MOSTRA 2014

Dia forte na Mostra para documentários originais

Equipe Cineweb

Esperando Agosto
 
A diretora deste documentário, Teodora Mihai, é uma romena radicada em Antuérpia, cujos pais fugiram para a Bélgica durante a ditadura comunista de Nicolae Ceauþescu, deixando-a no país natal por um ano, até que ela estivesse junto deles novamente. Daí se explica a sua escolha para seu primeiro longa e seu olhar tão caro para os retratados neste filme.
Sua câmera, procurando ser invisível como uma “mosca na parede” – embora seja possível notar que a simples presença do equipamento altera o comportamento das crianças e adolescentes –, acompanha o cotidiano de uma família em Bacau, cidade a 245 km da capital romena Bucareste, onde os sete filhos de Liliana vivem, enquanto ela está trabalhando em Turim, na Itália, para sustentá-los. Como o irmão mais velho, Ionut, de 17 anos, fica jogando videogame direto, cabe a Georgiana, com seus 15 anos apenas completados, cuidar de seus irmãos menores: a pré-adolescente prestativa Lacramiora, o discreto garoto Bogdan, a espevitada Alice, o choroso George e o caçula – e que arranca mais risos e suspiros da plateia – Stelian.
O contato com a mãe, cuja volta esperam no próximo verão, como indica o título, ocorre por telefone e por Skype, e o pai – ou os pais – das crianças não é/são citado (s) em nenhum momento. Por isso, é de se esperar que elas transfiram a figura de um adulto responsável para Georgiana. O problema, no entanto, é que ela é apenas uma adolescente e isso fica claro em momentos como o do choro no telefone com a mãe por causa de um problema com a amiga ou na sua expectativa em tirar as notas necessárias para poder estudar no liceu que sonha cursar.
Assim, o pequeno drama familiar se torna uma amostra do cenário dramático da Romênia, abalada sensivelmente pela crise econômica mundial nos últimos anos. E se, em uma pequena fala do filme, as jovens explicam às crianças a situação degradante em que se encontrava a população nacional na época de Ceauþescu, o documentário mostra que as conjunturas podem ser diferentes, mas a condição de pobreza permanece para grande parte dos romenos. (Nayara Reynaud)
                                                                                                          
Indicação: 12 anos
Duração: 88 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 20/10/2014 - 14:00 - Sessão: 411 (Segunda)
CINE OLIDO                              23/10/2014 - 15:00 - Sessão: 676 (Quinta)
 
 
Uma cadeira para um anjo
O documentário de Raymond St. Jean é uma grata surpresa, ao condensar várias informações sobre uma antiga comunidade místico-artística dos EUA, os Shakers, através não só dos depoimentos de alguns de seus membros (ainda existe um núcleo deles no Maine) como na tentativa de um bailarino e coreógrafo finlandês de criar um espetáculo de dança a partir das coreografias e músicas dos Shakers – que uniram de maneira peculiar uma visão utópica de sociedade, um apego à arte (o mobiliário em linhas retas que produziram em outros séculos é de um modernismo e funcionalismo impressionantes), especialmente a dança e música, mediante as quais procuravam uma espécie de êxtase espiritual.
O traço marcante do documentário é procurar sintonizar a beleza dos movimentos desta dança, através de um trabalho de câmera e fotografia singulares. (Neusa Barbosa)
Indicação: livre
Duração: 75 min
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2   20/10/2014 - 22:20 - Sessão: 380 (Segunda)
CCSP - SALA PAULO EMILIO                21/10/2014 - 17:10 - Sessão: 513 (Terça)
 
 
Filho de Trauco
 
O único representante do cinema chileno na Mostra, Filho de Trauco, do diretor debutante Alan Fischer, dá vida aos mitos sulistas do país em um drama sobre a busca da verdade. Filmado em Chilloé, balneário para os santiaguinos no verão e onde o folclore é uma relíquia, o novo cineasta faz uma crítica sobre como a população local usa esses mesmos mitos para não discutir problemas reais, muitas vezes criminais, que lá ocorrem.

A história gira sobre Jaime, um adolescente com ambição de ser escritor e fugir, assim que possível, do vilarejo em que vive – o fictício Punta Chucao. Como sua mãe engravidou antes do casamento (o pai, aparentemente, morreu), a população o chama de filho de Trauco, figura folclórica que engravida mulheres virgens (algo como o boto, no norte do país). 

