MOSTRA 2014

Dando a largada com concorrentes de Cannes e documentários de peso

Equipe Cineweb

 Burroughs: O Filme
Amigo dos escritores beat Jack Kerouac e Allen Ginsberg, William Burroughs (1914-1997) ganha vida neste documentário apaixonante, realizado em 1983 por um jovem cineasta, Howard Brookner, e que sumiu de circulação por mais de 30 anos, depois da morte prematura deste, em 1989, aos 35 anos.
Deve-se à persistência de um sobrinho de Brookner, Aaaron, o esforço para descobrir o paradeiro das cópias do filme, levantando fundos para sua remasterização e volta à circulação. O que se vê na tela é uma impressionante entrega de Burroughs, contando com sinceridade sua vida, sua difícil infância, suas aventuras com drogas – uma delas culminou no assassinato acidental de sua primeira mulher, em 1951 -, suas viagens pelos quatro cantos do mundo e o resgate de todas estas vivências e tragédias em sua pujante literatura, em títulos como Junky (53) e Almoço Nu (59).
E pensar que tudo começou em 1978, como um modesto projeto de conclusão de curso de cinema de Brookner, que contou desde os primeiros dias com a parceria de um colega e amigo da faculdade, o futuro diretor Jim Jarmusch, que alternou câmera e som desde as primeiras imagens. Depois, o filme foi crescendo, em tomadas que se realizaram ao longo de cinco anos, finalizando-se a versão definitiva do filme em 1983. O próprio Brookner, dono dos direitos de seu trabalho, e Burroughs distribuíram e exibiram o documentário então pelos quatro cantos dos EUA (40 cidades) e também na Europa, até que a morte do cineasta o desse como perdido. Bendito sobrinho. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: Livre.
Duração: 90 min.
 
CINE SABESP                                                       16/10 - 17:45 - Sessão: 27 (Quinta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   17/10 - 16:00 - Sessão: 108 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4   18/10 - 23:59 - Sessão: 213 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   19/10 - 22:30 - Sessão: 302 (Domingo)
 
 
 Foxcatcher : Uma história que chocou o mundo
Ganhador do prêmio de direção para Bennett Miller (Capote), no Festival de Cannes deste ano, Foxcatcher: Uma história que chocou o mundo traz Channing Tatum como um praticante de Luta Olímpica, Mark Schultz, ganhador da medalha de ouro nos jogos de 1984. Apesar do sucesso esportivo, ele leva uma vida sem muitas perspectivas, com  muito treino árduo e pouco dinheiro, vivendo praticamente de palestras que pouco lhe rendem.
Sua sorte muda quando o empresário e milionário John du Pont (Steve Carell), o procura para patrociná-lo. Esse personagem, aliás, é uma figura peculiar. Herdeiro de uma das famílias mais ricas dos EUA, vivendo sob o domínio da mãe (Vanessa Redgrave), com um complexo de Édipo mal resolvido, ele quer ser o melhor em tudo. Taciturno, mas rico, com seu dinheiro e conversa acaba ganhando a confiança do lutador, que abandona os treinos ao lado do irmão, David (Mark Ruffalo), e se muda para um luxuoso centro de treinamentos na propriedade da família du Pont.
John começa a canalizar suas aspirações e anseios no jovem lutador, que, claramente, sente o peso da pressão. Aos poucos, as relações vão se degringolando. O roteiro de E. Max Frye e Dan Futterman é um estudo de personagem sombrio, em que se insinua a suspeita de que o tal sonho americano é uma grande mentira. Não por acaso, a bandeira do país aparece tantas vezes em cena – em algumas delas, pendurada no escritório de John.
É bem provável que Foxcatcher : Uma história que chocou o mundo seja lembrado nas indicações a prêmios como Oscar e Globo de Ouro. Não apenas nas categorias filme e direção, mas provavelmente para os atores. Carell e Tatum estão especialmente surpreendentes, distantes dos tipos que os tornaram famosos. O lutador, por exemplo, não tem nada de heroico, pelo contrário, é um sujeito decadente que se esforça para sobreviver num mundo que o engolirá. Já Carell, bem distante do registro da comédia, cria uma figura taciturna – cujo rosto é coberto por uma maquiagem e uma prótese nasal – e assustadora.
A previsão de estreia para o filme no Brasil é para o começo de 2015. (Alysson Oliveira)
 
Indicação: 18 anos.
Duração: 130 min.
 
