MOSTRA 2014

Vencedores em Cannes e surpresas europeias

Equipe Cineweb

Relatos Selvagens
 
Depois de abrir a 38ª Mostra – e antes da estreia, programada para o próximo dia 23 -, Relatos Selvagens tem a última exibição no festival neste domingo (19). O longa argentino, produzido pelos irmãos Pedro e Agustín Almodóvar, é composto de vários segmentos nos quais a barbárie se torna a lei. Para seu diretor, Damián Szifrón, que esteve em São Paulo para acompanhar a sessão inaugural, o que mais atrai no filme é que “os personagens são de verdade”. E completa: “gosto de filmes com gente de carne e osso”.
O que une cada uma de seus personagens é um desejo de vingança – seja de um homem contra o sistema burocrático, de dois motoristas que se envolvem numa disputa numa estrada ou de uma noiva que descobre que foi traída durante a festa de casamento. “A vingança é um tema universal, e que também tem muito a ver com a fantasia. Todo mundo sonha com a vingança, mas a verdade é que poucas pessoas conseguem realizar. Isso tudo está ligado à imaginação, por isso tantos filmes sobre o tema”.
O cineasta conta que os Almodóvar se interessaram por seu trabalho depois de assistirem Tiempo de Valientes, que Szifrón lançou em 2005. “Eles me procuraram na Argentina e disseram que gostariam de participar de alguma produção minha. Levei alguns anos para fazer esse filme. Quando achei que estava na hora, voltei a falar com eles”. Uma das coisas que ele ressalta é que teve liberdade total na sua criação. “Como Pedro é diretor, sabe da importância do controle criativo, por isso me deixou fazer o filme do jeito que eu queria. Não deu sugestão nenhuma, nem no roteiro, nem em momento algum”.
O diretor passou um bom tempo trabalhando no roteiro. Revela que prefere escrever à mão, a céu aberto, bem longe de um escritório. “Começou com um exercício sobre a perda de controle, a selvageria. E vejo isso tudo muito presente também no processo de escritura. Quando escrevo, estou livre para julgar e experimentar. As filmagens, no entanto, são o contrário: é necessário ter mais precisão, mais método”.
Com um humor parecido com o do filme, o diretor afirma que tem vários roteiros que pretende filmar. Um deles é uma ficção científica épica em quatro partes que vai desde o Antigo Testamento, e “irá revolucionar o mundo”. E também tem algumas outras histórias para uma sequência do Relatos Selvagens. “Poderia se chamar Mais Relatos, Mais Selvagens”, diverte-se.
 Para o filme, Szifrón diz que selecionou os melhores atores da Argentina. “Eu precisava de gente de teatro, porque teria de repetir as cenas várias vezes, e sempre com frescor. Ator de televisão não consegue fazer isso”. Entre os atores está Ricardo Darín, que, para o diretor, é o maior intérprete argentino em atividade. A argentina Érica Rivas é outra que integra esse time, no papel da noiva traída do último segmento.
“Eu nunca me senti traída, mas devo ter sido traída, claro. Mas eu não faria como ela, não sou tão ciumenta assim. Acredito que fidelidade é uma construção cultural, não tem muito a ver com sentimentos”, explicou a atriz em entrevista em São Paulo. “Por isso me custou muito a entender o que se passava com a personagem. Conversei com amigos e amigas ciumentos para tentar entender”.
Apesar do sucesso do longa em seu país, que já fez mais de 2,5 milhões de ingressos, a atriz pondera que “argentino não vê muito cinema argentino”,uma situação que o governo local tenta reverter com políticas de estímulo. No caso de Relatos Selvagens, ela vê uma confluência de fatores que ajudaram no desempenho: como o fato de ser comédia e a temática da vingança. “Além disso, Damián sempre pensou no público, apesar de ter uma visão muito especial. Ele sempre quis contar de uma maneira fácil para chegar às pessoas”.
Relatos Selvagens é o filme escolhido pela Argentina para tentar uma vaga na categoria de filme estrangeiro no Oscar. Szifrón se diz empolgado, mas observa que não vê tanta importância na premiação. “Prêmios são importantes, mas hoje me importam mais os filmes de que gosto, do que os oscarizados. Eu prefiro que se conecte com o público”. Nessa questão, Érica faz coro: “O filme já passou por coisas tão grandes, como a exibição na mostra competitiva de Cannes. Estar lá foi uma vitória: um filme latino, que não fala de pobreza e que é uma comédia não é bem o perfil que eles costumam selecionar”. (Alysson Oliveira)
 
