MOSTRA 2014

Engajamento e memórias no documentário e na ficção

Neusa Barbosa

 Leviatã
O diretor russo Andrei Zvyagintsev (Leão de Ouro em Veneza com sua estreia, em 2003, com O Retorno) constrói um drama, com muitos toques de sátira e os dois pés na realidade contemporânea russa. Seu foco é uma família, moradora de uma cidadezinha perto do mar de Barents, no glacial norte russo, cuja vida é destruída por um prefeito criminoso, em torno do qual se movem as engrenagens do poder russo, a justiça, a polícia e até mesmo a Igreja Ortodoxa.
Há um sentido de ameaça iminente, a sensação de que, a qualquer momento, alguém vai ser morto, enquanto se desenrola o enfrentamento entre Kolia (Alexei Serebriakov), mecânico e dono de uma casa perto da praia, e o prefeito Vadim Cheleviat (Roman Madianov). Obcecado em obter a propriedade de Kolia a qualquer preço, o mafioso prefeito torna-se cada vez mais impiedoso.
Kolia comporta-se como outro obcecado, mas por não perder a casa de sua família, que inclui seu filho Roma (Serguei Pokhodaev) e a segunda mulher, a jovem Lilya (Elena Liadovna). Por isso, convoca um amigo de sua juventude, o advogado Dmitri (Vladimir Vdovitchenkov). Ele vem de Moscou com um dossiê sujo sobre o prefeito debaixo do braço, disposto a chantageá-lo para manter a casa nas mãos do amigo.
A partir daí, o jogo se torna cada vez mais bruto, embora não faltem toques de humor. Uma das sequências mais impagáveis reúne um grupo de personagens numa bizarra comemoração de aniversário, que combina um churrasco na beira de um rio com um torneio de tiro, cujos alvos serão retratos de antigos líderes da URSS, como Brezhnev e Gorbachev. O retrato de Yeltsin está de cabeça para baixo, mas ele é explicitamente mencionado. Quando alguém sente falta dos “mais recentes”, alguém explica: “Ainda não temos perspectiva histórica”.
Se foi poupado deste tiroteio, o retrato do líder russo Vladimir Putin foi visto bem à mostra no gabinete do prefeito bandido – o que é, no mínimo, um sinal de que Zvyagintsev não pretende excluir o atual governo do comentário demolidor que faz sobre a ética em seu país, ainda que um dos financiadores do filme seja o ministério da cultura russo. Numa outra cena, vê-se brevemente uma pichação de muro onde se lê “Pussy Riot”, lembrando as roqueiras russas que foram mandadas à prisão por Putin.
Zvyagintsev fez um filme forte, cheio de camadas, com muitas qualidades e alguns furos. Ainda assim, tem substância para merecer atenção.  
 
Indicação: 18 anos
Duração: 140 min.
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2               17/10/2014 - 20:30 - Sessão: 105 (Sexta)
RESERVA CULTURAL 1                                                  18/10/2014 - 22:40 - Sessão: 271 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - POMPÉIA SALA 1            19/10/2014 - 20:40 - Sessão: 366 (Domingo)
 
 
 Dois dias, uma noite
Escalando, pela segunda vez em sua carreira, uma atriz famosa num papel principal – no caso aqui, a francesa Marion Cotillard -, os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne compuseram aqui um conto sobre ética em que só um julgamento apressado pode enxergar simplicidade.
A trama é mínima: empregada de uma fábrica de painéis de energia solar, Sandra (Marion Cotillard) é demitida, depois de uma votação entre seus colegas em que tiveram que eleger entre mantê-la no trabalho e receber um bônus de mil euros.
Por insistência de uma colega, Juliette (Catherine Salée), o gerente é convencido a refazer a votação dentro de alguns dias. Assim, Sandra terá o fim de semana para derradeiro e desesperado esforço de convencimento junto aos colegas para reverter a situação.
Recém-recuperada de uma depressão, mas ainda frágil e tomando medicação, Sandra sente-se na posição de uma mendiga, suplicando pelo emprego. Enfrenta todo tipo de reação por parte dos colegas, o que dá lugar à discussão sobre a grande questão: que tempo é esse em que vivemos em que os trabalhadores são jogados uns contra os outros diante de decisões que, em última análise, não são deles? Por que é que têm que escolher entre ganhar um bônus e desempregar uma mãe de família igual a eles?
Em tudo se insinua a grande questão da contemporaneidade, que é de ética, de política, de desorganização, de egoísmo, de desumanização. Os colegas de Sandra, imigrantes alguns deles, são encostados contra a parede, como ela. Parece não haver possibilidade de escolha pessoal, de saída digna. Mas, no universo dos Dardenne, a reafirmação de que esta escolha sempre existe, ainda que não enseje uma solução mágica de super-herói, é o bálsamo realista que nunca é demais ouvir. O humanismo possível diante de um niilismo que tenta se colocar como a única opção.
Na pele desta heroína fragilizada, Marion Cotillard é, como sempre, sublime.
 