CINE LIVRARIA CULTURA 1  -                                   16/10 - 17:00 - Sessão: 38 (Quinta)
CINEMARK - SHOPPING VILLA-LOBOS - SALA 2 -  17/10 - 19:00 - Sessão: 186 (Sexta)
CINE SABESP -                                                           19/10 - 20:00 - Sessão: 315 (Domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 -        20/10 - 18:00 - Sessão: 378 (Segunda)
 
 Sinfonia da Necrópole
Depois de uma sessão muito bem recebida no Festival de Paulínia (de onde saiu apenas com um prêmio de trilha sonora, embora merecesse muito mais), Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas, estreia em São Paulo na 38ª Mostra. Musical ambientado num cemitério que fala da precarização do trabalho e especulação imobiliária – ou seja, nada mais atual –, o filme é, acima de tudo, muito divertido, seja em seus personagens (especialmente o coveiro que não leva jeito para o trabalho) ou nas canções, compostas pela diretora e com melodia de Marco Dutra – parceiro dela na direção de diversos curtas e do longa Trabalhar Cansa.
Deodato (Eduardo Gomes) é um jovem aprendiz de coveiro (e ex-plantador de couves), que se sente mal toda vez que vê um enterro. Com a chegada de Jacqueline (Luciana Paes), funcionária responsável pela reestruturação do cemitério, sua rotina muda, e ele passa a assessorá-la na catalogação dos jazigos.
Há um lado lúdico, e um outro social no filme. O primeiro, por mais estranho que possa parecer, está ligado exatamente ao cemitério, à dialética da vida e da morte, às canções. O outro evoca o teatro épico da dupla Bertolt Brecht e Kurt Weill (autores de obras como A ópera dos três vinténs). É aqui que, de forma sutil mas impactante, Juliana fala de questões sérias. A reestruturação do cemitério se revela com um jogo de especulação imobiliária – arranjar as coisas de modo que o terreno possa render mais - disponibilizando espaço para novas sepulturas.
Em seu primeiro longa solo, Juliana está bastante segura de suas opções, e em momento algum titubeia. As músicas e suas coreografias – há um balé de mortos-vivos que é hilário – causam um estranhamento bem-vindo. O filme aponta para uma diretora a quem se deve prestar atenção. (Alysson Oliveira)
 
Indicação: 12 anos.
Duração: 85 min.
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 -              16/10 - 21:30 - Sessão: 10 (Quinta)
CINESESC -                                                                       17/10 - 16:45 - Sessão: 174 (Sexta)
CINEMATECA - SALA BNDES -                                        20/10 - 18:00 - Sessão: 400 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1-               27/10 - 16:10 - Sessão: 996 (Segunda)
 
El Cuarto Desnudo
 
Segundo longa de Nuria Ibáñez, diretora do documentário La Cuerda Floja (2009) e do curta Sopa de Pescado (2006), a produção mexicana é um forte retrato dos dramas que atingem indivíduos no período mais complicado de suas vidas: a fase de desenvolvimento e transformação que caracteriza a infância e a adolescência. A jornalista espanhola, radicada no México, faz de seu novo trabalho um filme cru assim como o título evoca. Neste documentário, a câmera se detém apenas nos pacientes atendidos no Hospital Psiquiátrico Infantil Dr. Juan N. Navarro, em Tlalpan (MEX), deslocando-se raras vezes para seus pais, que, em geral, só têm sua voz captada, assim como os médicos, que nunca aparecem.
Sempre em planos fechados, em sua maioria close-up’s, ela registra as crianças e jovens durante as consultas, reagindo ao que falam sobre eles e dando a sua própria versão sobre o que os aflige. Tudo isso sem nenhum tipo de recurso adicional, como narração em off ou uso de cartelas explicativas. Uma escolha acertada, mas que pode, talvez, demonstrar-se um pouco cansativa para alguns espectadores. No entanto, as pinceladas das histórias trazidas são tão interessantes que não dispersam o público.
É um retrato da juventude contemporânea, que sofre pela separação dos pais, com um ambiente familiar hostil, a insatisfação com o próprio corpo, relacionamentos amorosos, sexualidade e, também, abusos sexuais, fazendo com que alguns recorram à mutilação ou tentem se suicidar. Trata-se do ponto forte e também do ponto mais fraco de El Cuarto Desnudo: a questão ética implícita na grande exposição dada aos seus personagens, ainda mais sendo menores de idade, que podem, dentro em breve, se arrepender de terem aberto suas vidas desta maneira. Pelo sim, ou pelo não, é um documentário que merece ser visto e debatido. (Nayara Reynaud)
 
Indicação: 10 anos
Duração: 70 min.
 