Cético a tudo isso, Jaime passa a investigar, ao lado da amiga Violeta, o passado de sua família para entender sua origem.  Com participação especial da atriz veterana María Izquierdo, o diretor consegue manter uma uniformidade narrativa, entre o real e o imaginário, explorando os potenciais de cada um desses eixos. “Não quis que a realidade sufocasse o mito, desprezando-o”, afirma o diretor. (Rodrigo Zavala)
  
Indicação: 14 anos
 
Duração: 97 min
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4   20/10/2014 - 21:00 - Sessão: 390 (Segunda)
CINECAIXA BELAS ARTES - SALA SPCINE     28/10/2014 - 15:30 - Sessão: 1141 (Terça)
 
 
Força Maior
 
Finalmente, parece ter surgido alguém na Suécia pelo menos com vontade de reivindicar algum vínculo com a poderosa herança artística de Ingmar Bergman. O diretor e roteirista sueco Ruben Östlund parece ter nadado de braçada nas águas profundas daquele diretor para criar um muito original drama familiar, ambientado nos Alpes franceses, o que confere, em certos momentos, um clima quase surreal, de ficção científica, à narrativa. Com muitos méritos, o filme venceu o prêmio principal da seção paralela mais importante de Cannes, Un Certain Regard, em 2014.
Não é todo dia que se assiste ao desmoronar de um casamento, como o de Tomas (Johannes Kuhnke) e Ebba (Lisa Loven Konglsi), num cenário tão apropriado quanto o de montanhas cobertas de neve, em que podem ocorrer avalanches. A quase ocorrência de uma delas, aliás, é o que rompe a casca de normalidade da relação do casal, assistida de perto pelos dois filhos (Clara e Vincent Wettergen), que os pais trouxeram para um final de semana de esqui.
A participação de um outro casal (Kristofer Hiuju e Fanni Metelius), hospedado no mesmo hotel, introduz mais pimenta na crise, porque Ebba resolve lançar suas emoções conflitantes na roda, numa noite em que jantam juntos. E aí surgem outras questões, como a diferença de gerações do outro par, para pavimentar com mais pedras a estrada dessas DRs, que nada tem de blabablá e incorporam um humor muito peculiar ao longo do caminho.
Aos 40 anos, e com poucos filmes na bagagem (este é seu segundo longa), Östlund demonstra uma segurança e destreza admiráveis para conduzir seus atormentados intérpretes no bojo de uma crise humana com muitas conexões com a de públicos de todo o mundo. De glacial mesmo, só o cenário. (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 16 anos
 
Duração: 118 min
 
 
CINEMARK - SHOPPING VILLA-LOBOS - SALA 2     20/10/2014 - 21:00 - Sessão: 443 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1                    21/10/2014 - 15:45 - Sessão: 484 (Terça)
 
 
Canção de Minha Mãe
 
A coprodução turco-franco-alemã tem como abertura, e também encerramento, um professor contando aos seus alunos – os primeiros, curdos de uma pequena vila, em 1992; e os últimos, crianças da mesma etnia, só que na Istambul de 2013 – uma fábula sobre um corvo que faz de tudo para tornar-se igual aos vistosos pavões. Metáfora para a complexa história do povo curdo, mais especificamente na Turquia, a alegoria serve de pano de fundo para o longa de estreia de Erol Mintas, cujo roteiro foi agraciado pelo Sundance Lab, enquanto a produção e atuação de Feyyaz Duman foram premiadas no Festival de Sarajevo. O problema é que quem desconhece o panorama histórico e geográfico da região encontra dificuldades para compreender alguns detalhes do filme, que não se dedica a esmiuçar contextualizações.
A trama apresenta Ali (Feyyaz Duman), um professor e escritor curdo, que vive em Istambul e está de mudança. Ele e sua mãe (Zübeyde Ronahi), que antes moravam em um reduto curdo na metrópole turca, depois de um êxodo geral na vila em que viviam no interior, agora estão locados em um apartamento no meio da agitação da grande cidade.
Longe da companhia dos velhos vizinhos, a dificuldade de adaptação a uma cultura diferente, o centro urbano e os “novos tempos” – tudo lhe parece pior, inclusive a música – aumenta, deflagrando nela o tédio e a depressão, ainda mais com a chegada da velhice. Assim, o protagonista, além de sofrer o baque da notícia da gravidez de sua namorada (Nesrin Cavadzade), tem de lidar com os sucessivos pedidos e investidas da Sra. Nigar para voltar a sua cidade natal e, também, recuperar uma fita cassete de seu “artista favorito” de dengbej, canção falada tradicional na cultura curda.
Interpretada por uma atriz não profissional, a mãe retratada não poderia ser mais autêntica, pertencendo a Zübeyde Ronahi o grande destaque do filme. A principal falha do longa, no entanto, está em seu ritmo: condizendo com o tema, a narrativa poderia ser realmente mais lenta, porém, ela dá muitas voltas em cima do mesmo ponto, em cenas que parecem um tanto repetitivas. Mesmo assim, é um trabalho de estreia com fôlego de um cineasta que ainda tem muito a dizer. (Nayara Reynaud)
 
