60º Festival de Berlim

Urso de Ouro vai para filme turco que encerra trilogia humanista

Plínio Ribeiro Jr., de Berlim
Após a exibição de seu filme Egg na seção Quinzena dos Diretores do festival de Cannes de 2007 e de, no ano seguinte, ver Milk concorrer ao Leão de Ouro do Festival de Veneza, o diretor turco Kaplanoglu consagrou-se o grande vencedor do 60° Festival de Berlim ao receber o Urso de Ouro pelo filme Honey. Os três filmes formam uma trilogia ao abordar os diferentes momentos na vida do personagem Yusuf. Esta premiação, aliás, permite fazer um paralelo com o Urso de Ouro concedido a Central do Brasil, em 1998, já que, em ambos os casos, um dos elementos essenciais da narrativa é o carisma envolvente dos personagens infantis em torno dos quais transcorre o enredo.
 
Em Honey, retrata-se o período da infância de Yusuf (Bora Altas), numa região montanhosa da Turquia, onde a vida ainda parece imersa em outra dimensão de tempo e espaço. Yusuf vive com o pai, Yakup (Erdal Besikçioglu) e com a mãe, Zehra (Tülin Özen). O pai é um apicultor e realiza o seu ofício de maneira artesanal, o que implica riscos para a sua segurança, além de condená-lo a uma condição de permanente deslocamento, visto que precisa dirigir-se a regiões cada mais ermas para obter o mel.
 
Yusuf possui uma grande admiração pelo pai, e é em torno desta relação que a trama revela-se aos olhos do público. Mas é também um filme que fala de descobertas, de iniciações, quer seja pela interação do jovem Yusuf com a floresta, ou por seu ingresso no primeiro ano escolar. Um filme extremamente sensível, permeado de silêncios que revelam muito não apenas da natureza dos personagens, mas de tudo aquilo que os rodeia.
 
Ao considerar-se a trilogia como um todo, é interessante notar que existem lacunas ao longo do percurso do personagem de Yusuf, e da maneira como o conjunto dos três filmes pode ser percebido. Seria esta uma trilogia que retrata num flashback a vida de um mesmo personagem, Yusuf ? Ou cada um dos filmes mostra um Yusuf que não é necessariamente o mesmo? Manter esta aura de mistério fez parte das intenções do diretor, que também incorporou muitos detalhes de sua própria infância e histórias de sua família no roteiro de Honey.
 
O Urso de Prata de interpretação feminina foi concedido à atriz japonesa Shinobu Terajima, que interpreta Shigeko Kurokawa no filme Caterpillar. Logo no começo do filme, a cunhada de Shigeko, ao deparar-se com o retorno do irmão inválido, diz ao pai : «"Por sorte não devolvemos Shigeko aos pais dela". Esta frase sela o que vai ser, a partir de então, o destino de Shigeko, que passa a viver em função não de seus anseios e vontades, mas principalmente a partir daquilo que se espera dela.
 
Mais do que um alívio por ver de volta o seu marido, ela vai passar por um processo de reconsideração de seu papel social. Tendo à frente as medalhas de honra ao mérito recebidas por ele, assim como a página do jornal que o retrata como um "Deus da Guerra", a realidade dela é menos glamurosa. Afinal, é ela quem tem que lidar não apenas com o corpo desmembrado do seu marido, a dependência total que ele tem em relação a ela, mas também com todas as privações que esta condição de vida lhe impõem.
 
Shigeko Kurokawa, atriz consagrada no Japão, aceitou ser filmada de maneira crua, sem os artifícios de maquiagem, tendo como responsabilidade ser o contraponto à inércia, não apenas do marido, mas também de toda sociedade.
 
Já o prêmio de interpretação masculina foi dividido pelos atores russos Grigory Dobrygin e Sergei Puskepalis, que são o pilar do filme How I ended this summer, do diretor Alexei Popogrebsky. A história retrata a rotina numa estação metereológica nos confins árticos da Rússia. Em condições espartanas de conforto e sobrevivência, o cotidiano de seus dois únicos moradores resume-se a fazer medições constantes da radiação ao redor da área e transmiti-las por rádio, único contato com o mundo exterior. Sergei Gulybin (Sergei Puskepalis) é o mais experiente dos dois, visto que há muitos anos encontra-se imerso neste ambiente ; Já Pavel Danilov (Grigory Dobrygin) passa por seu « batismo ». Fascinado desde criança por relatos de experiências de conquista e exploração dos pólos, o diretor Alexei Popogrebsky, que também é o roteirista do filme, sempre quis retratar as condições de vida em meios tão inóspitos como a região ártica.
 
A natureza, aliás, funciona como um terceiro personagem, que define a relação entre os dois outros e sublinha os hiatos entre eles. À tranquilidade um tanto quanto taciturna de Sergei, contrapõe-se a inexperiência de Pavel e suas dificuldades em integrar-se a esta nova vida, procurando o refúgio do rock que ecoa dos seus fones de ouvido. Apesar de opostos, eles se completam, formam uma unidade que dá corpo e vida a esta realidade branca, repleta de mistérios e beleza. Não conceder o prêmio aos dois seria como negar a relação. 
 
De resto, o mais simbólico dos prêmios do júri, comandado por Werner Herzog, foi sem dúvida alguma o Urso de Prata de melhor diretor, concedido a Roman Polanski, por seu filme O Escritor Fantasma. O prêmio foi recebido pelos produtores Alain Sarde e Robert Benmussa, já que Polanski encontra-se em prisão domiciliar na Suíça desde o ano passado, quando foi preso no aeroporto de Zurique (onde receberia homenagem no festival dessa cidade).
 
Mais do que uma recompensa pelo trabalho como diretor neste filme baseado no livro The Ghost de Robert Harris, o Urso de Prata dado a Polanski (o terceiro concedido a ele) é um verdadeiro manifesto de solidariedade e protesto, através do qual o Festival de Berlim sublinha sua vocação política e a preocupação em incorporar um olhar atento e pertinente à realidade do mundo, não apenas cinematográfica, mas também ética e social.

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