CCSP - SALA LIMA BARRETO                                         16/10 - 15:00 - Sessão: 68 (Quinta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4         17/10 - 19:45 - Sessão: 146 (Sexta)
MATILHA CULTURAL                                                        19/10 - 16:15 - Sessão: 343 (Domingo)
CINEMATECA - SALA PETROBRAS                                 24/10  -17:00 - Sessão: 757 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4                26/10 -  21:00 - Sessão: 940 (Domingo)
 
O segredo das águas
Exibido em competição, mas saindo sem prêmios, do mais recente Festival de Cannes, o filme japonês desdobra as várias camadas de uma crônica familiar, ambientada numa ilha, que é governada pelos ritos da vida e da morte, inclusive na natureza – temas caros à diretora em obras anteriores, como A Floresta dos Lamentos (2007).
Modernidade e arcaísmo se entrelaçam na vida de duas famílias, cujos filhos adolescentes de 16 anos, estão vivendo um romance. Eles são Kyoko (Myuki Matsuda) e Kaito (Jun Murakami), cujos passeios de bicicleta em torno da ilha evocam a Nouvelle Vague, em seu apego pelas emoções à flor da pele, pela vida nos exteriores. Kaito é filho de mãe separada. Kyoko vive com os pais, mas sua mãe está morrendo.
A lenta e dolorosa despedida desta mãe, ao mesmo tempo em que brota sua sexualidade, são os dois impulsos contraditórios da vida de Kyoko, uma jovem ousada, desinibida e corajosa. Kaito, por sua vez, vive um tumulto interior, não só por seus conflitos com a mãe, que está refazendo sua vida amorosa, como pela descoberta do corpo de um afogado.
Signos de morte, como este cadáver e duas insuportáveis cenas de sacrifício de cabras, surgem de vez em quando na tela, que retrata também a natureza idílica desta ilha, povoada por poucas pessoas, como um velho que procura não depender de ninguém. Ao mesmo tempo, a ameaça de tufões é um lembrete de que o mesmo mar cristalino propício ao surfe, onde Kyoko mergulha como uma sereia, sem se incomodar de despir seu uniforme escolar, é, como diz Kaito, um ser vivo. Por isso mesmo, sujeito aos seus humores e explosões. No todo, O Segredo das Águas é um belo filme, o mais maduro, consistente e ambicioso da diretora até aqui.  (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 16 anos.
Duração: 121 min.
 
CINESESC                                                             16/10 - 15:00 - Sessão: 76 (Quinta)
CINE LIVRARIA CULTURA 1                                17/10 - 18:30 - Sessão: 135 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1   19/10 - 13:00 - Sessão: 288 (Domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1          20/10 - 21:50 - Sessão: 410 (Segunda)
 
Acima das Nuvens
O bom diretor francês Olivier Assayas compôs aqui um filme com batida teatral, contrapondo uma estrela veterana no papel de uma diva do teatro, Juliette Binoche, ao lado de duas das mais midiatizadas jovens atrizes do cinema mundial, Kristen Stewart, como sua assistente, e Chloe Grace Moretz, interpretando uma jovem atriz cuja carreira decola na esteira de uma série de escândalos na internet – e ela estará no palco, ao lado da diva, fazendo o mesmo papel que ela defendeu, anos atrás. Agora, ela vai fazer o outro papel feminino, de uma mulher mais velha.
O status das intérpretes fora da tela se insinua nas suas personagens, se bem que numa chave sóbria. O eixo do roteiro, também assinado por Assayas, pisca um olho para o enredo de A Malvada, sem a mesma acidez, e sem arriscar-se mais em ousadias possíveis. Por isso, talvez, não pareceu o grande filme que muitos esperavam do sólido diretor de Depois de Maio e Horas de Verão (que aliás está na programação da Mostra). (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 14 anos.
Duração: 123 min.
 
CINESESC                                                            16/10 - 21:30 - Sessão: 79 (Quinta)
CINEMARK - METRÔ SANTA CRUZ - SALA 9    17/10 - 21:00 - Sessão: 161 (Sexta)
CINE SABESP                                                      18/10 - 14:00 - Sessão: 219 (Sábado)
RESERVA CULTURAL 1                                      20/10 - 14:00 - Sessão: 423 (Segunda)

Deixe seu comentário:

Imagem de segurança