Festival de Brasília 2014

"Ventos de Agosto" une ficção e documentário em narrativa orgânica

Neusa Barbosa
"Ventos de Agosto" une ficção e documentário em narrativa orgânica
Exibido em Locarno, Ventos de Agosto (foto), de Gabriel Mascaro consolidou a investida mais decidida até aqui do cineasta pernambucano, diretor dos documentários Domésticas e Um Lugar ao Sol, no caminho da ficção. Mas, ao mesmo tempo, as fronteiras de gênero permaneceram deliberadamente fluidas neste filme que, se incorpora referências (assumidamente, Joris Ivens, por exemplo), não se curva a um estetismo, sintoma de um excesso delas que comprometeu outros concorrentes aqui.
 
Como em todo seu trabalho de cineasta até este momento, Mascaro se empenha em criar um filme orgânico, e consegue, no sentido de aliar um aceno ao naturalismo na fotografia (responsável por sua comparação a Barravento, de Glauber Rocha, por um crítico italiano em Locarno) e também no uso de atores amadores das próprias locações (novamente a praiana Porto da Pedra de Alagoas, do curta Sem Coração) a uma tentativa de fabular, com o decisivo envolvimento dos moradores/atores.
 
Não que não houvessem alguns pontos de partida sinalizando esta viagem. Na coletiva do filme, Mascaro contou ter-se interessado por histórias relacionadas ao cemitério local que, por conta das fortes correntes marítimas causadas pelos ventos, fazem com que os esqueletos dos mortos sejam levados, muitas vezes, pelo mar, desencadeando um processo constante de ressepultamento.
 
Minimalismo e multiplicidade
Essa relação peculiar com a vida e a morte percorre todo o filme. Está no horizonte da jovem Shirley (Dandara de Morais), que veio de outra localidade para cuidar da avó, quase centenária – e que conta que vê seus pais todos os dias, em sonhos. Também ocupa, de certa maneira, o imaginário de Jeison (Geová Manoel dos Santos), que pensa muito na mãe que morreu. E que, mais tarde, mudará toda a sua rotina para tratar do destino de um morto, um forasteiro que chegou à ilha para estudar os ventos (interpretado pelo próprio Mascaro).
 
Só a organicidade explica como Mascaro conseguiu inserir, tão naturalmente, numa história à primeira vista tão minimalista, tantas questões como finalmente surgem na tela: o sexo, a vontade de fugir, o trabalho braçal, as relações familiares, as histórias sobre os mortos, o isolamento em relação à figura de um Estado ou autoridade – que, quando acontece, se dá num registro muito próximo ao realismo mágico, com um saudável toque de humor.
 
O humor, aliás, infiltra-se neste filme denso, que se amplia em significados quanto mais se pensa nele. Não foi pequeno o elogio do cineasta Jorge Bodanzky – co-autor de Iracema, Uma Transa Amazônica, título a que Ventos de Agosto foi comparado por sua forma de produção -, quando disse: “Assim é que fazíamos cinema nos anos 1960, 1970”. Ou seja, com poucos recursos (Ventos... foi produzido a partir de um edital para curta-metragem documentário, com inacreditáveis R$ 60.000,00) e integrando totalmente a comunidade filmada e a equipe de filmagem na tarefa conjunta de fabular uma narrativa.
 
Curtas
Filmado na Índia, o curta paulista B-Flat, da diretora Mariana Youssef, homenageou o cinema popular de Bollywood ao criar uma narrativa também fabular, retratando a relação complicada entre dois homens maduros. Um deles vive em Nova York e volta à localidade interiorana de Bhor porque alguém está morrendo – e ele trouxe uma caixa misteriosa que é uma tentativa de reconciliação. Este homem solitário e um tanto antissocial encontra num ônibus um velho carregando uma tuba e à procura de um misterioso jacaré. E, ao contrário do outro, quer conversar e interagir o tempo todo.
 
O outro curta da noite, a produção carioca Luz, de Gabriel Medeiros, documenta situações de pessoas, moradoras no interior do Estado do Rio, que vivem em locais isolados, em que a luz elétrica não chegou. Tematizando a questão dos impedimentos ambientais, em um caso, e da procura de um isolamento existencial, de outro, o diretor procura explorar como é viver assim, sem televisão, internet nem geladeira.

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