29/10/2014 - 21:50 - Sessão:
1177 (Quarta)
 
3 BELEZAS
Ao lado do petróleo, um dos produtos nacionais venezuelanos mais reconhecidos internacionalmente é a beleza de suas mulheres. Desde que passaram a ser top no concurso Miss Universo, a partir dos anos de 1970, a estética feminina passou a ser obsessão nacional, em um país onde “la buena presencia” é sinônimo de virtude e trabalho duro.
A preocupação com a beleza, como em todo o mundo, foi acompanhada por um aumento dos procedimentos corretivos para chegar ao padrão: pernas longas, peitos vigorosos, bumbum empinado e uma cintura de vespa. Uma preocupação colocada em xeque pelo diretor e roteirista Carlos Caridad Montero, que em 3 Belezas faz um retrato ficcional caricato, mas fulminante sobre essa compulsão em seu país.
Para isso, dá voz a Perla, uma ex-miss nacional que faz de tudo para sua filha Carolina se tornar princesa de concurso de beleza, mesmo que isso crie problemas para seus outros dois filhos Estefanía e Salvador. Sem dinheiro, vende o que tem para realizar seu sonho, não compartilhado por ninguém em sua família.  
Este primeiro longa-metragem de Montero é repleto de humor negro, tornando o filme uma tragicomédia exagerada, mas agilíssima em sua crítica sobre a ideia que beleza é perfeição, a forte ligação entre os concursos e cirurgia plástica. (Rodrigo Zavala)  

Indicação: 14 anos
Duração: 97 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   29/10/2014 - 15:15 - Sessão: 1149
(Quarta)
 
O PEQUENO QUINQUIN
A julgar por seus trabalhos anteriores, como A Humanidade, A Vida de Jesus e Camille Claudel, pouca gente poderia imaginar que o cineasta francês Bruno Dumont seria capaz de realizar uma comédia. Mas é exatamente dessa missão que ele se desincumbe com brilho nesta minissérie em três capítulos, produzida originalmente para a TV e apresentada em bloco tanto na Quinzena dos Realizadores de Cannes 2014 como agora na Mostra.
O protagonista é um garoto de 12 anos, Quinquin (Alane Delhaye), que mora com a família numa região rural do norte da França, nos arredores de Calais. Ele é o típico moleque, capaz de travessuras e fugindo da fúria dos pais em sua bicicleta. Sempre pode contar com sua turma, especialmente a amigona Eve (Lucy Caron).
A modorra desta vida campestre é subitamente rompida quando se encontra uma vaca morta num antigo bunker abandonado da II Guerra Mundial. Um mistério que vai esgotar as forças de uma impagável dupla de investigadores, o magrelo Carpentier (Philippe Jore) e seu chefe, o capitão Van der Weyden (Bernard Pruvost), figuraça de uma lógica plana e cheio de tiques físicos.
O Pequeno Quinquin acerta em cheio ao criar empatia para esta turma de garotos, cujas espertezas fazem qualquer um rir, assim como as patetadas da dupla de policiais. Aos poucos, com a sequência da trama de mistério, percebe-se que o diretor continua querendo falar das mesmas coisas de sempre, ainda que numa outra chave – ou seja, de como por trás da aparente simplicidade escondem-se grandes perversões. Aí, o humor negro transborda, num trabalho muito original e marcante. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 14 anos
Duração: 200 min
 
RESERVA CULTURAL 1                                              29/10/2014 - 20:40 - Sessão: 1219 (Quarta)
 