Indicação: 18 anos.
 
Duração: 95 min.
 
RESERVA CULTURAL 1                      17/10/2014 - 18:30 - Sessão: 170 (Sexta)
CINESESC                                            18/10/2014 - 18:15 - Sessão: 274 (Sábado)
CINE LIVRARIA CULTURA 1                23/10/2014 - 21:45 - Sessão: 665 (Quinta)
 
 
 Infância
Baseado numa peça do começo dos anos 1980, Do Fundo do Lago, remontada recentemente, o diretor carioca Domingos de Oliveira revisita memórias de sua infância, temperando-as com pitadas de sua peculiar fantasia.
O alterego de Domingos aqui é um menino, o estreante Raul Guaraná, interpretando Rodriguinho, o centro das atenções de uma família de alta classe média. Ele é a única criança numa ampla casa, dominada por sua avó, dona Mocinha (Fernanda Montenegro), que exerce seu poder sobre todos os demais habitantes, numa mescla de ternura e despotismo – um personagem que cai muito bem nas mãos de uma atriz tão experiente.
O grande drama se desenvolve quando ela descobre que seu genro, Henrique (Paulo Betti), que é seu procurador, vendeu, sem autorização dela, alguns terrenos – tudo pensando em como preservar um modo de vida cujos hábitos dispendiosos já não se sustentam mais, o que custa a entrar na cabeça não só da matriarca, como da filha dela, esposa de Henrique e mãe do menino, Conceição (Patricia Rozenbaum), e de seu irmão, Orlando Ricardo Kosovski).
Domingos consegue criar um painel nuançado de uma família aristocrática dos anos 1940, inserindo detalhes saborosos do contexto da época, como a fixação de dona Mocinha por ouvir os inflamados programas radiofônicos do furibundo jornalista Carlos Lacerda. O filme foi exibido nos recentes festivais de Paulínia e Gramado.  
 
Indicação: 14 anos
Duração: 84 min.
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2           18/10/2014 - 20:45 - Sessão: 200 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1           19/10/2014 - 15:30 - Sessão: 289 (Domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4     24/10/2014 - 14:00 - Sessão: 771 (Sexta)
 
 
 Filmar obstinadamente, um encontro com Patricio Guzmán
Autor de documentários fundamentais, como A Batalha do Chile e A Nostalgia da Luz, o cineasta chileno Patricio Guzmán aparece generosamente diante das câmeras do diretor francês Boris Nicot, que faz uma justa homenagem a um profissional que prima pela discrição, engajamento e originalidade, além do inegociável humanismo.
É muito fácil encantar-se por esse sereno septuagenário, sua fala firme detalhando o meticuloso processo de pesquisa de suas produções, pelas quais passa uma parte dramática da história de seu próprio país, onde ele não vive há décadas, desde a ditadura Pinochet, mas do qual ele tampouco se aparta.
O exílio francês, a esta altura voluntário, parece, ao contrário, dar-lhe uma perspectiva única diante das contradições de uma nação tão violentamente dividida ideologicamente, marcada pelas muitas cicatrizes da ditadura, como as execuções e desaparecimentos de milhares de opositores – um contingente que, por pouco, o próprio Guzmán não integrou, já que foi detido no Estádio Nacional, nos primeiros dias do golpe de 1973.
O melhor é acompanhar o ritmo compassado como ele reexamina a confecção de suas principais obras e a sabedoria com que pontifica que talvez leve 100 anos para o Chile superar a herança maldita do arbítrio. Uma atração à parte é conhecer os primeiros detalhes de um novo trabalho do cineasta, já em preparação. Guzmán é destas pessoas cuja simples existência torna o mundo inteiro melhor.  
 
Indicação: 12 anos
Duração: 98 min
 
MATILHA CULTURAL                                                  17/10/2014 - 14:00 - Sessão: 156 (Sexta)
CCSP - SALA LIMA BARRETO                                   18/10/2014 - 17:30 - Sessão: 265 (Sábado)
FAAP                                                                            20/10/2014 - 19:00 - Sessão: 419 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4   24/10/2014 - 19:00 - Sessão: 774 (Sexta)
MATILHA CULTURAL                                                  28/10/2014 - 18:10 - Sessão: 1117 (Terça)

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