Indicação: 14 anos.
Duração: 122 min.
RESERVA CULTURAL 1 -19/10/2014 - 17:40 - Sessão: 356 (Domingo)
 
 
Winter sleep
O grande vencedor da Palma de Ouro em Cannes tem um perfume do teatro sutil do russo Anton Tchecov, ao apoiar-se nos dilemas interiores, que se desenvolvem revelando contundentes conflitos pessoais, familiares e sociais através do manejo afiado da arquitetura da palavra.
Não por acaso, o protagonista, o ator aposentado e hoteleiro Aydin (Haluk Bilginer), que vive num hotel ancorado no esplêndido cenário das montanhas geladas da Capadócia, está neste momento pensando em escrever uma grande história do teatro turco – que ele nunca começa.
O que se passa em suas conversas com a jovem mulher Nihal (Melisa Sözen) – de quem ele se distanciou –, a irmã divorciada, Necla (Demet Akbag), o imã Hamdi (Serhat Kiliç), o inquilino em atraso Ismail (Nejat Isler) e outros percorre esse grande teatro da vida, evocando situações de luta de classes, conflitos familiares, religiosos, dominação, machismo, acomodação, rebeldia, sentimento de fracasso. Não falta também um aceno ao huis clos das relações entre homens e mulheres que Ingmar Bergman visitou tão profundamente, mas aqui sob o acento mais ríspido do diretor turco Nuri Bilge Ceylan.
Diretor maduro e consagrado por filmes como Era uma vez em Anatólia, Distante, Três Macacos e Climas, Ceylan atinge um ponto de maturidade com este filme longo, mas muito envolvente. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 16 anos
Duração: 196 min
 
CINECAIXA BELAS ARTES - SALA SPCINE     18/10/2014 - 15:30 - Sessão: 280 (Sábado)
CINESESC                                                              19/10/2014 - 16:30 - Sessão: 360 (Domingo)
RESERVA CULTURAL 1                                        22/10/2014 - 20:30 - Sessão: 609 (Quarta)
CINE SABESP                                                          24/10/2014 - 20:30 - Sessão: 753 (Sexta)
 
Força Maior
Finalmente, parece ter surgido alguém na Suécia pelo menos com vontade de reivindicar algum vínculo com a poderosa herança artística de Ingmar Bergman. O diretor e roteirista sueco Ruben Östlund parece ter nadado de braçada nas águas profundas daquele diretor para criar um muito original drama familiar, ambientado nos Alpes franceses, o que confere, em certos momentos, um clima quase surreal, de ficção científica, à narrativa. Com muitos méritos, o filme venceu o prêmio principal da seção paralela mais importante de Cannes, Un Certain Regard, em 2014.
Não é todo dia que se assiste ao desmoronar de um casamento, como o de Tomas (Johannes Kuhnke) e Ebba (Lisa Loven Konglsi), num cenário tão apropriado quanto o de montanhas cobertas de neve, em que podem ocorrer avalanches. A quase ocorrência de uma delas, aliás, é o que rompe a casca de normalidade da relação do casal, assistida de perto pelos dois filhos (Clara e Vincent Wettergen), que os pais trouxeram para um final de semana de esqui.
A participação de um outro casal (Kristofer Hiuju e Fanni Metelius), hospedado no mesmo hotel, introduz mais pimenta na crise, porque Ebba resolve lançar suas emoções conflitantes na roda, numa noite em que jantam juntos. E aí surgem outras questões, como a diferença de gerações do outro par, para pavimentar com mais pedras a estrada dessas DRs, que nada tem de blabablá e incorporam um humor muito peculiar ao longo do caminho.
Aos 40 anos, e com poucos filmes na bagagem (este é seu segundo longa), Östlund demonstra uma segurança e destreza admiráveis para conduzir seus atormentados intérpretes no bojo de uma crise humana com muitas conexões com a de públicos de todo o mundo. De glacial mesmo, só o cenário. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 16 anos
 
