Festival de Veneza 2014

Máfia calabresa e especulação imobiliária em foco nos concorrentes

Neusa Barbosa, de Veneza

 Parece óbvio esperar um filme de máfia num festival italiano, mas o concorrente Anime Nere, de Francesco Munzio, superou as expectativas ao criar um drama forte sobre uma família criminosa na Calábria. De um lado, o diretor não poupa realismo, ao ambientar o filme na própria região do sul italiano, adotando o dialeto local - o que exigiu um esforço especial da maioria dos atores, para adquirir o domínio e a credibilidade necessários. Exceto alguns deles, como Marco Leonardi (o intérprete famoso de Cinema Paradiso), que é calabrês e interpreta Luigi, um dos três irmãos da família Carbone, o mais duro e violento deles.
 
Os outros dois são Rocco (Peppino Mazzota), que cuida dos negócios, em Milão, enquanto o mais velho, Luciano (Fabrizio Ferracane), que não quer envolver-se diretamente no tráfico de drogas e armas, além dos acertos de contas, cuida da velha propriedade rural, das cabras e das vinhas.
 
Uma igreja em ruínas e uma escola abandonada terminam por transformar-se em metáforas eficazes de um relato que valoriza, como definiu o diretor na coletiva, uma fusão entre o arcaico e o moderno, que termina por definir a situação da Itália e não só desse país.
 
 Um outro tipo de criminoso, um especulador imobiliário feroz, interpretado com energia por Michael Shannon, é o vilão por trás do drama norte-americano  99 Homes, de Ramin Bahrani, em que o atual Homem-Aranha, Andrew Garfield, faz o papel de Nash, uma vítima que se torna agente do especulador, seu instrumento para promover os despejos em massa, que estão, há alguns anos, expulsando famílias de suas casas, nos EUA, sem dinheiro para comprar um canto onde viver e forçadas a amontoar-se em situações precárias, como moteis.
 
Retratando esse dramático problema a partir do cenário da Flórida, onde o diretor e os atores pesquisaram histórias com pessoas que viveram essas situações, dos dois lados, expulsos e expulsadores, Bahrani faz um filme apaixonado, em que o elenco se entrega com afinco a reproduzir um dilema, com empenho quase documental. Embora às vezes o filme se torne repetitivo e pouco consistente dramaticamente, inegavelmente se trata de um trabalho engajado, como se diria antigamente. E muito necessário, já que a crise das hipotecas continua nos EUA e fora dele, assim como diversas fraudes imobiliárias cujos perpetradores, como lembrou Bahrani, "nunca foram para a cadeia".
 
Wiseman
Se Bahrani acredita que seu filme pode mudar o mundo, como afirmou na coletiva, a mesma crença não é compartilhada pelo seu compatriota, o veterano documentarista Frederick Wiseman, 84 anos, que hoje à noite recebe o Leão de Ouro honorário para uma carreira que começou nos anos 1960 e acumula obras fundamentais sobre instituições, como Titicut Follies até os recentes Crazy Horse e National Gallery.
 
Na coletiva de hoje, Wiseman disse que não acredita que nem seus filmes, nem os de qualquer pessoa podem mudar o mundo. O que não muda uma vírgula no seu desejo de continuar trabalhando. O documentarista ressalta que não gosta de entrevistas, nem de narrações, porque não quer que nada disso interfira na relação entre o público e o filme que ele assiste. O que lhe interessa, sempre, é "refletir a beleza e a complexidade que há no mundo".
 
Até porque esse interesse não se encerrou, ele tem sempre novos projetos engatilhados. Um deles é um recém- filmado documentário sobre Queens, o subúrbio novaiorquino em que se misturam vários imigrantes e línguas e que é, hoje, a seu ver, a nova face da América.
 
Outro projeto, este mais inusitado, prevê uma parceria entre Wiseman e um coreógrafo, para um projeto de dança, cujo financiamento ele já obteve, inspirado justamente em Titicut Follies, que retrata os bastidores de uma instituição psiquiátrica.
 
Elegância na comédia
Fora da competição, o veterano diretor e pesquisador Peter Bogdanovich botou um sorriso no rosto de quase todos os críticos, com sua nova comédia, She's Funny that Way. Ambientada em Nova York e com um quê de Woody Allen, retrata os dilemas de um diretor (Owen Wilson), que se compadece das scort girls com quem sai, dando-lhes dinheiro para mudar de vida. Uma delas (Imogen Poots) quer ser atriz e vai justamente fazer um teste para sua nova peça, em que a protagonista é a mulher dele (Kathryn Hahn) que obviamente desconhece a generosidade do marido, assim como suas aventuras sexuais.
 
A coisa toda vira um divertido imbroglio, envolvendo o outro ator da peça (Rhys Ifans) e também uma terapeuta muito maluca (Jennifer Aniston, reinventando com veneno sua inegável verve cômica). Num festival com tantos filmes duros e temas difíceis, caiu bem a doçura inteligente de Bogdanovich, que também é tema de um documentário na programação, Peter Boganovich & The Lost American Film, de Bill Teck.

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