AS MARAVILHAS
Nesta coprodução entre Itália e Alemanha, vencedora do Grande Prêmio do Júri em Cannes, desenrola-se o retrato delicado e não muito previsível de uma família um tanto fora do comum. O clã, formado pelos pais, quatro filhas e uma cunhada, mantém uma fazenda de produção de mel.
É um ambiente muito feminino, por mais que a figura do pai (Sam Louvyk) seja forte e corrosiva. A figura feminina predominante nem é a mãe (Alba Rohrwacher, irmã da diretora Alice Rohrwacher), e sim a filha mais velha de 13 anos, Gelsomina (Maria Alexandra Lungu). A menina conduz o negócio e a vida familiar, aparando as arestas entre o pai e a mãe, sempre prontos a explodir, cuidando das três irmãs menores. A tia (Sabine Timoteo) não é de grande ajuda. Eles vivem na Umbria, numa zona fronteiriça, perto da Alemanha. A família também é mista, alemã por parte do pai, italiana, da mãe.
O ponto de vista da história é o de Gelsomina, que está crescendo, virando adolescente e mirando num futuro além do sítio atrasado, do provincianismo, do machismo também. O pai ainda a enxerga como criança, querendo satisfazer um sonho antigo dela – um camelo -, o que destoa de qualquer senso de realidade.
O sonho de Gelsomina agora é entrar num concurso que premiará com dinheiro o melhor agronegócio da região, organizado por um programa chamado “Le Meraviglie” (as maravilhas). Monica Bellucci faz o papel da hostess do programa, Milly Catena, que aparece sempre fantasiada como uma espécie de fada, parodiando a irrealidade exibicionista e cafona desse tipo de programa de TV, que colocará os concorrentes, fazendeiros, vestidos como pastores da Idade Média na edição final que definirá o vencedor.
Este sim é um filme com várias camadas, que não reluta em correr riscos para seguir esta família em tumulto interno, ameaçada de romper-se a cada momento, recompondo-se através do hábito e do afeto. As Maravilhas é um filme sutil que, como sua protagonista, uma atriz natural, diz muito mais do que parece à primeira vista. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 16 anos
Duração: 111 min
 
CINE SABESP                                          29/10/2014 - 15:40 - Sessão: 1174 (Quarta)
 
ELA VOLTA NA QUINTA
A mistura visceral entre ficção e documentário que marcou a 47ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em setembro, atingiu uma nova marca no último longa concorrente, Ela Volta na Quinta, do mineiro André Novais Oliveira.
Premiado por curtas como Pouco Mais de um Mês, em que retratava meio documentalmente o início de seu namoro com Elida Silpe – que novamente comparece no elenco deste longa -, Novais escala como elenco a própria família, seus pais e irmão, a namorada e a cunhada, para viver na tela um drama familiar.
Ao usar a própria família para viver situações que envolvem a separação dos pais, uma traição e mudanças sentimentais na vida do irmão, além de aparecer o tempo todo em cena, interagindo com eles, o diretor tira o espectador de sua zona de conforto e evoca a suspeita – até que ponto esta história toda tem um fundo de verdade e os personagens a estão reencenando ? Ou se trata apenas de uma mera ficção, em que o dado realista fica por conta do parentesco verídico entre os retratados?
Andando nessa linha fina, o filme pretende construir aí sua originalidade, requisitando de seus espectadores um particular envolvimento para concretizar sua viagem. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: livre
Duração: 108 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1            29/10/2014 - 13:00 - Sessão: 1148 (Quarta)
 