Duração: 118 min
 
CINE LIVRARIA CULTURA 1                                          19/10/2014 - 15:30 - Sessão: 324 (Domingo)
CINEMARK - SHOPPING VILLA-LOBOS - SALA 2     20/10/2014 - 21:00 - Sessão: 443 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1                    21/10/2014 - 15:45 - Sessão: 484 (Terça)
 
 
Canção de Minha Mãe
 
A coprodução turco-franco-alemã tem como abertura, e também encerramento, um professor contando aos seus alunos – os primeiros, curdos de uma pequena vila, em 1992; e os últimos, crianças da mesma etnia, só que na Istambul de 2013 – uma fábula sobre um corvo que faz de tudo para tornar-se igual aos vistosos pavões. Metáfora para a complexa história do povo curdo, mais especificamente na Turquia, a alegoria serve de pano de fundo para o longa de estreia de Erol Mintas, cujo roteiro foi agraciado pelo Sundance Lab, enquanto a produção e atuação de Feyyaz Duman foram premiadas no Festival de Sarajevo. O problema é que quem desconhece o panorama histórico e geográfico da região encontra dificuldades para compreender alguns detalhes do filme, que não se dedica a esmiuçar contextualizações.
A trama apresenta Ali (Feyyaz Duman), um professor e escritor curdo, que vive em Istambul e está de mudança. Ele e sua mãe (Zübeyde Ronahi), que antes moravam em um reduto curdo na metrópole turca, depois de um êxodo geral na vila em que viviam no interior, agora estão locados em um apartamento no meio da agitação da grande cidade.
Longe da companhia dos velhos vizinhos, a dificuldade de adaptação a uma cultura diferente, o centro urbano e os “novos tempos” – tudo lhe parece pior, inclusive a música – aumenta, deflagrando nela o tédio e a depressão, ainda mais com a chegada da velhice. Assim, o protagonista, além de sofrer o baque da notícia da gravidez de sua namorada (Nesrin Cavadzade), tem de lidar com os sucessivos pedidos e investidas da Sra. Nigar para voltar a sua cidade natal e, também, recuperar uma fita cassete de seu “artista favorito” de dengbej, canção falada tradicional na cultura curda.
Interpretada por uma atriz não profissional, a mãe retratada não poderia ser mais autêntica, pertencendo a Zübeyde Ronahi o grande destaque do filme. A principal falha do longa, no entanto, está em seu ritmo: condizendo com o tema, a narrativa poderia ser realmente mais lenta, porém, ela dá muitas voltas em cima do mesmo ponto, em cenas que parecem um tanto repetitivas. Mesmo assim, é um trabalho de estreia com fôlego de um cineasta que ainda tem muito a dizer. (Nayara Reynaud)
 
Indicação: Livre
Duração: 103 min
 
SALA CINEMÁRIO                          18/10/2014 - 14:00 - Sessão: 277 (Sábado)
CINEMARK - METRÔ SANTA CRUZ - SALA 9    20/10/2014 - 19:00 - Sessão: 421 (Segunda)
MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM          21/10/2014 - 21:45 - Sessão: 504 (Terça)
 
