Festival de Brasília 2014

"Pingo d'água" é o concorrente mais intrigante de Brasília

Neusa Barbosa
 Confirmando a linha da curadoria deste ano do Festival de Brasília no sentido de apresentar filmes fora de um padrão, de um mainstream, o concorrente Pingo D’Água (foto ao lado), do paraibano radicado em Pernambuco Taciano Valério (foto abaixo), ofereceu o trabalho mais intrigante até aqui.
Fotografado em preto e branco, tendo como ator principal o crítico e pesquisador – agora mais dedicado à atuação – Jean-Claude Bernardet, o filme segue um enredo deliberadamente fluido, enfileirando diversas situações, na maioria ficcionais, mas também enraizadas em fundamentos documentais. Como uma sequência que mostra Jean-Claude em seu apartamento em São Paulo, afirmando que não quer mais ser crítico. Ou uma cena de crise de casal que incorpora emoções pessoais vividas naquele momento pelos atores Duda Lopes e Melissa Gava.
Inúmeras outras referências perpassam as sequências do filme, como a peça Esperando Godot, de Samuel Beckett, que vem irresistivelmente à lembrança quando se assiste aos percalços de dois velhos atores (Jean-Claude e Everaldo Pontes), perdidos numa mata, sem saber muito bem o caminho de seu próximo show. Jean-Claude, aliás, revela-se com grande despojamento, participando de um espetáculo de drag queen, ao lado de Everaldo e exibindo a flexibilidade de um contorcionista ao fechar-se dentro de uma mala.
 
 Polêmica do sentido
De todo modo, Pingo D’Água naturalmente não caiu bem a muitos. Houve espectadores que abandonaram o Cine Brasília. Vários outros, inclusive críticos, não esconderam sua perplexidade.
No concorrido debate do filme, o diretor e roteirista assumiu sem rodeios: “Não havia roteiro. Havia situações, que alguns conheciam, outros não”. Ou seja, alguns atores sabiam o que ia acontecer, outros não, porque a resposta improvisada era também uma das intenções maiores da produção – o que criou um desafio à parte não só para o elenco como para o diretor de fotografia Breno César e o de som, Giancarlos Galdino.
O resultado, de certo modo, surpreendeu ao próprio Jean-Claude, que afirmou na coletiva: “Devo dizer que vejo este filme com certo espanto. Fora a intensidade das cenas, ele não significa nada”. Depois, lembrou que a procura da falta de sentido, em arte, é uma espécie de ideal, como afirmou um dia o escritor francês Gustave Flaubert numa de suas cartas. “Pingo D’Água atingiu esse ideal. Ele não tem nenhum sentido. Vejo-o como um limite que não pode ser ultrapassado. Penso também que o próprio Taciano não pode continuar sua carreira nessa linha”.
 
Curtas
Sem atingir o mesmo nível de polêmica, um dos curtas da noite, Vento Virado, do mineiro Leonardo Cata Preta, também registrou um mergulho um tanto delirante de um homem (Paulo André, do grupo Galpão e do filme O Homem das Multidões) em suas próprias obsessões. Cata Preta, que tem formação em Artes Plásticas e experiência na animação (seu filme anterior é a premiada animação O céu no andar de baixo), concebeu o filme como algo deste gênero – mas admitiu, na coletiva, que não via forma de filmá-lo nesse formato e sim em live action.  De todo modo, com todas as referências visuais, surreais e até psicanalíticas a que remete, Vento Virado mostrou-se de mais simples assimilação do que o longa Pingo D’Água.
O outro curta da noite, o documentário paulista Geru, de Fábio Baldo e Tico Dias, focalizou a figura do avô do último diretor nas vésperas do seu centenário. De uma aparente simplicidade, no entanto, os diretores extraíram questionamentos do discurso cinematográfico, problematizando a relação do personagem (que nunca foi ao cinema) com a câmera e inserindo oportunas referências cinematográficas – caso de O Cantor de Jazz, de Alan Crosland, o primeiro filme falado (assistido pelo protagonista, que tem um problema de fala), e também uma curiosa recriação parcial da cena do tabuleiro de xadrez de O sétimo selo, de Ingmar Bergman. 
 
Foto de Taciano Valério: Júnior Aragão/Divulgação

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