 
O CUCO E O BURRO
 
O alemão Andreas Arnstedt ganhou o prêmio de Melhor Diretor na 33ª edição da Mostra, em 2009, com seu primeiro longa, Os Dispensáveis (2009), que abordava o drama de uma família marginalizada na desenvolvida Alemanha. O tema da burocracia lá evocado volta a ecoar em seu novo trabalho, O Cuco e o Burro, apresentado neste ano em São Paulo. Só que agora os entraves burocráticos situam-se na produção cinematográfica e no sistema televisivo nacional – como em outros países, as emissoras de lá coproduzem vários filmes.
A narrativa segue o último e desesperado ato de Conrad Weitzmann (Thilo Prothmann) e sua família para que o seu roteiro seja produzido por uma emissora pública. Para isso, eles sequestram Stuckradt Halmer (Jan Henrik Stahlberg), produtor do canal com quem o pretenso roteirista mantém contato por cinco anos, mas que nunca dá uma resposta sobre o seu texto. Halmer, então, é alojado no porão da casa do estranho clã, enquanto é obrigado por Conrad a revisar o script de seu projeto Pomar das Laranjeiras.
As intenções são boas e as críticas consistentes, mas, para uma sátira, o filme falha no essencial, que é fazer rir. Da mesma maneira, o longa não é suficientemente dramático, nem um thriller. O pai (Joost Siedhoff) é um tanto sanguinário e odioso, mas as mortes que ocorrem não impactam nem geram risos – e, muito menos, um romance. Há um jogo de interesse misturado a uma Síndrome de Estocolmo em sua relação com a irmã do seu raptor (Marie Schöneburg). Mesmo patinando, sem encontrar seu tom ou o equilíbrio entre as diversas abordagens, a obra foi uma das mais votadas pelo público da Mostra. (Nayara Reynaud)
 
Indicação: 12 anos
Duração: 95 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5   29/10/2014 - 18:20 - Sessão: 1170 (Quarta)
 
 
MOTIVAÇÃO ZERO
 
A cineasta israelense Talya Lavie, logo em sua estreia em longas, apresenta uma das comédias mais insanas desta edição da Mostra – que, curiosamente, teve outra delas em sua abertura, com Relatos Selvagens (2014). A sátira de humor negro ao exército israelense vem com o respaldo dos dois prêmios que recebeu no Festival de Tribeca deste ano: o principal, de Melhor Filme de Ficção, e o “Nora Ephron”, dado ao realizador que mostra uma “voz distinta”. Seu diferencial foi justamente tratar um tema tão recorrente na cinematografia de seu país pelo viés cômico, além de trazer isso para o universo feminino, já que os homens aparecem somente em pequenos papéis na coprodução Israel-França.
A trama gira em torno do escritório administrativo, onde só trabalham mulheres, de uma base militar no sul de Israel. Ela acompanha, essencialmente, a dupla de amigas formada pela petulante Zohar (Dana Ivgy) e a chorosa Daffi (Nelly Tagar), cuja amizade está prestes a ser abalada. Isso porque a segunda, que tem a função de recolher e triturar todos os papéis já inúteis do regimento, deseja sair de qualquer modo daquele deserto e ser transferida para Tel Aviv, para desespero da primeira, responsável pelas correspondências, que quer apenas passar seus dias de serviço militar obrigatório jogando Campo Minado e Paciência impunemente – para desespero de sua chefe – e procurando um pretendente.
Talya Lavie já trabalhou como roteirista de séries de TV, o que explica a estrutura seriada do filme, do qual ela também assina o roteiro, composto por três histórias – a primeira delas inspirada em seu curta A Substituta (2005), premiado no Festival de Berlim –, nas quais o GC nem era necessário para notar a clara divisão do script. Isso, no entanto, não atrapalha o ritmo da narrativa, já que a cineasta não tem nenhum pudor em fazer piadas escrachadas e sexuais, por exemplo, e flertar com um humor non-sense, como na impagável briga de grampeadores automáticos. Tudo isso, porém, a serviço de uma crítica mordaz à burocracia do exército nacional, ao serviço militar obrigatório e ao machismo, entre outros assuntos. (Nayara Reynaud)
 
Indicação: 14 anos
Duração: 100 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   29/10/2014 - 21:50 - Sessão: 1162 (Quarta)
 