2 X Binoche e Assayas: Horas de Verão e Acima das Nuvens
 
Seis anos, um prêmio de interpretação em Cannes e a possibilidade de um remake separam as duas parcerias de Juliette Binoche e Olivier Assayas: Horas de Verão e Acima das Nuvens. Os dois filmes são exibidos na 38ª Mostra – o primeiro, na homenagem a seu produtor Marin Karmitz; e o segundo, na Perspectiva Internacional.
Nesse meio-tempo, a atriz fez diversos filmes, entre eles Cópia Fiel, com o irianiano Abbas Kiarostami, que lhe rendeu o prêmio de interpretação feminina no Festival de Cannes em 2010. Nesse período também surgiu a possibilidade de um remake americano de Horas de Verão, protagonizado e produzido por Tom Hanks – projeto que, felizmente, parece que foi sepultado. Há também a possiblidade de uma sequência, a ser escrita e dirigida pelo próprio Assayas, e um filme sobre a personagem de Binoche.
O melhor de tudo é que em mais de meia década, Horas de Verão não perdeu o frescor. O tema são heranças (materiais, culturais) com as quais os personagens devem lidar. A tradição familiar é uma forma de refletir sobre a tradição do humanismo francês em tempos de ascensão da direita no país – e em considerável parte do mundo.
Numa roteiro que remete aos contos e ao teatro do russo Anton Tchekov – não apenas pelas cenas no campo, mas especialmente pelo valor que a palavra ganha e na sutileza da aparência enganadora de que nada está acontecendo –, Assayas traça o desmantelamento de uma família e das posses desta a partir da morte da matriarca. Os filhos – interpretados por Binoche, Charles Berling e Jérémie Renier – apesar de se darem bem, se veem pouco: cada um seguiu sua vida. O legado da matriarca – que inclui relíquias caríssimas – é dividido entre eles. Uma peça vai para um museu e um vaso raro fica para a empregada que acompanha a família há anos.
A diáspora familiar é um sintoma do mundo globalizado que irá se materializar com maior força no filme mais recente do diretor, Acima das Nuvens. Nele, Binoche é Maria Enders, uma atriz em crise com a maturidade que é convidada a participar de uma nova montagem da peça que lançou sua carreira, aos 19 anos. Agora, no entanto, faria o papel da mulher mais velha, que é seduzida por essa garota.
Ainda em dúvida, mas se preparando para a nova montagem, ela se instala numa casa na região montanhosa de Maloja, na Suíça, onde o dramaturgo (um grande amigo seu) morava quando escreveu a obra. Na companhia de sua assistente, Valentine (Kristen Stewart), Maria repassa o texto, e acompanha na internet os novos escândalos envolvendo sua colega de elenco, a americana Jo-Ann Ellis (Chloë Grace Moretz), cuja vida atribulada lembra a de atrizes como Lindsay Lohan.
O efeito da globalização – personagens de vários cantos do mundo, cenas em diversas cidades – parece questionar a mercantilização da arte. Romancista francês é amante de atriz americana que está na Suíça para ensaiar uma peça que será montada em Londres, protagonizada por uma francesa. Não que isso seja uma novidade, mas Assayas se pergunta o que isso agrega, para usar uma palavra da moda. É o falso esmaecimento das fronteiras que ajuda na capitalização da arte. Aqui, no entanto, o diretor pode não estar tão à vontade como em Horas de Verão, nem os personagens são tão atraentes (embora ver Binoche na tela nunca deixe de ser prazeroso). (Alysson Oliveira)
 
HORAS DE VERÃO
Indicação: 14 anos.
Duração: 103 min
MATILHA CULTURAL    - 18/10/2014 - 14:00 - Sessão: 255 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5-19/10/2014 - 14:00 - Sessão: 308 (Domingo)
 
ACIMA DAS NUVENS
Indicação: 14 anos.
Duração: 123 min.
CINE SABESP - 18/10/2014 - 14:00 - Sessão: 219 (Sábado)
RESERVA CULTURAL 1 - 20/10/2014 - 14:00 - Sessão: 423 (Segunda)
 
