Festival de Veneza 2014

Drama francês sobre guerra da Argélia salva o fim de semana em Veneza

Neusa Barbosa, de Veneza
 Se não fosse pelo drama francés Loin des Hommes (foto ao lado), de David Oelhoffen, as últimas horas em Veneza teriam sido bem desanimadoras, já que decepcionaram e muito outros concorrentes exibidos por aqui desde ontem – a saber, os novos trabalhos de Benoit Jacquot (3  Coeurs), Fatih Akin (The Cut) e o segundo concorrente italiano, Hungry Hearts, de Saverio Costanzo.
 
Felizmente, andou bem pelo menos Loin des Hommes, que se inspira num conto do escritor franco-argelino Albert Camus para compor uma narrativa bastante clássica, ambientada na Guerra da Argélia, em 1954. O norte-americano Viggo Mortensen interpreta um descendente de espanhóis, nascido na Argélia, ex-combatente na II Guerra Mundial que abandonou as armas e a vida militar para tornar-se professor primário, numa escola perdida entre as montanhas.
 
Mas este homem que acredita no poder das letras e da educação se verá envolvido, contra a vontade, na crescente agitação à sua volta, quando lhe é confiado à força um prisioneiro, Mohamed (Reda Kateb), acusado de ter assassinado um de seus primos. Como num faroeste, a relação destes dois homens se desenvolverá num cenário montanhoso, solitário, em que as diferenças entre os dois serão assimiladas aos trancos, enquanto seu trajeto até uma cidade próxima vai sendo interrompido por soldados, às vezes colonizadores franceses, às vezes militantes pela independência argelina.
 
Tal como fez em A Estrada, Viggo Mortensen mostra-se um intérprete refinado para um personagem sutil. Não à toa, ele é um dos produtores deste filme sensível, que coloca em primeiro plano as diferenças culturais, o colonialismo, as guerras, sem um viés pedagógico e sim engajador da inteligência do espectador.
 
 Novelão e dramalhão
Tudo o que este concorrente francês trabalhou na chave da sutileza contrastou com os exageros de dois outros concorrentes, The Cut (foto ao lado), epopeia dramática sobre o genocídio armênio, e o suspense dramático Hungry Hearts,que o cineasta italiano filmou nos EUA, com os atores Adam Driver e Alba Rohrwacher – esta uma espécie de Ricardo Darín do cinema italiano, vista em 9 entre 10 filmes locais, muito talentosa, também.
 
Nenhum talento na atuação pode salvar uma produção de embarcar no caminho errado e não se salvar, se o tom correto não foi encontrado. Foi o que aconteceu em The Cut, trabalho menor do bom cineasta turco-alemão Fatih Akin, que aqui alega estar fechando sua forte trilogia, composta por Contra a Parede e Do Outro Lado. Por louvável que seja que um diretor de origem turca, como ele, se debruce sobre este verdadeiro trauma que é o massacre de cerca de 1 milhão de armênios pelos então Império Otomano, o fato é que o diretor embarcou no novelão.
 
Produção inegavelmente cara e bem-cuidada, filmada em vários países, ao recontar as muitas tragédias na vida do ferreiro armênio Nazaré (o bom ator francês Tahar Rahim), The Cut peca por seus muitos excessos melodramáticos, sua absoluta falta de sutileza, seu evidente desejo de envolver emocionalmente o espectador nas muitas perdas na vida deste homem comum, que perde a fala e nunca desiste de procurar suas filhas perdidas, primeiro em Cuba, depois nos EUA. Triste admitir, mas o fato é que Akin perdeu a mão aqui.
 
Também no caso do bom italiano Saverio Costanzo, autor de dramas sólidos como Private (2004) e La solitudine dei numeri primi (2010), ele escorregou ao se arriscar, em Hungry Hearts, num filme de gênero, que aspira a ser um melodrama de suspense, à la Hitchcock e é pesado como chumbo. Adam Driver e Alba Rohrwacher vivem um casal que se conhece e apaixona, tem um filho e mergulha num pesadelo com a obsessão da mãe pelo vegetarianismo e misticismo – que, em última análise, colocam a vida do bebê em risco por ameaça de pura e simples desnutrição.
Seja por inexperiência ou suspeita de que o público não irá entender, o fato é que o filme afunda numa redundância e falta de consistência, especialmente no retrato da personagem de Mina (vivida por Alba Rohrwacher). Nada se salva. Sempre há quem goste, quem aplauda até, como aconteceu na sessão de imprensa. Mas deu muita saudade, não só de Hitchcock, mais ainda de Almodóvar. Até os personagens mais loucos necessitam de ser desenhados com mais consistência humana do que acontece aqui. Ou então, mergulhar fundo na comédia de humor negro, o que também passa longe.
 
No caso do outro concorrente francês, 3 Coeurs, o veterano Benoit Jacquot não conseguiu mesmo foi verossimilhança. Não dá para acreditar que personagens quarentões, interpretados por Benoit Poelvoorde, Chiara Mastroianni e Charlotte Gainsbourg (as duas interpretando irmãs) possam mergulhar num imbroglio tamanho em torno de um triângulo amoroso incongruente – tudo isso, sob os olhos da musa Catherine Deneuve, que interpreta a mãe das duas na tela e a quem se dá quase nada para fazer ou dizer. Pecado mortal, mr. Jacquot!

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