Indicação: Livre
Duração: 103 min
 
 
CINEMARK - METRÔ SANTA CRUZ - SALA 9    20/10/2014 - 19:00 - Sessão: 421 (Segunda)
MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM          21/10/2014 - 21:45 - Sessão: 504 (Terça)
 
Filmar obstinadamente, um encontro com Patricio Guzmán
 
Autor de documentários fundamentais, como A Batalha do Chile e A Nostalgia da Luz, o cineasta chileno Patricio Guzmán aparece generosamente diante das câmeras do diretor francês Boris Nicot, que faz uma justa homenagem a um profissional que prima pela discrição, engajamento e originalidade, além do inegociável humanismo.
É muito fácil encantar-se por esse sereno septuagenário, sua fala firme detalhando o meticuloso processo de pesquisa de suas produções, pelas quais passa uma parte dramática da história de seu próprio país, onde ele não vive há décadas, desde a ditadura Pinochet, mas do qual ele tampouco se aparta.
O exílio francês, a esta altura voluntário, parece, ao contrário, dar-lhe uma perspectiva única diante das contradições de uma nação tão violentamente dividida ideologicamente, marcada pelas muitas cicatrizes da ditadura, como as execuções e desaparecimentos de milhares de opositores – um contingente que, por pouco, o próprio Guzmán não integrou, já que foi detido no Estádio Nacional, nos primeiros dias do golpe de 1973.
O melhor é acompanhar o ritmo compassado como ele reexamina a confecção de suas principais obras e a sabedoria com que pontifica que talvez leve 100 anos para o Chile superar a herança maldita do arbítrio. Uma atração à parte é conhecer os primeiros detalhes de um novo trabalho do cineasta, já em preparação. Guzmán é destas pessoas cuja simples existência torna o mundo inteiro melhor.  (Neusa Barbosa)
 
Indicação: 12 anos
Duração: 98 min
 
 
 FAAP                                                                            20/10/2014 - 19:00 - Sessão: 419 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4   24/10/2014 - 19:00 - Sessão: 774 (Sexta)
MATILHA CULTURAL                                                  28/10/2014 - 18:10 - Sessão:
1117 (Terça)
 
 
 Foxcatcher : Uma história que chocou o mundo
 
Ganhador do prêmio de direção para Bennett Miller no Festival de Cannes deste ano, este drama baseado em fatos reaistraz Channing Tatum como um praticante de Luta Olímpica, Mark Schultz, ganhador da medalha de ouro nos jogos de 1984. Apesar do sucesso esportivo, ele leva uma vida sem muitas perspectivas, com  muito treino árduo e pouco dinheiro, vivendo praticamente de palestras que pouco lhe rendem.
Sua sorte muda quando o empresário e milionário John du Pont (Steve Carell), o procura para patrociná-lo. Esse personagem, aliás, é uma figura peculiar. Herdeiro de uma das famílias mais ricas dos EUA, vivendo sob o domínio da mãe (Vanessa Redgrave), com um complexo de Édipo mal resolvido, ele quer ser o melhor em tudo. Taciturno, mas rico, com seu dinheiro e conversa acaba ganhando a confiança do lutador, que abandona os treinos ao lado do irmão, David (Mark Ruffalo), e se muda para um luxuoso centro de treinamentos na propriedade da família du Pont.
John começa a canalizar suas aspirações e anseios no jovem lutador, que, claramente, sente o peso da pressão. Aos poucos, as relações vão se degringolando. O roteiro de E. Max Frye e Dan Futterman é um estudo de personagem sombrio, em que se insinua a suspeita de que o tal sonho americano é uma grande mentira. Não por acaso, a bandeira do país aparece tantas vezes em cena – em algumas delas, pendurada no escritório de John.
É bem provável que Foxcatcher : Uma história que chocou o mundo seja lembrado nas indicações a prêmios como Oscar e Globo de Ouro. Não apenas nas categorias filme e direção, mas provavelmente para os atores. Carell e Tatum estão especialmente surpreendentes, distantes dos tipos que os tornaram famosos. O lutador, por exemplo, não tem nada de heroico, pelo contrário, é um sujeito decadente que se esforça para sobreviver num mundo que o engolirá. Já Carell, bem distante do registro da comédia, cria uma figura taciturna – cujo rosto é coberto por uma maquiagem e uma prótese nasal – e assustadora.
A previsão de estreia para o filme no Brasil é para o começo de 2015. (Alysson Oliveira)
 
Indicação: 18 anos.
Duração: 130 min.
 