Burroughs: O Filme
Amigo dos escritores beat Jack Kerouac e Allen Ginsberg, William Burroughs (1914-1997) ganha vida neste documentário apaixonante, realizado em 1983 por um jovem cineasta, Howard Brookner, e que sumiu de circulação por mais de 30 anos, depois da morte prematura deste, em 1989, aos 35 anos.
Deve-se à persistência de um sobrinho de Brookner, Aaaron, o esforço para descobrir o paradeiro das cópias do filme, levantando fundos para sua remasterização e volta à circulação. O que se vê na tela é uma impressionante entrega de Burroughs, contando com sinceridade sua vida, sua difícil infância, suas aventuras com drogas – uma delas culminou no assassinato acidental de sua primeira mulher, em 1951 -, suas viagens pelos quatro cantos do mundo e o resgate de todas estas vivências e tragédias em sua pujante literatura, em títulos como Junky (53) e Almoço Nu (59).
E pensar que tudo começou em 1978, como um modesto projeto de conclusão de curso de cinema de Brookner, que contou desde os primeiros dias com a parceria de um colega e amigo da faculdade, o futuro diretor Jim Jarmusch, que alternou câmera e som desde as primeiras imagens. Depois, o filme foi crescendo, em tomadas que se realizaram ao longo de cinco anos, finalizando-se a versão definitiva do filme em 1983. O próprio Brookner, dono dos direitos de seu trabalho, e Burroughs distribuíram e exibiram o documentário então pelos quatro cantos dos EUA (40 cidades) e também na Europa, até que a morte do cineasta o desse como perdido. Bendito sobrinho. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: Livre.
Duração: 90 min.
 
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4   18/10 - 23:59 - Sessão: 213 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3   19/10 - 22:30 - Sessão: 302 (Domingo)
 
 
O Fim de Uma Era
 
Terceiro longa do projeto “Operação Sonia Silk”, do qual fazem parte O Uivo da Gaita (2013), de Bruno Safadi, e O Rio Nos Pertence (2013), de Ricardo Pretti, ambos exibidos na edição passada da Mostra, O Fim de Uma Era é um grande esforço de metalinguagem dos dois realizadores em homenagem ao cinema, mais especificamente às musas. Durante as duas semanas em que o coletivo envolvido na Operação estava filmando as duas outras produções, imagens dos bastidores foram gravadas para esta obra, a última da trilogia cooperativa e de baixo orçamento, coproduzida pelo Canal Brasil.
Os trechos de making of foram organizados em um epílogo, interlúdios e mais de uma dezena de passagens, sem nenhum diálogo. Além das imagens das atrizes/musas Leandra Leal e Mariana Ximenes e da equipe técnica, o que norteia o espectador são as narrações, com as vozes de Fernando Eiras, Maria Gladys, Helena Ignez e do próprio Ricardo. Elas trazem histórias baseadas em grandes romances e dramas, vividos na tela do cinema ou na vida real, por atrizes renomadas.
As referências, buscadas essencialmente em filmes dos anos 30 – vide a trilha sonora, com o jazz da época –, constituem a parte mais interessante da obra. A questão é que, como pretensa poesia de amor ao cinema, o longa não se detém em um elemento importantíssimo à sétima arte, que é o público, já que, passada meia hora de exibição, a audiência já começa aparentar incômodo. Ao final a impressão é que, se fosse um curta-metragem ou tivesse uma duração menor, O Fim de Uma Era teria o alcance desejado. (Nayara Reynaud)
                                                                                                          
Indicação: Livre
Duração: 70 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 19/10/2014 - 16:10 - Sessão: 334 (Domingo)
 