 
O MESTRE DOS BRINDES
 
Nascido em Barcelona e residente na Califórnia, Eric Boadella tirou de uma experiência com um amigo armênio a inspiração para seu longa de estreia. Um belo brinde dele fez com que o diretor se interessasse por esta arte e conhecesse o quanto a tradição do toastmaster é importante para o povo armênio, ainda que esteja desaparecendo. Para isso, ele faz esta homenagem aos imigrantes do país do Cáucaso nos Estados Unidos – a recepção dos que vivem em São Francisco ao filme foi boa, segundo o realizador –, ambientando-a na comunidade de Los Angeles.
No caso, o jovem Alek (David Hovan), junto com sua pequena irmã Mariella (Kali Flanagan), vai passar uns tempos na casa do seu tio Kapriel (Sevag Mahserejian, o melhor do elenco), antes da cerimônia do segundo casamento de sua mãe. O senhor recluso quer aproveitar esse momento para passar ao sobrinho a tradição de família e torná-lo o novo mestre dos brindes, já para a festa de sua ex-cunhada. Enquanto isso, o blogueiro que deseja tornar-se cineasta filma uma história sobre o homem mais poderoso da máfia armênia, inspirando-se em seu próprio tio.
Essa vertente da trama, criada justamente para relacionar o trabalho do toastmaster com o do cineasta, no entanto, é a que apresenta mais falhas em um roteiro que carece de melhor tratamento. O texto do próprio Eric oferece momentos graciosos que abrem um sorriso no espectador, mas algumas gags não funcionam e demonstram o ritmo inconsistente do longa, que ganhou prêmios no Festival de Málaga. Mesmo assim, para um debut com uma produção de baixíssimo orçamento – o filme foi financiado via crowdfunding e contou com a ajuda de parentes da equipe –, Boadella já demonstra um sincero olhar para uma das coisas mais simples e importantes da vida, e que faz parte de seu ofício: contar histórias. (Nayara Reynaud)
 
Indicação: Livre
Duração: 78 min
 
CCSP - SALA LIMA BARRETO                29/10/2014 - 20:40 - Sessão: 1215 (Quarta)
 
 
ANOITECE NA ÍNDIA
 
O documentarista Chema Rodríguez se arrisca pela primeira vez na ficção, trazendo à tela um simpático road movie, repleto de clichês, que apresenta uma aventura intercontinental pelos mistérios da alma humana. Na construção do roteiro, escrito também por Pablo Burgués e David Planell, ele aproveita parte do seu próprio livro, Anochece em Katmandú, que traz a história real de Lorenzo del Amo, um viajante que levava várias pessoas à Índia nos anos 1970 e desejava voltar para lá. Aqui, o protagonista é Ricardo (Juan Diego), um hippie que sente saudades dos tempos em que ia para a Índia e outros países da região, justamente quando encontrara o amor da sua vida, Gadhali (Vanessa Castro).
Mas agora, que uma doença degenerativa o deixou em uma cadeira de rodas e sob os cuidados da romena Dana (Clara Voda), ele decide partir, em uma viagem por terra, para o país em que deseja passar o fim dos seus dias. Entretanto, uma série de acontecimentos faz com que sua seca e fria cuidadora o acompanhe nesta jornada, passando por terras europeias e asiáticas. E muito mais do que companheirismo, um amor improvável surge no meio do caminho deles.
Apesar de construir um bom fundo de mistério sobre o passado de Dana, o roteiro não dá boas justificativas para que ela tenha se apaixonado e ainda prefira ficar com um homem hostil como Ricardo em vez da alguém muito importante em sua vida, já passados nove meses de sua permanência e exílio psicológico na Espanha. É só uma das falhas do script, a exemplo da entrada, em certo momento da viagem, da jovem sueca Karin (Linda Molin) como se fosse para cumprir a cota da Suécia na coprodução do filme, realizado também pela Espanha e Romênia. Isso, somado ao desfecho destoante, poderiam tornar decepcionante a experiência de assistir este filme, não fossem as ótimas atuações de Juan Diego e Clara Voda, injetando profundidade em seus personagens e criando uma química interessante entre este casal de opostos. (Nayara Reynaud)
 
Indicação: 16 anos
Duração: 99 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1       29/10/2014 - 16:30 - Sessão: 1184 (Quarta)

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