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 -        20/10 - 18:00 - Sessão: 378 (Segunda)
 
 
 
Sinfonia da necrópole
 
Criativo musical ambientado num cemitério que fala da precarização do trabalho e especulação imobiliária – ou seja, nada mais atual –, o filme é, acima de tudo, muito divertido, seja em seus personagens (especialmente o coveiro que não leva jeito para o trabalho) ou nas canções, compostas pela diretora e com melodia de Marco Dutra – parceiro dela na direção de diversos curtas e do longa Trabalhar Cansa.
Deodato (Eduardo Gomes) é um jovem aprendiz de coveiro (e ex-plantador de couves), que se sente mal toda vez que vê um enterro. Com a chegada de Jacqueline (Luciana Paes), funcionária responsável pela reestruturação do cemitério, sua rotina muda, e ele passa a assessorá-la na catalogação dos jazigos.
Há um lado lúdico, e um outro social no filme. O primeiro, por mais estranho que possa parecer, está ligado exatamente ao cemitério, à dialética da vida e da morte, às canções. O outro evoca o teatro épico da dupla Bertolt Brecht e Kurt Weill (autores de obras como A ópera dos três vinténs). É aqui que, de forma sutil mas impactante, Juliana fala de questões sérias. A reestruturação do cemitério se revela com um jogo de especulação imobiliária – arranjar as coisas de modo que o terreno possa render mais - disponibilizando espaço para novas sepulturas.
Em seu primeiro longa solo, Juliana está bastante segura de suas opções, e em momento algum titubeia. As músicas e suas coreografias – há um balé de mortos-vivos que é hilário – causam um estranhamento bem-vindo. O filme aponta para uma diretora a quem se deve prestar atenção. (Alysson Oliveira)
 
Indicação: 12 anos.
Duração: 85 min.
 
 
CINEMATECA - SALA BNDES -                                        20/10 - 18:00 - Sessão: 400 (Segunda)
 
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1-               27/10 - 16:10 - Sessão: 996 (Segunda)
 
 
Riocorrente
 
Primeiro longa de ficção do documentarista, montador e produtor Paulo Sacramento, o filme pulsa com a urgência daquelas obras em sintonia com seu tempo, com um quê de profético, mostrando-se capaz de figurar um curso da história da luta de classes no Brasil. Mas o que realmente conta aqui é a urgência com que Riocorrente faz um retrato de uma sociedade que mais parece uma panela de pressão, prestes a explodir – e, quando isso acontecer, vão voar destroços para todos os lados.
 
Ao mesmo tempo que é um filme extremamente paulistano, em sua essência revela-se universal ao falar de opressões múltiplas. A cidade de São Paulo é uma personagem, e a imagem do pôster do longa – que mostra o rio Tietê em chamas – já se tornou icônica, materializando exatamente o tom contundente do filme.
 
Essas chamas que consomem São Paulo simbolizam aquelas que devoram os personagens centrais. Marcelo (Roberto Audio) é um jornalista em conflito com o próprio trabalho. Carlos (Lee Taylor), um ex-ladrão de carros, é uma verdadeira bomba ambulante. Renata (Simone Iliescu) é a mulher dividida entre os dois que busca no sexo algo que preencha a cratera existencial que a destrói. A cidade, sempre presente, sempre opressora, parece rir do desespero de cada um. O quarto personagem é um garoto de rua apelidado de Exu (Vinicius dos Anjos), cuja relação com Carlos transita entre a paternal e a fraternal.
 
O pós-apocalipse que, aos poucos se concretiza em Riocorrente é o retrato de nosso tempo, pela descrença no poder institucionalizado e na imprensa. No entanto, Riocorrente sugere uma conscientização e a mudança de rumos, ainda que duvidando que uma ruptura pudesse ser feita de forma serena. Existiria retrato mais perspicaz da atualidade ? (Alysson Oliveira)
 
Censura: 14 anos
 
Duração: 79 min
 
VÃO LIVRE DO MASP                       20/10/2014 - 19:30 - Sessão: 416 (Segunda)

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