 
O Vale Sombrio
 
O novo filme de Andreas Prochaska, montador austríaco de algumas obras de Michael Haneke, é um interessante, mas óbvio western alemão – se é que existe algo comum nesta combinação -, no qual o gene norte-americano não se restringe às claras influências em relação ao gênero ou à escolha do ator britânico Sam Riley como protagonista. Ele também está presente na maneira hollywoodiana, diversas vezes conservadora, de contar esta história de vingança passada nos Alpes, em pleno século XIX.
Riley vive Greider, um norte-americano fluente em alemão que chega a uma pequena vila perdida no meio das montanhas. A desconfiança com o forasteiro é enorme, mas sua permanência no local durante o inverno é obtida graças ao encanto dos habitantes com as fotos que ele tira com seu daguerreotipo, o precursor da máquina fotográfica. Os seis filhos do velho Brenner (Hans-Michael Rehberg), o grande patriarca do lugarejo, autorizam a sua permanência e o instalam na casa da jovem Luzi (Paula Beer) e de sua mãe viúva (Carmen Gratl).
É com a iminência do casamento da garota com Lukas (Thomas Schubert) que se revela o poder desta família déspota sobre a população local: o patriarca e seu clã têm o direito de ter a primeira noite com todas as noivas da vila, antes que seus maridos consumam o matrimônio; uma tradição antiga que terá consequências no presente. Os vilões têm um único tom e os personagens seguem apenas seus arquétipos, mas Prochaska consegue conduzir corretamente o filme – que tem a fotografia de Thomas Kiennast em chiaroescuro como um dos destaques – até alcançar o último ato.
Além das resoluções óbvias no desfecho, o clímax apresenta uma estranha virada no decorrer da cena, indo de um enfrentamento composto por cortes rápidos e a instigante trilha de Matthias Weber para um slow motion com uma música contemporânea que parecem mais um mero capricho do que recursos com funções narrativas. No mais, o voice over de Luzi, excessivo em alguns momentos, é outro ponto negativo da produção, que ainda sim, é bem palatável para o público. Mesmo assim, é a narração dela que brinda o espectador com a melhor frase deste filme, candidato austríaco a uma indicação ao Oscar de Filme Estrangeiro: “a liberdade é uma dádiva que nem todos gostam de receber”. (Nayara Reynaud)
                                                                                                          
Indicação: 16 anos
Duração: 114 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - POMPÉIA SALA 1  18/10/2014 - 20:45 - Sessão: 285 (Sábado)
CINEMARK - SHOPPING VILLA-LOBOS - SALA 2  19/10/2014 - 21:00 - Sessão: 368 (Domingo)
 
Três Histórias do Irã
Para realizar o seu segundo longa, o diretor iraniano Ehsan Abdipur disse que “vendeu a casa e carro para financiá-lo”, e chamou um time de não atores, fiado na confiança que sua história era muito boa para ser contada. Com três capítulos que se complementam, um olhar sobre os conflitos de uma família ao sul de seu país, faz aqui um filme bastante ágil, em comparação aos seus compatriotas  Mohsen Makmalbaf ou Abbas Kiarostami, mas não menos virtuoso.

No primeiro, Too-Maj quer viver em Londres, atravessando, da França, o Canal da Mancha a nado. Em outro, sua prima, que não gosta de ser negra, é apoiada pelo pai a ter orgulho de si ao convencê-la que, globalmente, os negros ganham cada vez mais destaque sócio-político (incluindo aí a possibilidade de um papa negro). Em seguida, ao falar de amor que ultrapassa barreiras políticas, o diretor mostra o luta da jovem Hadis para libertar seu namorado e colega universitário da prisão, para que consigam fazer um intercâmbio estudantil no México.

Abdipur lida aqui com o contingente de jovens que buscam uma vida melhor no exterior, enfrentando as mais penosas adversidades e, “morrendo no caminho”. Fala do truque de se fazer passar por católico no exterior e ser mais aceito. Do orgulho da afro-descendência em uma comunidade em que são minoria. Mas o faz com delicadeza e humor. “Gosto de explorar a reação de uma pequena parte do mundo sobre a realidade global”, defende o diretor.  (Rodrigo Zavala) 
 
Indicação: livre
Duração:  90 min
 
FREI CANECA 3  - 19/10 - 18:15 (Domingo)

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